Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

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sexta-feira, 26 de março de 2010

Soares da Cunha (Baú de Trovas)


Eu nunca pedi um beijo,
Não gosto de beijo dado:
Pra matar o meu desejo
Tem que ser beijo roubado.

Ó canarinho de outrora,
Meu canarinho querido,
Parece que eu te ouço agora
Cantando no meu ouvido!

Nem mesmo a jóia mais cara
Prova toda a gratidão:
Tem algo que só se paga
Dando o próprio coração.

Quem perdeu a namorada,
Não se queixe nem reclame:
Se não tem mais a que amava,
Procure outra a quem ame.

Se quer cativar alguém,
Use palavras de mel.
Que nem as moscas, ninguém
Costuma gostar de fel…

Não gosto de fazer contas,
A conta sai sempre errada.
Por isto virei poeta,
Não faço conta de nada …

Pecados de amor, só são
Pecados de dar horror,
Se forem, na ocasião,
Praticados sem amor.

O lampião, noite escura,
Lá no fundo do sertão,
Filtra uma luz doce e pura
Que enternece o coração.

Não ter amor e fingir
É difícil a valer;
Mas acho que é mais difícil
Ter um amor e esconder.

Aquele olhar suplicante
Penetra em nossos refolhos:
Sem dar sequer um latido,
O cão implora com os olhos!

Abraços, beijos de fogo,
Em vez de aplacar o amor
Que anseia por desafogo,
Mais aumentam seu furor.

Abro os meus olhos e vejo
Que a manhã radiosa avança,
Borrifando a natureza
Com o orvalho da esperança!

Olho o céu, olho as montanhas,
Olho uma nuvem passar...
E acabo me convencendo
Que a alma é função do olhar.

Ao lado da manjedoira,
No nevoeiro matutino,
Eu vejo o bafo do boi
Aquecendo o Deus - Menino

Ó sino de alma de bronze,
Indiferente da sorte,
Tanto celebras a vida
Como celebras a morte.

Quizera, sem ter morrido,
No éter viver disperso,
E ser simplesmente o ouvido
Que escuta a voz do Universo

Às vezes, durante a missa,
Voando vinha de fora
Uma veloz andorinha
Visitar Nossa Senhora.

Toda a água que existia
Sumiu dos sertões distantes,
Para brotar, em seguida,
Dos olhos dos retirantes!

Em qualquer lugar que estejas,
Entre flores ou abrolhos,
A mesma distância, ó vate,
Separa do céu teus olhos!

Em travesseiro de nuvens
Repouso a minha cabeça:
Na companhia dos anjos,
Queira Deus que eu adormeça.

O poeta é uma pessoa
Que vive sempre ocupada:
Faz versos andando à toa,
Mas julgam que não faz nada.

A flor que eu contemplo agora,
Em meu ser quer pendurar,
Insiste em ficar no foco
Do meu deslumbrado olhar.

Ó chá de malva cheirosa,
- Folha com nome de flor -
Cujo perfume de rosa
Se transfigura em sabor.

Eu amava uma palmeira,
Lá longe, no entardecer...
Veio a noite traiçoeira,
Não vi mais meu bem-querer!

Nesta casa com janelas
A minh’alma fez morada:
Mas a casa não é dela,
É só uma casa alugada.

Todo mundo quer ser nobre,
Ter parentesco com os ricos.
Só um era irmão dos pobres:
Chamava-se São Francisco.

Cresceu demais minha aldeia,
Meu Deus, que desilusão:
Hoje, tão grande e tão cheia,
Não cabe em meu coração.

O nosso amor à justiça
Vem do medo que se sente
De que algum dia a injustiça
Possa sobrar para a gente.

Os profetas, com ameaças,
Ganham fama onde aparecem,
Já que não faltam desgraças,
Que todo dia acontecem.

Nenhum valor ia ter,
Para nós, a gratidão,
Se não se pudesse ser
Ingrato sem punição.

Se solto alguma tolice,
Eu mesmo, depois de tudo,
Me envergonho do que disse,
Melhor ter nascido mudo.

Ele recusa comida,
Ainda que seja pouca,
Para não ter o trabalho
De ter que levá-la à boca …

Tenho um punhado de netos
Que acho o maior dos baratos:
São lindos quando estão quietos
E sorrindo nos retratos …

A mulher e sua saia
Não conseguem combinar:
A mulher vai se assentando,
A saia quer levantar…

Provérbios temos aos centos,
Este é dos mais verdadeiros:
– Deus criou os alimentos
E o Diabo, os cozinheiros …

Os quadros que foi juntando
Ao pintor devem pesar
Talvez mais que as obras primas
Que ele deixou de pintar …

A gente em geral tropeça
Naquilo que há de través:
Mas aquele que tem pressa,
Tropeça em seus próprios pés.

É uma troca de carinho
A amizade: basta ver
Um burro coçando o outro,
Como tremem de prazer.

O cão, teu fiel amigo,
Mostra mais satisfação
Ao ver que trazes contigo
Um bom pedaço de pão.
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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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