Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 30 de julho de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 95)


Uma Trova do Paraná
-
MARIA DA CONCEIÇÃO FAGUNDES
Curitiba


Tesoura a vida do alheio
E age de modo imparcial
E ela afirma, sem receio:
- É “terapia social”!!!
========================
Uma Trova sobre Esperança, do Rio de Janeiro
-
COLBERT RANGEL COELHO


Esperança: o nosso ninho,
pobre, sim... mas com bonança.
Eu e tu... Nosso filhinho...
Ah, meu Deus, quanta esperança!

========================
Uma Trova do Izo
-
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Quando pergunta o burrinho,
diz a mula envergonhada:
- "Tu nasceste, meu filhinho,
por causa de uma...burrada!..."
===================================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de São Simão/SP
-
THALMA TAVARES


– És meu príncipe! – dizia
vovó com seu jeito doce...
Tão doce que eu me sentia
como se príncipe fosse.
=======================
Uma Trova Humorística, de Pitangui/MG
-
JOSÉ ANTONIO DE FREITAS


O palhaço, sem mistério,
segredou-me, um dia, assim:
- Levo o meu trabalho a sério,
mas o povo ri de mim!...
======================
Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO 
Santana do Matos/RN 1951 - 2013 Natal/RN


Entre os atos de bonança
e meus pecados mortais,
quando eu botar na balança,
Deus sabe quais pesam mais!…
========================
Uma Trova Hispânica da Argentina
-
LIBIA BEATRIZ CARCIOFETTI


Pido a Dios mucha templanza
al vivir en estos días
su presencia es la esperanza
de alejar mis agonías.
===================
Uma Trova sobre Temperança, de Nova Friburgo/RJ
-
THEREZINHA TAVARES


O jeito de viver bem
com equilíbrio, com paz,
na vida consegue quem
de temperança é capaz!
========================
Trovadores que deixaram Saudades
-
ÉLTON CARVALHO
Rio de Janeiro (1916- 1994)

Vem, palhaço, sem tardança,
 com teus trejeitos, teus chistes,
 e acorda a alegre criança
 que dorme nos homens tristes...
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores
-
LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Quando a Trova é mesmo boa,
é sempre assim que acontece:
– o dono fica esquecido,
mas a Trova não se esquece…
========================
Um Haicai de Manaus/AM
-
ANIBAL BEÇA


Canto e contracanto:
o pica-pau reclamando
do som do machado.
================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores
-
LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Velho em trajes de rapaz
dá a impressão, diz o povo,
de um livro antigo demais
encadernado de novo.
====================
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 - 1989)


o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase

por onde ele passa
nascem palavras
e frases

com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve

o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores
-
ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Uma vez que a gente cante
dizendo o que o povo diz,
a trova fica contente,
a trova fica feliz. . .
======================
O Universo de Florbela
-
FLORBELA ESPANCA
(Florbela de Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal 1894 – 1930 Matosinhos/Portugal

Princesa Desalento


Minh'alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É magoada, e pálida, e sombria,
Como soluços trágicos do vento!

É fágil como o sonho dum momento;
Soturna como preces de agonia,
Vive do riso duma boca fria:
Minh'alma é a Princesa Desalento...

Altas horas da noite ela vagueia...
E ao luar suavíssimo, que anseia,
Põe-se a falar de tanta coisa morta!

O luar ouve minh'alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz à tua porta...
========================
O Universo Poético de Cecília
-
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Noturno


Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?

Que vale o pensamento humano,
esforçado e vencido,
na turbulência das horas?

Que valem a conversa apenas murmurada,
a erma ternura, os delicados adeuses?

Que valem as pálpebras da tímida esperança,
orvalhadas de trêmulo sal?

O sangue e a lágrima são pequenos cristais sutis,
no profundo diagrama.

E o homem tão inutilmente pensante e pensado
só tem a tristeza para distingui-lo.

Porque havia nas úmidas paragens
animais adormecidos, com o mesmo mistério humano:
grandes como pórticos, suaves como veludo,
mas sem lembranças históricas,
sem compromissos de viver.

Grandes animais sem passado, sem antecedentes,
puros e límpidos,
apenas com o peso do trabalho em seus poderosos flancos
e noções de água e de primavera nas tranqüilas narinas
e na seda longa das crinas desfraldadas.

Mas a noite desmanchava-se no oriente,
cheia de flores amarelas e vermelhas.
E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes,
erguiam no ar a vigorosa cabeça,
e começavam a puxar as imensas rodas do dia.

Ah! o despertar dos animais no vasto campo!
Este sair do sono, este continuar da vida!
O caminho que vai das pastagens etéreas da noite
ao claro dia da humana vassalagem!
======================
O Universo Haicaista de Guilherme
-
GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Pescaria


Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.
==============================
Uma Poesia do Rio de Janeiro
-
ESTER FIGUEIREDO

Um Sonho de Vida


Lua que me olha à distância
sabe bem da inconstância
deste enamorado coração:
incauto…ansioso…vivendo de ilusão

Busca e não encontra lenitivo…
para esta dor tem motivo
e que só ELE sabe o segredo.

Vou caminhando pela vida
a passos lentos, sem guarida…
Até quando?-Não sei!

Sei apenas que a sorte
não pode driblar a morte
nem o sonho que eu sonhei!
=================
O Universo Melódico de Assumpção
-
MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

De Joelhos


"Bendita seja a mãe que te gerou"
Bendito o leite que te fez crescer.
Bendito o berço aonde te embalou
a tua ama , pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou
da tua vida o doce alvorecer
Bendita seja a Lua que inundou
de luz a terra só pra te ver....

Benditos sejam todos que te amarem,
as que em volta de ti ajoelharem
numa grande paixão fervente e louca!

E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher
Bendito seja o beijo dessa boca
=====================
Uma Poesia do Pernambuco
-
GERALDO FALCÃO

Referência do Sonho


Não sei se vão os meus olhos,
não sei se vem a paisagem.
Quero a luz absoluta
mãe das águas do tempo:
quero deter o seu curso
no eterno presente.
Com unção aproximo-me do altar invertido
de um deus embriagado pelo sangue
de homens acusados de morte.
Tateando nas trevas vou buscando
a primordial pureza, o primordial sentido,
a primordial palavra liturgicamente expressa.
========================
O Universo de Pessoa
-
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As per'las são os meus beijos,
O fio é o meu penar.
========================
Uma Poesia de Portugal
-
ALMEIDA GARRETT
(João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett) 
Porto (1799 - 1854) Lisboa

 Anjo és


Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua frente anuviada
Não vejo a c'roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
Vela os mistérios d'amor.
Teus olhos têm negra a cor,
cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não tem. - Que anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?

Não respondes - e em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!...
Isto que me cai no peito
Que foi?... Lágrima? - Escaldou-me...
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De onde?
Em que mistérios se esconde
Teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?
========================
O Universo de J. G.
-
J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Ah, o Amor...


Me lembro, ah, se me lembro... Eu lembraria
por mil anos ainda o que sofri;
era angústia, era dor, era agonia,
era... meu Deus! Como sobrevivi?

Ainda ouço a tua voz - cruel e fria -
renegar todo o amor que havia em ti,
ou pelo menos, que eu julguei que havia,
até... aquele instante em que te ouvi.

Depois, depois... E só eu sei o quanto
cego e faminto atropelei meus passos,
e quanta vez me vi no próprio espanto;

só eu sei... Mas voltaste... Ah, a mulher...
Ah, o amor... Fecho os olhos, abro os braços!
... Que seja tudo como Deus quiser!
============================
Um Soneto do Rio de Janeiro
-
MARIA NASCIMENTO

Súplica


Jurei não lhe falar mais de ternura,
nem dar sinais de angústia nem de dor,
mas sinto as cicatrizes da censura
bem menos doloridas que as do amor…

Assim, movida pela desventura,
vivendo um sentimento embriagador,
tento afogar meu sonho na amargura,
e volto a lhe falar do meu amor.

Deixe que eu ame intensa e livremente,
sem censurar o meu comportamento,
sem ter pena das penas que padeço,

que eu sofro, por você, conscientemente,
e, por maior que seja o meu tormento,
estou sofrendo menos que mereço…
========================
O Universo das Setilhas do Zé Lucas
-
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Natal/RN (1934)


Na doçura do lirismo
nossos poemas são hinos
que viram salmos de amor,
e os poetas são meninos
de imaginários castelos,
cantando versos tão belos
como notas de violinos.
===============================
Uma Poesia Além Fronteiras
-
JUAN LUIS MARTINEZ
Viña del Mar/Chile (1942 - 1993)Villa Alemana/Chile

Não só ser outro, como escrever a obra de outro

A grande impostura
o grande impostor
resvalado
nunca revelado
o nome verdadeiro
seu nome
o mesmo nome
tantas vezes escutado
imputado
tantas vezes repetido
tantas esquecido.

O eu tão desnecessário
maltratado
incinerado
ausente involuntário
habituado a estar só.

Dizer versos
que foram do outro
que foste
quando já não eras.

Constrói o teu não-eu:
sua ausência: a tua.

Para não ser
é necessário
que antes construas
a ausência
desse eu, que não
serás nunca

o espaço vazio
do não-eu.
=====================
Um Poema Livre Premiado, de Americana/SP
-
GERALDO TROMBIN

Elas por Elas


Sheilas, Tanias, Pierinas ou Mirelas;
Brancas, Negras, Vermelhas, Amarelas;
Cheinhas, esbeltas, esguias, magricelas;
Na direção, no mouse ou nas panelas;
De salto alto, sandálias ou chinelas;
Tricotando, escrevendo, pintando a vida em aquarelas;
Adormecidas ou despertas como sentinelas;
Pagando caro ou simplesmente bagatelas;
Maçãs, morangos, cenouras, berinjelas;
Atentas a documentários, filmes ou novelas;
Cuidando de maridos, namorados, filhos ou mesmo delas;
São sempre insinuantes, apaixonadas e singelas;
Supermulheres, superprotetoras, superbelas.

Apesar das preocupações, não dão a mínima a chorumelas,
Nem deixam nada pelas tabelas,
Até quando os homens pisam feio no calo delas.

Se de verdade os amam, perdoam as piores mazelas,
Expondo inclusive suas almas pelas janelas.
E, nem romântico jantar à luz de velas,
Regado com vinho, olhares, beijos e abraços nas paralelas,
Reconsideram tudo, ficando muito bem, ficando elas por elas.

Exemplos de perseverança, força e amor, só mesmo vindo delas.

(1o. Lugar no I Concurso Literário “Maria Mariá” 2013, modalidade Poema Livre, em Maringá/PR)
=====================
Um Poetrix da Bahia
-
JUSSARA MIDLEJ

Palavras


Quedam-se nas linhas.
Nós só precisamos
das entrelinhas.
========================
O Universo de Drummond
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 - 1987) Rio de Janeiro/RJ

F


Forma
forma
forma

que se esquiva
por isso mesmo viva
no morto que a procura

a cor não pousa
nem a densidade habita
nessa que antes de ser

deixou de ser
não será
mas é

forma
festa
fonte
flama
filme

e não encontrar-te é nenhum desgosto
pois abarrotas o largo armazém do factível
onde a realidade é maior do que a realidade
========================
UniVersos Melodicos
-
René Bittencourt
 
SERTANEJA
(canção, 1939)


De uma simplicidade comovente, este bucólico canto de amor à mulher sertaneja seria uma das composições mais cantadas em todo o Brasil nos anos seguintes ao seu lançamento, em julho de 39. Todo amador com pretensões a se tornar um novo "cantor das multidões", inscrevia-se num programa de calouros (que na época vivia o auge da popularidade) para cantar: "Sertaneja se eu pudesse / se Papai do Céu me desse / o espaço pra voar / eu corria a natureza / acabava com a tristeza / só pra não te ver chorar...".

Incluída entre os maiores sucessos de Orlando Silva, "Sertaneja" seria superada em popularidade apenas por três ou quatro canções de seu repertório, como "Carinhoso" e "Lábios Que Beijei". Curiosamente, seu autor, o compositor, jornalista e empresário artístico, René Bittencourt, não era do sertão, tendo nascido na Ilha de Paquetá e vivido no Rio de Janeiro.

Sertaneja se eu pudesse
Se Nosso Senhor me desse
O espaço pra voar
Eu corria a natureza
Acabava com a tristeza
Só prá não te ver chorar

Na ilusão deste poema
Eu roubava um diadema
Lá do céu pra te ofertar
E onde a fonte rumoreja
Eu erguia tua igreja
Dentro dela o teu altar

Sertaneja
Porque choras quando eu canto ?
Sertaneja
Se este canto é todo teu . . . .
Sertaneja
Prá secar os teus olhinhos
Vá ouvir os passarinhos
Que cantam mais do que eu

A tristeza do seu pranto
É mais triste quando eu canto
A canção que eu te escrevi
E os teus olhos neste instante
Brilham mais que a mais brilhante
das estrelas que eu já vi.

Sertaneja vou me embora
A saudade vem agora
A alegria vem depois
--------Vou subir por essas serras
Construir lá noutras terras
Um ranchinho prá nós dois.

(Fonte: Cifrantiga)
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda
-
MARCHA SOLDADO


Marcha soldado
Cabeça de papel
Se não marchar direito
Vai preso pro quartel

O quartel pegou fogo,
A polícia deu sinal
Acode, acode, acode
A bandeira nacional.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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