Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Aparecido Raimundo de Souza (Caminho Sem Volta)


A jornada através das sombras que agora vamos acompanhar poderia ser a nossa jornada” Rod Serling.

ANA ANGÉLICA SENTE SUA ALMA RÉS AO CHÃO. A mente rodopia por fronteiras indistintas numa bagunça incontrolável. A cabeça parece cindida em mil pedaços. As vistas estão enfermas embaixo dos óculos de grau vencido. No peito, o coração teima acelerar descompassado, como se alguma coisa anormal o estivesse agitando. As pernas bambeiam, os dedos dos pés doem apertados dentro dos sapatos de coriáceo vagabundo. Até as roupas que lhe cobrem a nudez pesam sobre o corpo magro. Atrelado a isso, estranho mal súbito, insistindo dominar o ambiente, como se o universo fosse acabar no próximo minuto.

Nessa agonia sem par, se põe a perguntar: por que a modorra apática, e a desagradável sensação de fadiga lhe transformando a carcaça em estrupício? Se fosse uma pessoa madura, vivida, experiente, ainda vá lá. Contava somente dezenove anos de idade, e, diante disso, não tinha uma explicação plausível para tanto e tamanho sofrimento.

O dia transcorreu pesado e frio, com a mesma miscelânea circense de sempre. As horas lhe enterraram num sepulcro hostil e inviolável, tal como se a vida lhe tivesse tamponado num buraco fundo e sem retorno. E aquele maldito quarto de pensão, desgraçadamente mal iluminado, completava o quadro dantesco da sua triste e malfadada sina. Tentara, por diversas vezes, dominar o astral, escapar da turbulência repulsiva; fugir da alienação inconcebível e poderosa. Não conseguira. O espírito, perturbado demais, a colocava em posição inferior, num patamar que lhe deixava totalmente sem forças, carente e muito só. Outras ninfetas, indiferentes a dor sentida, zombavam da sua cara, escarneavam pontos frágeis, motejavam, na verdade, da sua posição ridícula. No fundo, dava a impressão que aguardavam, pacientemente, sua entrada nos labirintos obscuros da neurastenia.

Com os pensamentos embaralhados e, em tumulto desordenado, perguntava a si mesma, aflita, como caíra tão rapidamente naquela incúria, deixando-se levar pelo injustificado das incertezas e das horas tediosas da solidão? Onde ficara a vontade de vencer os obstáculos, o desejo de transpor barreiras e saltar infortúnios inesperados?

Sem obter respostas à altura dessas indagações, Ana Angélica, praticamente encurralada sobre os infortúnios da sua própria desgraça, lamentava ter deixado pequenos contratempos dominarem sua existência, a ponto de vegetar ao deus-dará. Afinal de contas, qual o motivo, ou melhor, o que ensejou toda essa transformação em sua tão curta jornada?

Pôs-se, de repente, a lembrar o passado. Fazia pouco mais de cinco meses, seu pai lhe colocara no olho da rua. Motivo? Uma indesejável gravidez. Até então, Ana Angélica era a melhor filha do mundo. Com a revelação do exame laboratorial feito às pressas, perdeu a posição de “princesa” para aquele cidadão que gozava de alta reputação na cidade. Na verdade, a autoridade máxima do judiciário local: o juiz!

Como representante da lei, o cabeça da família precisava dar exemplo. Assim, o velho genitor virou-lhe as costas, mostrando, com esse gesto, a porta da rua e escancarando a crueldade que começava do portão que se abria, como um leque, para as intempéries da sorte. A decadência da moça tornou-se maior, praticamente se fez mais pesada, a partir do instante em que, ao procurar abrigo na casa do namoradinho que lhe jurara amor eterno, este lhe virara as costas. Leandro, descendente de tradicional família e de renome no campo médico, ao saber da novidade, jogou para o alto os anos de medicina em boa faculdade, o consultório ricamente montado, a clínica cardiológica e o comodismo de viver às expensas paternas. Na calada da noite o doutorzinho deixou o lugarejo a horizontes ignorados.

Em povoados de extensão limitada, não é preciso muito esforço para cair na boca do povo. Envergonhada, sem comida e teto, e, ainda, com a agravante da fuga do pai da criança, a solução plausível para Ana foi embarcar no primeiro trem. Aportou em São Paulo, ou mais precisamente na Estação da Luz. Sem condições de sobrevivência, não demorou encontrar os degraus mal cheirosos do submundo da prostituição. E nesse ambiente árido e infértil, Ana mergulhou de cabeça.

Bonita, formosa e gentil, não lhe faltavam noitadas regadas a cervejas e bebidas baratas. Os fregueses variavam: ora saia com um marginal, outra carregava para a cama um gringo desses bem nojentos. Às vezes dormia com almofadinhas elegantes, casquilhos vestidos a rigor ou efeminados. A maioria deles drogados e viciados em crak, maconha e cola de sapateiro. A tempo igual, o espaço que mediava entre a concepção e o nascimento não interrompia a hora derradeira, ao contrário, diminuía, diminuía, diminuía...

Nessa pressa de vida fácil o tempo sempre corre com rapidez impossível. Voava, para Ana Angélica como um Pégaso desgovernado, trotando atabalhoadamente na direção do precipício fatal. Atiçada pela elevada valorização do corpinho esbelto e garboso, a matrona, dona do bordel não perdia clientes, longe disso, multiplicava o conjunto de paroquianos como fiéis num culto religioso.

Os que frequentavam a casa só queriam desfrutar daquela elegante bem proporcionada e sensual, caída dos céus, como um anjo em forma de gente. Por essa razão a cafetina conhecida como ”Maria Padilha”, em menos de três semanas, adquiriu dois bons apartamentos quitinetes no edifício “Balança Mais Não Cai,” na Rua Major Sertório, perto da antiga rodoviária e comprou um carro novo para desfilar.

Com a mente ainda em desalinho, e sem um policiamento ostensivo para conter a avalanche de desgraças que a atormentava, Ana Angélica continuava a se questionar dessas mudanças bruscas, quando, entrementes, lembrou da arma que a colega de quarto guardava na prateleira. Resoluta, caminhou até lá. Precisava agir rapidamente. Logo a parceira chegaria do programa que saíra para fazer. Abriu a gaveta. Um trinta e oito cano curto, cabo em madre pérola, municiado, descansava entre as calcinhas e sutiãs. Apanhou, o revólver, decida, firme, resoluta, feições contraídas, o coração quase a saltar peito a fora. Lentamente se acomodou na banqueta diante do espelho com um pedaço de vidro faltando numa das extremidades:

-“Adeus, mundo. Adeus, vida.
Pai, mãe, me desculpem!...”

Num último ímpeto materno, alisou a barriga carinhosamente. Cinco meses. Cinco longos meses...

Seria um menino ou uma menina?

Sem assistência médica e condições de visitar um ginecologista, o feto sobrevivia desidratado e a trancos e barrancos. Que nome lhe daria? Como seria o rostinho? Com quem pareceria? Talvez, quem sabe, com ela, ou...

Nesse instante amargo, somatizado a tantos outros percalços, dos seus olhos de menina mulher caíram algumas lágrimas ligeiras. Lembrou-se do pai, e da ultima conversa que tiveram antes de acontecer toda essa bagunça em sua vida: -“Filha, disse ele a certa altura - aequam memento rebus in arrudas servare mentem, aconteça o que acontecer. Jamais entregue os pontos. Seja forte, lute pela vida, brigue, esperneie, mesmo que todo seu eu interior transpire solidão e agonia”(*).

Todavia, agora, era tarde demais. Das palavras sábias do velho pai, só recordações distantes agonizando no peito despedaçado.

- “Perdoe a mamãe, meu neném querido, seja você quem for. Não está certo o que vou fazer. Não tenho o direito de tirar sua vida. Você não vai entender esse gesto, mas... Mas... Será melhor... Será melhor que você não conheça esse lado mau e negro. Mamãe ama você... Mamãe ama você... Mamãe aaa...”.

O tiro ecoou forte, viajou certeiro em busca do alvo fácil, e, num instante dolorido, virou uma espécie de loopem tremendamente perverso dentro do aposento mal iluminado. Pessoas danaram a gritar. “Maria Padilha” esmurrou a porta com vigor. Um homem berrou para que alguém acionasse a polícia.

Enquanto isso, dobrada sobre si mesma, deixando escapar desejos mal resolvidos e envolta numa enorme possa de sangue, Ana Angélica, a querida e desejada dama da noite, agora metida numa via de mão única e sem retorno, soltava o derradeiro e lancinante grito de estertor.

(*) “Lembra-te de manter o ânimo justo nos momentos difíceis”.

Fontes:
Texto enviado pelo autor

Imagem = http://familiaalianca.blogspot.com

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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