Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Aníbal Machado (João Ternura)


Iniciado na época em que se publicava Macunaíma, o livro João Ternura, assim como sua personagem principal, custou a nascer. Mas afinal, depois de 40 anos, apareceu com as marcas congênitas do Modernismo. A obra foi publicada postumamente em 1965, um ano após a morte do autor. Não se sabe ao certo quando Aníbal Machado começou a trabalhar nele. Mas não há dúvida de que o escreveu e reescreveu durante décadas.

O título é uma referência ao protagonista, espécie de alter-ego do autor. O romance é formalmente fragmentário, pois existe a presença de surrealismo, de álbum de momentos perdidos, memórias de uma infância mineira, é um romance de confissão de um adulto na confusão carioca.

O herói, "lírico e vulgar", como se cognominou durante o largo período de gestação, caminha dispersivamente, do nascimento à morte, sempre "sapeando".

João Ternura mistura realidade e supra-realidade, ficção e memória, prosa e verso.

A obra envolve o inconsciente, a turbulência e o “rumor da alma” (marca do estranho, onírico).

No prefácio, declara Aníbal Machado que, "com acréscimos, supressões e pequenas modificações no já feito, além da elaboração quase total da segunda parte em diante, procurei dar-lhe (ao livro) arranjo adequado à vida de seu morador: esse pobre João Ternura que nas nuvens melhor ficaria, uma vez que sua simplicidade e inocência nem sempre encontravam resposta num mundo em que não conseguiu (e nem suportava) atingir a chamada idade da razão e das conveniências sociais que tão tristemente já alcançamos.

Diluídas em névoa poética as contradições de pequeno-burguês, o herói parou, espantado, a meio caminho de sua libertação, quando começava a ter uma consciência menos confusa da realidade."

Estrutura

Esse romance "episódico-rapsódico-lírico", como o classificou Fausto Cunha, apresenta-se dividido em seis livros.

Personagens

João Ternura: é lírico, lúdico, engraçado, generoso, alegre, inerente, polimorfo. É em boa medida uma encarnação do povo brasileiro, em seus ganhos e perdas no esforço para crescer não apenas materialmente, mas ainda em termos de justiça e liberdade, de democracia e afirmação cultural. Como não busca apenas o crescimento pessoal, Ternura envolve-se em lutas populares e pratica atos heróicos - e perfeitamente inúteis - durante uma das revoluções que sacudiram o país na primeira metade do século XX.

Antônio e Liberata: pais de João Ternura.

Natália e Marina: tias de João Ternura.

Isaac: amigo de travessuras na infância.

Manuel: dono da gráfica.

Luisinha: irmã de Manuel.

Arosca, Silepse, Matias, Pepão, Biba e Josias: amigos da pensão.

Marilene e Rita: mulheres com quem se relacionou.

Jeremias: ex-repórter, bêbado.

Enredo

Livro I

O primeiro livro registra evocações, peripécias, sensações do período que vai do nascimento de João Ternura na fazenda até sua entrada para o colégio interno. É onde se registram as primeiras travessuras de João Ternura.

É neste livro que se conta da fuga do sítio, uma busca de lugares desconhecidos.

João Ternura escuta seus pais em relação sexual e o suspiro de tia Marina: Ah, como eu queria sentir aquelas dores de minha irmã!... De minha irmã que estava gemendo!... Tanto eu queria...

As histórias de Dona Iaiá também estão registradas neste livro I:eram as curiosidades sobre o mundo; e é neste livro tambám que Ternura descobre a pedra.

JoãoTernura é levado pelo pai ao internato.

Neste livro o autor realiza estilisticamente, pergunta sobre pergunta, a recuperação do mundo e da linguagem infantis. Nota-se também a fixação do fluxo de consciência de Ternura, também presente em outros passos do livro (chama-se também, a esse processo, monólogo interior).

Livro II

O segundo livro assinala o início da decadência econômica do pai, cujo negócio de barcas se tornara anacrônico com a construção da estrada. Ternura foge do colégio, nove meses depois.

No livro II nota-se a referência que Liberata, mão de Ternura, faz a um passo anterior, que não consta na antologia, onde ela está lavando roupa com as amigas e sonhando com o nascimento de João. Uma das amigas, então, aventa perversamente a possibilidade de João nascer gigante ou anão, polvo ou aranha. Existe ainda nesse livro a inclusão do poema integrando a narrativa.

Livro III

A partir do terceiro livro, já se encontra no Rio de Janeiro.

Conversa com o primo, as dificuldades: timidez, jeito de falar e andar, etc. Conversa com o mar: Mar, o que eu queria te dizer é que pertenço a uma espécie aborrecida que não escolhi. Posso um dia optar pelas tuas águas? Mergulha-se e fica... Ninguém vai notar a ausência...

É neste livro que Ternura conhece Rita: tempestade, aconchego, cuida dele, beija-o e ele desaparece.

Mostra a vida na pensão, a amizade com Manuel, os tipos que lá habitavam.

Dá-se um tratamento irônico à Revolução de 1930 e referência à Macunaíma, do livro de Mário de Andrade.

A lei contra lei do amor: surpreendido com uma menor, Ternura é preso.

Seus novos amigos: Matias, Pepão etc.
Numa carta, a mãe pede para que volte e ele nega.

O livro III fala da morte de Saint-Hilaire (Sentalher), onde logo após João Ternura, vai pra um bordel, desanimado, bebe e delira.

É registrado também sua conversa com Matias e Pepão sobre a Revolução: ele deveria tentar com o ministro uma aposentadoria.

Livro IV

Registro do diálogo com Matias e Manuel.

João Ternura sente saudades da chácara. Com a morte os pais, os parentes se dispersaram.

Matias, Pepão e Ternura saem com quatro mulheres. Nova sedução: Marilene (saudades e carta de amor). João Ternura tem constantes frustrações amorosas.

João trabalha na gráfica de Manuel como e quando quer e desaparece.

Pensa em um mundo ideal : o Reino de Bubuia.

Livro V


No livro V existe a relação irradiação / presença da amada, constante em Aníbal. Veja em Viagem aos Seios de Duília, por exemplo.

Flashback de Ternura: “Sob o céu do oeste, à beira de um rio, a chuva há muito vem saindo sobre os ossos de uma chácara abandonada. Sim, os anos teriam de correr... correram – e ele não percebia. Agora, está vendo nos destroços os sinais da passagem e velocidade dos anos.
Agressão do passado. Por que se revela de uma só vez tudo o que vinha se desmanchando em sigilo e devagar?
Ah, cadáver do mundo, vegetações da ausência!...
E tanto tempo a esperar a coisa, o grande segredo, a razão de ser!”

João reencontra Rita: “Rita enfeitada!... Dormindo ou fingindo que dormia... Mais poderosa dormindo que acordada.(...)

Correu a olhá-la de perto. A mão viajou por curvas e relevos. Com delicadeza para não despertá-la. Ele se deitou sobre ela, gemeu em cima, penetrou-a.
Como não acordar agora à pressão de outro corpo? Ou estria ela repetindo no abraço do momento o abraço permanente e universal de suas noites?”

A morte de Juca do Timbau. Preocupação com chuva no carnaval.

Livro VI

No livro VI há uma referência ao delírio de Ternura.

O fecho do romance decorre durante os três primeiros dias de um carnaval carioca, acontecimento que não serve apenas para desatar as necessidades do corpo, mas também para liberar o espírito crítico dos vários João Ternura que participam da festa.

No carnaval um orador de rua denuncia em linguagem meio joyceana os dilemas do mundo contemporâneo; e enquanto o samba rola, personagens não identificados divulgam um manifesto em favor dos que não têm lugar na sociedade, bem como o texto de um telegrama no qual se defende a liberdade da poesia e a renovação da literatura no Brasil.

Fonte:
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/j/joao_ternura

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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