Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Isabel Furini (A Disputa)


Apoiou as unhas longas e grossas sobre as grades e arranhou-as violentamente. Um chirriado agudo reverberou no lugar. A fila enorme que acompanhava as curvas das nuvens, tremeu. Alimentou-se das emoções de medo e incerteza. O arroto com odor de enxofre e a estrondosa gargalhada aumentaram o temor das almas. Depois observou esse homem magro que caminhava lentamente. Olhava-o com a voracidade de um vampiro. Uma mente brilhante, murmurou.

São Pedro, o bondoso, organizava a fila. Algumas almas estavam ansiosas e moviam suas formas feitas de matéria etérica, formas luminosas e muito semelhantes aos corpos físicos, mas sem o peso e as limitações dos verdadeiros corpos. Outras, acostumadas a esperar em filas de mercados e bancos, permaneciam quietas e resignadas. As mais impetuosas agitavam no ar as mãos quase transparentes, elas queriam entrar.

Na recepção, antes do segundo portal, o chamado Portal Definitivo, Deus, rodeado pelos seus anjos de belas asas brancas, ia julgando as almas com infinita sabedoria. Algumas podiam entrar no céu, outras caíam vítimas de suas más ações.

No momento em que esse homem idoso, calmo, aproximou-se, o próprio guardião dos portões, São Pedro disse:

– Peço perdão para ele, Senhor, ele foi um escritor brilhante.

O diabo, que permanecia em silêncio, no lado esquerdo do portão, encostado nas grades, reclamou:

– Ele é meu, Altíssimo. Brilhantes foram muitos militares e arrasaram cidades. Brilhantes foram muitos reis e massacraram o povo. Até alguns papas como Bórgia...

– Esse escritor defendeu os oprimidos! Merece seu perdão, Senhor.

– Ele é meu! Há tempos que não recebo alguém com uma mente, digamos, tão criativa, tão suculenta... Falou o diabo arrumando sua capa vermelha.

– Ele foi um bom homem.

– Não é essa a questão, Pedro - gritou enfurecido o diabo e bateu o tridente na ponta de um asteróide – A questão é que ele foi ateu, negou sua existência, Senhor.

– O lugar dele é no Céu!

– Não, Pedro. O lugar dele é no inferno.

– Céu!

– Inferno! Ateus vão ao inferno!

– Não seja preconceituoso, Satã – disse Deus. E Pedro, ao ouvir a voz de Deus, ajoelhou-se em sinal de humildade.

– Você sabe, anjo do mal, que eu amo todos os meus filhos e não tenho preconceitos contra ateus. Alguns me adoram só com os lábios, por isso eu não julgo os homens segundo suas palavras. Eu meço corações. Se julgasse os homens segundo suas palavras, o céu estaria cheio de retóricos e de políticos...

– Aproxime-se, filho.

O escritor se aproximou lentamente. Estaria sonhando?

Pedro pegou uma faca feita de luz violeta e abriu o peito do escritor. Mas ele não sentiu dor. Pedro retirou o coração e colocou-o em uma balança. Se o prato da balança desce, a alma do morto cai no abismo da culpa e da desolação. Pedro fechou os olhos e escutou um Ahhh!!! Era o diabo.

O peso do coração apontava: bondade, compaixão e fraternidade. E Pedro, triunfante, abriu os Portões para essa nobre alma. O escritor estava entrando no Céu quando Satã gritou:

– Antes de entrar, por favor, autografe este exemplar de seu último livro. Quero mostrar aos outros anjos caídos que quase, quase consegui sua alma.

Fonte:
Isabel Furini (organizadora). Passageiros do Espelho: antologia de contos. Curitiba: Íthala, 2011.

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to