Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 109)


1. Uma Trova do Paraná
-
DÉSPITA PERUSSO
(São Jerônimo da Serra)


Belo e vetusto pinheiro!
To alto  grande a distncia
foi meu leal companheiro
nos doces anos da infncia
========================
2. Uma Trova sobre Paz no Futebol, de Pedro Leopoldo/MG
-
WAGNER MARQUES LOPES

 

Futebol... O bom se faz -
passe a passe... Par a par...
Que o craque chamado Paz
ninguém consiga driblar!
========================
3. Uma Trova do Izo
-
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


Na velhice, as incertezas,
para ocupar os espaços,
vão empilhando tristezas
e acumulando cansaços…
===================================
4. Uma Trova Lírica/ Filosófica do Pará
-
ROBERTO RODRIGUES

 

Na solidão de nós dois,
buscando um ponto em comum
eu já nem sei quem vós sois,
sei que sou eu, e só um.
=======================
5. Uma Trova Humorística, de Maranguape/CE
-
GLICE SALES ALCÂNTARA


Quando o noivo ao pai pediu
a mão da filha Mazé
o papagaio sorriu
- “A mim só pedem o pé!”
======================
6. Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 - 2013 Natal/RN


Mesmo em momentos tristonhos,
carregada de lamentos,
navega cheia de sonhos
a Nau dos meus pensamentos!…
========================
7. Uma Trova Hispânica do Perú
-
PAÚL TORRES


En la senda de mi vida
eres agua y bendición
eres hoguera encendida
en mis noches de pasión.
===================
8. Uma Trova sobre Respeito, de Maringá/PR
-
A. A. DE ASSIS


Sonho um mundo onde o respeito
recupere o seu valor
e onde o amor pelo direito
gere o direito do amor.
========================
9. Trovadores que deixaram Saudades
-
AGENOR DE OLIVEIRA FREITAS
Altamira/PA (1911 – 2006) Santos/SP


Roseira, perdeste a flor,
bem igual é o meu destino:
eu também perdi na dor
os meus sonhos de menino!
========================
10. Uma Trova do Príncipe dos Trovadores
-
LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


De um rio, de um mar, de um sino,
a música viva ou calma,
é a alma - sopro divino -
das coisas que não têm alma...
========================
11. Um Haicai do Paraná
-
VIDAL IDONY STOCKLER


Nas vozes do vento
Há muito que meditar:
Concerto de rãs.
================
12. Uma Trova da Rainha dos Trovadores
-
LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Que o mundo acabe, no fundo,
não me causa dissabor,
pois vivo fora do mundo,
no meu mundo de amor.
====================
13. O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 - 1989)


parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é meu deus

eu sou o seu profeta
======================
14. Uma Trova do Rei dos Trovadores
-
ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Coração, fonte da Vida,
da vida a própria razão.
- E tanta gente eu conheço,
vivendo sem coração...
======================
15. O Universo Triverso de Pellegrini
-
DOMINGOS PELLEGRINI
(Londrina/PR)

 

Andar
é encontrar outro eu
em outro lugar
========================
16. O Universo Poético de Sardenberg
-
ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Amigo


Deixe-me ser seu amigo
Sem exigir recompensa.
Ser seu norte, seu abrigo,
Amigo de fé e de crença.

Deixe-me ser o amigo
Que sabe estender a mão
Dividindo o pão de trigo
No momento do perdão.

Deixe-me ser seu amigo,
Aquele irmão camarada,
Ser o guia que conduz
Seus passos pelas estradas.

Deixe-me ser seu amigo,
O amigo verdadeiro,
Doando-me por inteiro
De forma terna e completa,
Deixe-me ser seu amigo,
Com a Alma de Poeta...

DEIXE-ME SER…
==============================
17. O Universo Poético de Cecília
-
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Metamorfose


 Súbito pássaro
dentro dos muros
caido,

 pálido barco
na onda serena
chegado.

Noite sem braços!
Cálido sangue
corrido.

E imensamente
o navegante
mudado.

Seus olhos densos
apenas sabem
ter sido.

Seu labio leva
um outro nome
mandado.

súbito pássaro
por altas nuvens
bebido.

Pálido barco
nas flores quietas
quebrado.

Nunca, jamais
e para sempre
perdido

o eco do corpo
no próprio vento
pregado.
======================
18. O Universo Melódico de Assumpção
-
MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Meu Quintal


Quando teu olhar não enxergar a minha pele clara,
Quando você passa como passa a flecha atrás do alvo,
Quando um mar transbordar dentro do quarto, na sala vazia

Quando você faz aquele céu azul virar cinzento,
Quando você faz chover e apaga aquele fogo intenso,
Quando o silêncio da explosão dentro do peito te acordar

Lírios e jasmins no chão, manga-rosa, bem-te-vi,
Fantasia de carnaval, quando você não correr mais no meu quintal

Quando a bailarina rodopia e dança ao som da valsa,
Quando a lua testemunha aquilo que não se conta,
Quando você pinta de branco o branco da sala, e solta o grito preso na garganta

Lírios e jasmins no chão, manga-rosa, bem-te-vi,
Fantasia de carnaval, quando você não correr mais no meu quintal
================================
19. O Universo Haicaista de Guilherme
-
GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Interior


Havia uma rosa
no vaso. Veio do ocaso
a hora silenciosa.
==============================
20. O Universo Sonetista de Alma Welt
-
ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

O Silêncio das Esferas


Eu quis sempre admirar-me de mim mesma,
Isso foi meu escopo ou minha meta.
Versos por mês: ao menos uma resma...
Talvez menos poetisa que pateta.

A quem? Por quê? Pra quê? Mas quem se importa?
O mundo, sempre o mundo, no meu nome,
Tudo a que a memória se reporta,
E que é pra onde vai a nossa fome...

Mas viemos das estrelas encantadas,
Para onde voltaremos certamente,
E vejam como elas são caladas!

O silêncio surdo das esferas,
Distante do rumor da tua mente
Que indaga, perscruta, e te exasperas...
=============================
21. Uma Poesia de Blumenaus/SC
-
LUIZ EDUARDO CAMINHA
 

Imprecisões

Quem sou eu,
este ser inerme,
que faz da voz,
arma contusa?

Quem sou eu,
este ser inerte,
que mexe, remexe,
látego impiedoso?

Quem sou, afinal,
este ser sereno,
que num ímpeto se faz,
irascível mordaz.

Oh, cruel, inominado e controverso ser,
Verso, reverso, homo erraticus et perdidit!

Acaso uma criatura?
Erro da Criação,
insigne animal,
pedestal de areia?

Quiçá um dia,
de tanto me procurar,
alcance, almejo,
lugar pra descansar.

Desta busca infindável,
deste contínuo rebuscar.
Neste dia, quiçá, porvir,
Deus se ponha a me perdoar.
=================
22. O Universo de Francisca
-
FRANCISCA JÚLIA
1871, Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP - 1920, São Paulo/SP)

Caridade

 

A alma do homem se torna egoísta e má
Porque a impiedade de hoje é a sua escola.
Essa, que no Evangelho se acrisola,
Caridade cristã, onde é que está?

Capazes, hoje em dia, poucos há
Dessa piedade rara, que consola,
Que os olhos fecha para dar a esmola,
A fim de que não veja a quem a dá.

Sede piedosos. Bem-aventurado
Os que fazem o bem de olhos fechados.
Pois a esmola é só útil e eficaz,

Só tem justo valor, sem dano ou perda,
Se não chega a saber a mão esquerda
O benefício que a direita faz.
========================
23. Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas
-
O BENTO
 
(Duas versões)


Lengalenga inerente aos jogos de “o mestre manda”, em que os uns têm de seguir todo o que o mestre mandar fazer.
 ***
 
Bento que benta é frade
Na boca do povo.
Tudo o que o mestre mandar,
Faremos todos.

***

- Bento que bento é o frade!
- Frade!
- Na boca do forno!
- Forno!
- Cozinhando um bolo!
- Bolo!
- Fareis tudo o que o mestre mandar?
- Faremos todos!
=========================
24. O Universo de Pessoa
-
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem.
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.
========================
25. O Universo Poético de Vinicius
-
VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Acontecimento

 

Haverá na face de todos um profundo assombro
na face de alguns risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunirão em lugares desertos
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres
Como se o milagre tivesse realmente se realizado
Muitos sentirão alegria
Porque deles é o primeiro milagre
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes
Muitos não compreenderão
Porque suas inteligências vão somente até os processos
E já existem nos processos tantas dificuldades...
Alguns verão e julgarão com a alma
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm
Ouvirão apenas dizer...
Será belo e será ridículo
Haverá quem mude como os ventos
E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
Escutando verdades e mentiras
Mas não dizendo nada
Só a alegria de alguns compreenderem bastará
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
Que as águas mais turvas contêm ás vezes as pérolas mais belas
============================
26. Uma Poesia de Portugal
-
ALMEIDA GARRETT

Nau Catrineta


Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide agora, senhores,
Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar.

Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija,
Que a não puderam tragar.

Deitaram sortes à ventura
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão general.

- "Sobe, sobe, marujinho,
  Àquele mastro real,
  Vê se vês terras de Espanha,
  As praias de Portugal!"

- "Não vejo terras de Espanha,
  Nem praias de Portugal;
  Vejo sete espadas nuas
  Que estão para te matar."

- "Acima, acima, gageiro,
  Acima ao tope real!
  Olha se enxergas Espanha,
  Areias de Portugal!"

- "Alvíssaras, capitão,
  Meu capitão general!
  Já vejo terras de Espanha,
  Areias de Portugal!"
  Mais enxergo três meninas,
  Debaixo de um laranjal:
  Uma sentada a coser,
  Outra na roca a fiar,
  A mais formosa de todas
  Está no meio a chorar."

- "Todas três são minhas filhas,
  Oh! quem mas dera abraçar!
  A mais formosa de todas
  Contigo a hei-se casar."

- "A vossa filha não quero,
  Que vos custou a criar."

- "Dar-te-ei tanto dinheiro
  Que o não possas contar."

- "Não quero o vosso dinheiro
  Pois vos custou a ganhar."

- "Dou-te o meu cavalo branco,
  Que nunca houve outro igual."

- "Guardai o vosso cavalo,
  Que vos custou a ensinar."

- "Dar-te-ei a Nau Catrineta,
  Para nela navegar."

- "Não quero a Nau Catrineta,
  Que a não sei governar."

- "Que queres tu, meu gageiro,
  Que alvíssaras te hei-de dar?"

- "Capitão, quero a tua alma,
  Para comigo a levar!"

- "Renego de ti, demónio,
  Que me estavas a tentar!
  A minha alma é só de Deus;
  O corpo dou eu ao mar."

Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;

E à noite a Nau Catrineta
Estava em terra a varar.
========================
27. O Universo de Auta
-
Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN

Doente


A lua veio... foi-se... e em breve ainda,
Há de voltar, a doce lua amada,
Sem que eu a veja, a minha fada linda,
Sem que eu a veja, a minha boa fada.

Ela há de vir, Ofélia desmaiada,
Sob as nuvens do céu na alvura infinda
Do seu branco roupão, noiva gelada,
Boiando à flor de um rio que não finda.

Ela há de vir, sem que eu a veja... Entanto,
Com que tristezas e saudoso encanto
Choro estas noites que passando vão...

Ó lua! mostra-me o teu rosto ameno:
Olha que murcha à falta de sereno
O lírio roxo do meu coração!
==========================
28. O Universo Triverso de Millôr
-
MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro (1923 – 2012)


Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.
======================
29. O Universo de J. G.
-
J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

" Perdido "


Estou perdido. Não poderei nunca ser eu
com a minha vida. Onde andarei? Onde me encontro?

Poliram-me tanto que não me reconheço
em minhas formas, e minha alma se envergonharia
de ser pura, talvez.

Fizeram-me um covarde, castraram-me,
e me deixo ficar entre paredes, entre livros,
alimentado de convenções
posando de civilizado para que? para quem?

Não dormirei nos bancos das praças das cidades desconhecidas,
não me perderei pelos caminhos a cata de borboletas e de novos amigos,
não embarcarei, clandestino, nos navios para qualquer lugar;
não amarei as mulheres como os cães das ruas
sem saber os seus nomes, sem conhecer suas preocupações,
sem ancorar em seus desejos;

serei um homem civilizado,
deslizarei sobre trilhos como os vagões de um trem
levado pelos mesmos itinerários por ignorado maquinista
escravo de horários, conversando em apitos e sinais.

Não serei atropelado, não morrerei nas catástrofes,
não me perderei nos desertos,
não adormecerei sobre as relvas olhando as nuvens e as estrelas
não sonharei, vagabundo, à beira do cais.

Estou perdido.
Poluído de tédio e desamor, como uma infeliz "mulher da zona"
que chora ao se lembrar da infância como a uma irmãzinha distante
que morreu.

Ah! pudesse nascer outra vez para encontrar-me
com a minha vida, e me reconhecer.

E sair com ela pelo mundo, como um saltimbanco,
ir com ela pra terra, feliz como um marinheiro
em cada porto...

(Ah! ir morrendo assim sem ter nascido! )
============================
30. Um Soneto do Rio de Janeiro
-
JOÃO COSTA

Imaginemos um Mundo Melhor


Imaginemos um mundo perfeito,
com liberdade e direitos iguais,
onde não haja nenhum preconceito,
jamais as discriminações raciais.

Vamos imaginar um mundo feito
de amor e de ternura, onde jamais
se ouça falar em guerra, em desrespeito,
em violência, em miséria… não mais!…

Imaginemos toda a Humanidade
em meio a uma aura de felicidade,
saudável, próspera e em harmonia.

Vamos dar asas à imaginação!
Vamos sonhar, abrir o coração!
E que Deus abençoe nossa utopia!
========================
31. O Universo das Sextilhas do Zé Lucas
-
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Natal/RN (1934)


Com certeza, lá no céu
a vida é somente amor;
necessidades, não há;
dinheiro não tem valor,
e a felicidade eterna
supõe ausência de dor.
===============================
32. O Universo de Silviah
-
SILVIAH CARVALHO
Curitiba/PR

Noite e Dia


Existe uma passividade que de forma alguma é indolência
A calma viva que nasce da confiança na Força
que existe em nós, que nos torna capazes de vencer
ou nos adaptarmos as circunstancias
A vida não está sob seu controle
mas se não administrá-la, ela será seu algoz
   
Tensão quieta não é confiança
consciência exausta não é o exercício da fé
Em tempo de incerteza, espera.
Não se subestime você é capaz
Há corações como raras flores,
que só se abrem nas sombras da vida
Não se precipite o tempo de cantar há de vir
  Você terá paz
   
A fé põe sua carta no correio
a desconfiança a segura
E questiona, porque a resposta não veio?
Se ainda carregas o seu fardo
seu esforço foi em vão, e suas cartas
 não terão finalidades se não saírem de suas mãos
   
Seu valor é mais alto do que supunha seus adversários
Quem dera pudesse ver!
Diamantes são embrulhados em pacotes grosseiros
para que ninguém saiba do valor que está ali dentro
na verdade há tesouros escondidos em você
   
Não se habilite em começar sem acabar
assim será hábil em fracassar.
Bens preciosos são os adquiridos com esforço,
lágrimas e dor, ainda que com o tempo eles pereçam
deixarão em nós lembranças como cicatrizes de valor
   
Qualquer situação pode ser mudada
se tiverdes equilíbrio e paciência
Então, suporta os açoites
Espere pelo Dia,
Mas antes, enfrente e vença sua Noite...
=========================
33. Uma Poesia Além Fronteiras (África)
-
Mário António
(Angola)

Uma Negra Convertida


Minha avó negra, de panos escuros,
da cor do carvão...
Minha avó negra de panos escuros
que nunca mais deixou...

Andas de luto,
toda és tristeza...
Heroína de ideias,
rompeste com a velha tradição
dos cazumbis, dos quimbandas...

Não xinguilas, no obito.
Tuas mãos de dedos encarquilhados,
tuas mãos calosas da enxada,
tuas mãos que preparam mimos da Nossa Terra,
quitabas e quifufutilas - ,
tuas mãos, ora tranquilas,
desfilam as contas gastas de um rosário já velho...

Teus olhos perderam o brilho;
e da tua mocidade
só te ficou a saudade
e um colar de missangas...

Avózinha,
as vezes, ouço vozes que te segredam
saudades da tua velha sanzala,
da cubata onde nasceste,
das algazarras dos óbitos,
das tentadoras mentiras do quimbanda,
dos sonhos de alambamento
que supunhas merecer...
E penso que... se pudesses,
talvez  revivesses
as velhas tradições!
=====================
34. O Universo de Adélia
-
ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)

 

Anímico
 

Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoada de todo jeito:
tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.
É pata, é asas, é boca, é bico, é grão de
poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.
=====================
35. O  Universo Poético de Bilac
-
OLAVO BILAC
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

As formigas


Cautelosas e prudentes,
O caminho atravessando,
As formigas diligentes
Vão andando, vão andando ...

Marcham em filas cerradas;
Não se separam; espiam
De um lado e de outro, assustadas,
E das pedras se desviam.

Entre os calhaus vão abrindo
Caminho estreito e seguro,
Aqui, ladeiras subindo,
Acolá, galgando um muro.

Esta carrega a migalha;
Outra, com passo discreto,
Leva um pedaço de palha;
Outra, uma pata de inseto.

Carrega cada formiga
Aquilo que achou na estrada;
E nenhuma se fatiga,
Nenhuma para cansada.

Vede! enquanto negligentes
Estão as cigarras cantando,
Vão as formigas prudentes
Trabalhando e armazenando.

Também quando chega o frio,
E todo o fruto consome,
A formiga, que no estio
Trabalha, não sofre fome ...

Recorde-vos todo o dia
Das lições da Natureza:
O trabalho e a economia
São as bases da riqueza.
===========================
36. O Universo de Drummond
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 - 1987) Rio de Janeiro/RJ

Quarto em Desordem


Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo

verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.
========================
37. UniVersos Melodicos
-
Ataulfo Alves

LEVA MEU SAMBA
(samba, 1941)


Leva meu samba
Meu  mensageiro
Este  recado
Para  o  meu  amor  primeiro
Vai  dizer  que  ela  é
A   razão  dos  meus  ais
Não,  não  posso  mais

Eu que pensava  que  podia  te  esquecer
Mas  qual  o que  aumentou  o  meu  sofrer
Falou  mais  alto  no  meu  peito  uma  saudade
E  para  o  caso  não  há  força  de  vontade
Aquele  samba  foi  pra ver  se  comovia  o teu  coração
Onde  eu dizia   Vim  buscar  o  meu  perdão
==========
38. Uma Cantiga Infantil de Roda
-
A MÃO DIREITA


Outra versão:

A mão direita tem uma roseira,
A mão direita tem uma roseira
Que dá flor na primavera,
Que dá flor na primavera.

Entrai na roda, ó linda roseira !
Entrai na roda, ó linda roseira !
Abraçai a mais faceira,
Abraçai a mais faceira.

A mais faceira eu não abraço,
A mais faceira eu não abraço,
Abraço a boa companheira,
Abraço a boa companheira.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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