Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho) Aventura do Príncipe – IV – Os Segredos da Aranha


Dona Aranha, apesar de manca, jamais deixara de acompanhar o príncipe nas suas viagens — nem ela, nem o doutor Caramujo. Médico tem sempre serviço numa viagem e costureira também — um botão que cai, um pé de meia que fura. Por isso dona Aranha também viera.

Trabalhadeira como ninguém, assim que chegou foi logo para o quarto de costuras examinar os apetrechos de dona Benta — a cestinha, a almofadinha de alfinetes, os agulheiros, os carretéis. Só não gostou da máquina.

— Muito pesada e complicada — disse para Emília, que era a mostradeira de tudo.

Vendo-se só com a Aranha, a boneca regalou-se de fazer quantas perguntinhas quis.

— Acho muito bonito esse seu sistema de trazer o carretel dentro da barriga — disse ela. — Só não compreendo como a senhora faz para engolir um carretel...

— Eu não engulo carretéis, menina — explicou a Aranha. – Nós nascemos com o carretel dentro.

— E quando acaba?

— Não acaba nunca.

— Hum! Já sei! A senhora tem fábrica de linha na barriga, não é?

— Deve ser. Nunca entrei dentro de mim para saber.

— Pois eu sei o que há dentro de mim. É só macela. Quando fiquei com a perna seca, tia Nastácia me consertou e eu vi. Ela pôs só macela da bem amarelinha e cheirosa.

— E seu marido, o marquês? — perguntou dona Aranha.

— Também é cheio de macela?

— Creio que não, porque Rabicó é diferente de mim em tudo. Por exemplo: ele come e eu não como. Só como de mentira, por brincadeira.

— Não come? — exclamou dona Aranha muito admirada. — É a primeira pessoa que ouço dizer isso...

— Nunca comi coisa alguma — e sinto bastante, porque comer parece uma coisa muito gostosa. Rabicó quando come arregala os olhos de gosto, e grunhe se alguém se aproxima. A vaca mocha, essa até baba quando come um sabugo de milho.

— Pois lá no mar não existe uma só criatura que não coma. E um come o outro. A gente precisa andar com as maiores cautelas, espiando de todos os lados e escondendo-se quando vê algum peixe. Minha mãe foi comida por uma garoupa.

— Coitada! — exclamou Emília deveras compungida. — E era também costureira?

— Era sim. Todas as aranhas são costureiras.

— E tinha também carretel na barriga? — Está claro. Basta ser aranha para ter carretel na barriga. — E de que cor era a linha?

— A cor não varia. É sempre a mesma para todas as aranhas.

— Que pena! — exclamou Emília triste. — Gosto muito da cor vermelha e se soubesse duma aranha de linha vermelha, iria morar com ela.

— Para quê?

— Para ver. Para sentar debaixo da jabuticabeira e ver aquela linha tão linda que sai, sai, sai e não se acaba mais...

Enquanto Emília ia dizendo suas asneirinhas, dona Aranha, para não perder tempo, cerzia meias. Cerzia tão bem que não havia quem fosse capaz de perceber o cerzido.

Admirada da perfeição do trabalho, Emília disse:

— Se a senhora se mudasse para a cidade havia de ganhar um dinheirão.

— E que faria do dinheiro?

— Oh, muitas coisas! Podia comprar uma casa, podia comprar um guarda-chuva. Pedrinho diz que é muito bom ter dinheiro.

— E ele tem muito?

— Muito! Pedrinho é bastante rico. Tem um cofre com mais de cinco reais dentro.

— E para que quer tantos reais?

— Diz que vai comprar um revólver. Eu, se tivesse dinheiro, sabe o que comprava? Um trem de ferro! Não há nada de que eu goste tanto como o trem de ferro...

— Por quê?

— Porque apita. A senhora já ouviu apito de trem?

Nesse ponto a conversa foi interrompida por um recado de Narizinho, ordenando que Emília se vestisse para sair a passeio.

— Adeus, dona Aranha. Narizinho está precisando de mim. Vai passear conosco ou fica?

— Fico. Estou com fome. Quero ver se apanho umas três moscas.

— Não use vinagre — aconselhou Emília retirando-se. – Tia Nastácia diz sempre que não é com vinagre que se apanham moscas.
––––––––
Continua... Aventura do Príncipe – V – Valentias

Fonte:
LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Col. O Sítio do Picapau Amarelo vol. I. Digitalização e Revisão: Arlindo_Sa

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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