Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Socorro Acioli (Rachel de Queiroz: A Palavra é Feminina)

Em março de 1940, o Diário da Noite promoveu um grande inquérito com representantes de todas as classes sociais colocando para cada um deles a pergunta que dá título à matéria: "Daqui a cem anos... como será o mundo?" Rachel, aos trinta anos de idade, respondeu:

Podem escandalizar-se os sociólogos e toda gente mais: para o século XXI eu prevejo a vitória social das mulheres. As mulheres deixarão de ser o elemento secundário na sociedade e na família para assumir a vanguarda de todos os atos e de todos os acontecimentos...
Rachel parecia falar dela mesma, uma mulher vencedora que de fato assumiu uma postura de vanguarda. Em vários momentos da vida literária da escritora Rachel de Queiroz (1910 - 2003) leitores e críticos confessaram que, em uma primeira leitura, acreditavam que a prosa árida e precisa de Rachel fosse na verdade obra de uma mente masculina. Graciliano Ramos foi um dos enganados pela linguagem de Rachel de Queiroz, que fugia totalmente do modelo de romance cor de rosa feito pelas poucas escritoras que lançavam livros nos anos 30. Ao mesmo tempo, a marca feminina de Rachel marcou sua trajetória com passos firmes, fazendo com que ela fosse a primeira mulher a realizar um sem número de feitos na literatura brasileira, o principal deles, a entrada pioneira na Academia Brasileira de Letras. Mas como a própria escritora se posicionava em relação à condição de mulher e desbravadora de caminhos para a permanência de uma escrita feminina? Em entrevista aos Cadernos de Literatura Brasileira, Rachel respondeu:

Na verdade, quando eu escrevi O Quinze, já era profissional — trabalhava em jornal e tinha feito até um romance em folhetim. Na minha casa? como eu disse, só se lia coisa boa, de modo que eu não ousaria escrever bobagem — sentimentalismos, essas coisas, porque sabia que teria a censura severa de meus familiares todos.
A experiência como jornalista e o ambiente familiar de Rachel de Queiroz, foram sem dúvida, determinantes para marcar o tom e o estilo da escrita desta grande romancista. Mas até que ponto as notas femininas no percurso de Rachel tiveram força determinante para marcar os seus passos? Destacaremos, nesta conferência, alguns aspectos que julgamos importantes, dentre eles o peso de ser primogênita; a presença de uma mãe leitora; a bagagem literária formada pela literatura escrita por homens; a marca da maternidade frustrada e o constante desejo de liberdade; dentre muitos outros aspectos que vamos examinar em um breve passeio pela bio-bibliografia de Rachel de Queiroz. O ambiente familiar foi um alicerce para a formação da pequena Rachelzinha. A casa de Rachel era antes de qualquer coisa uma casa de leitores. A menina, aos cinco anos, via os adultos sempre com um livro ou jornal na mão. Isso despertava sua curiosidade e a vontade de ler.

Por ser a filha mais velha, sentia-se solitária. Seus amigos de infância eram os livros.

É importante ressaltar o fato de Rachel ter uma mãe leitora, que lia os mesmos livros que seu pai, o melhor da literatura mundial. Isso seria uma referência marcante para Rachel de Queiroz. O exemplo de uma mãe culta e de bom gosto literário.

Rachel completou o Curso Normal do Colégio Imaculada Conceição, de freiras francesas. Depois de terminar os estudos, receber o diploma, em 1925, ficou um período na fazenda, em Quixadá, lendo muito. Os seus pais faziam uma espécie de seleção prévia e lhe indicavam os melhores livros. Entre os preferidos de seus pais estavam muitos escritores russos, como Dostoievski, Gorki, Tolstoi, de forma que temas como revolução russa, marxismo, socialismo lhe eram muito simpáticos.

Entre suas leituras, no balanço da rede, Rachel soube que Suzana de Alencar Guimarães, uma parente distante, havia sido eleita Rainha dos Estudantes do Ceará, em concurso promovido pelo suplemento literário do jornal O Ceará. Suzana era uma intelectual, gostava de poesia, de Guilherme de Almeida. Ela não se conteve e escreveu uma carta fazendo pouco caso com o titulo de Suzana. Rainha, em plena república? Escreveu a carta, assinou com o pseudônimo Rita de Queluz e enviou para o jornal O Ceará, onde Suzana trabalhava. A carta foi recebida, publicada e causou grande rebuliço. Quem era Rita de Queluz? Alguns apostavam que era um homem.

O diretor do jornal convidou Rachel para trabalhar com ele. O Ceará era um jornal anticlerical, perfeito para as idéias de Rachel, que mesmo com todos os esforços de suas avós, nunca conseguiu ser uma católica fervorosa. Esse foi então o seu primeiro emprego. Mais que isso, foi também o acontecimento que definiu o que seria a sua vida dali por diante. Aos dezesseis anos, ela assumiu a direção da página literária do jornal, onde ganhava cem mil réis por mês. Na mesma época, ela começou a escrever um esboço de um romance, um folhetim chamado A história de um nome, segundo ela, influenciado pelo clima de Os Maias, que acabara de ler.

A escrita do primeiro romance publicado em forma de livro, O Quinze, começou nas madrugadas do sítio do Piei, onde a família Queiroz morava. Quando os irmãos e os pais dormiam e chegava o silêncio, Rachel pegava lápis, um caderno escolar e ia para perto do lampião deitar de barriga no piso da sala e escrever o seu livro sobre a seca. Depois do trabalho pronto, Rachel revelou o segredo e o mostrou a seu pai, que gostou do texto e ajudou-a com a publicação.

A recepção do Quinze no Ceará não foi das melhores. Apareceram algumas críticas dizendo que o livro era impresso em papel inferior e que não havia sido escrito por Rachel e sim por seu pai ou pelo escritor Beni de Carvalho. Esse boato foi espalhado em pequenas notas, por um outro escritor que frequentava a mesma roda de literatos que Rachel, em Fortaleza.

Se no Ceará a crítica se resumiu a essa mesquinhez, foi tudo muito diferente no sudeste do país. Um amigo de Rachel chamado Renato Viana deu-lhe uma série de nomes e endereços de amigos no Rio e em São Paulo para que ela pudesse enviar o livro e divulgar a obra. Antônio Sales também deu a Rachel uma boa lista de contatos.

Na mesma época da divulgação de O Quinze, o escritor Graça Aranha estava lançando com sua esposa, dona Nazareth Prado, a Fundação Graça Aranha. Naquele ano, 1931, inaugurariam a Fundação com o Prêmio Graça Aranha. Os primeiros ganhadores foram Cícero Dias, na pintura, Murilo Mendes, na poesia, e Rachel de Queiroz, com o romance O Quinze, uma grata surpresa para a jovem escritora.

Durante a temporada no Rio para o recebimento do prêmio, ela aproximou-se de escritores, intelectuais, diplomatas e na volta da viagem conheceu José Auto da Cruz, bancário e poeta, em Recife.

Muito cedo, Rachel descobriu a literatura de Dostoievski e de imediato encantou-se com o estilo e com o seu mundo de crimes e cenas sombrias. Vivia cercada pelos caboclos da fazenda. Foi entre eles que encontrou os traços de seu novo personagem, um homem que mata outro quando está bêbado, amarga alguns anos na cadeia, sofre a traição da esposa e depois é solto. Para escrever João Miguel, Rachel fez pesquisa de campo na cadeia do Pituí, em Baturité, onde se passa o livro, e na cadeia pública de Fortaleza. Além da pesquisa, há ainda muitas referências aos trâmites do Direito, provavelmente aprendidos com o pai.

A menina, então com 21 anos, poderia ter escolhido falar de amores idealizados, fantasias da juventude. Mas em seu segundo livro, considerado por muitos o seu melhor trabalho, Rachel optou por falar de angústia e solidão.

Em 1932, Rachel voltou ao Rio. Nessa viagem, ela levou consigo os originais de João Miguel Foi então que soube que, como membro do Partido Comunista, precisava submeter o texto aos dirigentes para que autorizassem a publicação. Rachel não concordou com as alterações. Em primeiro lugar porque estavam erradas. Em segundo lugar, porque Rachel não reconhecia naqueles homens nenhuma autoridade para criticar seu trabalho.

Em 1932, o poeta Augusto Frederico Schmidt publicou João Miguel pela sua Schmidt Editora.

Na vida pessoal, o namoro com José Auto foi rápido e quase totalmente por cartas. Casaram-se no dia 14 de dezembro de 1932, no sítio do Piei, em cerimônia simples, com a presença de um juiz, tudo preparado com muito carinho por seus pais. O casal viajou para a Bahia e ficou com a família de Jorge Amado até arranjar uma casa em Itabuna. Rachel chegou de viagem muito enjoada, atribuindo o mal estar aos sacolejos do navio. Mas era o início de uma gestação complicada. Com sete meses de gravidez, José Auto resolveu pedir uma licença do trabalho e levar Rachel para o Ceará. A licença demorou a chegar e seu irmão Roberto, foi buscá-la. Rachel melhorou um pouco na viagem, sob os olhares cuidadosos de seu irmão Roberto. Ao chegar a Fortaleza, ela desembarcou com dificuldade, fraca, pálida, cansada e muito pesada.

Foram direto para o Piei. Rachel mandou chamar a parteira, D. Júlia a mesma que fez o último parto de sua mãe. Daniel, por precaução, chamou um médico, o Dr. Leorne Menescal, que ficou na sala para o caso de alguma necessidade. Mas não foi preciso. Clotildinha nasceu bem, na cama de sua avó Clotilde. Era prematura, muito pequena, mas recuperou-se rapidamente graças à amamentação. Um mês depois, José Auto foi buscá-las e a nova família foi morar no Rio de Janeiro. Depois de dois ou três meses no Rio de Janeiro, foram morar um ano e meio em São Paulo. Pouco tempo depois, Rachel sofre o maior golpe de sua vida: a morte de sua filha, Clotildinha.

E curioso observar que em todos os romances de Rachel de Queiroz acontece a morte de uma criança. Nos dois primeiros, O Quinze e João Miguel ainda não havia perdido Clotildinha. Foi difícil superar a dor. Ela voltou para o Ceará, resolveu procurar um emprego e foi trabalhar na firma G. Gradhvol et Fiis, encarregada da escrita e tradução para inglês e francês, línguas que conhecia muito bem e permaneceu na empresa de 1936 a 1938, quando já era gerente. Foi nesse período, em 1937, que Rachel foi presa mais uma vez. Ela ficou a princípio, em regime incomunicável do Corpo de Bombeiros, de Fortaleza. Aos poucos a prisão ficou mais relaxada, com as visitas da família e as serenatas dos oficiais. A firma onde Rachel trabalhava mandava os livros para que ela trabalhasse na prisão. Nesse ínterim, Rachel escreveu o seu terceiro livro Caminho de Pedras, onde fala sobre as suas decepções com o Partido Comunista. É muito claro que ali estão os registros de situações que Rachel viveu nos tempos em que esteve ligada ao Partido, além da morte da filha da personagem principal, Noemi, que repete as circunstâncias da morte de Clotildinha.

Caminho de Pedras é o primeiro livro publicado pela Editora José Olympio, que foi sua editora até 1992. A publicação desse trabalho marca o fim de uma fase na vida de Rachel e o começo de um tempo de grandes mudanças.

Em 1939, Rachel estava bem no trabalho, mas entendeu que deveria deixar a casa, mudar de vida. O comércio não era a sua carreira. Saiu do emprego, separou-se de José Auto e mudou-se para o Rio de Janeiro. Era uma nova vida. Desquitada, tentando superar a morte da filha, Rachel tinha muitos desafios a enfrentar.

A mudança de Rachel para o Rio só acelerou o processo de consolidação de seu nome no cânone literário brasileiro. Ela passou a conviver com Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Guimarães Rosa, entre outros. Todos se encontravam para tomar café nos escritórios da Editora José Olvmpio. Todos os escritores que conviviam com José Olympio sabiam que, ao entregar os originais que dali sairia um bom livro.

Foi nessa fase que Rachel escreveu seu livro mais lírico, quase mémoria, onde relembra os doces tempos de colégio: As três Marias. Um romance feito com amor e talvez com o desejo de voltar no tempo e andar novamente pelos corredores do antigo colégio. As três personagens são a própria Rachel, a amiga Alba Frota e uma outra amiga chamada Ondina.

A chegada dos 30 anos de idade foi esse momento de mudanças e de emancipação para Rachel. Ela já era uma escritora estabelecida, tinha um bom editor e um grupo de amigos fiéis e influentes. Além disso, estava morando sozinha, no Rio de Janeiro, vivendo exclusivamente de seu trabalho de escritora. Outro acontecimento marcou os 30 anos de Rachel de Queiroz; ela conheceu aquele que seria o grande amor de sua vida. Pouco tempo depois dos primeiros encontros, Oyama e Rachel foram viver juntos, em Laranjeiras. Em 1945, Rachel e Oyama decidiram fixar residência na Ilha do Governador.

A Ilha trouxe um novo mundo para Rachel. As pessoas do lugar, os seus vizinhos, transformaram-se em personagens fortes para suas crônicas e para o folhetim que ela iria escrever, denominado O Galo de Ouro. Com o dinheiro recebido pelo folhetim, Rachel e o marido Oyama passaram quatro meses na Europa e o Galo de Ouro foi publicado.

Quando Rachel voltou, o folhetim tinha feito tanto sucesso que os editores do Cruzeiro já preparavam uma publicação. Ela não gostou, pois o seu editor na época já era José Olympio. Além disso, o texto havia sido escrito com muita rapidez, sem tempo para apurar e corrigir. Rachel tomou os originais das mãos dos editores e guardou-os por trinta e cinco anos.

Rachel dividia-se entre sua vida de dona de casa, fazendeira, esposa e o seu mundo literário e político. Tudo com muito equilíbrio e destreza.

Ela era sempre convidada para palestras, lançamentos de livros, programas de televisão, entrevistas. Mas dos tantos convites recebidos por Rachel, um chama atenção em especial: o então presidente Jânio Quadros convidou-a, em 1961, para ser Ministra da Educação, cargo que ela não aceitou. O motivo para a recusa: "sou jornalista e quero continuar sendo apenas jornalista".

Foi neste período, nos anos 70, que os amigos começaram a pressionar por uma candidatura de Rachel a Academia Brasileira de Letras. A escolha de um novo membro da Academia é considerada, para alguns, como a consagração da carreira de um escritor. Para outros, como mera questão de influência política. Para Rachel, sua entrada não foi uma coisa nem outra. Ela sempre declarou que, se hoje está lá, é por que seus amigos que já eram imortais queriam a sua companhia nos chás das quintas do Petit Trianon — nome do prédio onde funciona a Academia. Mas antes da campanha pelos votos, os amigos de Rachel tinham outra luta a enfrentar: garantir a entrada de mulheres na Academia.

Uma batalha difícil. Dinah Silveira de Queiroz e Júlia Lopes já haviam tentado, mas sem sucesso. Muitos eram radicalmente contra receber mulheres no Petit Trianon e isso ocasionou uma série conflitos, dissipados no dia em que vinte e cinco acadêmicos votaram a favor da entrada de mulheres. A democracia venceu e a regra foi modificada.

Logo que isso aconteceu, os amigos cercaram Rachel para que ela escrevesse a carta comunicando a intenção de ser candidata, conforme a regra da casa. Quem recebeu a carta de Rachel e fez a sua inscrição foi
Maria José, a Zezé, funcionária da Academia e amiga pessoal de Rachel até os dias de hoje.

A própria Dinah Silveira de Queiroz, que há anos tentava entrar na ABL, reconheceu que Rachel deveria ser a pioneira. Rachel mandou a carta e praticamente fugiu para Quixadá com Oyama. Ela não queria fazer todo o ritual da campanha pelos votos, frequentar a Academia, convencer os eleitores. Os amigos que inventaram a candidatura, que cuidassem dessa parte, o que fizeram muito bem. Quando Rachel chegou ao Rio de Janeiro, já foi às vésperas da eleição, que aconteceu no dia 05 de agosto de 1977. Ela estava disputando a vaga com outro candidato, o jurista Pontes de Miranda. A sessão contou com a presença de 30 dos 39 acadêmicos. Nove votaram por carta e um votou em branco. Resultado: 15 votos para o jurista Pontes de Miranda. 23 votos para Rachel de Queiroz. Depois da aprovação da entrada de mulheres na Academia e da eleição de Rachel, surgiu uma questão que era preciso resolver o mais rápido possível: o fardão.

Para as mulheres, certamente o fardão não ficaria bem. O que fazer? Sobre a polêmica em torno do fardão feminino, escreveu Olegário Mariano:
Há um obstáculo só, que me parece enorme:
o habit vert.
Que fazer? Criar novo uniforme?
Ou deixá-la à paisana no templo penetrar?
Os olhos do Trianon quase não dizem nada
mas preferem por certo uma mulher decotada
Que mulher fardada é horrível de se olhar."


Foi a própria Rachel quem solucionou o problema. Ela imaginou um vestido longo, do mesmo tecido do fardão masculino, mas com apenas discretos bordados dourados, representando os louros tradicionais. O modelo do vestido ganhou status de fardão e não pode mais ser modificado. Algumas acadêmicas, depois de Rachel, acharam o vestido simples demais e quiseram aumentar as aplicações de dourado no busto, mas não foi permitido. A única e sutil alteração foi feita dez anos depois, por Lygia Fagundes Telles, acrescentando discretas ombreiras para aumentar a elegância do traje.

Com a chegada da primeira mulher à Academia, seus colegas tiveram que cuidar de outro detalhe, antes desnecessário: mandaram fazer um banheiro feminino, que a sede da ABL não possuía.

Em 1982, um acontecimento mudou totalmente a sua vida. Após alguns anos de doença, Oyama morreu. Rachel cuidou do marido com amor e devoção, até o último dia de sua vida. Depois de sua morte, Rachel declarou:

É impossível dizer a influência de Oyama comigo porque Oyama era eu, Então, em nada que um de nós fazia, o outro deixava de ter uma participação total. O Oyama era o meu melhor crítico. Nunca escrevi, durante toda nossa vida em comum, nunca escrevi uma palavra que não fôsse lida por ele, comentada por ele e discutida entre nós. Fora todas as afinidades que me prendiam a ele, eu adorava o Oyama.
Oyama aprendeu a amar tudo o que Rachel amava. Isso dobrou a felicidade que já existia. Longe de ser um marido ciumento, egoísta, ele incentivava Rachel em seu ofício de escritora, lia os seus textos antes de todos, vibrava com ela a cada vitória. Por tudo isso, a falta de Oyama nunca pode ser superada e a vida de Rachel nunca mais teve a mesma cor. Quase dez anos após a morte de Oyama, ela começou a escrever um outro romance. Em 1991, Rachel iniciou a pesquisa sobre o banditismo nordestino de 1860 a 1870. Nessas pesquisas encontrou personagens que povoaram a sua imaginação, como a saga de uma mulher que roubava para dar comida aos filhos. Era Maria de Oliveira, que tornou-se conhecida porque, juntamente com os filhos e uns cabras saiu assaltando fazendas. A partir dessa imagem de mulher forte que assalta para sobreviver no sertão, começou a nascer a Maria Moura, dentro de Rachel.

Ao mesmo tempo, Rachel misturou a figura dessa sertaneja com a de Elisabeth I da Inglaterra, que morreu no início do século XVII. Rachel havia lido várias biografias da rainha e intuiu que as duas se pareciam de algum modo.

Vasculhando os escritos de Rachel, há um texto seu, ainda no jornal "O Ceará", durante a segunda metade do anos de 1928 que desperta curiosidade. Rachel entrevistou Maria Lacerda de Moura, um das mais importantes lideranças feministas da época. Ambas defendiam idéias feministas com fervor. Talvez sua entrevistada possa ter sido a inspiração para batizar Maria Moura.

Assim, oriunda de várias fontes de inspiração, nasceu Maria Moura, sua vida, sua estória. A mulher forte e destemida que tocou fogo na casa onde vivia e saiu no mato em busca de um pouso seguro para construir o seu império: a Casa Forte. Quando lançou Maria Moura, Rachel declarou: era seu último romance. Faltavam treze dias para seu aniversário de 93 anos quando Rachel de Queiroz virou a última página do livro de sua vida. Partiu enquanto dormia, serena, em paz.

No dia anterior, cumpriu sua rotina como de costume. Acordou tarde, pediu a sua secretária, Rosita, que lesse para ela as notícias do jornal e algumas páginas da sua mais recente biografia, que acabara de receber. Ativa até os últimos momentos de sua vida, a escritora sempre manteve o bom humor durante as entrevistas que concedeu a Socorro Acioli. A irmã caçula, Maria Luíza, a quem Rachel amava como filha, havia chegado de viagem. Ao visitá-la, perguntou:

- Tudo bem, minha Teté?

- Só não estou melhor porque não estou no Ceará, respondeu Rachel.
Essa frase, uma das últimas que proferiu, carrega em si a essência da vida de Rachel de Queiroz. Na última conversa com a irmã, de tudo o que viveu nesses tantos anos, só lembrou a saudade do seu Ceará, a razão de sua vida, o fio condutor de sua obra. E como tudo na vida termina de maneira mais bonita com poesia, concluo os meus pensamentos sobre Rachel de Queiroz louvando-a à moda de Manoel Bandeira:

Louvado para Rachel de Queiroz
(Manuel Bandeira)

Louvo o Padre, louvo o Filho,
O Espírito Santo louvo,
Louvo Rachel, minha amiga,
nata e flor do nosso povo.
Ninguém tão Brasil quanto ela,
pois que, com ser do Ceará,
tem de todos os Estados,
do Rio Grande ao Pará.
Tão Brasil: quero dizer
Brasil de toda maneira
- brasílica, brasiliense,
brasiliana, brasileira.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel e, louvada
uma vez, louvo-a de novo.
Louvo a sua inteligência,
e louvo o seu coração.
Qual maior? Sinceramente,
meus amigos, não sei não.
Louvo os seus olhos bonitos,
louvo a sua simpatia.
Louvo a sua voz nortista,
louvo o seu amor de tia.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel, duas vezes
louvada, e louvo-a de novo.
Louvo o seu romance; O Quinze
E os outros três; louvo As Três
Marias especialmente,
mais minhas que de vocês.
Louvo a cronista gostosa.
Louvo o seu teatro: Lampião
e a nossa Beata Maria.
Mas chega de louvação,
porque, por mais que a louvemos,
Nunca a louvaremos bem.
Em nome do Pai, do Filho e
do Espírito Santo, amém.

Fonte:
ACIOLI, Socorro. Rachel de Queiroz .Coleção Terra Bárbara. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2003.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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