Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 27 de agosto de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 107)


Uma Trova do Paraná
-
MARIA HELENA OLIVEIRA COSTA


Um erro, mesmo pequeno,
ganha maior dimensão
pela força do veneno
que há na ausência do perdão
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Salvador/BA
-

JORGE DE FARIA GOES

Adeus sonho, adeus quimera    
que se busca e não se alcança.
 Prender ilusões - quem dera!      
 Ao menos fica, Esperança!   
=======================
Uma Trova do Izo
-
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Marcando suas fronteiras
as bandeiras eram trapos,
e, os trapos eram bandeiras,
na Querência dos Farrapos!
===================================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Pedro Leopoldo/MG
-
WAGNER MARQUES LOPES


A esperança se engalana
na manhã iluminada.
Sigo junto à caravana,
ao trinar da passarada.
=======================
Uma Trova Humorística, de Araçoiaba/CE
-
ANA MARIA NASCIMENTO


Distante da companheira,
pra quem se mostra machão
já vi cara de primeira
afeito a quebrar  a mão.
======================
Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 - 2013 Natal/RN


Fui reviver meu passado
na casa que pai morou…
Um velho espelho quebrado,
foi tudo o que me restou!
========================
Uma Trova Hispânica da Argentina
-
MIRTA CORDIDO


Luego el sol se hizo presente
sobre mi cuerpo en la arena,
y me dijo dulcemente,
fue un bello sueño ¡Que pena!
===================
Uma Trova sobre Respeito,  de Santos/SP
-
CAROLINA RAMOS


         Mais importante, por certo,
           que um elogio suspeito
           é sentir vibrar por perto
           mais do que aplausos, respeito!
             ========================
Trovadores que deixaram Saudades
-
ADELINO MOREIRA
Araçatuba/SP (1922 – 2007)


Esta vida, a que me exponho,
é agiota de verdade:
se empresta um pouco de sonho,
que juros cobra em saudade!…
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores
-
LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Prossegue a cantar! Insiste!
Mesmo a sofrer e a chorar!
- Pois pior que um canto triste
é uma vida sem cantar!
========================
Um Haicai de Santa Catarina
-
SILVÉRIO DA COSTA


A vida mentiu.
Brincou comigo sorrindo
E depois fugiu.
================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores
-
LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Cantas! Minha alma te aprova
e eu choro - que coisa louca!
querendo ser uma trova
para andar em tua boca.
====================
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 - 1989)

Surra


Viver é podre
aquele que em mim quis ser limpo
aquilo não pode

Viver suja
suja a roupa suja
a louça suja boca
suja sobretudo
a maldita dita cuja
que não para de dizer
que só para pra dizer
viver é podre

o ciúme suja o amor
como o amor de ódio se suja

fuja fuja fuja
que lá vem a vida
fuja fuja fuja
que lá vem a suja
limpa limpa limpa
nem vem que lá vem
a dita cuja a dita suja
a dita

(letra musicada pelo compositor Edvaldo Santana)
======================
Uma Trova do Rei dos Trovadores
-
ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Alguém pede que lhe ensine,
a fazer versos também,
viva e sofra, ame e padeça,
e espere que o verso vem...
======================
O Universo Triverso de Pellegrini
-
DOMINGOS PELLEGRINI
(Londrina/PR)


Até a dor
tem seu lugar
num dia bom
========================
O Universo Poético de Cecília
-
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Despedida


Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
======================
O Universo Melódico de Assumpção
-
MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Horas Rubras

(do CD “A Flor de Florbela”)

Horas profundas, lentas e caladas
feitas de beijos sensuais e ardentes,
de noites de volúpia, noites quentes
onde há risos de virgens desmaiadas

Ouço as olaias rindo desgrenhadas...
tombas astros em fogo, astros dementes
e do luar, os beijos languescentes
são pedaços de prata pelas estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
os meus braços são leves como afagos,
vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve branca misteriosa...
e sou talvez na noite voluptuosa
ó meu poeta, o beijo que procuras
================================
O Universo Haicaista de Guilherme
-
GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Um Salgueiro


A asa. A luz que pousa.
O vento...  o estremecimento
vão por qualquer cousa.
==============================
Uma Poesia de Maringá/PR
-
ANTONIO AUGUSTO DE ASSIS

Luolhar


Duas luas
viu Ismália
na noite em que enlouqueceu:
“viu uma lua no céu,
viu outra lua no mar”.

Bem mais louco,
vejo três,
quando me ponho a cismar:
a terceira é a que flutua
tentadoramente nua
na noite do teu olhar
=================
O Universo de Francisca
-
FRANCISCA JÚLIA
(1871, Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP – 1920, São Paulo/SP)

A Caçada
  (a Valentim Magalhães)

 

Ao mirante gentil de construção bizarra
Acabou de subir naquele mesmo instante
Em que o seu noivo foi à caça; e, palpitante,
Lá fora cuida ouvir os sons de uma fanfarra.

E, ao mesmo tempo ouvindo o selvagem descante
Que, entre as folhas, sibila a estrídula cigarra,
Ela vai ler a carta onde o seu noivo narra
A dor que há de sofrer quando estiver distante...

E dorme, vendo o sol que, através de uma escassa
Nuvem branca, ilumina as íngremes encostas
Onde aos saltos rabeia a matilha da caça;

E, bem perto, ao rumor de trompas e ladridos,
O seu noivo gentil que, de espingarda às costas,
Lhe oferta uma porção de pássaros feridos...
========================
Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas
-

CANTILENAS DAS ESCONDIDAS

 (Primeira versão)

Estas lengalengas eram usadam nos jogos das escondidas, tendo de ser dita pelo  “procurador”, de olhos fechados, enquanto os outros se escondiam.
 
Sola, sapato
Rei, Rainha
Foi ao mar
Pescar sardinha
Para o filho
Do juiz
Que está preso
Pelo nariz
Salta a pulga
Na balança
Dá um pulo
Até á França
Os cavalos a correr
As meninas a aprender
Qual será a mais bonita
Que se vai esconder?
========================
O Universo de Auta
-
Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN
 
Eterna Dor


Alma de meu amor, lírio celeste,
Sonho feito de um beijo e de um carinho,
Criatura gentil, pomba de arminho,
Arrulhando nas folhas de um cipreste.

Ó minha mãe! Por que no mundo agreste,
Rola formosa, abandonaste o ninho?
Se as roseiras do Céu não têm espinhos,
Quero ir contigo, ó lírio meu celeste!

Ah! se soubesses como sofro, e tanto!
Leva-me à terra onde não corre o pranto,
Leva-me, santa, onde a ventura existe...

Aqui na vida - que tamanha mágoa! -
O próprio olhar de Deus encheu-se d’água...
Ó minha mãe, como este mundo é triste!
==========================
O Universo de Pessoa
-
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Quando tiraste da cesta
Os figos que prometeste
Foi em mim dia de festa,
Mas foi a todos que os deste.
========================
Uma Poesia de Portugal
-
AUGUSTO GIL

Balada da neve


Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco,há pouquinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
- e cai no meu coração.
========================
O Universo Triverso de Millôr
-
MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro (1923 – 2012)


Esnobar
É exigir café fervendo
E deixar esfriar.
======================
O Universo de J. G.
-
J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Lumumba


 "Havia nele qualquer coisa de mágico.
Esse ser de fogo era um autodidata,
mas tinha gênio. Enquanto os outros
se preocupavam com pequenos
problemas de tribos, ele ja via a
África unificada."
Aimé Césaire.


A selva ao redor
era um búzio ressoando!
Mas o que o embebedava
era o vozerio do povo
seu povo escachoando
nas praças libertas,
mais forte que o Congo.

Poeta nascido, e chefe
nascido, a África trazia
esticada no corpo,
dos pés à cabeça,
circulando nas artérias
batendo tan-tans de urucungo
no coração.

Mágico da liberdade
em passes de pura verdade,
o povo se abria, como em frisos
de espuma,
a sua passagem!
Era tão fácil acreditar:
era a fé que buscavam
pare vestir o corpo nu
e alimentar o coração ferido.

A África andava
com seus pés,
nas estradas, nas selvas,
nos rios, nas ruas;
sentava-se com ele nos bares,
cantava no seu violão
dançava no seu peito
brilhava em seus olhos
amava em seu amor;
seguia com ele; à sua voz
de comando;
sua voz cimentava as vontades,
as ânsias, as revoltas;
seus versos levantavam
trincheiras invulneráveis.

Lumumba, poeta
da África
sem porões de negreiros,
sem chibatas de fogo,
sem ferros nos pés,
sem pendulos de forças,
cobrando seus juros de odio
para purificar
o amor que há de vir.

Lumumba, poeta
forte, da África livre
a beber como um trago ardente
a própria cor,
e enfim sendo ouvida, temida,
- lutando,
morrendo
sem medo do branco
o antigo senhor.

Lumumba, poeta
da paz e da guerra,
semente do povo lançada na terra
ofertando, em verdade
cantos para a África
esquecer suas dores
e as duras convulsões
parindo a liberdade!
============================
Um Soneto de São Paulo
-
DIVENEI BOSELI

A Despedida


O amor parece eterno enquanto dura,
por força da paixão que, sendo chama,
incendiando a carne, crema a cama!
No café da manhã se faz candura…

E a dois vai, no verão, rolar na grama,
na várzea, no curral, e a mais impura
das camas de motel lhes assegura
o encanto inenarrável de quem ama…

O amor constrói, corrompe, danifica
por força da paixão: queima e não fica
para curar sequer uma ferida…

Partir? Chorando ou rindo? Tanto faz…
Dizer adeus ou não?… Tudo é falaz!
Cruel e verdadeira é a despedida…
========================
O Universo das Sextilhas do Zé Lucas
-
JOSÉ LUCAS DE BARROS

Natal/RN (1934)

O amor da mulher querida
me fez virar trovador,
tornou-me o pai mais feliz
deste mundo encantador,
porque o sentido da vida
só se traduz com amor.
===============================
O Universo de Silviah
-
SILVIAH CARVALHO
Curitiba/PR

Quem dera!


Ah, alma, pode ser que você chegue às margens do pior
antes de ser libertada e, em uma síncope não voltes mais,
... Quem dera dominar o tempo e as estações!
contar meus dias, mudar de pele, dominar minhas emoções.

Quem dera poder voltar atrás, fazer outras escolhas, consertar
meus erros, eu escolheria não amar mais. Não é o amor que me
assusta e, sim, as conseqüências do amar desesperadamente...
Um amor plenamente possível morre, inconseqüentemente.

Não posso dizer que haja chance, ou que a vida faça sentido,
pois o fardo do sofrimento parece uma pedra pendurada
em meu pescoço, é ela que faz o peso necessário para conservar
no fundo o meu querer... Talvez assim nunca mais me faça sofrer.

Na tempestade vi o quanto era frágil minha embarcação,
observei a Águia quando rasgava as alturas e não se inquietava
a respeito de atravessar o rio, enquanto que, o só imaginar, dentro
de mim desfalece o coração... Esvazio-me nesta triste e fria canção.

Descubro que nada é em vão, mas que tudo é propicio a mim,
o sofrimento me põe à parte na vida, como um decreto de morte,
ausente de tudo que me faz bem, abatida, me entrego resignada,
esperando as palavras certas para, enfim, ser libertada.
=========================
Uma Poesia Além Fronteiras
-
VIRIATO DA CRUZ
Angola

Namoro

    

 Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
     e com letra bonita eu disse ela tinha
     um sorrir luminoso tão quente e gaiato
     como o sol de Novembro brincando
     de artista nas acácias floridas
     espalhando diamantes na fímbria do mar
     e dando calor ao sumo das mangas

     Sua pele macia - era sumaúma...
     Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
     sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
     tão rijo e tão doce - como o maboque...
     Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
     seus dentes... - marfim...
             Mandei-lhe essa carta
             e ela disse que não.

     Mandei-lhe um cartão
     que o amigo Maninho tipografou:
     "Por ti sofre o meu coração"
     Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
             E ela o canto do NÃO dobrou

     Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
     pedindo, rogando de joelhos no chão
     pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
     me desse a ventura do seu namoro...
             E ela disse que não.

     Levei á Avo Chica, quimbanda de fama
     a areia da marca que o seu pé deixou
     para que fizesse um feitiço forte e seguro
     que nela nascesse um amor como o meu...
             E o feitiço falhou.

     Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,
     ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
     paguei-lhe doces na calçada da Missão,
     ficamos num banco do largo da Estátua,
     afaguei-lhe as mãos...
     falei-lhe de amor... e ela disse que não.

     Andei barbudo, sujo e descalço,
     como um mona-ngamba.
     Procuraram por mim
     "-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
     E perdido me deram no morro da Samba.

     Para me distrair
     levaram-me ao baile do Sô Januario
     mas ela lá estava num canto a rir
     contando o meu caso
     as moças mais lindas do Bairro Operário.

     Tocaram uma rumba - dancei com ela
     e num passo maluco voamos na sala
     qual uma estrela riscando o céu!
     E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
     Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
     pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.
=====================
O Universo de Bilac
-
Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

As Estações


    O Inverno

(Coro das quatro estações:)
Cantemos, irmãs, dancemos!
Espantemos a tristeza!
E dançando, celebremos
A glória da Natureza!

(O Inverno:)
Sou a estação do frio;
O céu está sombrio,
E o sol não tem calor.
Que vento nos caminhos!
Tragos a tristeza aos ninhos,
E trago a morte à flor.
Há nevoa no horizonte,
No campo e sobre o monte,
No vale e sobre o mar.
Os pássaros se encolhem,
Os velhos se recolhem
À casa a tiritar.
Porém fora a tristeza!
Em breve a Natureza
Dá Flores ao jardim:
Abramos a janela!
Outra estação mais bela
Já vem depois de mim.
Coro das quatro estações:
Cantemos, irmãs, dancemos!
Espantemos a tristeza!
E dançando, celebremos
A glória da Natureza!

    A Primavera

(Coro das quatro estações:)
Cantemos! Fora a tristeza !
Saudemos a luz do dia:
Saudemos a Natureza !
Já nos voltou a alegria !

(A Primavera:)
Eu sou a Primavera !
Está limpa a atmosfera,
E o sol brilha sem véu !
Todos os passarinhos
Já saem dos seus ninhos,
Voando pelo céu.
Há risos na cascata,
Nos lagos e na mata,
Na serra e no vergel:
Andam os beija-flores
Pousando sobre as flores,
Sugando-lhes o mel.
Dou vida aos verdes ramos,
Dou voz aos gaturamos
E paz aos corações;
Cubro as paredes de hera;
Eu sou a Primavera,
A flor das estações !
Coro das quatro estações:
Cantemos! Fora a tristeza !
Saudemos a luz do dia:
Saudemos a Natureza !
Já nos voltou a alegria !

    O Verão

(Coro das quatro estações:)
Que calor, irmãs ! Cantemos
Como ardem as ribanceiras
Cantemos, irmãs, dancemos,
À sombra d'estas mangueiras

(O Verão:)
Sou o Verão ardente,
Que, vivo e resplendente,
Acaba de nascer;
Nas matas abrasadas,
O fogo das queimadas
Começa a se acender.
Tudo de luz se cobre ...
Dou alegria ao pobre;
Na roça a plantação
Expande-se, viceja,
Com a vinda benfazeja
Do provido Verão.
Sou o Verão fecundo !
Nasce no céu profundo
Mais rútilo o arrebol ...
A vida se levanta ...
A Natureza canta ...
Sou a estação do Sol !
Coro das quatro estações:
Que calor, irmãs ! Cantemos
Como ardem as ribanceiras
Cantemos, irmãs, dancemos,
À sombra d'estas mangueiras

    O Outono

(Coro das quatro estações:)
Há tantos frutos nos ramos,
De tantas formas e cores!
Irmãs ! enquanto dançamos,
Saíram frutos das flores!

(O Outono:)
Sou a estação mais rica:
A árvore frutifica
Durante esta estação;
No tempo da colheita,
A gente satisfeita
Saúda a Criação,
Concede a Natureza
O premio da riqueza
Ao bom trabalhador,
E enche, contente e ufana,
De júbilo a choupana
De cada lavrador.
Vede como o galho,
Molhado inda de orvalho,
Maduro o fruto cai ...
Interrompendo as danças,
Aproveitai, crianças!
Os frutos apanhai!
Coro das quatro estações:
Há tantos frutos nos ramos,
De tantas formas e cores!
Irmãs ! enquanto dançamos,
Saíram frutos das flores!
=====================
O Universo de Drummond
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 - 1987) Rio de Janeiro/RJ

Necrolégio dos Desiludidos do Amor


Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.

Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.
Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas os veremos
seja no claro céu ou no turvo inferno.

Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia...

Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados completamente
(paixões de primeira e de segunda classe).

Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.
========================
UniVersos Melodicos
-
Wilson Batista e Marino Pinto
PRECONCEITO
(samba, 1941)


Eu nasci num clima quente,
Você diz a toda gente
Que eu sou moreno demais.
Não maltrate o seu pretinho,
Que lhe faz tanto carinho
E no fundo é um bom rapaz.

Você vem de um palacete,
Eu nasci num barracão,
Sapo namorando a lua
Numa noite de verão.
Eu vou fazer serenata,
Eu vou matar minha dor,
Meu samba vai, diz a ela,
Que o coração não tem cor.

Eu nasci num clima quente...

Você vem de um palacete....
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda
-
BICHARADA


Au, au, au, hi-ho, hi-ho
Miau, miau, miau, cocorocó.
O animal é tão bacana
Mas também não é nenhum banana.

Au, au, au, hi-ho, hi-ho
Miau, miau, miau, cocorocó.
Quando a porca torce o rabo
Pode ser o diabo, ora vejam só
Au, au, au, cocorocó.

Era uma vez (e é ainda)
Certo país (e é ainda)
Onde os animais eram tratados como bestas
(são ainda, são ainda).

Tinha um barão (tem ainda)
Espertalhão (tem ainda)
Nunca trabalhava e então achava a vida linda
(e acha ainda, e acha ainda).

Au, au, au, hi-ho, hi-ho
Miau, miau, miau, cocorocó.

O animal é paciente
Mas também não é um demente.

Au, au, au, hi-ho, hi-ho
Miau, miau, miau, cocorocó.

Quando o homem exagera
Bicho vira fera, ora vejam só
Au, au, au, cocorocó.

Puxa, jumento (só puxava)
Choca galinha (só chocava)
Rápido, cachorro, guarda a casa, corre e volta
(só corria, só voltava).

Mas chega um dia (chega um dia)
Que o bicho chia (bicho chia)
Bota prá quebrar que eu quero ver quem paga o pato
Pois vai ser um saco de gatos.

Au, au, au, hi-ho, hi-ho
Miau, miau, miau, cocorocó.

O animal é tão bacana
Mas também não é nenhum banana.

Au, au, au, hi-ho, hi-ho
Miau, miau, miau, cocorocó.

Quando a porca torce o rabo
Pode ser o diabo, ora vejam só
Au, au, au, cocorocó.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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