Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 114)

Uma Trova do Paraná
-
MARIA LÚCIA DALOCE CASTANHO
Bandeirantes


Imortal, não sou agora,
mas eu tenho uma alegria:
- Sou poeta e ao “ir-me embora”...
deixo um rastro de poesia!
============================
Uma Trova sobre Saudade, do Rio de Janeiro
-
ANIS MURAD


Saudade - rede vazia
a balançar tristemente...
minando a melancolia
que dorme dentro da gente.
============================
Uma Trova do Izo
-
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

-
Nesta "corrida" da vida,
quando o Destino nos solta,
só sabemos na "saída",
que a "corrida"... não tem volta!
============================
Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Juiz de Fora/MG
-
DORMEVILLY NÓBREGA


Na Vila Rica de então,
quis o destino imprevisto,
que um pobre artista sem mão
esculpisse as mãos de Cristo.
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Uma Trova Humorística, de São Gonçalo/RJ
-
GILVAN CARNEIRO DA SILVA


O truque falha...vermelho,
o mágico diz que o enguiço
é culpa do seu coelho
que ainda é novo no serviço...
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Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 - 2013 Natal/RN

-
Descobri no envelhecer,
em meus momentos tristonhos,
que eu não tive, em meu viver,
nada mais além de sonhos!…
============================
Uma Trova Hispânica, da Espanha
-
 MADRESSELVA


 A mi vida tú llegaste
 ¡oh! gran Sol del Universo
 y en ella tú te quedaste
 como regalo del verso.
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Uma Trova sobre Respeito, de São Paulo/SP
-
DARLY O. BARROS


Não somos um par perfeito,
mas, nas rusgas entre nós,
a batuta do respeito
rege   sempre o tom da voz...
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Trovadores que deixaram Saudades
-
ARCHIMINO LAPAGESSE
Florianópolis/SC (1897 – 1966) Rio de Janeiro/RJ


Saudade, a ponte encantada            
entre o passado e o presente,             
por onde a vida passada
volta a passar novamente
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores
-
LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP

-
"Meu Deus como o Tempo passa!...”
—  Nós, às vezes, exclamamos...
Mas por sorte ou por desgraça,
fica o tempo... e nós passamos..
============================
Um Haicai de Guarulhos/SP
-
JOÃO TOLOI


Silêncio na estação
Sobre o trem que parte
A chuva de outono.
============================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores
-
LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981

-
A cordilheira hoje à tarde,
de um verde claro e bonito,
era um colar de esmeraldas
no pescoço do infinito.
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O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 - 1989)

-
veloz
como a própria voz
elo e duelo
entre eu e ela
virando e revirando nós
============================
  O Universo das Glosas de Gislaine
-
GISLAINE CANALES
Balneário Camboriú/SC
-
Glosando Arlindo Tadeu Hagen
ROSA ORVALHADA


MOTE:
POBRE HORIZONTE PEQUENO
DE QUEM CRÊ, SEM VER MAIS NADA,
QUE UMA ROSA COM SERENO
É SÓ UMA ROSA MOLHADA!

GLOSA:
POBRE HORIZONTE PEQUENO
de quem não vê mais além...
que ao receber um aceno,
não sabe o valor que tem.

É triste, sempre, o caminho,
DE QUEM CRÊ, SEM VER MAIS NADA,
que nunca estará sozinho
ao longo da caminhada.

Ter um sentimento pleno
faz sentir, com alegria,
QUE UMA ROSA COM SERENO
é a mais pura poesia.

Vendo essa rosa feliz,
suavemente orvalhada,
só quem não ama é que diz:
É SÓ UMA ROSA MOLHADA!
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores
-
ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ

-
Afeições enternecidas,
Meus derradeiros amores!...
Deus vos salve, mãos queridas,
Que me cobristes de flores!...
============================
O Universo Triverso de Pellegrini
-
DOMINGOS PELLEGRINI
(Londrina/PR)

-
Montanha que brilha
a louça lavada
empilhada na pia
============================
O Universo Poético de Emilio
-
EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Tarde na Praia


A Leal de Sousa

 Quando, à primeira vez, lhe via grandeza,
Foi nos tempos da longe meninice.
E quedei-me à mudez de quem sentisse
A alma de 'pasmos e terrores presa.

Depois, na mocidade, a olhá-lo, disse:
É moço o mar na força e na beleza!
Mas, ao dia apagado e à noite acesa,
Hoje o sinto entre as brumas da velhice.

Distanciado de escarpas e barrancos,
Vejo-o a morrer-me aos pés, calmo, ao abrigo
Das grandes fúrias e os hostis arrancos.

E ao contemplá-lo assim, tristonho digo,
Vendo-lhe, à espuma, os meus cabelos brancos:
O velho mar envelheceu comigo!
============================
O Universo Poético de Sardenberg
-
ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)
-
Alucinação


Tentei em vão suavizar a vida,
Tornar mais leve o fardo tão pesado,
Fazer da volta o ponto de partida,
Buscar na ida o amor tão cobiçado!

Eu quis fazer da pauta a partitura
De um canto leve, doce e tão suave,
Cantar a vida com toda a ternura,
Voar em sonhos como uma ave!

Eu quis da luz o raio de esperança
Mas, por castigo, só me veio a treva.
Não me atrevo e guardo na lembrança
O que a serpente aprontou pra Eva...

E desse jeito fico aqui quietinho,
No meu cantinho, bem acompanhado,
Pois não será por falta de carinho
Que comerei a fruta do pecado!
============================
O Universo Poético de Cecília
-
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ
-
Lamento do Oficial por seu Cavalo Morto


Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.

Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia,
os cálculos do gesto,
embora sabendo que somos irmãos.
Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados
de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros!
Que delírio sem Deus, nossa imaginação!

E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha, que, enganada,
recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno,
ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração.
Animal encantado - melhor que nós todos!
- que tinhas tu com este mundo
dos homens?

Aprendias a vida, plácida e pura, e entrelaçada
em carne e sonho, que os teus olhos decifravam...
Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos...

Como vieste morrer por um que mata seus irmãos!
============================
O Universo Melódico de Assumpção
-
MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ
-
Nem Toda Bruxa é Malvada


Nem toda bruxa é malvada,
Nem toda bruxa é tão feia,
Nem toda bruxa mora numa floresta,
Dentro de uma gruta encantada,
Nem toda bruxa tem caldeirão,
Tem bruxa de bom coração

Nem toda bruxa é malvada,
Nem toda bruxa é tão feia,
Nem toda bruxa gosta de uma maldade
Tem bruxa que é boa e ninguem sabe,
Tem bruxa que o feitiço é legal
Tem bruxa que não curte o mal
============================
O Universo Haicaista de Guilherme de Almeida
-
GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP
-
Outono


Sistema nervoso,
que eu vi, da folha sorvida
pelo chão poroso.
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O Universo Sonetista de Alma Welt
-
ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)
-
Dualidade


Que imensa dualidade é a Arte!
Resultado da perfeita sintonia
Com a própria alma em harmonia
Com o Cosmo e o Caos, a contraparte.

Pois tudo o que há no Universo
Tem a sua razão, mas o absurdo
Quando existe cai muito bem em verso,
Como a Nona foi feita por um surdo.

Até o Bem e o Mal se complementam
Na estrutura perfeita de uma obra
Pois que na falta de um, poucos agüentam.

Eis então porque consigo ser artista:
Porque a minha alma não me cobra
Ser boa ou ser malvada, senão mista.
============================
Uma Poesia de Caicó/RN
-
MARA MELINNI

O Tempo do Amor


Às vezes a resposta que eu preciso
Não vem de uma palavra, em expressão...
Mas do calmo calor do teu sorriso
Que manda embora a dor da solidão.

Se o meu gostar não encontra o jeito certo
Ou se é preciso um jeito de existir,
Que exista um jeito de estar sempre perto
E nesse jeito eu possa te sentir.

Nenhum querer possui uma medida,
Ninguém pode gostar pela metade.
Amar é o que dá vida à própria vida...
Ou ama, ou não se ama... Esta é a verdade.

O tempo não espera na estação
E o preço, embora pague um bom lugar,
Não traz escolha a quem, sem ter razão,
Não segue atrás do trem que viu passar...

As portas do destino guardam planos
Que as chaves certas abrem, logo à frente.
E às vezes, sem ter chave ou sofrer danos,
Há portas que se abrem, simplesmente.

Por isso, a cada sol, nascendo o orvalho,
Se vão, pelas manhãs, em cada flor,
As gotas tristes, no chorar do galho,
deixando suas lágrimas de amor.

A vida é a seiva mais pura do mundo,
é o mel que adoça o sonho de quem clama...
E o tempo, embora dure um só segundo,
se faz tempo bastante a quem se ama.

Eis sim, uma viagem passageira...
Que cumpre as curvas todas de uma estrada.
E um dia, já na curva derradeira,
Se não faltou amor... Não faltou nada!
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O Universo de Francisca
-
FRANCISCA JÚLIA
1871, Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP - 1920, São Paulo/SP)
-
Natureza


Um contínuo voejar de moscas e de abelhas
Agita os ares de um rumor de asas medrosas;
A Natureza ri pelas bocas vermelhas
Tanto das flores más como das boas rosas.

Por contraste, hás de ouvir em noites tenebrosas
O grito dos chacais e o pranto das ovelhas
Brados de desespero e frases amorosas
Pronunciadas, a medo, à concha das orelhas...

Ó Natureza, ó Mãe pérfida! tu, que crias,
Na longa sucessão das noites e dos dias,
Tanto aborto, que se transforma e se renova,

Quando meu pobre corpo estiver sepultado,
Mãe! transforma-o também num chorão recurvado
Para dar sombra fresca à minha própria cova.
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas
-
A PIPA


 Pipa roxa
 Pipa coxa
 Foi ao mar
E se afundou.
Veio o peixe
Lá do fundo
E na Pipa se empinou.

OUTRA PIPA

Debaixo daquela pipa
Está uma pita
Pinga a pipa
Pia a pipa
Pia a pita
Pinga a pipa

Fonte:
E-book da equipa do Luso-Livros
http://luso-livros.net/

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O Universo de Fernando Pessoa
-
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

-
Eu bem sei que me desdenhas
Mas gosto que seja assim,
Que o desdém que por mim tenhas
Sempre é pensares em mim.
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O Universo Poético de Vinicius
-
VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)
-
Ânsia


NA TREVA que se fez em torno de mim
Eu via a carne.
Eu senti a carne que me afogava o peito
E me trazia à boca o beijo maldito
Eu gritei.
De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma
E ninguém me atendeu.
Eu me debati em ânsias impuras
A treva ficou rubra em torno a mim
E eu caí!
As horas longas passaram.
O pavor da noite me possuiu.
No vazio interior ouvi gritos lúgubres
Mas a boca beijada não respondeu aos gritos.
Tudo quedou na prostração.
O movimento da treva cessou ante mim.
A carne fugiu
Desapareceu devagar, sombria, indistinta
Mas na boca ficou o beijo morto.
A carne desapareceu na treva
E eu senti que desaparecia na dor
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
Na violência da posse.
Olhos que olharam a carne
Por que chorais?
Chorais talvez a carne que foi
Ou chorais a carne que jamais voltará?
Lábios que beijaram a carne
Por que tremeis?
Não vos bastou o afago de outros lábios
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
Ou tremeis no balbucio da oração?
Carne que possuiu a carne
Onde o frio?
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
Gritam luxúria nesse vento
Onde o frio?
Pela noite quente eu caminhei ...
Caminhei sem rumo, para o ruído longínquo
Que eu ouvia, do mar.
Caminhei talvez para a carne
Que vira fugir de mim.
No desespero das árvores paradas busquei consolação
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
E de pivor fugi.
Nada mais existe para mim
Só talvez tu, Senhor.
Mas eu sinto em mim o aniquilamento...
Dá-me apenas a aurora, Senhor
Já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.
============================
Uma Poesia de Portugal
-
AFONSO DUARTE
(1884 – 1958)

Romanceiro das Águas


Água da Altura, límpida e sonora,
Aos desejos do vento num descuido,
Tu és da vida a fonte criadora:
Corpo de nuvens ondeante e fluído.

Por teu peito balsâmico de seivas
Há nos montes fartura reluzente:
Domam-se as terras de lavoura, as leivas,
E ergue-se à flor a túmida semente.

Água da chuva em móbil revoltura
No oceano do ar, no firmamento:
Rega divina a que esse artista, o vento,
Dá forma esculturada, a tecitura.

No nebuloso olimpo concebeste:
E à crusta insenta, ressequida e nua,
Trazes perfumes, o frescor celeste
Dos alvos saibros místicos da Lua.

Euritmias moduladas, feitas
Por cadências de versos diluídos:
Bátegas recortando os meus sentidos
De furtivas palavras liquefeitas.

Água que o ar frio arrasta e desencanta:
A que dá vida, a que renova a planta;
Água que antigamente foi suor
No rochedo e na flor.

E baga do suro da tua fronte
na labuta da vida pelo monte,
Ó cavador cansado!

Respiração carnosa que ao depois
Foi ser chuva e crepúsculo doirado.

Gotas de orvalho,
Irmãzinhas das lágrimas, vós sois
O suor do trabalho.

Respiração dos rios e florestas
E fumo do meu lar;
E pragas das palavras desonestas
Dos pântanos e charcos ao luar;

Respiração de bocas amorosas
E de hálitos das fontes;
E aroma suavíssimo das rosas...

No longe e fluido olhar dos horizontes
Tudo se casa e funde: e é nuvem densa,
—Habitação de lágrimas suspensa.
============================
O Universo de Auta
-
Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN
-
Página Azul


No país de minh’alma há um rio sem mágoas,
Um rio cheio de ouro e de tanta harmonia,
Que se cuida escutar no marulhar das águas
Do sussurro de um beijo a doce melodia.

Este rio é o meu sonho, um sonho azul e puro,
Como um canto do Céu, como um braço do Mar;
Loura réstia de sol a rebrilhar no escuro,
Casta luz que cintila em torno de um altar.

De um altar que palpita e que sofre e que sonha,
Soletrando a cantar a linguagem do Amor...
Do altar do Coração, a paisagem risonha
Onde brotam sorrindo as ilusões em flor.

Vem beber, meu amor, neste rio que é fonte,
É fonte de esperanças e lago de quimera...
Vem morar n’um país que não tem horizonte,
Onde não chora o Inverno e só há Primavera.
============================
O Universo Triverso de Millôr Fernandes
-
MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro (1923 – 2012)

-
A vida é bela
Basta saltar
Pela janela
============================
O Universo de J. G.
-
J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ
-

Ah, Se Tu Voltasses...
   
Fico a me repetir, que se voltares
te olharei nos olhos sem tremer
e te direi, vingando a minha mágoa:
- já não te quero mais.

Mantenho assim de pé o orgulho
a esta espera...
..........................................................

Ah, se tu voltasses!
(Só de pensar, sinto uma angústia, um nó
a me apertar o peito...)
- seria até capaz de ter um infarto
com este coração já tão batido
e que morre por ti, de qualquer jeito.
============================
Um Soneto do Rio de Janeiro
-
SÔNIA SOBREIRA

A Semente


Não vou plantar semente que me afaste
da luz perene e clara do luar,
nem vou deixar que a mágoa me desgaste,
ou que me faça em pedras tropeçar.

Não vou deixar que a solidão me arraste
nas tramas de uma história secular,
nem que uma dor no coração se engaste
e esta semente venha a germinar.

Eu vou plantar sementes de alegria
flores vermelhas, rimas de poesia
colher nas mãos um sonho que brotou.

Vou ser poeta e em minha estrada infinda,
mostrar que posso ser feliz ainda
e nunca mais serei o que hoje sou!
============================
O Universo do Martelo Agalopado de Prof. Garcia
-
PROF. GARCIA
(Francisco Garcia de Araújo)
Caicó/RN (1946)

-
Nem o canto feliz da saracura
que cantava em lagoa e pantanais,
eu escuto nos velhos mofumbais
que abrigavam tão bela criatura.
Se o destino ou a própria desventura
prescreveram tristonha profecia,
meu sertão chora a dor de cada dia
lamentando o passado que se foi,
e a toada do meu carro de boi
era a orquestra mais linda que se ouvia!
============================
O Universo Poético de Lúcia Constantino
-
LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR

Essa Paz Dolorosa


Essa paz dolorosa,
perfume que no vento
traz espinhos
e não a rosa.

Essa paz cansada
de escolher um novo caminho
e sempre e de novo
errar a estrada.

Essa paz que nos vãos da noite
procura estrelas nos abismos
onde elas brilham tão fortes.
Sentinelas do deus destino.

Paz dolorosa e imensurável
e por demais amiga:
minha mesa, meu vinho,
meu pão.

Deixarei que nela
minha alma  refaça caminhos,
vertendo saudade nos linhos
aonde um dia pousei
o teu coração.
============================
Uma Poesia Além Fronteiras
-
WILLIAM BLAKE
Inglaterra (1757 - 1827)

O Jardim do Amor


O Jardim do Amor fui visitar,
E vi então o que jamais notara:
Lá bem no meio estava uma Capela,
Onde eu no prado correra e brincara.

E os portões desta Capela não abriam,
E "Não farás" sobre a porta escrito estava;
E voltei-me então para o Jardim do Amor
Lá onde toda a doce flor se dava;

E os túmulos enchiam todo o campo,
E eram esteias funerárias as flores;
E Padres de preto, em seu passeio secreto,
Atando com pavores minhas alegrias & amores.

(Tradução de Hélio Osvaldo Alves)
============================
O Universo de Adélia
-
ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)
-
Corridinho


O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
se descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
============================
O Universo Poético de Olavo Bilac
-
Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)
-
As Flores


Deus ao mundo deu a guerra,
A doença, a morte, as dores;
Mas, para alegrar a terra,
Basta haver-lhe dado as flores.

Umas, criadas com arte,
Outras, simples e modestas,
Há flores por toda a parte
Nos enterros e nas festas,

Nos jardins, nos cemitérios,
Nos paúes e nos pomares;
Sobre os jazigos funéreos,
Sobre os berços e os altares,

Reina a flor! pois quis a sorte
Que a flor a tudo presida,
E também enfeite a morte,
Assim como enfeita a vida.

Amai as flores, crianças!
Sois irmãs nos esplendores,
Porque há muitas semelhanças
Entre as crianças e as flores...
============================
O Universo de Carlos Drummond de Andrade
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 - 1987) Rio de Janeiro/RJ
-
Canto do Rio em Sol


Guanabara, seio, braço
de a-mar:
em teu nome, a sigla rara
dos tempos do verbo mar.
Os que te amamos sentimos
e não sabemos cantar:
o que é sombra do Silvestre
sol da Urca
dengue flamingo
mitos da Tijuca de Alencar.
Guanabara, saia clara
estufando em redondel:
que é carne, que é terra e alísio
em teu crisol?
Nunca vi terra tão gente
nem gente tão florival.
Teu frêmito é teu encanto
(sem decreto) capital.
Agora, que te fitamos
nos olhos,
e que neles pressentimos
o ser telúrico, essencial,
agora sim és Estado
de graça, condado real.

II

Rio, nome sussurrante,
Rio que te vais passando
a mar de estórias e sonhos
e em teu constante janeiro
corres pela nossa vida
como sangue, como seiva
-- não são imagens exangues
como perfume na fronha
... como pupila do gato
risca o topázio no escuro.
Rio-tato-
-vista-gosto-risco-vertigem
Rio-antúrio
Rio das quatro lagoas
de quatro túneis irmãos
Rio em ã
Maracanã
Sacopenapã
Rio em ol em amba em umba sobretudo em inho
de amorzinho
benzinho
dá-se um jeitinho
do saxofone de Pixinguinha chamando pela Velha Guarda
como quem do alto do Morro Cara de Cão
chama pelos tamoios errantes em suas pirogas
Rio, milhão de coisas
luminosardentissuavimariposas:
como te explicar à luz da Constituição?

III

Irajá Pavuna Ilha do Gato
-- emudeceram as aldeias gentílicas?
A Festa das Canoas dispersou-se?
Junto ao Paço já não se ouve o sino de São José
pastoreando os fiéis da várzea?
Soou o toque do Aragão sobre a cidade?
Não não não não não não não
Rio, mágico, dás uma cabriola,
teu desenho no ar é nítido como os primeiros grafismos,
teu acordar, um feixe de zínias na correnteza esperta do tempo
o tempo que humaniza e jovializa as cidades.
Rio novo a cada menino que nasce
a cada casamento
a cada namorado
que te descobre enquanto rio-rindo.
assistes ao pobre fluir dos homens
e de suas glórias pré-fabricadas.
============================
UniVersos Melodicos
-
Alcir Pires Vermelho, Alberto Ribeiro e Braguinha

ONDE O CÉU AZUL É MAIS AZUL
(samba, 1941)


Eu já encontrei, um dia alguém
Que me perguntou assim, Iaiá
O seu Brasil, o que é que tem ?
O seu Brasil, onde é que está ?

Onde o céu é mais azul
E uma cruz de estrelas, mostra o sul
Aí, se encontra o meu país
O meu Brasil, grande..., tão feliz !

Que tem junto ao mar, palmeirais
No sertão, seringais
E, no sul, pinheirais
Um jangadeiro que namora o mar
Verde mar, a beijar,
Brancas praias, sem fim...

Quando faz luar
Um garimpeiro que, lá no sertão
Procura estrelas, raras pelo chão
E um boiadeiro que, tangendo os bois
Trabalha muito, pra sonhar depois !

E..., se é grande o céu, a terra e o mar
O seu povo bom, não é menor
Mas o que faz admirar
Eu vou dizer, guarde bem de cor
Quem vê o Brasil, que não tem fim
Não chega a saber, por que razão
Este Pais, tão grande assim
Cabe, inteirinho, em meu coração !...
============================
Uma Cantiga Infantil de Roda
-
Senhora dona Arcanjila


Todas ficam de cócoras. A menina do centro põe a mão nos olhos. As da roda miam. A do meio tem um pauzinho na mão e com ele vai batendo nas outras, até conhecê-las. Cantam as da roda:

Senhora dona Arcanjila
Coberta de ouro e prata
Descubra o seu rosto
Quero ver a sua cara

Canta a do centro:

Que anjos são estes
Que estão me arrodiando
De noite e de dia
Padre Nosso, Ave Maria!

Cantam as da roda:

São filhos do rei
E netos do conde
Que eles já se escondem
Embaixo da pedra
Do anjo São Miguel

Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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