Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 19 de julho de 2008

Ana Paula Sabbag (Da morte - O banquete final)

Interessante como a palavra Morte causa espanto no ser vivo. Ao leve pronunciar da dita cuja, uma enxurrada de interjeições se espalha nos rostos banhados de terror: "Cruz credo! Deus me livre! Longe de mim!". Sem contar os mais supersticiosos que procuram madeira para dar três batidinhas e, na falta dela, até cabo de vassoura serve para vingar a simpatia.

Hoje, eu resolvi desafiar a safada. Sim. Falar da atrevida e das nuances que adquiriu em nossa viva, robusta e cada vez mais saborosa Língua Portuguesa. Pode até ser que nós, os glutões desse idioma, não tenhamos um cardápio de vida muito diversificado em conforto, cultura, saúde e lazeres, mas, com certeza, a nossa morte é bem mais apetitosa que a dos países de Primeiro Mundo e nosso menu é farto.

O termo morrer é o mais usado. E o mais sinistro. Aos mais educados e sensíveis, portadores de paladar refinado, a notícia ruim é sempre amenizada pelo eufemismo insosso, acompanhado, naturalmente, do cínico diminutivo ou adjetivos adocicados. São as pessoas ideais para dar notícia de falecimento a cardíacos e afins: "minha senhora, sua mãezinha entregou a alma a Deus". "Sua querida e estimada mãezinha partiu dessa para melhor". Com certeza, até a pessoa processar que a genitora bateu as botas, irá dar um bom tempo para que não caia durinha também, fazendo companhia à mãe no mesmo caixão.

Há os degustadores da nova linguagem, o pessoal mais descontraído, que entorna litros de coca-cola com sanduíches de carne bovina duvidosa. Faz da vida uma eterna piada e, da morte, a piada fatal: " ô, dona, sua veia pipocou". "Baranga, queimou a bateria de sua véia". "Psiu, coroa, sua veia tá olhando, agora, pro teto preto". "Pô, cara, tua mãe tá olhando o dedão do pé".

Há, ainda, os mais circunspetos, os cartesianos, que, até na hora do esticar das canelas alheias, procuram encontrar a palavra certa, como se saboreassem o trivial sem variações. Jamais se submetem ao ridículo. Comportam-se bem à mesa: "minha senhora, sua mãe faleceu de morte morrida".

Não poderia me esquecer dos esotéricos, os que tentam atenuar a comida muito salgada com pitadas de adoçante. Sempre têm um remedinho para as desesperanças alheias. Geralmente dito em voz baixa e suave, transformam o pesado momento de dor numa refeição light. Como se tomassem sopa sem fazer ruído: "querida irmã, sua mãe biológica e amiga eterna desencarnou".

Em oposição, há os que mastigam alto, palitam os dentes em público, arrotam sem inibição. Dotados de certa dose de sadismo apimentado, são os que acendem o fogão na última ceia e, toda vez que podem, não perdem a oportunidade de tornar a chama cada vez mais alta: "minha senhora, sabe... bem... de fato... sua digna mãe, aquela, a quem todos conheciam, de tanto beber, está, digamos..., agora, sentada no colo do capeta".

Ia-me esquecendo dos entendidos em Informática. Esses, criadores de novos e estranhos cardápios, mestres-cucas do neologismo cibernético, como não têm tempo para saborear a vida, limitam-se a pronunciar estranhas e rápidas palavras na derradeira refeição : "ei, deletaram sua mother da face da Terra". "Brother, sua mãe deu pau. Não tem como reformatar!". "Mano, um vírus muito conhecido crackeou seu HD C:\familia e apagou o arquivo mamae.doc".

A bem da verdade, e se é que se pode escolher — quando chegar a minha hora de juntar os cambitos, pretendo expirar rodeada de prantos sinceros, batendo a caçoleta, sorrindo, deixando filhos e netos, que, provavelmente, irão dizer, em meu banquete final : "que massa, a vó virou comida de minhoca!" E que eu seja mais um adubo nesta terra jamais falecente, e que alguém, muito querido, possa abotoar-me o paletó que não tive em vida.
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NotasBiográficas:
Ana Paula Sabbag, jovem escritora, já atuou como editora de textos em sítios literários e contribui com a Literatura Brasileira em diversos portais na Internet. Não tem livros publicados
Nascida em Brasília, escritora, editora de textos e revisora técnica, formada em Turismo e Letras. Participa de diversos veículos de informações literárias, artísticas e sobre Turismo.
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Fonte:
http://www.releituras.com/

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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