Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 18 de junho de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 58)


Uma Trova do Paraná
-
CIDINHA FRIGERI – Londrina

Água pura e cristalina
no meu pote mergulhou…
E como luz que ilumina
minha sede então saciou.
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Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro
-
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAUJO
1922 – 2004

Podes ser rico e ser nobre,
se a esperança não te assiste,
não vejo vida mais pobre,
nem vejo sorte mais triste!
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Uma Trova Lírica/ Filosófica de Caxias do Sul/RS
-
MARILENE CAON PIERUCCINI

Três rosas no meu jardim
são de Deus pura magia.
Elas trazem para mim
o encanto da poesia.
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Uma Trova Humorística, de Pouso Alegre/MG
-
NEWTON MEYER
1936 – 2006

Verão assim, credo em cruz?
– Foi tanto calor na cuca,
que uma porca deu à luz
três leitões à pururuca!!!
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Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO  - Natal/RN
1951 - 2013

A lua, sem empecilho,
desfilando, linda e nua,
deixa também o seu brilho
“nas poças d’água da rua”!
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Uma Trova Hispânica dos Estados Unidos
-
CRISTINA OLIVEIRA CHAVEZ

El hambre, guerra y pobreza
que vivimos cada día
pinta en el rostro tristeza
tapa el Sol, de la alegría...
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Uma Trova sobre Saudade, de Bauru/SP
-
ERCY MARIA MARQUES DE FARIA

Saudade é um velho barquinho
que vence o tempo e a distância
e recolhe, no caminho,
os pedacinhos da infância ...
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Trovadores que deixaram Saudades
-
LEÔNCIO CORREIA – Paranaguá/PR
1865 – 1950

No mar aberto em feridas
em cuja dor te renovas,
sana-se o mal de outras vidas
em meio de grandes provas.
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Uma Trova sobre a Trova, do Príncipe dos Trovadores
-
LUIZ OTÁVIO
1916-1977

Do Passado faço culto!
Mas tenho cá o meu rito:
— Se triste, eu o sepulto!
Se feliz, o ressuscito...
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Um Haicai de São Paulo
-
JOÃO TOLOI


Clareira na mata —
Velho jacarandá caído
Carregado de flores.
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Uma Trova do Rei dos Trovadores
-
ADELMAR TAVARES
1888 – 1963

Já lá vai morrendo o dia,
e hoje ainda não te vi.
- O dia em que não te vejo,
é dia que não vivi…
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O Universo de Cora
-
CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Goiás (1889 – 1985)
Eu Voltarei…


Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.

Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvore de Roseta.

Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.

Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.

E eu morrerei tranquilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei...
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.

Eu voltarei...
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Uma Poesia do Rio de Janeiro
-
CECILIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
1901 – 1964
Serenata


Uma voz cantava ao longe
entre o luar e as pedras.
E nos palácios fechados,
entregues às sentinelas,
— exaustas de tantas mortes,
de tantas guerras! —
estremeciam os sonhos
no coração das donzelas.
Ah! que estranha serenata,
eco de invisíveis festas!
A quem se dirigiam
palavras de amor tão belas,
tão ditosas
(de que divinos poetas?),
como as que andavam lá fora,
pelas ruas e vielas,
— diáfanas, à lua,
— graves, nas pedras...?
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Um Limerique de Ribeirão Preto/SP
-
NILTON MANOEL
Limerique Urbano II


Na avenida do cemitério
Quem transita segue sério
Quando há lua cheia;
O medo permeia
e sempre há um quê de mistério
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Uma Poesia de Guimarães/Portugal
-
JOÃO GARÇÃO
(1968)
Sentimento

 
A água está parada, muito quieta no meio da noite.
E é preciso perguntar-lhe: és água de um rio?
És água dum mar? És água dentro dum copo
sobre uma mesa muito antiga e sonhada?
És água para um cavalo beber? Para um cão se banhar?
Para um homem e uma criança se lavarem ao relento?
Para uma mulher, para um gato, para um lobo?

E a água talvez não te responda. Nunca te responda.
Ou te responda tarde de mais. Ou nem sequer te ouça.

Mas tu pergunta. Pergunta e espera pela resposta.
Mesmo que os minutos passem entre ti e a água
E devagar uma silhueta se desloque
e depois se detenha no meio das árvores imóveis.
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Um Soneto de Salvador/BA
-
GREGÓRIO DE MATOS
1623 – 1696
Soneto a Uma Saudade


Em o horror desta muda soledade,
Onde voando os ares a porfia,
Apenas solta a luz a aurora fria,
Quando a prende da noite a escuridade.

As cruel apreensão de uma saudade!
De uma falsa esperança fantasia,
Que faz que de um momento passe a um dia,
E que de um dia passe à eternidade!

São da dor os espaços sem medida,
E a medida das horas tão pequena,
Que não sei como a dor é tão crescida.

Mas é troca cruel, que o fado ordena;
Porque a pena me cresça para a vida,
Quando a v ida me falta para a pena.
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Uma Poesia de Longe
-
ADONIS – Síria
(Ali Ahmad Sa'id)
A Mão da Nuvem

1
Ao voltar de viagem, acordei ontem, perturbado.
Sonhava –
no meu sonho vi que a luz subia como uma
planta cujo nome ignoro mas que se assemelha ao
girassol.
Passaram pelo sonho
numerosas cidades, sem casas,
numerosas casas, sem quarto,
numerosos quartos, sem cama,
numerosas camas sem sono.

 2
Como é voluptuoso ver no ar
desfazerem-se os botões de uma rosa
à luz da madrugada,
quando ela ainda mal desperta!

 3
Através das frestas na porta e nas janelas do meu quarto
vem o ritmo dos passos, nem os do dia, nem os da noite.
São os passos de uma mulher eternamente vagabunda
que nunca envelhece, não repousa, não dorme.
O seu nome é o vento.

 4
Não consegui ainda
convencer o tempo
a associar-se a mim para lançar o seu dado verde.
5
Aqui, onde agora habito,
o vazio não pára de se queixar.
Não arranja nada para fazer
E não tem casa.

 6
Sei que o meu tom, por vezes,
é um tom de celebração,
mas é uma celebração votada ao vento.
Isto porque o que ele nos envia
é só as missivas da dúvida
e os mensageiros da incerteza.

 7
Ouço em viagem vozes estranhas.
Só as pode guardar um museu destinado
à infância da palavra.

8
A viagem ensinou-me
a ler o tempo
traçado pela mão da nuvem.

 9
Onde encontrar o elixir
que ande sempre a meu lado,
que venha sempre de uma outra época?

 10
Ontem, a noite veio a pé para me visitar,
como se se recusasse a apanhar o mesmo comboio
que as estrelas.

 11
Amadurece-me, ó sol.
Colhe-me, ó noite.

 12
Nenhuma proteção para a viagem pelo frio deste mundo
além da linguagem,
mas a linguagem é um pano cheio de buracos.

13
As margens aceitaram
ser uma casa para as ondas,
porque as próprias ondas são
um cais de partida para as margens.

14
Irá o viajante que há em ti encontrar enfim
aquele que em ti reside?
Ficará então a viagem a ser
uma onda de palavras
vindo quebrar-se nas tuas entranhas
contra o rochedo do sentido?

15
O mundo não deixa de ser uma criança.
levanta-te e deita-o no seu leito,
ó amanhã.
========================
Um Poetrix de João Pessoa/PB
-
REGINA LYRA
Harmonia


Supostas teclas
dedilham saudades.
Música que fazíamos juntos.
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O Universo de Drummond
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
1902 - 1987
José


E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
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UniVersos Melodicos
-
Favela (samba, 1933) - Hekel Tavares e Joraci Camargo - Intérprete: Raul Roulien

 

No carnaval me lembro tanto da favela
Onde ela morava
Tudo o que eu tinha era
Uma esteira e uma panela
E ela gostava

Por isso eu ando pelas ruas da cidade
Vendo que a felicidade
Foi aquilo que passou
E a favela, que era minha
E que era dela,
Só deixou muita saudade
Porque o resto ela levou.

Inda outro dia,
Eu fui lá em cima na favela,
E ela não estava
Onde era a casa
Encontrei uma chinela
Que ela sambava

Me lembro tanto do café numa tigela
Que ela me dava
E de umas rezas
Que por mim,
Lá na capela
Só ela rezava.
(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda
-
O BAÚ
CD Cantigas de Roda - Vol 1 - 1985


Uma roda e uma menina no centro. A roda canta:

Quase que perco o baú
Perco o baú
Quase que não tomo pé
Não tomo pé
Por causa de um remador
De um remador
Que remou contra a maré

Quando cheguei lá na ponte
Lá na ponte
Perguntei quem me salvou
Quem me salvou
Respondeu o reservante
O reservante
Foi quem me desembarcou
Desembarcou

Então a menina do centro fica meio ajoelhada, de mãos postas em frente da que será escolhida, e canta:

Feliz mamãe
Tenha compaixão
De ver sua filhinha
Em seu doce coração

A menina escolhida passa para o centro da roda e continua o brinquedo.

Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo, Departamento de Cultura, 1953.
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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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