Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Clarice Lispector (10/12/1920 - 09/12/1977)

artigo publicado por Andrea de Barros, redatora do site HowStuffWorks

Em iídiche, Haia significa Vida, um nome quase premonitório para a mulher que viria a criar um dos mais vivos retratos da alma feminina com sua literatura. Haia Lispector, nascida em 10 de dezembro de 1920, na cidade de Tchetchelnik, na Ucrânia, torna-se Clarice Lispector ao chegar ao Brasil, junto dos pais e das irmãs, com apenas 15 meses de vida. Sorte dos brasileiros, que ganharam uma das maiores escritoras do século 20.

A família Lispector desembarca em solo nacional em março de 1922, em Maceió, recebida pelos tios de Clarice, que já viviam no Brasil. Em 1925, a família se transfere para Recife, onde Clarice passa a freqüentar a escola e demonstra, desde cedo, o talento para a escrita.

Em 1930, ela perde sua mãe, Marieta, que sofria de paralisia há muitos anos. Aliás, no íntimo, Clarice sempre se sentiu culpada pela doença da mãe. Achava que o seu nascimento tinha provocado ou agravado a paralisia, o que não era verdade.

Em 1935, a família Lispector muda-se novamente, desta vez para o Rio de Janeiro, e em 1939 Clarice ingressa na faculdade de direito, passando a trabalhar como secretária num escritório de advocacia. É na faculdade que Clarice conhece aquele que viria a ser seu futuro marido, o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos, Pedro e Paulo.

Em 1944, Clarice publica seu primeiro livro, “Perto do Coração Selvagem”, cuja prosa cheia de poesia transborda os limites de gênero, inaugurando a escrita clariciana – sempre original, inovadora, viva: “Sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio (…)”

“Perto do Coração Selvagem” ganha o Prêmio Graça Aranha de melhor romance do ano. Ele deu início à vasta produção literária de Clarice, que escreveu, durante toda a sua vida, romances, contos, crônicas, artigos para jornais e revistas, entrevistas, livros infantis, cartas, textos, nos quais a alma da escritora, da mãe, da esposa e da mulher se mostra num mosaico de espelhos, no qual se refletem inúmeras faces de um talento raro. Conheça nas páginas a seguir mais sobre a trajetória literária da escritora.

Clarice Lispector: indefinível e quase inexplicável

Qualquer tentativa de definir Clarice Lispector é ingrata. Tanto para quem escreve sobre ela e sua obra, como para ela mesma, que parece não ter alcançado a grandeza de si própria durante a vida: “Sou tão misteriosa que não me entendo”.

Complexas, a obra de Clarice e a sua figura resistem a definições simples, diretas, claras. Paradoxalmente, sua literatura é de uma clareza quase cegante: à luz de seus textos, o leitor enxerga seus próprios labirintos, as dúvidas, os medos e os possíveis caminhos que levam ao autoconhecimento. Mesmo que esses caminhos desemboquem em dúvidas renovadas e questões que jamais se calam. “O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”

O coração de Clarice deve ter batido “de alegria levíssima” infinitas vezes, já que toda a sua obra traduz em palavras o indizível da vida. Em “Perto do Coração Selvagem” (1944), por exemplo, a personagem principal, Joana, vive em busca de respostas para a sua inquietude constante, numa narrativa que revela, muito mais que fatos e acontecimentos externos, a interioridade, a riqueza psicológica da vida observada em profundidade. Esse primeiro romance de Clarice, que, ao contrário do que ocorre com a maioria dos escritores, não tem qualquer titubeio, nada que possa qualificá-lo como expressão de um talento que ainda viria a ser lapidado com o tempo e a prática, já nasce grande, surpreendendo a crítica com sua força de estilo, personalidade e originalidade.

Em “O Lustre” (1946), seu próximo romance, fecha-se ainda mais o foco clariciano na alma humana e quase tudo o que se vê são paisagens interiores, sentimentos claros e obscuros que se alternam no íntimo de Virgína: “Debruçava-se um instante à janela, o rosto oferecido à noite com ânsia e delícia, os olhos entrecerrados: o mundo noturno, frio, perfumado e tranqüilo era feito de suas sensações fracas e desorganizadas".

Pode-se dizer que todos os livros que Clarice viria a publicar ao longo da vida compartilharam desse olhar questionador sobre a interioridade humana, mas acredito que cabe destacar aqui, com o perdão da arbitrariedade que toda escolha envolve, dois títulos que marcaram a trajetória literária clariciana por algumas características muito peculiares – “A Paixão segundo G.H.” (1964) e “Água Viva” (1973). Saiba mais sobre eles na próxima página.

Clarice Lispector: transcendência da linguagem e poesia

“A Paixão segundo G.H.” é um dos romances mais complexos de Clarice Lispector. Toda a ação ocorre dentro do apartamento de uma mulher, identificada apenas por suas iniciais, G.H., que, ao entrar no quarto de sua ex-empregada, depara-se com uma barata no armário, esmagando-a na porta. A partir daí, G.H. (junto do leitor) mergulha num turbilhão de sentimentos, que passam pela repulsa inicial e evoluem para uma experiência epifânica, na qual a libertação e a perda se confundem: “Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? (…) É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me mesmo seja de novo a mentira que vivo".

G.H. se depara, diante da massa da barata esmagada, com a finitude de sua própria existência, com a fragilidade de sua identidade, experimentando a desconstrução de tudo o que a caracterizava como indivíduo para dar espaço à possibilidade do surgimento de uma nova vida, mesmo que essa seja toda feita de dúvidas.

Nesse romance ímpar, Clarice convida o leitor a experienciar essa transcendência física e psíquica vivida pela personagem, por meio de um exercício de linguagem que questiona a própria capacidade de expressão do texto diante de idéias, sentimentos e sensações inclassificáveis por meio de palavras. “A Paixão segundo G.H.” é uma leitura-vivência, um romance para ser lido com o espírito de despojamento e a coragem de se abrir para o desconhecido.

Clarice Lispector escreveu romances, contos, crônicas ... E poesia? Não, ao menos não há registro, em sua bibliografia, de qualquer publicação de poesia. Entretanto, toda a prosa de Clarice transborda poesia, já que seu trabalho com a linguagem é ricamente elaborado, marcado pelo intenso uso de metáforas e pela busca constante da recriação semântica, como se os significados que a autora buscava expressar não coubessem em termos e palavras usuais.

Mas, entre todos os seus livros, “Água Viva” (1973) é, sem dúvida, o que mais explicitamente apresenta as características da prosa poética clariciana. Trata-se de um monólogo proferido por uma pintora - Clarice sempre quis ser pintora e chegou, nos últimos anos de vida, a dedicar-se a ela -, que, numa madrugada, deixa-se levar por um fluxo contínuo e ininterrupto de reflexões sobre o fazer artístico, o espaço, o tempo, o medo, a morte, enfim, uma infinidade de questões, pensamentos e emoções que se transformam num grande poema em prosa, ou numa “sinfonia”, nas palavras de Alberto Dines em carta a Clarice: “É menos um livro-carta e, muito mais, um livro música. Acho que você escreveu uma sinfonia. É o mesmo uso do tema principal desdobrando-se, escorrendo até se transformar em novos temas que, por sua vez, vão variando, etc. etc.”

Clarice Lispector: uma vida feita de texto

Apesar de ter concluído a faculdade de Direito, Clarice nunca exerceu a profissão. A escrita sempre foi sua vocação maior e seu ofício: além de escritora, ela trabalhou como jornalista, por longos anos, e como tradutora, por períodos curtos, mas intensos – em apenas um ano, 1939, ela verte para o português obras de Ibsen, Garcia Lorca, Jack London, Julio Verne, Bella Chagall, Henry Fielding, Agatha Christie, Pascal Lainé e Edgar Allan Poe.

Já em 1940, ainda na faculdade, Clarice ingressa no Departamento de Imprensa e Propaganda, inicialmente como tradutora, mas acaba assumindo a função de redatora, tendo sua primeira reportagem publicada em 1941, no Diário do Povo, em Campinas. No ano seguinte, Clarice passa a trabalhar como redatora no jornal “A Noite”, obtendo seu registro profissional como jornalista. Além de assinar suas próprias matérias, nas décadas de 50 e 60 ela passa a escrever sob pseudônimos diversos, prática bastante comum na época, como Helen Palmer (no “Correio da Manhã”) e Teresa Quadros (no “Comício”). Torna-se, também, ghost-writer da atriz Ilka Soares, no “Diário da Noite”.

Mas é no Jornal do Brasil que Clarice liberta-se dos temas considerados “femininos”, para a imprensa da época – como economia doméstica, culinária e cuidados com os filhos – e ganha papel de destaque como colaboradora, assinando crônicas veiculadas aos sábados, entre agosto de 1967 e dezembro de 1973, mesma época em que outros escritores de renome, como Carlos Drummond de Andrade, colaboravam para o jornal. Também, a partir de 1968, ela passa a fazer bastante sucesso como entrevistadora, nas revistas Manchete e Fatos & Fotos. Clarice manteve-se escrevendo e publicando crônicas e entrevistas até poucos meses antes de sua morte, causada pelo câncer, em setembro de 1977.

Clarice para crianças

A literatura infantil entrou na vida de Clarice Lispector por meio de seu filho, Paulo, que vendo a mãe absorta, escrevendo um dos seus romances, pede a ela que escrevesse uma historinha para ele. Ocupada, ela responde que lhe escreveria uma depois, mas diante da insistência do menino, Clarice troca a folha da máquina de escrever e dá vida a “O Mistério do Coelho Pensante”, que seria publicado em 1967. A partir de então, Clarice publica mais três títulos para crianças – “A Mulher que Matou os Peixes” (1969), “A Vida Íntima de Laura” (1974) e “Quase de Verdade” (1978), todos trazendo os animais – coelhos, galinhas, peixes e cachorros - como protagonistas e em situações de pleno convívio com os seres humanos. Clarice tinha um grande amor e um imenso respeito pelos animais, enchia-se de alegria ao ter contato com eles, o que transparece em cada linha de suas histórias infantis.
A originalidade dos títulos, curiosos e instigantes, e os temas e focos narrativos inusitados – a vida íntima de uma galinha que tem medo dos humanos; o cachorro-narrador que conta histórias para a escritora – conferem à pequena obra infantil de Clarice uma grandeza de estilo rara. Sua sensibilidade e carinho diante de todas as formas de vida, suas narrativas simples e engraçadas, combinadas a uma linguagem coloquial e próxima do leitor - “Se você quiser adivinhar o mistério, Paulinho, experimente você mesmo franzir o nariz para ver se dá certo. É capaz de você mesmo descobrir a solução, porque menino e menina entendem mais de coelho do que pai e mãe. Quando você descobrir me conta.” -, resultaram em histórias deliciosas, cativantes e divertidas, que continuam conquistando tanto crianças quanto adultos. Além desses quatro títulos infantis, publicados em vida, Clarice ainda reescreveu doze lendas indígenas para crianças em "Como nasceram as estrelas", que foi publicado em 1987.

Bibliografia

Perto do coração selvagem (1944)
O lustre (1946)
A Cidade Sitiada (1949)
Alguns Contos (1952)
Laços de Família (1960)
A Maçã no Escuro (1961)
A Legião Estrangeira (1964)
A Paixão segundo G.H. (1964)
O Mistério do Coelho Pensante (1967)
Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969)
A Mulher que Matou os Peixes (1969)
Felicidade Clandestina (1971)
A Imitação da Rosa (1973)
Água Viva (1973)
A Vida Íntima de Laura (1974)
A Via-Crucis do Corpo (1974)
Onde Estivestes de Noite? (1974)
De Corpo Inteiro (1975)
Visão do Esplendor (1975)
A Hora da Estrela (1977)
Para não Esquecer (1978)
Quase de Verdade (1978)
Um Sopro de Vida (1978)
A Bela e a Fera (1979)
A Descoberta do Mundo (1984)
Como Nasceram as Estrelas (1987)

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Sobre a autora do artigo
Andrea de Barros, redatora, é Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP e doutoranda em Teoria e História Literária pela UNICAMP. Pesquisadora das literaturas brasileira e russa, atualmente desenvolve sua tese de doutoramento sobre a recepção crítica internacional da obra machadiana na Rússia e da obra dostoievskiana no Brasil.
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Fonte:
http://lazer.hsw.uol.com.br/clarice-lispector.htm

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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