Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 7 de maio de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 24)

Uma Trova do Paraná
-
ADILSON DE PAULA – Joaquim Távora

Pôr do sol, campos desertos,
e o pinheiro então parece
estar de braços abertos
a sussurrar uma prece.
–––––––––––––––––––––––––––-
Uma Trova Lírica/Filosófica de Tambaú/SP
-
SEBAS SUNDFELD

Não necessita de sorte
toda existência de bem:
- uma planta ergue o seu porte
sobre as raízes que tem.
––––––––––––––––––––––––––––––––-
Uma Trova Humorística de Garibaldi/RS
-
LACY JOSÉ RAIMUNDI

É mentira ou é verdade?
É verdade ou é mentira?
Se a mulher disser a idade
não acredite: confira!…
–––––––––––––––––––––––––––––––-
Uma Trova do Feldman
-
JOSÉ FELDMAN – Maringá/PR

Nas minhas tardes de criança,
brincadeiras de corrida.
Hoje danço em outra dança,
danço no circo da vida.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––-
Uma Trova Hispânica da Venezuela
-
CLARA TROCEL DE MEZA

Cargado de sentimientos,
un día andaste en mi vida,
entre nubes y tormentos
te cure toda tu herida.
–––––––––––––––––––––––––––
Uma Quadra Popular Portuguesa
-
O mundo só pode ser
melhor do que até aqui,
- quando consigas fazer
mais p'los outros que por ti!
––––––––––––––––––––––––––––––-
Trovadores que deixaram Saudades
-
LUCY SOTHER ROCHA – Belo Horizonte/MG
1928 – 2006

Murmuram de nós que amamos
 um ao outro, mas que importa?...
 Importa o que murmuramos
 nós dois, por detrás da porta...
–––––––––––––––––––––––––––––––-
Um Haicai de São Paulo/SP
-
IRENE M. FUKE

Mãos arroxeadas
Se aquecem ao sol de inverno.
Mendigo na praça.
––––––––––––––––––––––––––––––
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba (1944 – 1989)
Incenso Fosse Música


isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
–––––––––––––––––––––––––
Uma Poesia de Belém/Pará
-
ANDREEV VEIGA
Persiana


a luz listrada acende o mofo que ilustra a vida no estreito da cama
minha mãe atravessa a morte sem fazer barulho
me assusto com o copo d'água
pousa uma gaivota em meus lábios se afogando

a morte surge sempre suave para os mortos
deus não haverá de conceber a saudade ao mar
só aos que ficarão
pois estes não têm barcos nem são deuses
mas
suficientemente estúpidos como o céu de pessoa

a persiana retém os desfiladeiros neste cômodo
o que escrevo desaparece com a noite
fica na memória o eco
fragmentando o pouco do café

os vendavais precisam das chuvas
para que as horas revelem às montanhas
o suicídio que as habita

já não atento migrar para o imenso da areia

(tudo é indefinido até a hora das ondas)
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Uma Sextilha de Porto Alegre/RS
-
MILTON SEBASTIÃO SOUZA

O sextilheiro padece
para se manter na trilha,
ou a internet demora
para trazer a sextilha,
ou, quando menos espera,
traz duas, três, uma pilha…
––––––––––––––––––––––––––––––––––
Uma Trova Ecológica
 

––––––––––––––––––––
Uma Poesia de Huambo/Angola
-
MARIA ALEXANDRE DÁSKALOS


O garoto corria corria
não podia saber
da diferença entre as flores.
0 garoto corria corria
não podia saber
que na sua terra há
morangos doces e perfumados,
o garoto corria corria
fugia.

Ninguém lhe pegou ao colo
ninguém lhe parou a morte.
––––––––––––––––––––––––––
Uma Trova sobre a Trova do Rio de Janeiro/RJ
-
JOÃO FREIRE FILHO

Apesar do espaço estreito
da trova, em que me reflito,
é nele que eu tenho feito
viagens…pelo infinito!
–––––––––––––––––––––––––––––––-

Um Soneto do Rio de Janeiro/RJ
-
J. G. DE ARAUJO JORGE
1914 – 1987
Dedicatória


Este meu livro é todo teu, repara
que ele traduz em sua humilde glória
verso por verso, a estranha trajetória
desta nossa afeição ciumenta e rara!

Beijos! Saudades! Sonhos! Nem notara
tanta cousa afinal na nossa história...
E este verso - é a feliz dedicatória...
onde a minha alma inteira se declara...

Abre este livro... E encontrarás então
teu coração, de amor, rindo e cantando,
cantando e rindo com o meu coração...

E se o leres mais alto, quando a sós,
é como se estivesses me escutando
falar de amor com a tua própria voz!
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––-
Uma Poesia de Longe
-
VELIMIR KHLEBNIKOV – aldeia de Malye Derbety, República da Calmúquia / Russia
1885 – 1922


Neste dia de ursos cerúleos
a correr sobre cílios tranqüilos
transvejo para além da água azul
o acordar na taça das pupilas.

Na colher de prata de olhos latos
vejo a procelária em mar sonoro
e ao largo vai a Rússia dos pássaros
transvoando entrecílios ignotos.

Marventoso em celamor soçobra
a vela de alguém na azul esfera,
e eis que o desespero tudo engolfa
trovão e porvir de primavera.

(Tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)
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Um Poetrix do Rio de Janeiro/RJ
-
O Poetrix é um terceto que não pode ultrapassar 30 sílabas poéticas, mas não determina normas para a distribuição destas sílabas dentro do poema. O poetrix tem temática livre e pode acontecer no passado, presente ou futuro
-
LILIAN MAIAL
Auto-estima


o desamor não tem desculpa
tempo não é desabono
são folhas secas que enfeitam o outono
–––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Versos Melódicos

ABDON LYRA – PE/RJ (melodia) e ADELMAR TAVARES – PE/RJ (versos)
Estela (modinha, 1910)


De noite
O plenilúnio é como um sol
Nasce tristonho
Olhando pelo céu
Beijando o mar
As estrelas no azul
Brilham sorrindo,
Estás dormindo
E eu venho, meu amor,
Te despertar

Ai, como beija o mar
O luar
E o mar suspira e geme
E treme
E no alto céu sorrindo lindo
Acorda, abre a janela
Estela

Desperta
Dorme toda a natureza
Que beleza
Venho unir tua voz
A minha voz
Entre lírios, violetas, crisantemos
Cantaremos
Como dois infelizes rouxinóis

Ai, como beija o mar
O luar
E o mar suspira e geme
E treme
E no alto céu sorrindo lindo
Acorda, abre a janela
Estela

No teu leito de seda
Dormes quieta
E o teu poeta
Canta para o teu sono suavizar
Dorme, que eu cantarei
Como é o suave canto de ave
Que gorjeia de amor
Fitando o luar

Ai, como beija o mar
O luar
E o mar suspira e geme
E treme
E no alto céu sorrindo lindo
Acorda, abre a janela
Estela

Canto
Embora amanhã
Encontres morta
À tua porta
A visão de quem te amava no abandono
Dirás ao ver Estela
Que sou eu o pombo correio
O rouxinol que te embalava os sonhos

Ai, como beija o mar
O luar
E o mar suspira e geme
E treme
E no alto céu sorrindo bonito
Não abras a janela
Estela

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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