Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 28 de setembro de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 117)


Uma Trova do Paraná
-
VANDA ALVES DA SILVA
Curitiba
-
Não se ata  pelas algemas,
mazelas ao cidadão,
que enfrenta  tantos dilemas
doando vida à  nação.
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Uma Trova sobre Saudade, do Rio de Janeiro
-
ANIS MURAD
-
Maria, só por maldade,    
deixou-me a casa vazia...  
Dentro da casa: saudade! 
E na saudade: Maria!       
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Uma Trova do Izo
-
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP
-
Partir  é quase morrer...
é deixar na despedida
um pouco do próprio ser
e muito da própria vida!
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Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Juiz de Fora/MG
-
CEZÁRIO BRANDI FILHO
-
Se os elos de nossos braços,
não mais se unirem na vida,
seremos sempre pedaços
de uma corrente partida.
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Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP
-
JAIME PINA DA SILVEIRA
-
Olha lá...não te machuques!
És rico, mas tens oitenta!
E...ela...vinte! Quais os truques?...
– Menti que tinha noventa!
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Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 - 2013 Natal/RN
-
Lágrimas, águas em fugas,
que num trajeto indolente,
deixam escritos nas rugas,
os sofrimentos da gente…
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Uma Trova Hispânica, do México
-
CRISTINA OLIVEIRA CHÁVEZ
-
 No es no querer perdonar
la deserción de mi padre,
es que no puedo olvidar
las lágrimas de mi madre...
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Uma Trova sobre Respeito, de Ribeirão Preto/SP
-
RITA MARCIANO MOURÃO
-
      No lar que me fez honrado,
     ante os conceitos de espaço,
     o respeito era sagrado,
     mesmo que o pão fosse escasso!
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Trovadores que deixaram Saudades
-
ROBERTO FARIA DE MEDEIROS
Juiz de Fora/MG (1923 – 1995)
-
Não há criança vadia ...
E as que esmolam a teus pés
são anjos que Deus envia
para saber quem tu és.
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Uma Trova do Príncipe dos Trovadores
-
LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP
-
Não desejo nem capela
nem mármore em minha cova…
Apenas escrevam nela
pequenina e humilde Trova…
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Um Haicai de São Paulo/SP
-
JOSUÉ ROODER SALOMÃO
-
Manhã de geada
Sob o banco da pracinha
Cão todo enrolado
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Uma Trova da Rainha dos Trovadores
-
LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981
-
Para rimar com teu nome,
que é do céu a obra-prima,
mãe, não existe um vocábulo!
Nem mesmo Deus achou rima.
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O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 - 1989)
-
ver
é dor
ouvir
é dor
ter
é dor
perder
é dor

só doer
não é dor
delícia
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  O Universo das Glosas de Gislaine
-
GISLAINE CANALES
Balneário Camboriú/SC
-
Glosando Aloísio Alves da Costa
RELÓGIO DO MEU PEITO

MOTE:
NÃO VENS... E A MINHA ANSIEDADE,
NUM TIQUE-TAQUE PERFEITO,
MEDE AS HORAS DA SAUDADE
NO RELÓGIO DO MEU PEITO!

GLOSA:
NÃO VENS... E A MINHA ANSIEDADE,
vai se agigantando em mim.
Onde estás felicidade?
Essa espera não tem fim!

Eu sinto o passar das horas
NUM TIQUE-TAQUE PERFEITO,
contando as tuas demoras...
Fico triste e insatisfeito!

Na minha realidade,
o relógio da emoção
MEDE AS HORAS DA SAUDADE
dentro do meu coração!

Os ponteiros, ternamente,
tento adiantar, com meu jeito,
para unir, pra sempre, a gente,
NO RELÓGIO DO MEU PEITO!
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Uma Trova do Rei dos Trovadores
-
ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ
-
Celeste amor que perdura
Atende a roteiro assim:
Ilimitada ternura
No entendimento sem fim.
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O Universo do Haicai de Seabra
-
CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)
-
trigo dourado
pelas mão do vento
é penteado
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O Universo Poético de Emilio
-
EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)
-
Gota d'água

Olha a paisagem que enlevado estudo!...
Olha este céu no centro! olha esta mata
E este horizonte ao lado! olha este rudo
Aspecto da montanha e da cascata!...

E o teu perfil aqui sereno e mudo!
Todo este quadro que a alma me arrebata,
Todo o infinito que nos cerca, tudo!
D'água esta gota ao mínimo retrata!...

Chega-te mais! Deixa lá fora o mundo!
Vê o firmamento sobre nós baixando;
Vê de que luz suavíssima me inundo!...

Vai teus braços, aos meus, entrelaçando,
Beija-me assim! vê deste azul no fundo,
Os nossos olhos mudos nos olhando!…
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O Universo Poético de Sardenberg
-
ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)
-
Andança

Na rua morta move-se o meu passo
Seguindo errante em busca de um amor
Sob esse luar tristonho que há no espaço
Também vagueia a esmo a minha dor.

E neste acaso eu ando solitário,
Por onde passo eu passo descontente,
E vem comigo a dor desse calvário
No frágil  som de um coração fremente.

Se o seu olhar eu já perdi de vista
  Nele não vi meu sonho desejado
Então por que buscar essa conquista?

Mas a esperança é a última a morrer...
E adiante vou no sonho tão sonhado,
Buscar o amor que tanto quero ter!
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O Universo Poético de Cecília
-
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ
-
Discurso

 E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada,
porque as ervas cresceram
e as serpentes andaram.

Também procurei no céu
a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar
que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar
que venha alguém gostar de mim?
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O Universo Melódico de Assumpção
-
MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ
-
A Coragem De Cada Um De Nós
(CD O Mágico de Oz)

 Quanta coragem precisamos ter
Pra enfrentar o medo que trazemos em nós ?
Pra cruzar a ponte e o escuro,
Pra vencer seu inimigo mais feroz ,
Basta despertar dentro da gente a coragem adormecida ,
Escondida agora em cada um de nós

Quanta coragem precisamos ter
Pra enfrentar o medo que trazemos em nós ?
A coragem é tudo aquilo que voce precisa,
Acredite, voce pode mais, acorde o grande rei
Que há em ti pra descobrir que na verdade,
A coragem dorme em cada um de nós
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O Universo Haicaista de Guilherme
-
GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP
-
Noroeste

Dilaceramentos...
Pois tem espinhos também
A rosa-dos-ventos.
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O Universo Sonetista de Alma
-
ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)
-
Ao Poeta em mim

Ingenuamente movido por certezas
Pensas abrir sendas neste mundo
Quando apenas seguir podes correntezas
Que levaram a tantos para o fundo.

Mas além dentro de ti, algures
Se encontra a chave do Mistério
Que talvez nem saibas que procures
Pois até uma criança brinca a sério...

Repara à tua volta, meu amigo,
A vida solene e atarefada
Que gira em torno ao teu umbigo!

E já que és o centro do universo,
Cuida da precisão do teu destino
Que é só caber inteiro num teu verso...
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Uma Poesia de Pato Branco/PR
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ELIZABETH MARIA CHEMIN BODANESE
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Encanto

 Ipês cor-de-rosa...
 Pinheiros bem verdes...
 Violetas e amores-perfeitos
 De todas as cores alegram a vida
 Dos verdadeiros amores.

 Um beija-flor poliniza a flor...
 Uma bola voa de um lado a outro
 Nas mãozinhas  ágeis dos pimpolhos!
 Um balanço faz sonhar,
 No espaço o menino brincar...
 A Primavera está  chegando...
 Advento do florescer...
 A vida pulsa numa eterna busca
 De quem quer aprender,
 Saber, conhecer
 Antes de a outra vida transcender...

 Os galhos secos e a neve
 Não assustam mais nas janelas
 Da casa no alto do morro...
 A chuva e o frio se rendem
 Ao sol e ao calor...
 Flores exalam perfumes
 Nesse tempo de amor
 Na cidade sem preconceitos
 Pato Branco dos amores-perfeitos...
 Terra de amor, amizade e respeito.
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O Universo de Francisca
-
FRANCISCA JÚLIA
1871, Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP - 1920, São Paulo/SP)
-
A um Velho

Por suas próprias mãos armado cavaleiro,
Na cruzada em que entrou, com fé e mão segura,
Fez um cerco tenaz ao redor do Dinheiro,
E o colheu, a cuidar que colhia a Ventura.

Moço, no seu viver errante e aventureiro,
O peito abroquelou dentro de uma armadura;
Velho, a paz vê chegar do dia derradeiro
Entre a abundância do ouro e o tédio da fartura.

No amor, de que é rodeado, adivinha e pressente
O interesse que o move, o anima e o faz ardente;
Foge por isso ao mundo e busca a solidão.

O passado feliz o presente lhe invade,
E vive de gozar a pungente saudade
Das noites sem abrigo e dos dias sem pão.
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas
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A CASA DO JOÃO

Aqui está a casa
 Que fez o João.

Aqui está o saco do grão e feijão
Que estava na casa
 Que fez o João.

Aqui está o rato
Que furou o saco de grão e feijão
Que estava na casa
Que fez o João.

Aqui está o gato
Que comeu o rato
Que furou o saco de grão e feijão
Que estava na casa
Que fez o João.

Aqui está o cão
Que mordeu o gato
 Que comeu o rato
Que furou o saco de grão e feijão
Que estava na casa
Que fez o João.

(http://luso-livros.net/)
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O Universo de Pessoa
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FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935
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Duas horas te esperei
Dois anos te esperaria.
Dize: devo esperar mais?
Ou não vens porque inda é dia? 


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O Universo Poético de Quintana
-
MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)
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Ah! Os relógios

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia em for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais um necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são…
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O Universo Poético de Vinicius
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VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)
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Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
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Uma Poesia de Portugal
-
Sophia de Mello Breyner Andresen
Porto (1919 – 2004) Lisboa
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Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades
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O Universo de Auta
-
Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN
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Ciúme

Não brinques ao sol, menina!
É tão preto o teu cabelo,
Que exposto ao sol que ilumina,
Jamais, jamais quero vê-lo.

Não sabes por que, Maria?...
Do sol o brilhante açoite
Só vem à terra de dia
Porque não gosta da noite.

E eu temo que ao ver formoso
O teu cabelo, um tesouro!
O sol, que é tão invejoso,
Não queira torná-lo louro.

Louro, Maria! o repouso
Onde vacilo com a cruz,
O doce abrigo onde pouso
Meus olhos fartos de luz?

Não quero, flor de minh’alma,
Linda esperança em botão...
O dia não é que acalma
As mágoas do coração.

Quando a dor em fúria brusca
Lhe vem magoar o seio,
A treva da noite busca
Para chorar sem receio.

E a minha noite mais pura
No teu cabelo é que eu vejo;
Esqueço toda a amargura
Se a tua cabeça beijo!

E agora, santa, avalia
Que pena teria eu
Se chegasse a ver um dia
O teu cabelo, Maria,
Da cor dos astros do céu!
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O Universo Triverso de Millôr
-
MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro (1923 – 2012)
-
À nossa vida
A morte alheia
Dá outra partida.
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O Universo de J. G.
-
J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ
-
Amor... e Morte...

    O amor
é como a morte
ato banal de todo dia...

Emoção forte
de tristeza ou de alegria,
ele sempre nos surpreende, e a ele nunca nos acostumamos
talvez...

O amor é como a morte:
quando amamos
é sempre a primeira vez.
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Um Soneto
-
LUIZ CARLOS DE OLIVEIRA

A Dor da Perda

 Num dos quartos do Pronto Atendimento
 Adentra a mãe com a filha prematura,
 Não desfeito o negror da noite impura
 E o galo nem cantava no momento...

 Nenhum repórter dava cobertura:
 Era só mais um rotineiro evento...
 Logo o médico atesta o passamento
 E manda agilizar a sepultura.

 Um nódulo instalou-se na garganta
 Da mãe, como invisível funeral
 Da filha morta... O olhar, naquele exato

 Momento de estupor, que se agiganta,
 Perde-se num vazio sem igual:
 A sua dor é o próprio anonimato!
============================
O Universo do Martelo Agalopado de Prof. Garcia
-
PROF. GARCIA
(Francisco Garcia de Araújo)
Caicó/RN (1946)

No repente, ninguém traça uma meta,
mas é bom que um roteiro a gente trace,
pois do nada, um improviso sempre nasce
e a beleza da vida se completa.
Não precisa que seja em linha reta,
pode ser por caminho tortuoso,
pois o verso sofrendo é mais famoso
aos primeiros suspiros da manhã,
quando o sol salpicando o morro e a chã
torna o verso mais belo e mais formoso!
============================
O Universo Poético de Lúcia Constantino
-
LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR
-
Tenho Saudades

Tenho saudades do meu amor que te amava
vestido de silêncios e conflitos tão sinceros.
Um amor que era sol -  um amor tão belo
que até aos anjos a sonhar  ele ensinava.

Tenho saudades do amor que eu sentia,
momentos manuscritos dentro do coração.
Tinha linhagem aquele sonho que eu vivia.
Era uma luz passando a limpo a escuridão.

E onde estás? Não te encontro mais
e nesses meus sonhos, o que buscais
ó anjos?  -  a esperança já vencida?

Não entendo mais essa linguagem.
Sei que a dor muda toda paisagem
do livro interior, onde se escreve a vida.
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Uma Poesia Além Fronteiras
-
JOHN DONNE
Inglaterra (1572 – 1631)

A Isca

Vem viver comigo, sê o meu amor
E alguns novos prazeres provaremos
De areias douradas e regatos de cristal
Com linhas de seda e anzóis de prata.

Aí o rio correrá murmurando, aquecido
Mais por teus olhos do que pelo sol;
E aí os peixes enamorados ficarão
Suplicando a si próprios poder trair.

Quando tu nadares nesse banho de vida
Cada peixe, dos que todos os canais possuem,
Nadará amorosamente para ti,
Mais feliz por te apanhar, que tu a ele.

Se, sendo vista assim, fores censurada
Pelo Sol, ou Lua, a ambos eclipsarás;
E se me for dada licença para olhar
Dispensarei as suas luzes, tendo-te a ti.

Deixa que outros gelem com canas de pesca
E cortem as suas pernas em conchas e algas;
Ou traiçoeiramente cerquem os pobres peixes
Com engodos sufocantes, ou redes de calado.

Deixa que rudes e ousadas mãos, do ninho limoso
Arranquem os cardumes acamados em baixios;
Ou que traidores curiosos, com moscas de seda
Enfeiticem os olhos perdidos dos pobres peixes,

Porque tu não precisas de tais enganos,
Pois que tu própria és a tua própria isca,
E o peixe que não seja por ti apanhado,
Ah!, é muito mais sensato do que eu.

(Tradução de Helena Barbas)
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O Universo de Adélia
-
ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)
-
Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
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O Universo Poético de Bilac
-
Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)
-
A Madrugada

Os pássaros, que dormiam
Nas árvores orvalhadas,
Já a alvorada anunciam
No silêncio das estradas.

As estrelas, apagando
A luz com que resplandecem,
Vão tímidas vacilando
Até que desaparecem.

Deste lado do horizonte,
Numa névoa luminosa,
O céu, por cima do monte,
Fica todo cor-de-rosa;

Daí a pouco, inflamado
Numa claridade intensa,
Se desdobra avermelhado,
Como uma fogueira imensa.

Os galos, batendo as asas,
Madrugadores, já cantam;
Já há barulho nas casas,
Já os homens se levantam,

O lavrador pega a enxada,
Mugem os bois à porfia;
— É a hora da madrugada
Saudai o nascer do dia!
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O Universo de Carlos Drummond de Andrade
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 - 1987) Rio de Janeiro/RJ
-
Lembrança do mundo antigo

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!
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UniVersos Melodicos
-
Ataulfo Alves e Mário Lago
-
AI, QUE SAUDADES DA AMÉLIA
(samba, 1942)

"Ai Que Saudades da Amélia" tem três personagens: o protagonista, sua mulher e Amélia, a mulher que ele perdeu. O tema é um confronto dos defeitos da mulher atual com as qualidades da mulher anterior. A atual, a quem o protagonista se dirige, é exigente, egoísta, "Só pensa em luxo e riqueza", enquanto a anterior é um exemplo de virtude e resignação - "Amélia não tinha a menor vaidade, (...) achava bonito não ter o que comer... '. Em suma, a primeira é o presente, a realidade incontestável; a segunda é o passado, uma saudade idealizada na figura da mulher perfeita, pelos padrões da época.

Este primoroso poema popular, coloquial espontâneo, escrito por Mário Lago , recebeu de Ataulfo Alves uma de suas melhores melodias, que expressa musicalmente o espírito da letra. E o paradoxal é que não sendo carnavalesco, este samba fez estrondoso sucesso no carnaval.

Segundo Mário Lago, "Amélia nasceu de uma brincadeira de Almeidinha, irmão de Araci de Almeida, que sempre que se falava em mulher costumava brincar - 'Qual nada, Amélia é que era mulher de verdade. Lavava, passava, cozinhava..."'. Então, Mário achou que aquilo dava samba e fez a letra inicial de "Ai Que Saudades da Amélia". Brincadeiras à parte, a verdade é que a Amélia do Almeidinha existiu e, possivelmente, ainda vivia à época da canção. Era uma antiga lavadeira que serviu à sua família. Morava no subúrbio do Encantado (Zona Norte do Rio) e trabalhava para sustentar uma prole de nove ou dez crianças.

Com a letra pronta, Mário pediu a Ataulfo Alves para musicá-la. O compositor executou a tarefa, mas alterou algumas palavras e aumentou o número de versos de doze para quatorze. "Isso é natural" - comentava Ataulfo, em depoimento para o MIS do Rio de Janeiro, em 17.11.65 -, "as composições dos parceiros que são letristas sofrem influência minha, que sou autor de letra e música. Mas o Mário não gostou. E não adiantou dizer que a música me obrigara a fazer as modificações". De qualquer maneira, como o samba estava bom, ficaram valendo as alterações.

Começou então a batalha da gravação. Ataulfo ofereceu "Amélia" em vão a vários cantores, inclusive a Orlando Silva. Como ninguém queria gravá-la, gravou-a ele mesmo na Odeon, no dia 27.11.41, acompanhado por um improvisado conjunto, batizado de Academia de Samba. Convidado na hora, Jacó do Bandolim participou dessa gravação, tocando cavaquinho, sendo sua a introdução.

Lançado no suplemento de janeiro de 1942, "Ai Que Saudades da Amélia" foi conquistando aos poucos a preferência do público, graças, principalmente, a uma intensa atuação de Ataulfo junto às rádios. Relembra Mário Lago que o locutor Júlio Louzada chegou a dedicar, na Rádio Educadora, uma tarde inteira de domingo a "Amélia", com entrevistas e o disco tocando dezenas de vezes. O resultado é que às vésperas do carnaval, quando houve o concurso para escolher o melhor samba, "Ai Que Saudades da Amélia" dividia o favoritismo com "Praça Onze", de Herivelto Martins e Grande Otelo. Realizado no estádio do Fluminense, este concurso reuniu uma enorme platéia que, de acordo com o regulamento, elegeria por aplauso os vencedores.

Precedendo "Amélia", apresentou-se "Praça Onze", valorizada por um verdadeiro show, preparado por Herivelto. Primeiro foram mostrados os instrumentos, explicando-se as funções de cada um; em seguida, vieram as passistas, um grupo sensacional de mulatas rebolando; e, finalmente, cantou-se o samba, que levou a platéia ao delírio, dando a impressão de que o certame já estava decidido. Acontece, porém, que "Amélia" também tinha seus trunfos. Tim e Carreiro, amigos de Mário e craques do time do Fluminense, que acabara de ganhar o bicampeonato carioca de futebol, haviam feito um excelente trabalho junto à torcida tricolor.

Para completar, no momento da apresentação, Mário Lago subiu ao palco e, num rasgo de eloqüência e demagogia, fez um discurso emocionante, proclamando "Amélia" símbolo da mulher brasileira. Assim, quando Ataulfo e suas pastoras começaram a cantar o estádio veio abaixo, praticamente exigindo a vitória dos dois sambas. Sem a possibilidade de desempatar, o presidente do Fluminense, Marcos Carneiro de Mendonça - por coincidência, casado com uma "Amélia", a poeta Ana Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça - autorizou o pagamento em dobro do prêmio de campeão a "Ai Que Saudades da Amélia" e "Praça Onze", cada um recebendo como se tivesse ganho sozinho.

Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Não vê que eu sou um pobre rapaz

Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo que você vê você quer
Ai, meu Deus, que saudades da Amélia
Aquilo sim é que era mulher

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
Mas quando me via contrariado
Dizia: meu filho, o que se há de fazer ?

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era a mulher de verdade

Fonte:
(http://www.cifrantiga3.blogspot.com
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Uma Cantiga Infantil de Roda
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CAI, CAI, BALÃO

Cai, cai, balão
Cai, cai, balão,
Na rua do sabão

Não cai não,
Não cai não,
Não cai não,
Cai aqui na minha mão
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O Universo Poético de Feitosa
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SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)
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À vista de ti

Nunca te vi, melhor que seja assim.
Teus cabelos seriam trinados ao vento?
Poderia eu dizer “treinados”, eles seriam - porque aí corre
o vento da tardinha - sempre me dizes
do vento.
Guardo teus papéis eu guardo.
Perco-os, justo que me percam!
Um cartãozinho..., teu, a te encontrar, azul...,
azul seria
a saia de sair?
Ou, haverias de preferir uma roupinha amarela
e os olhos vagos de nenhuma palavra?
O que poderei dizer quando te encontrar?..., se.
Nestes tempos modernos, teria lugar para um
silêncio?

Falarias? De que nos diríamos? Melhor que teus cabelos fiquem
ao vento.
Ah, vento doce, da noite, como me perfumas o hálito desta noite cedo!
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O Universo Poético de Du Bois
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PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)
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VÃO

Enquanto sonho esperanças vãs
desencontro o árduo caminho
além da curva derradeira

debruçado ao restante da paisagem
anoiteço sons desprestigiados

em sonhos determino o anárquico
senso dos encobrimentos.
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O Universo Acróstico de Motta
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SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)
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VIDA DE EQUAÇÕES
Acróstico-filosófico nº 5354

V-Vida de soluções bem resolvidas
I-Inspiram alegrias alcançadas;
D-Das equações mal resolvidas
A-As decepções dão outras caminhadas;
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D-Dos vários quilômetros percorridos
E-Em estradas sem flores e perdões,
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E-Enfrentamentos dos pesos doloridos...
Q-Quedas pedem orações convincentes!
U-Um corpo que cai, precisa levantar!
A-As ferramentas próprias e eficientes,
Ç-Com vontade, fé e livre-arbítrio,
Õ-Oferecem o futuro, perto novamente;
E-Encontram lições nas feias lesões...
S-Sensações novas que dão força à mente.
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O Universo Poético de Ordones
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RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG
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  Queria ser sua música favorita

E eu apetecia ser aquela melodia
Que fluiu da alma na madrugada
Bateu a porta do peito em poesia

E se jogou entre notas; musicada.

Queria ser essa canção que te toca
E queria mil vezes que me ouvisse
Queria ser essa letra que te invoca

Que por todo sempre me repetisse.

Queria ser essa canção de saudade
Da grande ternura que em ti reside

Segundo em segundo em ti incide.

Enfim... Eu queria ser essa canção
Para saber de onde sua lágrima vem
Sinceramente só quero te fazer bem.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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