domingo, 8 de junho de 2008

Artur Eduardo Benevides (Dois contistas cearenses)

Entre os cearenses que triunfaram lá fora, em decorrência do seu merecimento literário, dois, por coincidência residindo em Brasília, mereceram sempre minha maior atenção e acompanhei, por isso mesmo, com grande interesse o seu êxito, na Poesia e no Conto. Refiro-me a José Hélder de Sousa, cujos poemas estão atingindo um alto clima de despojamento formal, em favor da essencialidade, e a Nilto Maciel, que lançou, não faz muito, nova coleção de contos – As Insolentes Patas do Cão – deixando-me a impressão de que se acha no melhor momento de uma criação, no gênero.

José Hélder, que hoje integra a Academia Brasiliense de Letras, tendo como patrono o admirável Raul de Leoni, uma de minhas devoções literárias mais intensas, é autor de belos poemas interpretativos do ser e do mundo, com alguns versos isolados da maior grandeza, dignos de um Jorge de Lima, de um Augusto Frederico Schmidt, de um Vinícius de Moraes. Isso, a contar de sua estréia, com A Musa e o Homem, aos poemas que se acham em As relvas do Planalto, com uma visão madura das cousas reais e irreais.

Agora, surpreende-me com a beleza desse Rio dos Ventos, volume de contos e novelas, numa demonstração de que nasceu vocacionado também para a ficção. E o livro é excelente, deixando no leitor a impressão de haver sido escrito por quem tem o segredo do fazer literário e se aprimora cada vez mais em seu ofício, graças ao talento que trouxe do berço, como uma predestinação.

Destaco a sugestiva peça inaugural que dá título ao livro. Um título, diga-se de passagem, muito poético. E a narrativa surge, maiúscula, pungente, sofrida e humana. O autor conta uma saga do Brasil antigo, nas ribeiras do Acaraú, em que aparecem Profiqua Mendes Carneiro, do casamento à morte; Chico Pachola, o senhor de terras e seu marido; o vigário apaixonado; as “noivas do rei”; a casa cheia de roseiras, jasmins e manacás; as tricas e futricas de campanário; a vila humilde e nascente. Uma história densa, romântica em alguns lances e trágica no desfecho. Realíssima e de certa forma lírica. Ou pastoral.

Considerei muito bom o casamento da ficção e da História. José Hélder, que usa também o recurso em “Senhorão”, tem ótimo desempenho como narrador, cousa que aprendeu, sem dúvida, nos longes da infância, em Massapê e Sobral, ouvindo os Contos e Histórias de Proveito e Exemplo, do português Gonçalo Fernandes Trancoso.

Rio dos Ventos, no meu entender e julgar, merece leitura e releitura. O autor atinge, nesse livro, um dos momentos mais significativos de sua arte, com a mesma força que já nos acostumáramos a ver no poeta que ele é.

O outro escritor a que me referi de início é Nilto Maciel, que se iniciou na década de 70 com os promissores contos de Itinerário, publicando depois, no mesmo gênero, Tempos de Mula Preta, A Guerra da Donzela e Punhalzinho Cravado de Ódio, este considerado por Sânzio de Azevedo um excelente livro.

Dele, leio agora, com certo encanto pelo poder das imagens e de síntese, As Insolentes Patas do Cão, em que trabalha com elementos oníricos e mágicos, poéticos e míticos, combinando universalismo e regionalismo, lembranças, vivências fundas, lendas e realidade. E se sai muito bem dessa tarefa, com alguns contos admiráveis, em conteúdo e estrutura, ou fundo e forma.

A partir de “Ícaro”, com que abre o livro, trabalha os seus contos de forma moderna, evitando o descritivismo exagerado da era Maupassant, e se atendo ao essencial, em breves (mas profundas, às vezes) registros de um momento, que caracterizam a short-story. Mesmo o erotismo, como em “Incubação”, é comedido. E há traços machadianos na “Teoria do Amor Socrático”, em “Os Belos Olhos de Sônia” e “O Inseto”. Já o inesperado surge em “A Voz Indecorosa”, em “Mon Amour” e “O Confessor Lascivo”. E o fantástico lá está, muito bem lançado, em “O Vencedor” e “A Última Festa de um Homem Só”.

Nilto Maciel, com muito talento, combina, para meu agrado, como seu leitor, o real e o fantástico, cousa rara na Literatura Cearense, se bem que tenhamos exemplos em Emília Freitas, no século passado, em Moacir Lopes (“O Passageiro da Nau Catarineta”) e José Alcides Pinto. Ele não teme trabalhar com elementos assim, desafiadores, chegando a resultados excelentes.

Outro aspecto a destacar, na ficção de Nilto Maciel: a fascinante presença da fábula, como em “A Fala dos Cães” e outros momentos do livro. Esse é um legítimo conto medieval. Ou uma quase parábola, em que, desmentindo um pouco o Professor Massaud Moisés, de vasto saber, para quem “animais não podem ser personagens” (in Dicionário de Termos Literários) ele prova o contrário. E traz, como figurantes de outras histórias, serpentes, gatos e ratos, da mesma forma que o velho Calderón de la Barca transformara a fé, a esperança, a água e o fogo em personagens. Mas, esse é outro problema, muito interessante, por sinal.

Em resumo: As Insolentes Patas do Cão (que título expressivo!) são contos que se acham na categoria de muito bons e de excelentes. Contos com a marca registrada de Nilto Maciel, expressa através do binômio – talento e autenticidade. E já é muito, hoje em dia, com tantos naufrágios por aí, nesse importante gênero.

Fonte:
Jornal de Poesia
http://www.secrel.com.br/jpoesia/artur5.html

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