Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

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sábado, 12 de maio de 2012

Heloísa Prieto (Lampião e a Baronesa)


Quase toda família tem um tio excêntrico. Na minha, ele se chamava Paschoal, era divertido, aventureiro, imprevisível e, para completar, sonâmbulo. Como a maioria dos tios excêntricos na Bahia, ele era um grande contador de histórias. Quase toda família tem uma menina que teima em ser moleca. Na minha, essa menina era eu.

Filha única no meio de um bando de primos, eu disputava o direito a montar cavalos e acompanhar a tropa de peões dia a dia. Até que minha mãe, cansada das minhas botas, dos cabelos cheios de nós, dos meus carrapichos e carrapatos, arrancou-me da sela de meu cavalo e me jogou a pulso na banheira.

Quando voltei à sala, de vestido de renda e cabelos bem penteados, meus primos apontaram o dedo para mim e desataram na maior gargalhada.

- Ela é mulherzinha, ela é pó-de-arroz...

Ser chamada de pó-de-arroz na nossa fazenda, no interior da Bahia, era o pior insulto que uma garota podia ouvir. Então eu os surrei tanto que só me lembro dos gritos:

- Socorro! Ela virou bicho! Socorro, ela tá aperreada, e a gente vai morrer de tanto apanhar!

O cabelo desmanchado, o vestido rasgado, só me lembro da ira de minha mãe e das risadas de tio Paschoal.

- Essa aí, quando crescer, vai virar Maria Bonita. E vai ter que arranjar um Lampião...

Corri para os braços dele: sabia que tio Paschoal me protegeria de mamãe, dos meus primos e de mim mesma.

- Por que é que eu preciso arranjar um lampião de gás, tio? Por quê?

Tio Paschoal sentou-se na rede, pediu uma limonada e acendeu o cigarro de palha. E todos nós fizemos silêncio, porque sabíamos que ele contaria uma história. Inesquecível. Engraçada. De um jeito tão especial que ficaria para sempre grudada na memória...

- Lampião era o apelido de Virgulino Ferreira da Silva, o Robin Hood do sertão!

Lembro que minha mãe riu e, já esquecida da confusão, entrou na roda de história:

- Minha filha, você já ouviu falar dele, tem até filme, livro. Só não contamos ainda para você que sua trisavó, dona Maria Macária, gostava de hospedar Lampião e Maria Bonita.

- Mentira! - eu disse. - Vocês estão brincando!

- É verdade! Lampião era um líder do sertão, sanfoneiro, vaqueiro, defensor dos pobres; caiu na vida porque sofreu uma grande injustiça. É claro que tem muita gente que conta a história de outro jeito, que o chama de bandido sanguinolento. Naquele tempo, era como se a Bahia tivesse se dividido ao meio: de um lado, a polícia, os governantes e inimigos de Lampião; de outro, as famílias que o acolhiam e o viam como um homem de imensa coragem. Bem, minha filha, quem desse refúgio ao capitão desafiava os poderosos, como fez sua avó, mulher de muita bravura.

Suspirei, satisfeita e orgulhosa. Então, minha braveza não era ruindade, mas uma grande coragem que eu trazia no sangue. Minha mãe, sensível e perspicaz, logo percebeu o que eu tinha deduzido:

- Mas não se anime, não. Sua avó Macária tinha coragem, domava cavalo e atirava com perfeição, mas era bonita, usava renda e gostava de perfume. Também não saía por aí surrando moleque feito um bicho-do-mato...

- Deixe, minha irmã - riu meu tio Paschoal. - Deixe, que a menina tem sangue forte, um dia ela apazigua. Agora eu quero contar a história de Lampião.

Aos doze anos, Lampião era o melhor vaqueiro de sua região. Mas aos dezessete foi preso por um pequeno incidente e libertado pelos irmãos: assim se iniciou uma guerra entre sua família e a polícia. Logo depois, ele começou sua carreira de cangaceiro. Juntou um bando e alojou-se nos esconderijos do sertão, que ele conhecia como ninguém. Recebeu esse apelido porque diziam que sua espingarda, ao defender a justiça, trazia a luz tal qual um lampião. Com o tempo e as vitórias, seu bando foi aumentando e conseguindo os melhores cavalos e roupas. Você sabe que Lampião adorava perfume francês? Que seus dedos eram cheios de anéis de prata? Ele também gostava muito de leitura, e, quando seus cabras se casavam, a primeira providência que tomavam era ensinar a noiva a ler. No interior do sertão, poucas mulheres iam à escola.

Então, quando o bando assentava acampamento, havia barracas com livros, máquinas de costura, e havia até cinema, porque Lampião era muito amigo do Turco, um dos primeiros cineastas do Brasil. Era um cabra dos mais modernos, se a gente for pensar, e seu maior ídolo era Napoleão, o imperador francês. Foi para imitá-lo que Lampião mandou fazer um chapéu de abas largas, com estrelas de cinco pontas para dar sorte, sabe como é.

Virgulino tinha sonhos premonitórios, dizem que farejava o perigo. Um feirante me contou que ele venceu tanto perigo por causa das rezas fortes das negras velhas, feiticeiras africanas que o protegiam de um modo sobrenatural. Mas, à medida que as velhas foram morrendo, as rezas foram deixando de fazer efeito, até que ele foi vencido e morto em Angicos.

Lampião, Maria Bonita e seus cangaceiros acreditavam que noite de luar dava sorte. Diziam que, na lua cheia, se você souber olhar, verá são Jorge e seu cavalo branco. Nessas noites, Lampião interrompia as lutas e tocava sanfona, cantava e dançava. Inventava canções muito rapidamente, ninguém o vencia no desafio da viola. Tão boa na rima quanto ele, Maria Bonita o conquistou pela palavra. Maria Dea era jovem demais quando a família a obrigou a casar-se com um sapateiro, bem mais velho que ela, no município de Santa Brígida.

Ao ouvir as aventuras de Lampião, Maria apaixonou-se por ele. E, secretamente, enviou-lhe um bilhete com um lindo poema de amor. O capitão encantou-se com o poema e, quando soube da beleza da autora, quis conhecê-la pessoalmente. Ao vê-la de perto, os olhos azul-escuros, o nariz arrebitado e a boca de menina, Lampião ficou sem palavras, caindo de amores no mesmo momento.

Dizem que Maria Bonita percebeu o sentimento de Virgulino, então riu, entrou para casa e voltou coberta com dois bornais coloridos, bolsas que ela mesma confeccionara, contendo seus pertences.

- Lampião, é você que eu amo. Como é, quer me levar ou quer que o acompanhe?

Em seguida, dirigindo-se ao marido:

- Adeus, Zé, preciso partir com meu verdadeiro amor. Mas sempre terei amizade por você.

O velho sapateiro assistiu à cena sem nada dizer; ele sabia que Maria não era feliz em sua companhia.

Isso deve ter acontecido no ano de 1930.

E assim, pelo menos no amor, Lampião foi muito feliz, vitorioso e querido por Maria Bonita, sua companheira até o derradeiro instante. Cabra muito desconfiado, o capitão tomava bastante cuidado com as coisas que poderiam lhe trazer perigo. Ele conseguiu escapar de todas as tentativas de envenenamento. Era como se o Rei do Cangaço adivinhasse todo tipo de maldade.

Como era feliz com sua Maria, Lampião tinha horror a tudo quanto era casamento forçado. Sabe, naquele tempo, isso era bem comum. Muita gente ficava infeliz por causa de obrigação de família. Mas, se Virgulino estivesse por perto, aí esses casamentos não aconteciam.

Bem, certa manhã, Maria Bonita deu com Lampião caminhando ao longo do rio.

- Anoiteceu e não amanheceu - ele repetia.

Preocupada, Maria perguntou-lhe o que estava acontecendo.

- Fugir não pode, ficar também não - ele respondeu, e ela continuou sem compreender.

Depois, conversando com Corisco, o Diabo Loiro, o melhor homem do bando, Maria Bonita descobriu tudo:

Lampião tinha amor por uma família de comerciantes que sempre lhe davam espelhos, estrelas de prata, bordados e galões para adornar as roupas. Acontece que o filho mais velho dos comerciantes era um moço muito bonito, estudado e um pouco ingênuo. A Baronesa bateu os olhos virados no rapaz, que se chamava César, e o quis para si. Mas o garoto era apaixonado por uma vizinha. Ah, mas a dona Baronesa não admitia perder.

Primeiro tentou namorá-lo. Ele não quis. Então, pensou em mandar matar a rival. Mas logo desistiu. Seria perigoso. Alguém poderia suspeitar dela. Pensou, se acabrunhou, até ter uma idéia diabólica: fingiria ser a melhor amiga de César, e, quando ele cansasse da menina, ela o atrairia para si.

Mas César casou-se com a garota, e felizes eles viviam os dias, sem sequer desconfiar que, a cada hora que passava, o ódio da Baronesa só aumentava. Se com ela César não fosse feliz, com mais ninguém seria. Poderosa, a Baronesa abriu uma loja ainda maior que a da família dele. Vendeu os mesmos artigos pela metade do preço. Em menos de seis meses, César estava enterrado em dívidas.

Foi quando Lampião passou pela cidade, cujo nome era Capela. Como sempre, visitou a loja dos amigos. E, depois de ouvir os problemas que enfrentavam, decretou:

- Meus amigos, não se preocupem, justiça será feita. - Em seguida, disse a Corisco: - Vá até a fazenda da Baronesa. Peça-lhe dinheiro para quem precisa, em nome do capitão Virgulino Lampião.

E Lampião foi esperar pelo retorno de Corisco à beira do rio. Mas Corisco voltou endiabrado, porque, em lugar de dinheiro, a Baronesa mandou respostas desaforadas. Diante da fogueira, o bando todo reunido, Lampião ouviu o relato do Diabo Loiro em silêncio. Era sempre assim quando o perigo o rondava. A maioria das pessoas fala muito quando sente medo. Treme, passa mal. Virgulino era diferente. Quando a revolta o tomava, seus gestos ficavam mais lentos, como se ele calculasse cada movimento, como se virasse uma máquina de luta.

Depois, ele fitou a lua. Cheia. Respirou fundo e disse:

- Corisco, chame os cabras, eu tenho um plano.

A Baronesa conhecia a ira de Lampião e, para defender-se dela, transformara a cidade numa verdadeira fortaleza. A cada esquina, um policial.

No dia do ataque, Lampião contava apenas com dezoito cabras, número bem menor que o dos guardas que o procuravam. Mas o capitão era muito esperto. Um filho de Ogum, o deus
africano da estratégia. Sua tática foi colocar os rifles em duas redes, como se fossem corpos, e passar tinta vermelha nelas, como se fosse sangue derramado. Dois cabras do bando de Lampião, disfarçados em guardas e carregando as redes, chegaram à cidade de Capela. E o povo os cumprimentava e perguntava:

- Quem são os defuntos?

- Cabras do capitão Virgulino!

- Vocês conseguiram? A Baronesa venceu Lampião?

E os homens de Lampião, muito sérios, diziam:

- Pois é, não é que ela conseguiu vencer?

O povo se entristecia, enquanto os cabras disfarçados atravessavam a cidade em direção ao quartel conduzindo "os defuntos" para fazer a ocorrência.

- E o capitão Virgulino? Ele sobreviveu? - indagavam as pessoas.

- Ninguém sabe - respondiam eles.

Chegando ao quartel, depositaram as redes no chão. O sentinela se assustou:

- Esperem! Quantos defuntos! Preciso chamar meus policiais que estão lá fora.

Enquanto isso, aproveitando-se da ausência dos policiais, os cabras de Lampião empunharam os rifles que estavam ocultos nas redes e aguardaram a chegada dos inimigos.

- Mãos ao alto! - gritaram. A cidade está sob o comando de Lampião!

Do lado de fora do quartel, tiros por toda parte. O povo tinha a impressão de que a cidade estava cercada por um exército. Mas era só truque. Lampião ordenara a seus homens que gritassem e atirassem todos ao mesmo tempo, de pontos diferentes, fazendo muito barulho.

Desorientados, os policiais soltaram os presos, mais de vinte homens, que imediatamente se bandearam para o lado do capitão e prenderam os policiais.

- Ele está vivo, o capitão venceu a Baronesa! A justiça impera, o governador reina, viva Lampião! - gritavam.

Depois, Corisco ordenou ao corneteiro que tocasse e anunciasse em alto e bom som que os guardas da Baronesa haviam se rendido a Virgulino. Finalmente, os policiais foram obrigados a entregar os uniformes, ficando quase nus.

Novamente usando disfarces, quarenta homens de Lampião entraram na casa da Baronesa.

- Como vai, dona Baronesa? - perguntaram com ousadia. - A senhora há de fazer justiça a seu povo! Queremos alimentos, armamentos e também jóias para que nossas moças possam adornar-se.

Da casa da Baronesa levaram então dinheiro, jóias e animais de criação. Do quartel, retiraram armamentos e alimentos. As jóias e o dinheiro foram entregues à família de César. Com os alimentos fez-se um grande banquete, que foi oferecido ao povo, bem no meio da praça. E quando a festa corria solta, quando os sanfoneiros cantavam e os violeiros entoavam cantigas sobre a última façanha de Lampião, eis que ele aparece de braço dado com sua inimiga.

- Dona Baronesa me concedeu o prazer desta dança - ele disse, rindo.

Contam que a raiva da mulher era tanta que seus olhos verdes não paravam de revirar. Maria Bonita, Corisco e sua companheira, Dadá, também dançavam e riam às gargalhadas.
O povo se divertia a valer, e, em todo lugar, só se ouvia um refrão:

É Lampi, é Lampi,
Lampi é Lampião.
O nome dele é Virgulino,
Governador do Sertão!

Quando findou a festa, ao raiar do sol, Lampião ainda apanhou a sanfona e despediu-se do povo cantando assim:

Olé, mulher rendeira,
Olé, mulher rendá,
Tu me ensina a fazer renda,
Que eu te ensino a namorar.
E com o povo de Capela
Lampião não vai brigar...

Assim terminou o relato de meu querido e inesquecível tio Paschoal. Lembro que, a essa altura, eu já estava deitada na rede, sonolenta e feliz. Reparei na lua cheia, senti o perfume do chá de erva-cidreira que minha mãe me fazia tomar para "ver se eu melhorava da braveza". Sorri e fiquei enrolando meus cachos com os dedos, como sempre fazia antes de dormir.

Tio Paschoal passou a mão em minha cabeça e disse:

- Viu só, minha sobrinha? Você pode ser tudo ao mesmo tempo: quando você crescer, quero que seja bonita, corajosa, que não esqueça como montar um cavalo bravo, mas que também saiba usar renda e pó-de-arroz. - E daí eu vou ter que encontrar um Lampião...

Meu tio sorriu e preparou-se para dormir. Ele também trazia a bravura no sangue. Logo depois partiu de nossa fazenda na Bahia, que lhe parecia civilizada demais, e foi morar no interior do Amazonas.

Eu cresci e mudei para a cidade de São Paulo.

"Aqui a lua brilha diferente. Aqui os astros são outros", me disse certa vez uma pessoa querida. E eu concordei, pensando assim: "No Sul a gente não encontra as façanhas de Lampião espalhadas nos folhetos de cordel, não ouve as cantigas falando de seu grande amor por Maria Bonita".

E foi por isso que eu quis contar esta história. Para que o mundo todo conhecesse pelo menos um pedacinho de duas vidas repletas de ousadia e de uma estranha sabedoria.

Será que essa aventura aconteceu exatamente assim?

Será que importa saber?

Será que é possível descobrir a verdade?

Para mim, verdadeiras são as lembranças de uma noite de luar, no coração da Bahia, quando ainda bem menina eu me apaixonei pelo amor sem fim de uma moça bonita chamada Maria por um jovem vaqueiro apelidado de Lampião.

E isso fez toda a diferença.

Fonte:
Conta que eu conto (Ana Maria Machado, Angela-Lago, Daniel Munduruku, Heloisa Prieto, Roger Mello ; apresentação de Tatiana Belinky ; ilustrações de Mariana Massarani. - 1a. ed. - São Paulo : Companhia das Letrinhas, 2002. (Coleção Literatura em minha casa ; v. 2)

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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