Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 23 de outubro de 2011

Alberto Paco ( Uma Estranha Mulher)


O apelido dela era “peixeira”, mas o nome ninguém sabia, nem se preocupava em perguntar. Alta, magra e sisuda, tinha apenas trinta anos de idade, embora aparentasse muito mais.

Suas vestes eram pretas e longas, deixando aparecer somente os sapatos pretos e rasos de verniz. Completando sua indumentária, um lenço preto como as vestes, amarrado por baixo do queixo pontudo, cobria-lhe por inteiro a cabeça e as orelhas, sem deixar entrever o cabelo, que ninguém sabia qual era a cor.

Essa taciturna figura sobrevivia da venda de peixe, que uma camionete lhe entregava uma vez por semana. Daí provinha sua alcunha.

O diminuto casebre em que morava, na pequena aldeia encravada na encosta do rio Douro, na Província de Trás-os-Montes, em Portugal, tinha somente a porta de entrada e uma estreita janela, ambas confeccionadas com madeira grossa e pesada. A janela estava permanentemente fechada. A porta era entreaberta o suficiente para dar passagem à enigmática figura da “peixeira”.

Os curiosos, que formavam a totalidade dos moradores locais, esticavam os pescoços, querendo bisbilhotar o interior da diminuta moradia, que se resumia a um único cômodo de apenas dezesseis metros quadrados. As paredes eram constituídas de grossas e irregulares pedras, com espessura de no mínimo quarenta centímetros.

O telhado sem forro, de telhas velhas e desgastadas pelo tempo, era sustentado por vigas enegrecidas pela fumaça da fogueira que ardia em cima de grossa laje de cantaria, colocada em um dos cantos do casebre, à guisa de lareira.

No outro, canto uma cama de ferro, cujo estrado era formado por grossas tiras de borracha entrelaçadas, cobertas por um colchão de cor indefinida e recheado de palha de centeio.

Uma pequena mesa de madeira, de um metro quadrado, com uma banqueta feita de um tronco de árvore, colocadas no centro do cômodo por sobre o chão de terra batida, completavam a modesta mobília da estranha mulher.

O inverno naquelas paragens era rigoroso. Os aldeões se preveniam para os dias mais frios, carregando grande quantidade de lenha apanhada nas matas que circundavam a aldeia.

A “peixeira” seguia o exemplo dos outros moradores, apenas com uma diferença. Os camponeses carregavam a lenha em barulhentos e desengonçados carros puxados por parelhas de bois ou em feixes amarrados sobre o lombo dos burricos. Enquanto isso, a pobre mulher, que nada tinha de seu, carregava os pesados fardos na cabeça, percorrendo a grande distância a pé, entre seu humilde barraco e o local onde se abastecia de lenha.

Certa manhã, fria e cinzenta de fim de outono, a esguia “peixeira” pegou seu podão, um pedaço de corda grossa e dirigiu-se para o extenso e cerrado matagal. Com a afiada ferramenta cortou boa quantidade de galhos secos e amarrou-os com a corda. Retesando seus magros e longos braços, ergueu o pesado feixe de lenha, colocou-o na cabeça e dirigiu-se ao estreito caminho que trilharia de volta para casa.

Ao pular o pequeno regato de água cristalina que cortava o caminho entre dois muros de uma propriedade rural, sentiu um líquido quente escorrer por suas coxas.

Pousou o pesado fardo de lenha sobre um dos muros que ladeavam o caminho e agachou-se ao lado do riacho.

Arregaçou a longa saia e abriu as pernas, ficando à espera de que um ser vivo saísse de seu ventre.

Após algumas contrações, fez um violento esforço e finalmente nasceu um saudável menino.

Pegando o podão que carregava na cintura, cortou o cordão umbilical. Lavou o recém-nascido na água fria do regato, embrulhou-o em seu grosso xale preto e amarrou-o contra o peito para aquecê-lo.

Carregou novamente o feixe de lenha na cabeça e caminhou lentamente em direção de seu mísero casebre.

A coragem e o esforço sobre-humanos daquela enigmática mulher foram admirados e respeitados por todos os moradores da pequena localidade.

As piedosas esposas dos aldeões puderam finalmente adentrar o casebre da “peixeira”, levando-lhe roupas e alimentos, enquanto os maridos levavam montes de lenha para o inverno que se aproximava.

Entretanto, ninguém ficou sabendo quem era o pai daquela criança, porque a “peixeira” nunca fora vista na companhia de nenhum homem. Apesar das perguntas diretas formuladas pelas matronas da aldeia, ela nunca lhes satisfez a curiosidade.

O garoto cresceu saudável, brincando com as outras crianças do lugar. Era esperto e comunicativo.

Um dia, após atingir cinco anos de idade, grudou-se nas pernas de um policial chamando-o de pai. Dali por diante, qualquer homem fardado que passasse por perto era cercado pelo garoto, que se agarrava nas pernas dele gritando: Pai! Pai! Pai!

Na pequena aldeia onde nada acontecia, aquilo serviu de especulações maldosas, ocasionando até desavenças entre os poucos policiais do lugar e suas esposas. Com o tempo tudo ficou no esquecimento. Nas poucas vezes em que ainda se comentava o assunto, o gesto do garoto era atribuído à maldade de algum gaiato que incutiu na mente da criança aquela estranha mania, para causar desavença entre os moradores.

A “peixeira” continuou por muitos anos sua vida simples, vendendo seu peixe e cuidando do filho, sem nunca revelar quem era o pai dele.

Fontes:
Olga Agulhon e Eliana Palma (organizadoras). VI Coletânea 2011, da Academia de Letras de Maringá. Maringá: ALM, 2011.
Imagem = Iplay Link

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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