Antes de falarmos do livro, permita-me falar sobre o escritor dele. Não se preocupem, não vou me delongar em biografias e honrarias que ele recebeu, deixo por conta da Vânia Ennes, em sua orelha (do livro, bem entendido). Falarei brevemente da pessoa Átila, como um livro, a capa e seu conteúdo.
Conheci o Átila muito por acaso, num lançamento de um livro dele, e nem pessoalmente, pela internet. Comunicamo-nos por e-mail, e pela sua bagagem literária senti-me no dever de convidá-lo para a Academia de Letras do Brasil, ocupando uma cadeira pelo Paraná. Isto é apenas um preâmbulo, vamos aos “finalmentes” agora. Ele me enviou uma biografia e uma foto. Daí vem aquela expressão: “não julgueis o livro pela capa”. Então, olhei para aquela foto dele, um rosto sisudo, um paletó repleto de medalhas, e fiquei a pensar com meus botões (antigamente se usava muito esta expressão, hoje acho que não, mas eu sou das antigas): “onde fui amarrar o meu burrico?”. Eu era um Fusca 1200 e ele uma Ferrari. Por um bom tempo fiquei meio assustado. Contudo, ele sempre muito educado, muito elogioso, me enviou todos os seus livros para minha apreciação.
Por ocasião das solenidades dos Jogos Florais de Curitiba, uma festa de porte que corresponde a altura da classe curitibana, obtive o endereço do Átila, e sentindo-me como se estivesse a caminhar no cadafalso, criei coragem para conhecer pessoalmente este escritor. Foi então que abri o livro Átila, e simplesmente fiquei encantado, pois apesar de sua foto tão marcial na capa, o conteúdo era de uma simplicidade e amizade fraterna tão grande, que percebi o quanto julgamos mal as aparências. Junto com ele, um cão sentado no sofá, de quem ele falava com tanto amor e carinho, que chegava a ser emocionante.
Calma! Já falo dos contos escritos por este Ás da Aeronáutica. Aliás, para falar deles, prezado leitor, deve conhecer primeiro quem é o escritor. Não! Não esqueci que não iria dar a sua biografia. Aqui, falo da pessoa. Uma pessoa simples (acho que já disse anteriormente, mas é bom para enfatizar), com uma grande bagagem profissional, cultural, e pelo pouco de contato que tive com ele, alguém preocupado com o bem estar do próximo, percebido pelo carinho que os que o rodeiam possuem para com si.
Não vou falar da vida dele, mas vou divulgar seus livros, que são de conteúdo histórico, informativo, descritivos, mas acima de tudo, uma escrita agradável. O primeiro contato foi com “A Menina e o General” (sobre Maria Rosa e o General Carneiro) e o seu livro de memórias “ e “Memórias de um guri em tempo de guerra”, ambos os livros de uma redação de tal modo leve, que faz com que sintamos estar vivendo as suas páginas, ou nas palavras de Jorge Luis Borges (1899 – 1986), “O livro é uma extensão da memória e da imaginação”.
Divaguei! O livro que ora se apresenta, “Matando o Porco”, é composto de dez contos, escritos entre os anos de 2004 e 2010, sendo sete deles neste último ano. Alguns deles tive a felicidade de ler algum tempo atrás, inclusive o conto “O Pinheiro, o casebre e o quadro”, que Átila dedicou a meu cão “Fluffy”, que morrera em maio do ano passado.
Deixe-me, então, destacar alguns dos contos que compõem esta coletânea, apenas uma pincelada, para não revelar o seu verdadeiro conteúdo e perder a viagem. “Agora que já contou a história, perdeu a graça.”
Tomada, este era o nome do porco, mas são diversas situações que se desenrolam sobre a morte de Tomada, que parecem se entrelaçar entre si. Aliás, meu caro leitor, você perceberá que em todos os contos de Átila, é como se fosse uma teia que vai se formando até chegar a um objetivo determinado. O conto é “Matando o porco”, mas se mataram mesmo, deixo a você descobrir isto.
Ralph Waldo Emerson (1803 – 1882) dizia que “O talento não basta para fazer o escritor. Atrás do livro deve haver o homem”. No conto, “Eu, o cão”, Átila vai muito mais além, ele incorpora um cão, e passa viver cada instante como tal, seus instantes de alegria, de tristeza, seus desejos, faz com que percebamos uma realidade tão comum no dia-a-dia destes nossos amigos caninos, não só aqueles bem-tratados, mas os cães abandonados na rua. Pode-se, ainda assim, de um modo sutil, sentir não só o cão que vive nas ruas, mas numa transposição, o menor abandonado.
O Trucidador Sanguinário é a história de Calígula, não aquele imperador romano, mas que mostra de uma forma bem-humorada e mesmo triste, a dureza da vida e o sentimento humano presente no coração de quem aparentemente se acredita um sanguinário. São profissões necessárias para satisfazer a necessidade de outros, e mesmo assim desprezados pelo seu trabalho pelas outras pessoas. O que seria do mundo se não existissem os lixeiros para recolher os lixos? Os faxineiros? Enfim, uma gama de profissões consideradas tão de baixa qualidade, mas mesmo assim fundamentais para a higiene e sobrevivência da humanidade.
Pafúncio Nando Ligertwood Boamorte. Não é palavrão, é exatamente este o nome do conto. Pafúncio, que lembrava muito aquele personagem de histórias em quadrinhos “Pafúncio e Marocas”, um sujeito baixinho, gordinho e empertigado. A história se passa com este personagem e seu adorado gato Pingão, que tem papel importante no desenrolar da transformação da vida de Pafúncio.
Muitos personagens curiosos desfilam pelas páginas deste livro, Zé das Tripas, Chico Mil e Um, Zé Bredoredes, Torresmo, Cachorrão, Zé Carniça e tantos outros, cada qual com sua história. E, mesmo com uma boa dose de humor ou de tristeza, cada história carrega em si alguma mensagem a ser passada ao leitor. Charles W. Elliot (1834-1926) dizia que "Livros são os mais silenciosos e constantes amigos; os mais acessíveis e sábios conselheiros; e os mais pacientes professores." E os contos de Átila carregam em seu bojo risos e lágrimas, momentos de comoção e revolta. São contos que se desenvolvem em diversas situações e épocas, como se o autor tivesse vivido ou mesmo presenciado aqueles momentos. E é assim, que nos sentimos, vagando por estas páginas, com uma sede insaciável de ler mais.
Enveredar por estes contos é sonhar, é navegar por um oceano de sonhos. É sonhar novos sonhos, é fazer destes contos nossos próprios contos, é transformar estes contos em nossos sonhos, é fazer destes sonhos, uma ocasião especial, uma janela em nossa alma, ou como nas palavras de Paulo Leminski (1944-1989):
“A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não!
Este eu mesmo carrego!”
O sonho, não!
Este eu mesmo carrego!”
Fonte:
Átila José Borges. Matando o Porco. Eu Contos. Curitiba: Edição do Autor, 2011. pag. 11-14.

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