Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Lourdinha Leite Barbosa (Os signos do Discurso Amoroso de Florbela Espanca)

Florbela mostra preferência por alguns signos desencadeadores do processo amoroso e sensual, como mãos, boca, olhos e braços: (Veja-se o texto 4)

Segundo José Régio, as mãos e os olhos, partes do corpo que parecem mais agradar à poetisa, são também as que ela mais canta no amado, como se nele se espelhasse e procurasse a si mesma. Desse modo, em vários de seus sonetos de amor, a própria Florbela é que seria, ela mesma, o verdadeiro motivo e o amado apenas um pretexto: ´Teus olhos borboletas de oiro, ardentes/ Borboletas de sol, de asas magoadas/ Poisam nos meus, suaves e cansados,/ Como em dois lírios roxos e dolentes...´ (´Crepúsculo´, p. 97) ou ´Olhos do meu Amor! Infantes loiros/ Que trazem os meus presos, endoidados!´ (´Teus olhos´, p. 159).

Talvez a egolatria, o orgulho desmedido sejam produtos de um exacerbado clima de sonho e fantasia, desenvolvido pelas leituras da adolescente. Sabe-se que Florbela fascinava a juventude de Évora ´... distinguia-se, sobretudo, pelo ar moreno de cigana, de olhos garços, pestanudos e rasgados, escuros como o cabelo, braços magníficos, mãos afiladas e magritas´, mas, segundo os biógrafos, eram as leituras que a seduziam, nacionais e estrangeiras. Concentrada no mundo literário que criara para si, quiçá Florbela não estivesse preparada para a pequenez circundante.

A ilusão de uma plenitude, reiteradamente buscada, vai-se desvanecendo e deixando em seu lugar a frustração do desencontro, como se vê nos seguintes versos: ´Em toda nossa vida anda a quimera/ tecendo em frágeis dedos frágeis rendas... /- Nunca se encontra Aquele que se espera!...´.

As constantes decepções amorosas e as conseqüentes recaídas resultam na consciência da impossibilidade de um amor duradouro (´Amar-te a vida inteira eu não podia/ A gente esquece sempre o bem de um dia./ Que queres, meu Amor, se é isto a vida!... ´), na insaciabilidade (´Dize que mão é esta que me arrasta?/ Nódoa de sangue que palpita e alastra.../ Dize de que é que eu tenho sede e fome?!´), na negação do amor humano e no desejo de absoluto: ´O amor dum homem? - Terra tão pisada,/ Gota de chuva ao vento baloiçada.../ Um homem? - Quando eu sonho o amor de um Deus! ...´

Mesmo um Deus não resolveria o conflito, pois, ainda assim, a insatisfação persistiria. O que Florbela anseia é o absoluto, o infinito, tantas vezes sugerido em seus versos: ´Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível/ Turris Ebúrnea erguida nos espaços,/ À rutilante luz dum impossível!´

Essa ânsia de querer mais e mais a leva à sensação de ser vária, de já ter vivido outras vidas, em outros mundos, de ter sido personagem de lendas ou figura imortalizada por poetas e romancistas, conforme os excertos a seguir, presentes no Texto 5

Florbela julga-se, desse modo, uma forasteira no mundo em que vive e sofre por ter-se desligado do lugar de origem, onde ela podia dissolver-se em tudo, numa espécie de indistinção primordial: ´Sou chama e neve branca e misteriosa´, ´E a noite sou eu própria! A noite escura!!´

Maria Lúcia Dal Farra afirma que a dor sentida por Florbela é cósmica e supõe que provém do desligamento da mãe primordial, por isso, em seus poemas, o nascimento é muito doloroso, como se vê no seguinte trecho do soneto ´Deixai entrar a Morte´ (p. 201): ´Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste?/ Entre agonias e em dores tamanhas/ Pra que foi, dize lá, que me trouxeste´.

O conflito e a angústia, provenientes do acúmulo de tensão gerado pela luta entre contrários, Eros e Thanatos, são tamanhos que a possibilidade de paz só pode ser encontrada na morte: ´Dona Morte dos dedos de veludo,/ Fecha-me os olhos que já viram tudo!/ Prende-me as asas que voaram tanto!´


Obras sobre Florbela Espanca

ALEXANDRE, Madalena T. A busca da identidade na poesia de Florbela Espanca. In: A planície e o abismo, p. 69-73. Évora: Vega, 1997.
AMORA, Antônio Soares. Presença da literatura portuguesa: Simbolismo. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1974.
BELLODI SILVA, Zina. Florbela Espanca: o discurso do outro e a imagem de si. Cadernos de Teoria e Crítica Literária, nº 19. Araguaia: Unesp, 1992.
CENTEN, Yvette K. Prefácio. In: ESPANCA, F. O dominó preto. Amadora: Bertrand, 1982, p. 9-21.
DAL FARRA, M. Lúcia. Florbela: os sortilégios de um arquétipo. Boletim Bibliográfico da Biblioteca Mário de Andrade, v. 43, nº ¾, p. 43-8. São Paulo: PMFSP, 1982.
DUARTE, Zuleide. Florbela Espanca: a flor-paixão. In: PAIVA, J. Rodrigues de (Org). Estudos sobre Florbela Espanca. Recife: Associação de Estudos Portugueses Jordão Emerenciano, 1995, p. 117-27.
HAAG, Carlos. Livro traz a pura poesia de Florbela Espanca. O Estado de S. Paulo. São Paulo: Caderno 2, 16/3/1997, p. D2.
IANNONE, C. Alberto. Bibliografia de Florbela Espanca. Separata de A Cidade de Évora. Amadora: Bertrand, 1965-1967.
JUNQUEIRA, Renata S . Sob os sortilégios de Circe: ensaio sobre máscaras poéticas de Florbela Espanca. Dissertação de Mestrado. Campinas: Unicamp, 1992.

Fonte:
Diario do Nordeste (Fortaleza, Ceará) 24 fev 2008
http://diariodonordeste.globo.com/

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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