Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 7 de setembro de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 110)


Uma Trova do Paraná
-
HEITOR STOCKLER DE FRANÇA
(Palmeira)


Confesso no teu perfume
e no sabor do teu beijo,
que para mim se resume
a volúpia do desejo.
========================
Uma Trova sobre Esperança, de Pedro Leopoldo/MG
-
WAGNER MARQUES LOPES


A dor parece incontida?...
Lave o rosto e não se abale:
a esperança é sol da vida
vencendo as sombras do vale
========================
Uma Trova do Izo
-
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP


No seu biquini apertado,
Maria me deixa mudo,
pois nunca vi "tanto nada"
cobrindo, tão pouco ..."tudo"...
===================================
Uma Trova Lírica/ Filosófica de Pindamonhangaba/SP
-
NÉLIO BESSANT


"Eu te amo", dizia tanto,
e só silêncio ele ouvia,
que, um dia, calou seu canto
e nunca mais fez poesia...
=======================
Uma Trova Humorística, de São Paulo
-
MARTA Mª PAES DE OLIVEIRA – SP


Sei que o trabalho enobrece,
e eu até quero ser nobre,
mas a preguiça esclarece:
- Trabalho é coisa de... pobre!
======================
Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 - 2013 Natal/RN


Inimigo do trabalho,
é meu primo, o “Paraíba;”
seu emprego é no baralho:
buraco, truco e biriba.
========================
Uma Trova Hispânica da Colombia
-
HÉCTOR JOSÉ CORREDOR CUERVO


Con esta trova quisiera
en palabras escribir
al gruñón como la fiera
que no sabe sonreír.
===================
Uma Trova sobre Respeito, de Niterói/RJ
-
ÉDERSON CARDOSO DE LIMA

           
Não  importam raças, crenças
e o viver de cada irmão.
O respeito às diferenças
engrandece o coração!
========================
Trovadores que deixaram Saudades
-
ABIGAIL RIZZINI
Nova Friburgo/RJ


Mulata do "ôba-ôba"
Sambando nas gafieiras
nunca viu tanta "mão boba"
grudada em suas cadeiras…
========================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores
-
LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP


Nossa Língua Portuguesa
bem menos rica seria
se não tivesse a riqueza
deste teu nome - Maria!
========================
Um Haicai de Pedro Leopoldo/MG
-
WAGNER MARQUES LOPES


O mês é de agosto.
Ao sol, pipa sem cerol:
brinquedo bem posto.
================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores
-
LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981


Pensei fazer um feitiço
para esquecer-te, mas vi
que de tanto pensar nisso
é que penso mais em ti.
====================
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 - 1989)


passa e volta
a cada gole
uma revolta
======================
O Universo das Glosas de Gislaine
-
GISLAINE CANALES
Balneário Camboriú/SC

–––––––––––––––––
Composição poética de origem peninsular, constituída por uma estrofe inicial, onde é apresentado o tema (mote), seguida por tantas estrofes quantos os versos apresentados na estrofe inicial e devendo ser estes incluídos sucessivamente, um a um, no final de cada estrofe, para desenvolvimento do tema da composição, que é sobretudo amoroso.
Lembra-se que o termo glosa é sinónimo de volta e que este possui três aceções diferentes: ora de composição poética; ora de verso, que se repete no final das estrofes que glosam o mote; ora, já numa extensão de sentido, de estrofes, que desenvolvem o tema do mote nas cantigas e nos vilancetes.
A glosa tem grande representatividade, a partir do século XV, nos cancioneiros hispânico e português, dos quais se destaca o Cancioneiro Geral (1516) de Garcia de Resende, sendo sobretudo desenvolvida por poetas palacianos. (In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-09-07])


Glosando A A de Assis
Riozinho


MOTE:

VAI, RIOZINHO, SEM PRESSA...
LEMBRA AO MAR, SEM RAIVA OU MÁGOA,
QUE ELE É GRANDE, MAS COMEÇA
NUM MODESTO OLHINHO D’ÁGUA!

GLOSA
 
VAI, RIOZINHO, SEM PRESSA...
desliza tranqüilamente,
não há nada que te impeça
de ser puro e transparente!

Quando chegares ao mar,
LEMBRA AO MAR, SEM RAIVA OU MÁGOA,
que nesse teu desaguar
existe um amor em frágua!

Que do orgulho, se despeça
esse mar tão envolvente...
QUE ELE É GRANDE, MAS COMEÇA
numa pequena vertente!

Sangas correm para o rio,
o rio, no mar deságua,
mas nasce a correr ...vadio,
NUM MODESTO OLHINHO D’ÁGUA!
=====================
Uma Trova do Rei dos Trovadores
-
ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ


Não lamento a minha lida,
nem, pobre, choro os meus ais;
- Quem tem um amor na vida,
tem tudo! Para quê mais?
======================
O Universo Triverso de Pellegrini
-
DOMINGOS PELLEGRINI
(Londrina/PR)


Ameixas são como amêndoas:
tendo-as, deixa-as
não tendo, te queixas
========================
O Universo Poético de Sardenberg
-
ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)

Abraço


Chegou como aragem mansa
Em manhã de primavera
Era a mais doce quimera
A mais intensa esperança
A desejada bonança
Que um homem quer e espera!

No rosto abria um sorriso,
Um semblante angelical
Um mundo pleno e total
Era o próprio paraíso
Nunca senti nada igual!

Nos seus olhos cor de mel
Trazia a luz que irradia
Lindo toque de magia
O mundo de esplendor
Que eu sempre quis um dia

Seus braços aconchegantes
Era um buquê de carinho
O afago de um ninho
A ternura de amante
O perfume do jasmim
Emoção mais fascinante
Que senti dentro de mim.

E assim, bem de mansinho,
Nossos braços se enroscaram.
E ficamos bem juntinhos
Atados como num laço...
Então eu pude sentir
Minha razão de existir
Nesse terno e doce abraço.
==================================
O Universo Poético de Cecília
-
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ

Canção de alta noite

  
Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

 Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

 Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

 Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

 Andar...Perder o seu passo
na noite, também perdida.

 Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.
 
Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.
 
Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
Não necessita de nada.
======================
O Universo Melódico de Assumpção
-
MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

 

Castiçais

Quero sair pela rua e quem sabe encontrar alguém
Que queira me ouvir revelar o que a luz da razão não diz
Quero um ombro pra confessar,
Dizer que eu não ligo se alguém me vê chorar

Quero olhar o mundo inteiro da minha janela e não ver
A vida passar como num filme que nem sequer tem final feliz
Quero lançar estrelas no chão,
Pra não me perder pelo asfalto da rua sem teu clarão

Quero as chamas dos lampiões a gás
Clareando a noite sem pretensão
Enxergar o brilho do nosso amor
Bem mais que a luz que emana agora dos castiçais

Quero me embrenhar nas florestas, umbrais, porões, quintais
Mergulhar em abismos, abraçar o sol feito aprendiz
Quero a mão de Deus a me embalar
Nas horas difíceis em que a saudade apertar

Quero poder te amar sem medo e sem qualquer pudor
Sem rancor, ainda sorrir, mesmo que a hora seja de partir
Quero um novo sonho a cada manhã
Trazer de volta o menino e o gosto de hortelã

Quero as chamas dos lampiões a gás
Clareando a noite sem pretensão
Enxergar o brilho do nosso amor
Bem mais que a luz que emana agora dos castiçais
================================
O Universo Haicaista de Guilherme
-
GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Vento de Maio


Risco branco e teso
que eu traço a giz, quando passo.
Meu cigarro aceso.
==============================
O Universo Sonetista de Alma
-
ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)

Poiesis


Cercada estou dos meus velhos fantasmas
Que me são gratificantes, eu confesso.
Não são eles que povoam minhas asmas
Mas a minha alma, obra em processo.

Pois com eles me ligo a uma corrente
Dos séculos e dos seus grandes segredos
Que guardo no fundo da minha mente
A fim de descobrir o fim dos medos.

Então eu os vazo nos meus versos
Através de um código discreto
Que evita os conceitos controversos.

A pura poiesis é a mensagem,
Ela é o embrião do próprio feto,
A vida está nela e não à margem...
=================
Uma Poesia de Araras/SP
-
MÁRCIA SANCHEZ LUZ
(Márcia Guidugli Sanchez Luz)

Madrigal


Quero-te ao som do silêncio,
quero-te à sombra da estrela;
quero-te, amor, sem parelha!
Como te quero, endoideço!

Quero-te tanto e mal penso
que te querer me congela.
E este querer sem cautela
me faz viver sonho imenso.

Quero-te assim, como eu quero
que este querer não acabe!
Por ti, meu bem, não pondero

e mesmo nem considero
se em nossa vida não cabe
o amor que tanto eu espero.
========================
O Universo de Francisca
-
FRANCISCA JÚLIA
1871, Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP - 1920, São Paulo/SP)

A Florista


 Suspensa ao braço a grávida corbelha,
Segue a passo, tranqüila... O sol faísca...
Os seus carmíneos lábios de mourisca
Se abrem, sorrindo, numa flor vermelha.

Deita à sombra de uma árvore. Uma abelha
Zumbe em torno ao cabaz... Uma ave, arisca,
O pó do chão, pertinho dela, cisca,
Olhando-a, às vezes, trêmula, de esguelha...

Aos ouvidos lhe soa um rumor brando
De folhas... Pouco a pouco, um leve sono
Lhe vai as grandes pálpebras cerrando...

Cai-lhe de um pé o rústico tamanco...
E assim descalça, mostra, em abandono,
O vultinho de um pé macio e branco.
============================
Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas
-
Lengalengas dos Dedos

 
(Várias versões)
 
Estas lengalengas são ditas segurando a mão de alguém, apontado para os dedos, à vez, enquanto é dita.


 ***
 Pequenino (o dedo mindinho)
  Seu vizinho (o anelar)
 Pai de todos (o dedo médio)
 Fura bolos (o indicador)
 E mata piolhos. (o polegar)

 ***

 Este diz: quero pão
 Este diz: que não há
 Este diz: que Deus dará
 Este diz: que furtará
 E este diz: alto lá

***

 O dedo mindinho quer pão
 O vizinho diz que não
 O pai diz que dará
 Este o furtará
 E o polegar: «Alto lá!»

Fonte:
E-book da equipa do Luso-Livros
http://luso-livros.net/

====================
O Universo de Pessoa
-
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935


Onda que vens e que vais
Mar que vais e depois vens,
Já não sei se tu me atrais,
E, se me atrais, se me tens.
========================
O Universo Poético de Vinicius
-
VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)

Os acrobatas


Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
Acima do além, subamos!
Com a posse fisica dos braços
Inelutavelmente galgaremos
O grande mar de estrelas
Através de milênios de luz.

Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
Com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
Na calma convulsa da ascensão.

Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
Lá onde o infinito
De tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!

Tensos
Pela corda luminosa
Que pende invisível
E cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
Do grande mar de estrelas
Onde dorme a noite
Subamos!

Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
Na fibra do pescoço
Os pés agudos em ponta.

Como no espasmo.

E quando
Lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus

Num último impulso
Libertados do espírito
Despojados da carne
Nós nos possuiremos.

E morreremos
Morreremos alto, imensamente
IMENSAMENTE ALTO.
===========================
Uma Poesia de Portugal
-
AL BERTO

Acordar tarde


tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia
========================
O Universo de Auta
-
Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN

Doente


A lua veio... foi-se... e em breve ainda,
Há de voltar, a doce lua amada,
Sem que eu a veja, a minha fada linda,
Sem que eu a veja, a minha boa fada.

Ela há de vir, Ofélia desmaiada,
Sob as nuvens do céu na alvura infinda
Do seu branco roupão, noiva gelada,
Boiando à flor de um rio que não finda.

Ela há de vir, sem que eu a veja... Entanto,
Com que tristezas e saudoso encanto
Choro estas noites que passando vão...

Ó lua! mostra-me o teu rosto ameno:
Olha que murcha à falta de sereno
O lírio roxo do meu coração!
=====================
O Universo Triverso de Millôr
-
MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro (1923 – 2012)


A esta hora
E o dia
Inda lá fora
======================
O Universo de J. G.
-
J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Poema às Palavras


 Tem uns homens por aí
com medo das palavras.

Tem uns poetas por aí
segregacionistas.

Tem preconceitos contra
as palavras:
esta não serve - é mestiça,
esta também não - é muito comum,
é do povo, não é importante,
e aquela também - não tem educação
fala muito alto, é palavrão.

Tem poeta por aí cochichando
como gente muito fina
de salão,
falando entredentes
perpetrando futilidades
e maldades, como comadres.

Tem uns homens por ai
tratando as palavras pela cor
de sua pele:
não cruzam com as palavras, negras
amarelas, mulatas,
só fazem poemas brancos, poemas
puros, poemas arianos, poemas de raça.

Que se danem! Faço filhos
com todas as palavras
basta que elas se entreguem, e me amem
e saiam com o meu verso, à rua
para cantar.
============================
Um Soneto do Maranhão
-
SÁ DE FREITAS

Te Amo

 
Amo-te tanto…mais que a própria vida,
 E te desejo tanto, na certeza,
 De que me queres quanto és tão querida,
 De que me prendes n’alma o quanto és presa.

Amo-te mais que o amor permite amar-se;
 Amo-te além do além que o amor desperta;
 Translúcido te amo sem disfarce;
 Te amo com a loucura de um poeta.

Amo-te como deve amar quem ama,
 E cercado por essa imensa chama,
 Do amor que me aprisiona em fortes laços:

Quero que o coração, no amor, se farte;
 Quero viver para poder amar-te…
 Quando eu morrer, que eu morra nos teus braços.
========================
O Universo das Sextilhas do Zé Lucas
-
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Natal/RN (1934)


O pobre caleja a mão,
suando na roça alheia,
por um salário mesquinho
que não lhe garante a ceia,
e há tantos que nada fazem,
mas vivem de bolsa cheia!
===============================
O Universo de Silviah
-
SILVIAH CARVALHO
Curitiba/PR

Noite e Dia


Existe uma passividade que de forma alguma é indolência
A calma viva que nasce da confiança na Força
que existe em nós, que nos torna capazes de vencer
ou nos adaptarmos as circunstancias
A vida não está sob seu controle
mas se não administrá-la, ela será seu algoz
   
Tensão quieta não é confiança
consciência exausta não é o exercício da fé
Em tempo de incerteza, espera.
Não se subestime você é capaz
Há corações como raras flores,
que só se abrem nas sombras da vida
Não se precipite o tempo de cantar há de vir
  Você terá paz
   
A fé põe sua carta no correio
a desconfiança a segura
E questiona, porque a resposta não veio?
Se ainda carregas o seu fardo
seu esforço foi em vão, e suas cartas
 não terão finalidades se não saírem de suas mãos
   
Seu valor é mais alto do que supunha seus adversários
Quem dera pudesse ver!
Diamantes são embrulhados em pacotes grosseiros
para que ninguém saiba do valor que está ali dentro
na verdade há tesouros escondidos em você
   
Não se habilite em começar sem acabar
assim será hábil em fracassar.
Bens preciosos são os adquiridos com esforço,
lágrimas e dor, ainda que com o tempo eles pereçam
deixarão em nós lembranças como cicatrizes de valor
   
Qualquer situação pode ser mudada
se tiverdes equilíbrio e paciência
Então, suporta os açoites
Espere pelo Dia,
Mas antes, enfrente e vença sua Noite...
=========================
Uma Poesia Além Fronteiras
-
ARNALDO SANTOS 
(Angola)

A Vigília do Pescador


Na praia o vulto do pescador
É mais denso que a noite...

E enquanto espera
A sua ânsia solidifica em concha
E sonoriza os ventos livres do mar.

E enquanto espera
A sua ânsia descobre
os passos da maré na praia
e o sono do borco das canoas.

É manhã
e o pescador
ainda espera

e enquanto o mar
Não lhe devolve o seu corpo de sonhos
Num lençol branco de escamas            
                                                  
Um torpor de baixa-mar                  
Denuncia algas nos seus ombros.         
=====================
O Universo de Adélia
-
ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)

Bilhete em Papel Rosa


A meu amado secreto, Castro Alves.

Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio.
Vê estas olheiras dramáticas,
este poema roubado:
"o cinamomo floresce
em frente ao teu postigo.
Cada flor murcha que desce,
morro de sonhar contigo".

Ó bardo, eu estou tão fraca
e teu cabelo tão é negro,
eu vivo tão perturbada, pensando com tanta força
meu pensamento de amor,
que já nem sinto mais fome,
o sono fugiu de mim. Me dão mingaus,
caldos quentes, me dão prudentes conselhos,
eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido,
a tua boca de brasa, Antônio, as nossas vias ligadas.
Antônio lindo, meu bem,
ó meu amor adorado,
Antônio, Antônio.
Para sempre tua.
=====================
O Universo Poético de Olavo Bilac
-
Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)

O Boi


Quando ainda no céu não se percebe a aurora,
E ainda está molhando as árvores o orvalho,
Sai pelo campo afora
O boi, para o trabalho.

Com que calma obedece!
Caminha sem parar:
E o sol, quando aparece,
Já o encontra, robusto e manso, a trabalhar.

Forte e meigo animal! Que bondade serena
Tem na doce expressão da face resignada!
Nem se revolta, quando o lavrador, sem pena,
Para o instigar, lhe crava a ponta da aguilhada.

Cai-lhe de rijo o sol sobre o largo cachaço;
Zumbem moscas sobre ele, e picam-no sem dó;
Porém, indiferente às dores e ao cansaço,
Caminha o grande boi, numa nuvem de pó.

Lá vai pausadamente o grande boi marchando...
E, por ele puxado,
Larga e profundamente o solo retalhando,
Vai o possante arado.

Desce a noite. O luar fulgura sobre os campos.
Cessa a vida rural.
Há estrelas no céu. Na terra há pirilampos.
E o boi, para dormir, regressa ao seu curral...
================================
O Universo de Drummond
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 - 1987) Rio de Janeiro/RJ

Visão de Clarice Lispector

 

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.
========================
UniVersos Melodicos
-
Mário Lago e Roberto Roberti

AURORA
(marcha/carnaval, 1941)


Na quarta-feira de cinzas de 1940, Roberto Roberti mostrou o estribilho de "Aurora" a Mário Lago, que completou a canção em seguida. Nasceu assim, com um ano de antecedência, um dos grandes sucessos do carnaval de 41.

O aspecto mais atraente desta marchinha - lançada por Joel e Gaúcho - está na segunda parte, em que novos valores são apresentados como símbolos de modernidade e status: "Um lindo apartamento / com porteiro e elevador / e ar refrigerado / para os dias de calor... ". Tudo isso e mais uma possibilidade de casamento ("madame antes do nome / você teria agora" ) é o que Aurora perde por não merecer o amor do protagonista.

Mesmo depois da morte de Gaúcho, Joel de Almeida, o magrinho elétrico, continuou cantando esta composição, uma das marcas registradas de seu repertório. Ainda em 1941, com letra em inglês de Harold Adamson, "Aurora" fez sucesso nos Estados Unidos e na Inglaterra, cantada pelas Andrew Sisters, sendo incluída no filme "Segure o Fantasma", de Abbott & Costello.


Se fosse sincera
Ô ô ô ô, Aurora
Veja só que bom que era
Ô ô ô ô , Aurora

Um lindo apartamento
Com porteiro e elevador
E ar refrigerado
Para os dias de calor

Madame
Antes do nome
Você teria agora
Ôôôô  Aurora
Fonte: http://cifrantiga3.blogspot.com.br/2006/04/aurora.html
==========
Uma Cantiga Infantil de Roda
-
A FOCA 
Alceu Valença


Quer ver a foca
Ficar feliz?
É por uma bola
No seu nariz.

Quer ver a foca
Bater palminha?
É dar a ela
Uma sardinha.

Quer ver a foca
Comprar uma briga?
É espetar ela
Na barriga!

Lá vai a foca
Toda arrumada
Dançar no circo
Pra garotada.

Lá vai a foca
Subindo a escada
Depois descendo
Desengonçada.

Quanto trabalha
A coitadinha
Pra garantir
Sua sardinha.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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