MINHA VOVÓ MATERNA
A MINHA memória vagueia na estrada,
De nossa casa até a de vovó Suzana!
Comumente, lá íamos, nos fins de semana;
Só pensávamos na hora da chegada!
Eufóricos, já na ultima subida,
Ouvíamos o marulhar da cachoeira;
Logo avistávamos, felizes da vida,
No caramanchão da varanda, a videira!
Uma vez chegamos com roupa molhada,
Pés sujos, pela lama da estrada;
Pois fomos surpreendidos pela chuva.
Vovó subia vagarosamente do pomar,
Com todo cuidado, o avental a segurar,
Onde trazia lindíssimos cachos de uva!
CANDURA
Tu és a primazia que encanta,
Que acalma e envolve;
Que a alma devolve;
E de amor se inflama,
A paixão que chama,
Quando ao peito acolhe;
Sofrer de quem ama;
Quando o amor descobre,
E ainda tece a alegria,
De manhã;
Como o sol se esguia,
E me aquece;
Em carinho enternece;
E no ser se aninha.
AGORA ESTOU DESLENDO...
Agora estou deslendo o quanto li —
do fim para o começo em transleitura
que, vinda do passado, é uma mistura
de hoje-amanhã em outro dejá-vu
Sim: estou descomendo o que comi
por orifícios de outra contextura
que faz tabela com visão futura
como o eco do piar do bem-te-vi.
É assim, meu amigo, que desleio,
ou melhor: que meu tempo desfolheio
para colher novas sazões e frutos.
Quero chover em chãos secos e enxutos
para me germinar no quanto era
já transvestido em nova primavera.
VOCÊ SE FOI EU ERA...
Você se foi eu era tão pequeno,
mas nossa mãe nos reforçou a fé.
A vida apenas não nos deu veneno
e o mundo me bateu mais que você.
O seu viver, eu sei, foi nada ameno —
foi luta bruta, honesta e sem chiquê.
Tranquilidade não lhe deu aceno.
Ventura? O outro pé do Cererê.
Fizemos do difícil nossa força
e do impossível possibilidade —
o mundo era um leão e nós a corça...
A fé da nossa mãe a nos valer —
nos empurrava à luta e dignidade.
Até que a gente conseguiu vencer.
SONETO DA CONSOLAÇÃO
Eu encontro tua ausência no silencio
do meu triste e desolado apartamento,
Em cada canto, em cada pensamento
Deixaste um pouco da tua presença.
Foi tanto amor, de fato, tanta história
Escrita todo dia sem que eu lesse,
Que a minha vida era um céu aberto
E ficou fechado sem que eu percebesse.
Eu sei que te perder foi a maior
Porrada que recebi no meu nariz.
Chorei uísque, sangrei vinho, orei,
Senti-me abandonado e infeliz,
Mas não esqueço que nossos momentos
Foram mais intensos que minha cicatriz.
HÁ UMA LUZ...
Há uma luz bem lá no fim do túnel —
tomara que não seja uma jamanta.
Ontem gostei demais da sua janta —
até fiquei manchado do seu rímel.
Não, não é uma jamanta, é bicicleta —
tomara tenha bagageiro: tanta
comodidade como a luz que encanta
quem lhe olha os olhos com olhar de poeta.
De poeta safado, não pateta.
Ao pateta se dá uma chupeta,
ao outro: abrigo aos trinta e sete graus.
Em não havendo luz, haja calor
em todo o túnel nesses dias maus —
assim agasalhamos nosso amor.
POEMA DA NOITE SEM FIM
AS HORAS não passam, noite infinda.
A folha cai do ramo ainda umedecida.
Do vento na vidraça a vibração não finda...
A rosa vai se abrindo! Milagre da vida!
Penso no espaço, cada hora vivida...
Lembro-te com ternura: Te amo ainda!
Quando partiste, tu choravas comovida,
Naquele momento, como te achava linda!
Minha alma esperou amanhecer o dia!
No jardim mais uma rosa branca abria...
Pensei presenteá-la, nalguma despedida!
Comecei a entoar baixinho, um belo hino...
Veio-me a lembrança os tempos de menino,
Quando se desconhece, fases duras da vida!
Fonte:
Artigo publicado no site de Bernardo Trancoso, http://www.sonetos.com.br/sonetos.php

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