Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 119)


Uma Trova do Paraná
-
NEI GARCEZ
Curitiba

-
Entre o sonho e a verdade
vai vivendo, em seu juízo,
toda a nossa humanidade
seu inferno ou paraíso.
============================
Uma Trova sobre Ecologia, de Santos/SP
-
CLÁUDIO DE CÁPUA

-
Na angústia das mais estranhas,
estão chorando as cascatas:
são murmúrio das montanhas
refletindo a dor das matas.
============================
Uma Trova do Izo
-
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

-
Pergunta o padre ao noivinho:
-" de espontânea vontade?"
e ele respondeu baixinho:
-"Não senhor...necessidade!...
============================
Uma Trova Lírica/ Filosófica, de Porto Alegre/RS
-
FLÁVIO ROBERTO STEFANI

-
 Pode o amor, banhado em sonhos,
 construir morada nova,
 nos braços sempre risonhos
 dos quatro versos da trova.
============================
Uma Trova Humorística, de Juiz de Fora/MG
-
OSVALDO MASCARENHAS

-
Na hora incerta do revés,
pensa o marido nas ruas:
- Bebo duas... volto às dez
ou bebo dez... volto às duas!
============================
Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 - 2013 Natal/RN

-
Lembranças deixam feridas
que nascem na alma da gente.
Que tenham elas nascidas
no passado… ou no presente!
============================
Uma Trova Hispânica, da França
-
CARLOS IMAZ ALCAIDE

-
Es la trova maravilla
lisonjera, cortesana
cantada en toda Sevilla
con majestad de sultana.
============================
Uma Trova sobre Respeito, de Santos/SP
-
CAROLINA RAMOS

-
O Amor tem um par perfeito
que é o Respeito e é de supor
que quando morre o Respeito,
bem antes,  morreu o Amor!
============================
Trovadores que deixaram Saudades
-
ALBERTO FERNANDO BASTOS
Rio de Janeiro/RJ (1921 – ????)

-
Na reta final da vida,
encontrei com emoção,
nos trovadores nascida,
de novo, a palavra IRMÃO!...
============================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores
-
LUIZ OTÁVIO

(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP

-
Não revelo confidências
nos meus versos tão magoados,
mas por trás das reticências
quantos sonhos destroçados...
============================
Um Haicai do Rio de Janeiro/RJ
-
FRANKLIN MAGALHÃES

 -
Mais um beija-flor.
Ou será outra visita
de um freguês antigo?
============================
Uma Trova da Rainha dos Trovadores
-
LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981

-
No meu viver triste e escuro,
na minha sede de amar,
és aquele que eu procuro
e não me quer encontrar.
============================
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 - 1989)

-
Poeta itinerante e peregrino,
pelas ruas do mundo,
arrasto o meu destino
Mundo? Uma aldeia de nome tupi,
um monstro com nome de santo,
Curitiba, São Paulo,
com vocês me deito,
com algo me levanto.
Vocês aí parados
a mesma vida de sempre,
como vos invejo e vos desprezo,
voz de nós, voz dos meus avós,
prazos, prêmios, praças, preços,
chove sobre mim
a chuva que eu mereço.
Invoco forças poderosas.
Quando vou poder
transformar minhas ruínas em rosas ?
============================
  O Universo das Glosas de Gislaine
-
GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS

Glosando Antônia Nery
   TEU ABRAÇO...

 

MOTE:

PERDIDA NO TEU ABRAÇO
ESQUEÇO O MUNDO LÁ FORA,
FLUTUO EM TEMPO E ESPAÇO,
PARA MIM SÓ EXISTE O AGORA!

GLOSA:

PERDIDA NO TEU ABRAÇO
minha "Passárgada" eu vivo,
e muito feliz me faço,
em cada abraço, eu revivo!

Inebriada de paixão,
ESQUEÇO O MUNDO LÁ FORA,
pois sinto, em meu coração,
um novo romper de aurora!

Somem, tristeza e cansaço
e eu sigo, leve, voando...
FLUTUO EM TEMPO E ESPAÇO,
enquanto estás me abraçando!

Eu sou feliz de verdade
nos teus braços, nessa hora!
Carpe Diem – realidade!
PARA MIM SÓ EXISTE O AGORA!
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores
-
ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ

-
De amor... Amor é infinito!
Do encanto do seu poder,
tanta coisa se tem dito!...
- E há tanta coisa a dizer...
============================
O Universo do Haicai de Seabra
-
CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)

-
espiral de sol -
luz nas frestas da
escada em caracol
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O Universo Poético de Emilio
-
EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)
-
No Álbum da Rainha D. Amélia

-
Favor nenhum Vos fez em dar um Reino a sina,
Pois que bastava em Vós, haver a essência humana
Tomado qual tomou, da graça feminina,
A forma modelar que à própria Arte se irmana.

Quem liga à Formosura, a Bondade divina
No eflúvio angelical que só de Vós promana,
Não precisa reinar porque as Almas domina;
- Senhora ou não de um trono, é sempre a Soberana!

Carinhosa Verdade aqui não nos é estranha,
Qual que, em Vós, a Mulher da Santa se avizinha,
Tal em tudo fulgura a auréola que A acompanha!

Vinde, Senhora! E aqui, na livre pátria minha,
De homens livres vereis, com que glória tamanha,
Todos o orgulho têm de Vos sentir Rainha!
============================
O Universo Poético de Sardenberg
-
ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)
-
Anjo da Guarda

-
Guarda-me anjo da guarda
como sempre me guardou...
guardando aquela lembrança
dos meus tempos de criança
que já se foi... mas ficou.

Guarda todos os sentimentos,
a candura de menino;
guarda todo o meu destino,
minha fé, ternura e paz,
guarda também a saudade
que por pirraça ou maldade
não vai me deixar jamais.

Guarda meus sonhos perdidos
que nunca foram alcançados;
guarda aqueles meus pecados
tão ingênuos de menino,
pecados tão pequeninos
por certo já perdoados.

Guarda, afinal, a certeza
de ter trilhado o caminho
do bem,  razão e pureza;
guarda também a riqueza
do meu pobre coração,
guarda, meu Anjo da Guarda,
minha vida em tuas mãos.
============================
O Universo Poético de Cecília
-
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ
-
Gargalhada

-

Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!
Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármores baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...

O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.

 Mas é preciso ter baixelas de ouro, compreendes?
- e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas, Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trêmulas...

Escuta bem:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Só de três lugares nasceu até hoje essa música heróica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim.
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O Universo Melódico de Assumpção
-
MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ
-
A Bruxa Má do Oeste

(CD Mágico de Oz)

Cuidado Dorothy insuportável
Senão voce vira pó
Se não me der os sapatos e rubi
Te embrulho e dou um nó
Porque eu sou bruxa má do oeste feito peste
Que não cura nunca não
Pobre mundo então não sabe que a maldade
Brota pela minha mão
Tenha muito medo de mim
Eu vim do reino da escuridão

Eu gosto de onde toda luz se esconde
E os bichos que rastejam pelo chão
E os meus macacos são alados,
São escravos todos desse mundo vão
Eu venho do submundo, do porão imundo
Das mazelas e do anormal
Olha pra mim e vê estampada
Na minha cara a face de todo mal
Tenha muito medo de mim
Eu vim do reino da escuridão
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O Universo Haicaista de Guilherme
-
GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP
-
Progresso?

-
Enorme canhão,
o arranha-céu acompanha
o voo do avião.
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O Universo Sonetista de Alma
-
ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)
-
Balanço

-
Entre a entrega e a rebeldia,
Balanço, como entre amor e arte.
Eis aí a minha fonte de Poesia
Que encontro em mim e em toda parte.

Tudo é tema, angústia e ironia...
O prosaico também, se o transfiguro,
Pois o ser humano em estado puro
Já nasce com um dom de nostalgia.

Termos vindo de remoto Paraíso
Nos dá esse olhar para a beleza
E essa espera pelo Dia do Juízo

E a esperança de voltarmos ao Jardim
Onde seremos um com a Natureza,
Não mais exílio, tu em ti e eu em mim...
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Uma Poesia de Camet/PA
-
ARODINEI GAIA DE SOUSA
-
A Nuvem

-
 A nuvem ‚ um quadro do artista no céu
  uma encenação no palco da liberdade
 Um tingimento de amor e saudade

A nuvem‚ uma escultura que inspira o escultor
  um reflexo de Aleijadinho na pedra sabão
 Emissária da mais admirável união

A nuvem ‚ um telhado de vidro que produz sombra
  uma metamorfose no céu que aguça a imaginação
  uma aquarela do Deus da criação

A nuvem‚ desordeira, livre, sem limite, inerte e dinâmica
  um pássaro no firmamento sem pouso, sem chegada
  platéia no beijo tímido da namorada

A nuvem ‚ um elo entre o céu e a terra
  um entusiasmo criador que move a mão do poeta
 A sonoridade divina que no homem o sonho desperta

A nuvem‚ branca como o algodão colorida pelo olhar solar
 Quando escurece‚ fria‚ sinal de chuva pra natureza
 Ela escurece, ela clareia, é um charme de beleza
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O Universo de Francisca
-
FRANCISCA JÚLIA
1871, Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP - 1920, São Paulo/SP)
-
A Fonte de Jacó

-
Na velha Samaria era Sicar situada;
Ora, em Sicar, Jacó, filho de Isac, um dia,
Velho já, tarda a mão, à sua gente amada
Uma fonte rasgou d'água límpida e fria.

O Mestre, certa vez, a essa borda abençoada,
(No tempo de Jesus a fonte inda existia)
À hora sexta quedou-se, a fronte angustiada
De dor, a ver passar gentes de Samaria.

Uma Samaritana, acaso, à fonte veio;
E ao passar por Jesus, com seu cântaro cheio,
O alto busto ondulou numa graça lasciva...

— Água! pediu Jesus, mata-me a sede e a mágoa!
Do cântaro, que tens, dá-me uma pouca d'água
Que, em troca, eu te darei da fonte d'água viva
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas
-
BICHINHO GATO

 -
 - Bichinho gato que comeste tu?
- Sopinhas de leite
- Guardaste-me delas?
- Guardei, guardei
- Onde as puseste?
- Atrás da arca
- Com que as tapaste?
- Com o rabo da gata
Sape, sape, sape gato
Sape, sape, sape gata.
 -
Sape gato
 -
Sape gato
Lambareiro
Tira a mão
Do açucareiro
Tira a mão
Tira o pé
Do açúcar
E do café

http://luso-livros.net/
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O Universo Poético de Quintana
-
MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)
-
Alquimia

-
Naquela mistura
fumegante e colorida
que a pá
não pára de agitar
vê-se
o infinito olhar de um morimbundo
o primeiro olhar de um primeiro amor
um trem a passar numa gare deserta
uma estrela remota um pincenez perdido
o sexo do outro sexo
a mágica de um santo carregando sua própria cabeça
e de tudo
finalmente
evola-se o poema daquele dia
- que fala em coisa muito diferente...
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O Universo de Pessoa
-
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

-
Deixa que um momento pense
Que ainda vives ao meu lado...
Triste de quem por si mesmo
Precisa ser enganado!
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O Universo Poético de Vinicius
-
VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)
-
Balada do Cavalão

-
A tarde morre bem tarde
No morro do Cavalão...
Tem um poder de sossego.
Dentro do meu coração
Quanto sangue derramado!

Balança, rede, balança...

Susana deixou minha alma
Numa grande confusão
Seu berço ficou vazio
No morro do Cavalão:
Pequena estrela da tarde.

Ah, gosto da minha vida
Sangue da minha paixão!

Levou o anjo o outro anjo
Da saudade de seu pai
Susana foi de avião
Com quinze dias de idade
Batendo todos os recordes!

Que tarde que a tarde cai!

Poeta, diz teu anseio
Que o santo te satisfaz:
Queria fazer mais um filho
Queria tanto ser pai!

Voam cardumes de aves
No cristal rosa do ar.
Vontade de ser levado
Pelas correntes do mar
Para um grande mar de sangue!

E a vida passa depressa
No morro do Cavalão
Entre tantas flores, tantas
Flores tontas, parasitas
Parasitas da nação.

Quanta garrafa vazia
Quanto limão pelo chão!

Menina, me diz um verso
Bem cheio de ingratidão?
- Era uma vez um poeta
No morro do Cavalão
Tantas fez que a dor-de-corno
Bateu com ele no chão
Arrastou ele nas pedras
Espremeu seu coração
Que pensa usted que saiu?
Saiu cachaça e limão.

Susana nasceu morena
E é Mello Moraes também:
É minha filha pequena
Tão boa de querer bem!

Oh, Saco de São Francisco
Que eu avisto a cavaleiro
Do morro do Cavalão!
(O Saco de São Francisco
Xavier não chama não
Há de ser sempre de Assis:
São Francisco Xavier
É nome de uma estação)
Onde está minha alegria
Meus amores onde estão?

A casa das mil janelas
É a casa do meu irmão
Lá dentro me esperam elas
Que dormem cedo com medo
Da trinca do Cavalão.

Balança, rede, balança…
============================
Uma Poesia de Portugal
-
JOÃO DE DEUS RAMOS
1830 – 1896
-
A Vida

-
Foi-se me pouco a pouco amortecendo
A luz que nesta vida me guiava,
Olhos fitos na qual até contava
Ir os degraus do túmulo descendo

Em se ela anuviando, em a não vendo,
Já se me a luz de tudo anuviava;
Despontava ela apenas, despontava
Logo em minha alma a luz que ia perdendo

Alma gêmea da minha, e ingênua e pura
Como os anjos do céu (se o não sonharam…)
Quis mostrar-me que o bem, bem pouco dura

Não sei se me voou, se me a levaram;
Nem saiba eu nunca a minha desventura
Contar aos que inda em vida não choravam
============================
O Universo de Auta
-
Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN
-
Chorando

-
Fazia noite... A tristeza
Tudo envolvia em seu véu;
Soluçava a Natureza,
Caía orvalho do Céu.

E n’aquela noite assim,
Tão tenebrosa e tão fria!
A minha mãe se partia
Para o Céu azul sem fim.

Falou-me a chorar: filhinha,
O vício do mundo aterra...
Tu’alma reúne à minha,
Fujamos ambas da terra.

Beijou-me... e, qual sonho doce,
Sua vida evaporou-se.
.. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. ..

Ó mãe! por que me deixaste
No mundo sem teu amor?
Sou como o lírio sem haste
Murchando triste inda em flor.

Podias ter-me levado
Ao Céu contigo, divina...
Iria em teu seio amado:
Eu era tão pequenina!

Fiquei sozinha e perdida,
Ó mãe! no mundo de abrolhos...
Na noite de minha vida
Derrama a luz de teus olhos!

Quanta tristeza se encerra
Do mundo no escuro véu!
Não quero morar na terra;
Contigo leva-me ao Céu!
============================
O Universo Triverso de Millôr Fernandes
-
MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro (1923 – 2012)

-
Probleminhas terrenos:
Quem vive mais
Morre menos?
============================
O Universo de J. G.
-
J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ
-
Barco Afundado

 -  
Sou o homem mais triste
do mundo,
depois que tu partiste.

Ninguém sabe, ninguém vê. Sou triste
por dentro, calado
no mais profundo
do ser, onde ninguém pode chegar...

Sou como um barco em festa, que afundou
embandeirado,
a morrer em silêncio, ignorado,
no fundo do mar…
============================
Um Soneto
-
F. H. PUPO
-
Dos Sonhos Quero Mais os Conscientes...

-
 Dos sonhos quero mais os conscientes
 Erigidos à luz morrente e triste
 Das manhãs sem sol, pássaros no alpiste,
 unhas, disputando-o e sem os dentes.

 Das verdades almejo as não sinceras
 Que escondem o palpite à algibeira
 E, assim, as evitando por inteiras
 Poupam-te a parte má que não moderas.

 Pois que o domínio físico, bem sabes,
 Vive à custa da força emocional
 E, perdido o controle, um homem rude

 Nasce, antes que vejas e que acabes,
 Com tua fúria intrépida, o teu Mal
 E os sonhos matinais com que me iludes...
============================
O Universo do Martelo Agalopado de Prof. Garcia
-
PROF. GARCIA
(Francisco Garcia de Araújo)
Caicó/RN (1946)

-
Minha avó também teve competência,
com seu fuso na mão, foi de primeira,
também tinha uma roca de madeira
que lhe deu o sustento, e deu vivência.
Enedina, um sinal de resistência,
não sentia o torpor da nostalgia,
na pobreza do campo onde vivia
resistiu aos insultos da escassez,
mas viveu com ternura e sensatez
encantada com tudo que fazia!
============================
O Universo Poético de Constantino
-
LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR
-
O Menino Sagrado

-
Frágil, o menino tão sagrado
vai preparando seu aniversário.
Há dois mil anos tem esperado
por Seus presentes tão necessários.

Um sorriso aqui, um outro ali
e mãos prontas para afagar.
Um prato de comida pra permitir
por-se em pé quem vai lutar.

Há dois mil anos tem esperado
o despertar de uma nova consciência
e aquela paz que nunca vem.

Talvez, um dia, nos corações, Ele desça alado
e leve homens e animais Nele abraçados,
pra tocarem juntos os sinos de Belém!
============================
Uma Poesia Além Fronteiras
-
PAUL ÉLUARD
França (1895 - 1952)
-
O Amor é o Homem Inacabado

-
Todas as árvores com todos os ramos com todas as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.

(Tradução de António Ramos Rosa)
============================
O Universo de Adélia
-
ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)
-
Homilia

-
Quem dentre vós
dirá convictamente:
os alquimistas morreram
- aqueles simples -
morreram os conquistadores,
os reis
os tocadores de alaúde,
os mágicos.
Oh, engano!
a vida é eterna, irmãos,
aquietai-vos, pois, em vossas lidas,
louvai a deus e reparti a côdea
o boi, vosso marido e esposa
e sobretudo
e mais que tudo
a palavra sem fel
============================
O Universo Poético de Bilac
-
OLAVO BILAC
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)
-
O Avô

-
Este, que, desde a sua mocidade,
Penou, suou, sofreu, cavando a terra,
Foi robusto e valente, e, em outra idade,
Servindo à Pátria, conheceu a guerra.

Combateu, viu a morte, e foi ferido;
E, abandonando a carabina e a espada,
Veio, depois do seu dever cumprido,
Tratar das terras, e empunhar a enxada.

Hoje, a custo somente move os passos...
Tem os cabelos brancos; não tem dentes...
Porém remoça, quando tem nos braços
Os dois netos queridos e inocentes.

Conta-lhes os seus anos de alegria,
Os dias de perigos e de glórias,
As bandeiras voando, a artilharia
Retumbando, e as batalhas, e as vitórias...

E fica alegre quando vê que os netos,
Ouvindo-o, e vendo-o, e lhe invejando a sorte,
Batem palmas, extáticos, e inquietos,
Amando a Pátria sem temer a morte!
============================
O Universo de Carlos Drummond de Andrade
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 - 1987) Rio de Janeiro/RJ
-
Pavão

-
A caminho do refeitório, admiramos pela vidraça
o leque vertical do pavão
com toda a sua pompa
solitária no jardim.
De que vale esse luxo, se está preso
entre dois blocos do edifício?
O pavão é, como nós, interno do colégio.
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UniVersos Melodicos
-
Marino Pinto e José Gonçalves
-
AOS PÉS DA CRUZ

(samba, 1942)
-
Último grande sucesso de Orlando Silva na gravadora Victor, "Aos Pés da Cruz" já era bem conhecido meses antes de sua gravação, quando o cantor o lançou em programas radiofônicos, numa excursão ao Norte e Nordeste.

Abordando o tema da jura descumprida, muito explorado na época ("Aos pés da Santa Cruz / você se ajoelhou / e em nome de Jesus/ um grande amor você jurou / jurou mas não cumpriu / fingiu e me enganou..."), o samba agradou tanto que recebeu imediata continuação - "Quem Mente Perde a Razão" -, de autoria do próprio Zé da Zilda (José Gonçalves) e lançado por Nelson Gonçalves , sucessor de Orlando na gravadora.

Co-autor de "Aos Pés da Cruz", Marino Pinto cita na segunda parte o célebre aforismo "O coração tem razões que a própria razão desconhece", do filósofo francês Blaise Pascal. Numa demonstração de sua admiração por Orlando, João Gilberto regravaria este samba em seu primeiro elepê, em 1959. Sua versão, com outras harmonias e uma interpretação lisa, mostraria como composições antigas poderiam ser perfeitamente amoldadas à bossa nova. Assim é que o repertório desse disco (Chega de Saudade) mistura, em completa sintonia, canções nascidas sob o signo do novo movimento com sambas tradicionais como "Morena Boca de Ouro", "Rosa Morena" e este "Aos Pés da Cruz".


Aos pés da Santa Cruz
Você se ajoelhou
E em nome de Jesus
Um grande amor você jurou

Jurou mas não cumpriu
Fingiu e me enganou
Pra mim você mentiu
Pra Deus você pecou

O coração tem razões 
Que a própria razão desconhece
Faz promessas e juras
Depois  esquece
Seguindo esse princípio
Você também prometeu
Chegou até a jurar um grande amor
Mas depois esqueceu
Mas depois esqueceu

(Fonte: http://cifrantiga3.blogspot.com)
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Uma Cantiga Infantil de Roda
-
A MACHADINHA


É uma roda e uma menina no centro. Cantam as da roda:

Rá, rá, rai }
Minha machadinha } bis

Quem te roubou }
Sabendo qu'era minha? } bis

Sabendo qu'era minha }
Eu também sou tua } bis

Passa a machadinha }
Para o meio da rua } bis

Aqui a menina sai do centro da roda e canta sozinha:

No meio da roda }
Não hei de ficar } bis

A roda responde:

Passa a machadinha }
Escolhei teu par } bis

Então a machadinha escolhe uma das meninas para ser a machadinha seguinte. Abraça a escolhida e volteiam ambas

(Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.)
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O Universo Poético de Feitosa
-
SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)
-
Architectura

-
Um dia, Ela
desenhará em chãos longínquos a casa só nossa,
que eu farei com estas mãos.

Os tijolos, eu os amassarei com os meus pés.

Às telhas -
hei de aprontar o barro mais macio,
e as formas serão por mim,
uma a uma, completadas;
Ela as alisará longamente, -
seus dedos molhados de um profundo silêncio:
só os pássaros.
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O Universo Poético de Du Bois
-
PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)
-
Desabitar

-
Sinta, senhora, na noite quente,
em abafado quarto, a brisa refrescante
pela janela aberta ao poente; esqueça,
senhora, da tarefa: sirva-se de chá
e aguarde o tempo necessário
ao aroma se afastar em reingresso.

Veja, senhora, com suas órbitas
desfocadas, o que resta da imagem
sobre a cama. Na quietude do dia
alvorecido, diga do consolo
dos que partem. Saiba, senhora,
em mãos despetaladas, do abandono
do corpo agora desabitado.
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O Universo Acróstico de Motta
-
SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)
-
AMOR CRESCE COMO UMA CHAMA

Acróstico sob encomenda Nº 5115
-
A-Amar é algo inexplicável:
M-Muito lindo no início e meio...
O-O fim é descartável como fumaça...
R-Receio criado pela desconfiança!
 -
C-Carinhos envolvem olhares,
R-Respiram e suspiram ao ritmo...
E-E sonham chegar aos ares...e
S-Sentir a brisa doce a passar!
C-Com pouco tempo, tudo é rotina
E-E a terra resseca o sentimento,
 -
C-Consegue perder a guerra do sexo!
O-O entusiasmo que antes atraiu
M-Muito forte, em dor encerra
O-O fraco pulso, de quem traiu
 -
U-Um [pulo do gato] passa a
M-Mostrar as unhas bem feitas,
A-Afiadas da triste realidade;
 -
C-Cultivo da amizade sincera leva
H-Humanidade comprovar o jogo
A-A decepção da velha estação
M-Mas a verdade faz apagar a chama
A-Acesa que cresce quando há perdão
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O Universo Poético de Ordones
-
RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG
-
Quer saber de mim?

-
Olhe-me com os olhos do coração, verá minha alma,
Verá que o que tenho por dentro no riso exterioriza.
E ainda que exista a negação, há um sim que acalma,
E mesmo sem meus títulos meu eu não se inferioriza.

Quer saber de mim? Olhe bem o que tenho ao redor,
Verá que tenho amigos que se presenteiam por mim.
E temos o mesmo tamanho: nem maior e nem menor
Sentirá que esparjo fragrância por viver nesse jardim.

Quer saber mais? Leia minhas palavras e entrelinhas
Leia também em mim o que eu não consigo escrever
Notará deliberadamente o que eu gosto e quero ser.

Verá que jazem vendavais, mas jato de calmaria jorra,
Que vivo a mergulhar onde o carinho me faz escarcéu
E quer saber de mim? Acolha-se e desfaça-me o véu.
=====================
O Universo Poético de Ialmar
-
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS
-
Mágoas e Queixas


Fazer versos é fácil - dir-me-eis -
se lerdes minhas páginas singelas
e simplesmente reparardes nelas
mágoas que nem de longe conheceis....

Se assim pensardes, nunca entendereis
da própria alma as fatídicas procelas
surgindo à noite, não em tardes belas,
e sois felizes porque não sofreis...

Se, no entanto, sentirdes a tristeza
transparecendo aqui nas entrelinhas
destes versos, que os leva a correnteza

a transbordar em zonas ribeirinhas,
é possível que tendes, com certeza,
queixas amargas iguais às minhas !

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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