Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

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sexta-feira, 9 de maio de 2008

José Maria de Toledo Malta (Madame Pommery)

O primeiro capítulo, assim com as muitas interferências do narrador, explica os motivos que o levaram a escrever a história de Madame Pommery. Afirma o narrador que se trata de uma história verdadeira e narrá-la significa uma tarefa nacionalista, já que muitos não se importam em contar as "altas e maravilhosas aventuras de Mme. Pommery", quem, segundo o narrador, tem prestado serviços inestimáveis à "desbotucudização" da nossa sociedade.

Depois de afirmar que Mme. Pommery existe verdadeiramente, apresenta-se o passado da protagonista . Ida Pommerikowsky, filha de um judeu domador de feras de um circo e de uma noviça de um convento espanhol, vem para o Brasil no início do século. Mas, ainda na Europa, sua vida sofreu grandes abalos.

Consuelo Sánchez, mãe de Ida, abandona o pai e a filha - que tinha então três anos -, fugindo com um toureador. A menina é criada com a ajuda de Zoraida, uma preceptora cigana, e aprende as artes do circo com o pai Ivã Pommerikowsky, de quem herda o gosto pelas finanças. Aos quinze anos, já bastante interessada nas coisas do sexo, Zoraida a inicia nas artes do amor, a pedido do próprio pai .

Os planos do pai parecem que se realizariam quando, estando em Praga, um ricaço se enamorou de Ida. Mas a menina, percebendo a intenção do pai em ficar com o dinheiro pago pela sua virgindade, foge com o cheque de 9000 coroas enquanto o ricaço roncava no leito. Zoraida a acompanha. A partir daí, Ida inaugura sua vida de prostituição, percorrendo toda a Europa. O seu "nome de guerra", Mme. Pommery provavelmente vem da champanha Pommery, de que tanto gostava.

Aos trinta e quatro anos, em Marselha, já decaída, mas ainda desejável, torna-se artista de cabaré. Conhece então o marujo Mr. Defer, a quem seduz e com quem viaja para a América do Sul, fascinada com as possibilidades de rápida fortuna anunciadas por Defer . Chegou ao Brasil, no cargueiro "Bonne chance" e desembarcou em Santos . No hotel em que foi jantar com Defer, Mme. Pommery encontra Zoraida, com ar de senhora respeitável, repleta de jóias, acompanhada do marido. Zoraida finge não reconhecer Pommery que, inconformada, pede ao garçon explicações sobre o casal da outra mesa . Fica sabendo que se trata de gente importante - Coronel Pacheco Isidro e Dona Zoraida -, donos de muitas fazendas e influentes na política. Mme. Pommery fica extasiada; percebe as possibilidades da terra em que havia chegado e decide que o Coronel seria seu homem. Despede-se de Defer e ruma para São Paulo, no encalço de Zoraida e Pacheco Isidro. Pretendia chantagiar o casal, em troca do silêncio sobre o passado de Zoraida .

Na metrópole paulistana, Mme. Pommery volta ao trabalho: no Hotel dos Estrangeiros, uma vez mais é uma prostituta e artista de cabaré . Encanta a todos, não tanto pela sua beleza física, já quase desaparecida, mas pela simpatia e comicidade. Foi alargando o círculo das amizades, dos admiradores e percebeu que todos conheciam o casal Zoraida e Pacheco Isidro e também o passado de prostituta da colega de outros tempos. Portanto, o plano de Mme. Pommery de chantagiar estava anulado . Restava-lhe arrumar um sócio e fundar uma bordel, para ganhar tanto dinheiro que suplantasse a superioridade de Zoraida.

São Paulo àquela época, Mme. Pommery logo percebe, é ainda provinciana, a despeito das modernizações por que passava. Especialmente a moral, os "bons costumes", o comportamento mantinham-se ainda tradicionais, conservadores e hipócritas . Coronel Pinto Gouveia, um dos enamorados de Mme. Pommery, queixava-se da precariedade e insipidez da vida noturna da cidade, a repugnância do meretrício local. Pommery não desperdiçou a oportunidade e pediu um empréstimo ao Coronel, com o intuito de fundar uma casa em que bebida cara, o luxo e as tentações da carne levariam os freqüentadores a gastar o que tinham e o que não tinham. O Coronel, depois de uma noite de amor e embriaguez que o deixaram descadeirado, concede o dinheiro pedido: não os dez contos, mas apenas seis. Apesar de se sentir traída, era o início da glória de Mme. Pommery, que ensinaria São Paulo a valorizar os prazeres da noite.

Com o empréstimo, Mme. Pommery instalou no largo do Paissandu, próximo à rua São João o seu Paradis Retrouvé, prostíbulo que ficaria logo famoso . Mme. Pommery acolhia Coronel Pinto Gouveia, mas incomodava-se com o fato de ter com ele uma dívida e queria, logo que fosse possível, safar-se do amante e sócio. Os gastos exagerados de Pinto Gouveia, manejados habilmente por Pommery, logo ultrapassaram a soma dos seis contos que o velho homem havia emprestado. Pinto Gouveia, para piorar a situação, descobre que Pommery tinha novo amante, Filipe Mangancha. Contrariado, vai-se embora do Paradis Retrouvé e manda pagar o que deve. Mme. Pommery havia encerrado seus negócios com o Coronel e, agora dona exclusiva do bordel, tinha caminho livre pela frente.

Filipe Mangancha, o novo amante, mantinha no Teatro Cassino um espetáculo de variedades. O teatro era um lugar ideal para Mme. Pommery e suas meninas exibirem-se em público.

Mme. Pommery articulava todos os passos que dava. Como lembra o narrador, herdara da mãe a disciplina do convento, de modo que estipulou no Paradis Retrouvé normas de convívio que não admitia ver quebradas . Seu objetivo era atingir o lucro - e isso herdara do pai judeu - e garantir nobreza à profissão de cafetina. Elegância na vida devassa, coisa que aqueles paulistanos simplórios apesar de ricos não conheciam antes da chegada de Pommery à cidade . Agora, no Paradis Retrouvé tinham a chance de conhecer o melhor estilo de prostituição, mas deviam também pagar por isso: nada de preços baratinhos, nada de cerveja: champanhe da boa e taxas que pagassem a qualidade dos serviços lá prestados. Se bem que o serviço não era lá tão especial assim: suas meninas "vindas da Europa" eram, na verdade, bem brasileiras e de origem bem ordinária; a champanhe servida não era das melhores e o ambiente não era decorado no luxo que o nome poderia fazer supor. É a simpatia e o zelo de Mme. Pommery e a alegria de alguns freqüentadores, entre eles Filipe Mangancha, que garantem a atmosfera exuberante do local.

Um dia Mangancha conversa com um colega, Narciso, em que o primeiro defendia e o segundo atacava a ingestão de bebidas alcoólicas . Interrompendo a conversa, Mme. Pommery chega, dizendo estar passando mal. Levada para o quarto, na verdade foi encontrar-se com seu novo pretendente: Romeu das Camarinhas, moço romântico e galante. Mme. Pommery já estava cansada de Filipe Mangancha e, além de tudo, a Companhia Paulista de Teatro e Passatempo já tinha decaído e não mais interessava para Pommery levar suas meninas para se exibirem no espetáculo de Mangancha. Tinha chegado, portanto, a hora de desfazer-se dele. Ela queria agora freqüentar o Bar do Municipal , para manter-se em contato com a aristocracia .

Filipe Mangancha fica irado quando sabe da traição de Pommery mas, como um cirurgião tinha de manter a boa reputação, nada fez a não ser pagar as contas atrasadas. Começava a fase mais estável e brilhante de Mme. Pommery, ao lado de seu Romeu das Camarinhas.

O Paradis Retrouvé tornou-se o ponto de encontro da elite financeira. Lá se fechavam os negócios que moviam São Paulo. Passar pelo bordel de Mme. Pommery era sinônimo de prestígio e de elegância . Em contrapartida, as meninas de Pommery e a própria cafetina passaram a freqüentar as sessões do cinematógrafo, novidade da fidalguia local. A cortesãs, antes confinadas, agora podiam participar da sociedade, mostrar suas caras ao público em geral, compartilhar de momentos com esposas e filhos daqueles homens que eram clientes do Paradis Retrouvé. O mundo respeitável das senhoras e senhoritas de família se punha em contato com o mundo da prostituição, que, desde a chegada de Mme. Pommery já não era mais vergonhoso. As moças que iriam se casar passaram até a receber cursos no Paradis Retrouvé!

Um único acontecimento desestabiliza a tranqüilidade de Mme. Pommery. Trata-se da visita de Justiniano Sacramento, funcionário público que pretende cobrar enormes somas de impostos do Paradis Retrouvé. Mas a sorte estava do lado da proprietária. O Coronel Fidêncio Pacheco Isidro, isso mesmo, o marido de Zoraida, tinha se tornado um freqüentador do prostíbulo e, por coincidência, era justamente naquela época o Ministro dos Impostos. Coronel Pacheco Isidro coloca-se a favor de Mme. Pommery e, para que Justiniano não criasse mais caso, Chico Lambico, o redator do "Jornal de São Paulo", onde Justiniano também trabalhava, conta ao corretíssimo funcionário público que o próprio Ministro freqüentava o Paradis Retrouvé. Atônito, mas interessado, Justiniano empolga-se por conhecer o lugar. Maravilhou-se com a sociedade que lá encontrou, ainda que tenha ficado um pouco decepcionado com a falta de religiosidade que pôde observar nas meninas. O resultado foi melhor do que se esperava: Justiniano abaixa as taxas do Paradis Retrouvé, conforme pedido de Pacheco Isidro. Mais ainda: começa a sentir uma vontade irresistível de voltar ao bordel, onde gastou todas as suas economias. Mme. Pommery fica comovida com a desgraça financeira de Justiniano e pede a Pacheco Isidro que aumente o salário do funcionário.

Só faltava uma coisa para coroar a existência de Mme. Pommery. Não nos esqueçamos que tudo que fez, toda a fortuna que acumulou foi para se vingar do desprezo de Zoraida no encontro que tiveram no restaurante, quando Pommery chegara ao Brasil. Faltava uma única coisa: casar-se . Com isso, entraria de vez por todas no círculo aristocrático paulistano. Analisou vários possíveis candidatos e estrategicamente vendeu o Paradis Retrouvé, para retirar-se à vida privada. Era o primeiro passo para a regeneração. Casou-se? Não se sabe. Mas o narrador - e nós mesmos - ficamos morrendo de vontade de conhecer como acabou a vida de Mme. Pommery .

FONTES:
Concursos Públicos. Digerati. CEC 0004. (CR-ROM)
http://www.trabalhonota10.com (imagem)

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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