Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 20 de julho de 2013

Marco Aqueiva (Alguma Ruminação sobre a Verde Pétala da Poesia)

Uma resposta, inquieta, que provavelmente nem chegará até o nosso futuro

“Poeta, esporadicamente leio os seus livros”, registra Ferreira Gullar – provavelmente hoje o poeta vivo cuja reputação efetivamente transcende os limites da Poesia – as palavras de um mendigo que a ele se dirigiu. Ao contrário da figura pública, que é Gullar, há pouco tempo compartilhava-se a forte impressão de que poetas seriam apenas uma invenção verbal, reduzidos exclusivamente à dimensão do livro. Mas até onde o poeta pode reinar sem reino? Até a inanição absoluta? Outrora um poeta como Victor Hugo podia insuflar com versos o espírito de sua época, o século XIX, tão marcado por convulsões. Aqui entre nós, ao início do século XX, Olavo Bilac pôde gabar-se de dar ao poeta o status de profissão. Hoje há quem sustente que o poeta está inelutavelmente destinado a perecer e nem mesmo merece ser salvo, pois tem extrema dificuldade de dar uma finalidade à sua arte.

Talvez não seja tão evidente assim a inexistência de salvação para o poeta nesta sociedade em que as consciências são domesticadas pelo mercado. A morte da Poesia já foi anunciada tantas vezes que, a menos que as leis da gravidade tenham de fato sido suprimidas, é bastante compreensível o desaparecimento dos poetas na trajetória da espécie humana.

Dizer que a Poesia vem cada vez mais definhando a ponto de estar fadada ao desaparecimento, pois não tem lugar hoje, em nossa sociedade, etc. etc., seria o mesmo que afirmar que a humanidade prescinde da experiência artística. Em grande medida é uma burla dizer que a Poesia resiste solitária tanto no poeta publicado quanto naquele inédito que, invisível ao mercado, faz uso da tecnologia que o mercado proporciona, publicando seus poemas em blogues e revistas literárias virtuais. Parafraseando o autor de Poema sujo, a poesia existe vária e múltipla porque a vida não basta.

É muito frequente ouvir que a Poesia é uma expressão literária restrita e que está sempre fora do alcance do leitor – fenômeno diferente daquele que ocorre com a prosa (ficcional ou não), em que determinados títulos alcançam hoje tiragens elevadas, da ordem de milhares de exemplares. Está certo: a Poesia rende acanhadas edições. Poucas chegam a quinhentos exemplares. São muito comuns hoje as edições de cem ou cento e cinquenta exemplares, custeadas pelo próprio autor. Indigno, como já ouvi de outro bom poeta. E tão mais evidente se torna a selvageria do fato quanto mais se observam as milhões de “protuberâncias” que se chamam livros circulando por aí, completou ele.

Mas nada do que se reputa à História escapa à Poesia. Nesta, hoje se veem os resultados de tantos processos históricos, tantas tradições em conjunção, que a pluralidade de poéticas, linguagens e formas comprova que a Poesia existe e continuará existindo. A Poesia resiste, reinventando-se na carne viva da música popular brasileira. Polêmicas à parte, não consigo pôr simplesmente porta afora os compositores da MPB, aedos modernos, muitos deles poetas vigorosos, não apenas legítimos herdeiros dos trovadores medievais, mas também daquela tradição que se consolidou na lírica ocidental e que terminou por priorizar a dimensão lógico-representativa. “Onde queres o sim e o não, talvez // E onde vês, eu não vislumbro razão”, como diria Caetano. Não, não sou Platão para excluir poetas, pois o que entendemos por real é ponto de encontro de tantas realidades que aquelas consciências dotadas de sensores auditivos e mentais mais sensíveis e afinados com a Poesia tendem a incluir nos paradigmas do poético manifestações linguísticas de alto valor expressivo. A despeito da censura dos censores de plantão, brota em canções a fina flor da Poesia, como nos dão provas Paulinho Moska e Jorge Mautner, Rodrigo Garcia Lopes e Vinicius de Moraes, Zeca Baleiro e Paulo Leminski, arriscando-me a citar apenas uns poucos exemplos que nesse momento me (s)ocorrem.

A Poesia resiste presente em gêneros textuais os mais distintos, não necessariamente literários. Na propaganda, ao fazer uso de determinados procedimentos e recursos linguísticos, a linguagem poética é instrumentalizada pelo publicitário. A prosa ficcional aproxima-se tanto da Poesia que a ousadia de alguns ficcionistas não é apenas recorrer à linguagem poética, é indagar pela linguagem nos limites do poder dizer e admitir entre o vivo e o vivido, a percepção da ausência para além de si, as palavras e o silêncio, que o que vemos é a Poesia resistência, sendo reinventada, reinterpretada e reincorporada na multipolaridade dos discursos que se constroem mais ou menos poéticos.

Nesse sentido, dizer que a Poesia resiste enquanto fenômeno estrita e exclusivamente literário talvez seja negar que a palavra poética tem uma existência no mundo e que encarna demandas próprias e específicas não apenas da Poesia. Por outro lado, o leitor pode objetar que este raciocínio conduz à ideia de que a Poesia não é um domínio específico, sobretudo se esse leitor imbuir-se da condição de autoridade legisladora no assunto e detentor do saber institucional sobre o objeto que domina. Sociedade acostumada a superdimensionar o conhecimento científico e a especialização, não é de espantar que seja habitual o desprezo da universidade pela atividade crítica exercida por escritores e poetas. O que é espantoso mesmo é a dificuldade de encontrar leitores de poesia contemporânea entre doutores, especialistas em literatura, no meio acadêmico.

Em texto recentemente publicado(1), o professor e poeta Paulo Franchetti manifesta seu “desconcerto” diante do constrangimento de colegas – igualmente doutores em literatura, intelectuais com larga experiência de estudo e ensino – por não compreenderem a poesia contemporânea. Segundo Franchetti, enquanto a chave “mimética” dá em geral bem conta da compreensão da prosa e do teatro, a tonalidade “afetivo-expressional” da poesia costuma repelir o viés representativo, impondo ao especialista a necessidade de conhecer os parâmetros específicos do gênero lírico, notadamente os vetores da evolução da lírica, o que resultaria enfim na exigência insofismável de identificar no presente as marcas das diversas tradições à disposição e vivificadas pelo texto literário.

Façamos justiça. Em época como a nossa, que reivindica a Liberdade, o campo eletromagnético da Poesia parece repelir quaisquer teorias e imposições, o que terminaria por resultar na equivalência “democrática” de todas as poéticas, formas e tendências poemáticas existentes se o direito ao exercício da Poesia neste emaranhado de agentes líricos cordatos fosse precedido pelo direito à diferença. Sim, a Liberdade que postula a pluralidade de vozes – vastidão e validade de todas as poéticas – é uma dessas boutades que não resistem à prova da realidade. Pois bem, a Poesia existe per se ou enquanto relacionada a um objeto?

De um lado, a Poesia acolhendo errante um processo histórico formado por tantos vetores em conflito e orientações em conjunção: a forma mais convencionalizada das trovas confabulando com aquela mais conforme as raízes do lirismo mais autenticamente luso-brasileiro, junto à poesia participante na proporção inversa da experiência surrealista, perplexa travessia em que não se costumam esbarrar formalistas e repentistas, os “concretos” trafegando na mídia interativa e alternativa, haicaiistas e os “autênticos” líricos no fogo e fog do momento. De outro, o pesquisador, desnutrido das proteínas animais e carboidratos das teorias, temendo os desafios impostos pela leitura da poesia contemporânea.

Sim, há mais: não deveríamos nos esquecer de culpabilizar a insuficiência das políticas públicas na área educacional, pois a educação é cúmplice da indigência do pesquisador, e assim talvez fôssemos levados a cair na perpétua lamentação dos feixes neuronais atrofiados e chegar à matriz de todo o problema: a corrupção... Mas não nos desviemos tanto! Por quanto tempo mais deveremos vergar o nojo pela morte da crítica universitária? Nos grandes veículos de comunicação, a crítica é coisa de espectros à espera da escuta do silêncio final. Mas se a responsabilidade da Escola é fator objetivo a considerar-se na identificação das causas da inópia da crítica universitária, é também ela Educação responsável pela formação dos leitores que, despreparados, se rendem ao Mercado com suas publicações relacionadas a receitas de saúde e felicidade barata. (E não é preciso esclarecer que o Mercado certamente não é um criminoso que age sozinho!) O leitor despreparado é sempre uma entidade acomodada que finge admitir o poeta, mas nega o poema (vide Facebook).

Mas não nos voltemos contra o leitor: o poeta é o único termo da equação que no fundo sabe que o resultado da leitura de Poesia é o poema e que todo esse processo é uma cadeia de forças necessariamente associadas, admitindo-se ainda – como foi sugerido acima – a força do elo político, tão determinante é ele quando se trata da cultura. Talvez seja por isso que alguns poetas sentem mais profundamente que outros que exercer a poesia é uma “loucura”: além de ingressar em uma busca obscura na qual a experiência com a linguagem é muitas vezes não mais que circundar o oco às voltas de si mesmo, eles percebem-se convocados ao exercício de uma prática supostamente desnecessária às demandas do humano. Em consequência disso é que são ora solipsistas sem cura, deixando-se escorregar em direção à audiência solitária das sombras; ora reivindicadores da seriedade de toda a ação poética nas guildas e corporações de auxílio mútuo, algumas vezes póstumo. Fora e dentro destas duas posições, ainda restam estes e aqueles poetas vivos, músicos ou não, mera ficção de mortos vivos, confraria de fantasmas que se dão as mãos, seguindo o cortejo de vozes que, pela manhã ou à tarde, naqueles dias de indigência íntima, nos estendem suas vozes para nos levar a nenhuma parte onde possamos obter certa resposta por sua expressão. Um eco, inquieto, que provavelmente não chega – nem chegará até nós no futuro: a poucos, e tantos, metros, eis um abafado rumor que se fará nome: Poesia.
 
Amanhã, talvez haja mais de que falar.
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Nota:
1 - Paulo FRANCHETTI. Notas sobre Poesia e Crítica de Poesia. Disponível em: . Acesso em: 18 mar. 2013.


Fonte:
Literatura Sem Fronteiras

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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