Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

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sábado, 9 de junho de 2012

Laércio Borsato /MG (Sonetos Avulsos)


MINHA VOVÓ MATERNA

 A MINHA memória vagueia na estrada,
 De nossa casa até a de vovó Suzana!
 Comumente, lá íamos, nos fins de semana;
 Só pensávamos na hora da chegada!

 Eufóricos, já na ultima subida,
 Ouvíamos o marulhar da cachoeira;
 Logo avistávamos, felizes da vida,
 No caramanchão da varanda, a videira!

 Uma vez chegamos com roupa molhada,
 Pés sujos, pela lama da estrada;
 Pois fomos surpreendidos pela chuva.

 Vovó subia vagarosamente do pomar,
 Com todo cuidado, o avental a segurar,
 Onde trazia lindíssimos cachos de uva!

CANDURA

 Tu és a primazia que encanta,
 Que acalma e envolve;
 Que a alma devolve;
 E de amor se inflama,

 A paixão que chama,
 Quando ao peito acolhe;
 Sofrer de quem ama;
 Quando o amor descobre,

 E ainda tece a alegria,
 De manhã;
 Como o sol se esguia,

 E me aquece;
 Em carinho enternece;
 E no ser se aninha.

AGORA ESTOU DESLENDO...

 Agora estou deslendo o quanto li —
 do fim para o começo em transleitura
 que, vinda do passado, é uma mistura
 de hoje-amanhã em outro dejá-vu

 Sim: estou descomendo o que comi
 por orifícios de outra contextura
 que faz tabela com visão futura
 como o eco do piar do bem-te-vi.

 É assim, meu amigo, que desleio,
 ou melhor: que meu tempo desfolheio
 para colher novas sazões e frutos.

 Quero chover em chãos secos e enxutos
 para me germinar no quanto era
 já transvestido em nova primavera.

VOCÊ SE FOI EU ERA...

 Você se foi eu era tão pequeno,
 mas nossa mãe nos reforçou a fé.
 A vida apenas não nos deu veneno
 e o mundo me bateu mais que você.

 O seu viver, eu sei, foi nada ameno —
 foi luta bruta, honesta e sem chiquê.
 Tranquilidade não lhe deu aceno.
 Ventura? O outro pé do Cererê.

 Fizemos do difícil nossa força
 e do impossível possibilidade —
 o mundo era um leão e nós a corça...

 A fé da nossa mãe a nos valer —
 nos empurrava à luta e dignidade.
 Até que a gente conseguiu vencer.

SONETO DA CONSOLAÇÃO

 Eu encontro tua ausência no silencio 
 do meu triste e desolado apartamento, 
 Em cada canto, em cada pensamento
 Deixaste um pouco da tua presença.

 Foi tanto amor, de fato, tanta história
 Escrita todo dia sem que eu lesse,
 Que a minha vida era um céu aberto
 E ficou fechado sem que eu percebesse.

 Eu sei que te perder foi a maior
 Porrada que recebi no meu nariz.
 Chorei uísque, sangrei vinho, orei, 

 Senti-me abandonado e infeliz,
 Mas não esqueço que nossos momentos 
 Foram mais intensos que minha cicatriz.

HÁ UMA LUZ...

 Há uma luz bem lá no fim do túnel —
 tomara que não seja uma jamanta.
 Ontem gostei demais da sua janta —
 até fiquei manchado do seu rímel.

 Não, não é uma jamanta, é bicicleta —
 tomara tenha bagageiro: tanta
 comodidade como a luz que encanta
 quem lhe olha os olhos com olhar de poeta.

 De poeta safado, não pateta.
 Ao pateta se dá uma chupeta,
 ao outro: abrigo aos trinta e sete graus.

 Em não havendo luz, haja calor
 em todo o túnel nesses dias maus —
 assim agasalhamos nosso amor.

POEMA DA NOITE SEM FIM

 AS HORAS não passam, noite infinda.
 A folha cai do ramo ainda umedecida.
 Do vento na vidraça a vibração não finda...
 A rosa vai se abrindo! Milagre da vida!

 Penso no espaço, cada hora vivida...
 Lembro-te com ternura: Te amo ainda!
 Quando partiste, tu choravas comovida,
 Naquele momento, como te achava linda!

 Minha alma esperou amanhecer o dia!
 No jardim mais uma rosa branca abria...
 Pensei presenteá-la, nalguma despedida!

 Comecei a entoar baixinho, um belo hino...
 Veio-me a lembrança os tempos de menino,
 Quando se desconhece, fases duras da vida!

Fonte:
Artigo publicado no site de Bernardo Trancoso, http://www.sonetos.com.br/sonetos.php  

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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