Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 6 de maio de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 17)

Obs: Corrigindo uma falha na sequencia no Universo de Versos, como se diz por cá "endoidei o cabeção" e pulei do 16 para o 18. Para os que colecionam, segue então o 17. Amanhã prossigo com a sequencia normal.
perdoe a falha,
José Feldman
 
Uma Trova do Paraná
-
MARIA ELIANA PALMA – Maringa

Corpo mole, mal antigo,
não é dengue nem catiça...
O seu mal, meu velho amigo,
é excesso de preguiça.
---------------------
Uma Trova Lírica/Filosófica de Pouso Alegre/MG
-
ROBERTO RESENDE VILELA - Pouso Alegre
Cai a chuva... o rio inunda...
o vento torce o arvoredo...
Mas, se a raiz é profunda...
nenhuma planta tem medo!
------------------------------
Uma Trova Humorística de Maringá/PR
-

A. A. DE ASSIS

– Chamaste meu pai de otário?
Repete-o, se és homem, vem!
– Chamei não, pelo contrário,
mas que ele tem cara, tem!

------------------------------
 Uma Trova do Feldman
 -

JOSÉ FELDMAN – Maringá/PR
Vivi em busca de carinho
Em castelos de ilusão
Tanto tempo estou sozinho
Quem me aquece é a solidão.
------------------------------
Uma Trova Hispânica do México
-
MARTHA ALICIA QUI AGUIRRE

El deshonesto se envicia
de abusar del enjuiciado;
goza de actuar sin justicia,
sin temor de ser juzgado.
----------------------------
Uma Quadra Popular Portuguesa
-
Para não fazeres ofensas
e teres dias felizes,
não digas tudo o que pensas,
mas pensa tudo o que dizes.
---------------------------
Trovadores que deixaram Saudades
-
ARGENTINA DE MELLO E SILVA – Curitiba/PR
1904 – 1996

Eu hoje chamo saudade
o que ontem chamava amor.
A minha felicidade
mudou de nome e de cor.
------------------------
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba (1944 – 1989)
O Hóspede Despercebido

-
  Deixei alguém nesta sala
que muito se distinguia
de alguém que ninguém se chamava,
quando eu desaparecia.
Comigo se assemelhava,
mas só na superfície.
Bem lá no fundo, eu, palavra,
não passava de um pastiche.
Uns restos, uns traços, um dia,
meus tios, minhas mães e meus pais
me chamarem de volta pra dentro,
eu ainda não volte jamais.
Mas ali, logo ali, nesse espaço,
lá se vai, exemplo de mim,
algo, alguém, mil pedaços,
meio início, meio a meio, sem fim.
--------------------------------------
Uma Poesia de Itapema/SC
-
PEDRO DU BOIS
Futuro

Não havia o traço esbranquiçado
rasgando o firmamento, nem a britadeira
e o caminhão misturando cimento e areia:

manualmente transportados
manualmente contados
manualmente colocados
blocos de pedras
superpostos
sobrepostos
erguiam paredes
em pequenos arcos
de telhados

sobre o topo o homem
sonhava traços de fumaça
cortando o firmamento.
------------------------
Uma Sextilha de Caicó/RN
-
HÉLIO PEDRO SOUZA

Bate forte um coração
quando um sonho é bem sonhado,
o caminho é mais florido
fica o céu mais estrelado,
e a lua aumenta o seu brilho
se o sonho é realizado.
-------------------------
Uma Trova Ecológica
-
Uma Poesia de Catembe/Moçambique

-
NOÊMIA DE SOUZA
1926– 2001
Infelizmente Jamais


No instintivo temor das ruas
Maria hesitava nos passeios
até não pressentir
o mais fugaz
presságio.

Contorno de sombra
à berma de uma além –asfalto
fatal presságio da rua
infelizmente já não
a intimida.

Cumprido o funesto prenúncio
já atravessava uma avenida
infortunadamente já nenhum risco
intimida o espírito
de Maria.

Doentiamente eu amaria ver
Maria ainda amedrontada
e nunca como depois
em que já nada a intimida.
------------------------------
Uma Tanka do Rio de Janeiro/RJ
-

SILVIA MOTA
Sob o aspecto literal, Tanka significa poema curto (tan - curto, breve; e ka - poema ou música). Constitui-se em estilo clássico de poesia japonesa. Além de ser uma forma popular de poema de amor, ao longo de séculos foi, também, veículo para expressar interdependência com a natureza. Formado por 31 sílabas poéticas, trata-se de um poema de cinco versos: 5-7-5-7-7 e divide-se em duas estrofes: a primeira formada por 5-7-5 sílabas, chamada de kami no ku ("primeiro verso") e a segunda, com 7-7 sílabas, chamada de shimo no ku ("último verso"). A mais antiga coletânea da poesia "Tanka", na época chamada de "Waka" (poesia do Japão), foi compilada no século VII (743-759), sob a denominação "Manyoshu". Compõem-se de 20 volumes, 4516 poemas, escritos por mais de 400 praticantes, do imperador ao simples camponês. Até hoje a família imperial realiza no início do ano uma reunião cerimoniosa onde o imperador, a imperatriz, os príncipes e as princesas apresentam seus "tanka". Trata-se do "Shinen-uta-kai-hajime". A participação popular ocorre através dos "tanka" enviados pelo povo, criados a partir de tema sugerido pelo imperador. Deve-se ressaltar que o "Kimiga-yo", Hino Nacional do Japão, é um "tanka" escrito por tankista anônimo que consta na coletânea Kokinshu, compilada no século X (905). O "tanka" surge no Brasil, pela primeira vez, com Teijiro Suzuki (pseudônimo Nanju), um dos primeiros imigrantes japoneses. Por outro lado, quem o implantou e divulgou na colônia japonesa foi Kikuji Iwanami.(http://silviamotatankas.blogspot.com.br/)

Árvore graúda
casca de fibras com sulcos -
sequóia milenar
      Altiva - quase no céu -
      consagrada Natureza
--------------------------
Um Soneto de Mariana/MG
-
CLÁUDIO MANOEL DA COSTA
VIII


Este é o rio, a montanha é esta,
Estes os troncos, estes os rochedos;
São estes inda os mesmos arvoredos;
Esta é a mesma rústica floresta.

Tudo cheio de horror se manifesta,
Rio, montanha, troncos, e penedos;
Que de amor nos suavíssimos enredos
Foi cena alegre, e urna é já funesta.

Oh quão lembrado estou de haver subido
Aquele monte, e as vezes, que baixando
Deixei do pranto o vale umedecido!

Tudo me está a memória retratando;
Que da mesma saudade o infame ruído
Vem as mortas espécies despertando.
----------------------------------------
Uma Poesia de Longe-
-

    HERBERTO HELDER – Funchal/Ilha da Madeira
Sobre um Poema


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
--------------------------------------------
Versos Melódicos
 -
JUCA STORONI – RJ
No Bico da Chaleira (polca,1909)


Diariamente, o Morro da Graça no bairro das Laranjeiras no Rio de Janeiro era freqüentado por dezenas de pessoas - senadores, deputados, juízes, empresários ou, simplesmente, candidatos a cargos públicos ou mandatos eletivos. A razão da romaria era que no alto do morro morava o general senador José Gomes Pinheiro Machado, líder do Partido Republicano Conservador, que dominou a política nacional no início do século.

Pois foi para satirizar o comportamento desses bajuladores que o maestro Costa Júnior (Juca Storoni) fez a animada polca "No Bico da Chaleira", sucesso do carnaval de 1909: "Iaiá me deixe subir nessa ladeira / eu sou do grupo que pega na chaleira...". E tamanha foi a popularidade da composição que acabou por consagrar o uso dos termos "chaleira" e "chaleirar" como sinônimos de bajulador e bajular. Isso porque, dizia-se na época, o pessoal que subia a ladeira da Graça disputava acirradamente o privilégio de segurar a chaleira que supria de água quente o chimarrão do chefe.
(Cifrantiga)
-
Iaiá
me deixa subir esta ladeira
Eu sou do bloco
Mas não pego na chaleira
Na casa do Seu Tomaz
Quem grita
é que manda mais
Que vem de lá
Bela Iaiá
Ó abre alas
Que eu quero passar
Sou Democrata
Águia de Prata
Vem cá mulata
Que me faz chorar

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to