Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Luís Fernando Veríssimo (Borges e os Orangotangos Eternos)



Dando seqüência à serie "Literatura ou Morte", que tem como idéia central a criação, por autores contemporâneos, de romances policiais inspirados na obra ou na biografia de grandes nomes da literatura (vide "O doente Moliere", de Rubem Fonseca; "Medo de Sade", de Bernardo Carvalho; e "Os leopardos de Kafka", de Moacyr Scliar, publicados anteriormente na mesma coleção), a Companhia das Letras publica "Borges e os Orangotangos Eternos", do gaúcho Luis Fernando Veríssimo.

Mas não se engane o leitor, pensando talvez que por se tratar de um romance "de encomenda", o livro que agora nos ocupa seja um mero passatempo.

Muito pelo contrário, o romance é, como tudo a que Veríssimo nos tem acostumado, especialmente as suas crônicas, literatura de primeira.

Neste caso, uma literatura na linha de Edgar Allan Poe, que inventou "a história de detetive, e a paródia da história de detetive e a anti-história de detetive", e que, junto com a literatura plena de simulações de Borges, constitui a matéria-prima do romance.

Num congresso de especialistas na obra do escritor norte-americano, realizado na capital Argentina, que Vogelstein, um professor de literatura e tradutor de Porto Alegre, terá a oportunidade de conhecer pessoalmente seu admirado Borges, dividindo com ele a investigação de um misterioso crime cuja vítima é o professor alemão Joachim Rotkopf, um dos mais importantes participantes do encontro.

Será precisamente Vogelstein, cuja admiração por Borges transparece até no nome do seu falecido gato, narrador da história (exceto no último capítulo, no qual cede a palavra ao próprio Borges), que desvendará todo o mistério e esclarecerá as falsas pistas semeadas por Veríssimo ao longo do romance.

Em resumo, "Borges e os orangotangos eternos" é literatura de primeira linha disfarçada de romance "policial", no qual Veríssimo, ao mesmo tempo em que conta uma saborosa história, homenageia Borges e Poe, mostrando-se um digno seguidor dos seus passos.

Uma única observação: numa transposição do português coloquial para o espanhol, o autor coloca na boca de Borges uma frase impossível na sua forma. Durante uma conversa com o inspetor de polícia encarregado do caso, o argentino diz: "Yo y el señor Vogelstein".

Ainda que a forma do espanhol falado em Buenos Aires escape bastante, em alguns casos, das regras ditadas pela Real Academia Espanhola, algumas destas regras se conservam na Argentina com uma firmeza superior à paridade no câmbio do dólar.

E uma delas (talvez, a mais apregoada) é que ninguém pode colocar o "yo" no começo da enumeração de pessoas na frase.

Sem desmerecer o valor do romance, este único erro, no meio de muitas outras citações em castelhano, todas corretíssimas, acaba "gritando" aos olhos do leitor de ambas as línguas, especialmente pelo exagero da involuntária blasfêmia em se colocar esta frase, uma das mais profundas manifestações de falta de cultura, na boca daquele que foi, na opinião deste que escreve, e tenho certeza na do próprio Veríssimo, um dos homens mais cultos nascidos na Argentina.

Fonte:
Borges e os Orangotangos Eternos

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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