Em seu discurso poético, aspirou, essencialmente, a uma revelação de si mesma, concentrando, sobretudo, no estranhamento, isto é, um eu que se confronta com um cotidiano que lhe parece inóspito. Nesse sentido, em sua escritura, há, como motivo recorrente, a presença de um eu que, poema a poema, tem construído o seu retrato, não como uma forma definitiva, mas como um leque de possibilidades. Desse modo, traduz ao leitor a sensação de deparar uma poética que se estilhaça, num desdobramento permanente do inconsciente.
Acerca desse traço revelador da poética de Florbela Espanca, observe-se o seguinte: ´Um imaginário poético que se estrutura na recorrência da função emotiva, como sendo esta a vertente nuclear de sua expressão, [...] sente-se, na escritura de Florbela, um ímpeto que condiz com um certo sentimento de libertação. [...] A prática subjetiva, assumida como anseio de libertação, vem suprir a lacuna deixada por um lirismo reprimido e se investir da voz de trovador que reverte a direção da mensagem. Urge trazer à tona os desejos evocados em sonoridades e cores esfuziantes, além daquilo que esses objetos encerram no sentido da busca de ombrearem-se com os que se expressam nas vozes masculinas, até então, quase exclusivas na recepção dos valores literários da época.´ (NORONHA, Luzia Machado Ribeiro de. Entreretratos de Florbela Espanca: uma leitura biografemática. São Paulo: Annablume / Fapesp, 2001, p.44)
O seu discurso poético, portanto, é, antes de tudo, um estado de sensibilidade; - e este é, simultaneamente, o próprio ser desgostado de si mesmo e de uma civilização em crise. Evola-se, por fim, a consciência de um estado de decadência social e cultural: a vida materializada, a sociedade injusta, a destruição da beleza: a sensação de que a vida é um beco sem saída; e se saída houver, é falsa.
VERSOS DE FLORBELA
Texto 4
Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor,
Eu te saúdo, olhar do meu olhar,
Fala da minha boca a palpitar,
Gesto das minhas mãos tontas e amor.
(Escrava, p.189)
Viver!... Beber o vento e o sol!... Erguer
Ao céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!
(Exaltação, p. 108)
Texto 5
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
(p.42)
Fui cisne, e lírio, e águia, e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou um cínico riso de Chamfort...
(p.83)
Ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que eu trouxe d´Além-Mundos ignorados!
(p. 159)
Fonte:
http://diariodonordeste.globo.com/
Acerca desse traço revelador da poética de Florbela Espanca, observe-se o seguinte: ´Um imaginário poético que se estrutura na recorrência da função emotiva, como sendo esta a vertente nuclear de sua expressão, [...] sente-se, na escritura de Florbela, um ímpeto que condiz com um certo sentimento de libertação. [...] A prática subjetiva, assumida como anseio de libertação, vem suprir a lacuna deixada por um lirismo reprimido e se investir da voz de trovador que reverte a direção da mensagem. Urge trazer à tona os desejos evocados em sonoridades e cores esfuziantes, além daquilo que esses objetos encerram no sentido da busca de ombrearem-se com os que se expressam nas vozes masculinas, até então, quase exclusivas na recepção dos valores literários da época.´ (NORONHA, Luzia Machado Ribeiro de. Entreretratos de Florbela Espanca: uma leitura biografemática. São Paulo: Annablume / Fapesp, 2001, p.44)
O seu discurso poético, portanto, é, antes de tudo, um estado de sensibilidade; - e este é, simultaneamente, o próprio ser desgostado de si mesmo e de uma civilização em crise. Evola-se, por fim, a consciência de um estado de decadência social e cultural: a vida materializada, a sociedade injusta, a destruição da beleza: a sensação de que a vida é um beco sem saída; e se saída houver, é falsa.
VERSOS DE FLORBELA
Texto 4
Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor,
Eu te saúdo, olhar do meu olhar,
Fala da minha boca a palpitar,
Gesto das minhas mãos tontas e amor.
(Escrava, p.189)
Viver!... Beber o vento e o sol!... Erguer
Ao céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!
(Exaltação, p. 108)
Texto 5
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
(p.42)
Fui cisne, e lírio, e águia, e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou um cínico riso de Chamfort...
(p.83)
Ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que eu trouxe d´Além-Mundos ignorados!
(p. 159)
Fonte:
http://diariodonordeste.globo.com/
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