Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 6 de outubro de 2013

José Feldman (Universo de Versos n. 121)



Uma Trova do Paraná
-
DIRCE DAVENIA GUAYATO
Londrina

-
Este pinho, que hoje chora,
cantando o amor e a distância,
jà foi um pinheiro, outrora,
nos natais da minha infância.
============================
Uma Trova sobre Ecologia, de São Paulo/SP
-
CAMPOS SALES

-
As queimadas crepitando,
nas florestas, que tristeza,
tal qual feridas sangrando
no peito da natureza.
============================
Uma Trova do Izo
-
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS 1932 – 2013 São Paulo/SP

-
Na imensa feira da vida,
as barracas da ironia:
a das culpas - concorrida!...
a dos remorsos - vazia...
============================
Uma Trova Lírica/ Filosófica, de São Paulo/SP
-
RENATA PACCOLA

-
No pode existir quem negue
que em apenas quatro versos
a trova sempre consegue
conter vrios universos!
============================
Uma Trova Humorística, de Aracaju/SE
-
SEVERINO UCHÔA

-
Explica o doutor Rodrigo:
- Dê vitamina ao Raul;
em motor de carro antigo
se põe gasolina azul...
============================
Uma Trova do Ademar
-
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/RN 1951 - 2013 Natal/RN

-
Mesmo sentindo os rancores,
de um mar de dor que me escolta,
eu, afogando essas dores,
nada impede a minha volta!
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Uma Trova Hispânica, da Venezuela
-
JESÚS H RODRÍGUEZ

-
En la noche las estrellas
buscan tu luz de alimento,
mientras que disfruto de ellas,
te observo en el firmamento.
============================
Uma Trova Ecológica sobre Queimada, de Porto Alegre/RS
-
DELCY R. CANALLES

-
Meio Ambiente agredido...
Fauna e Flora dizimadas...
E o mundo chora sentido
a tristeza das queimadas!
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Trovadores que deixaram Saudades
-
ÁLVARES DE AZEVEDO
(Manuel Antônio Álvares de Azevedo)
São Paulo (1831 – 1852) Rio de Janeiro

-
Amemos! Quero de amor
viver no teu coração,
sofrer e amar essa dor
que desmaia de paixão !
============================
Uma Trova do Príncipe dos Trovadores
-
LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ 1916 -1977 Santos/SP

-
Às vezes o mar bravio
dá-nos lição engenhosa:
afunda um grande navio,
deixa boiar uma rosa!
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Um Haicai de Pedro Leopoldo/MG
-
WAGNER MARQUES LOPES

-
Passa o tempo frio.
É pé... Mais pé de aguapé
que acoberta o rio.
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Uma Trova da Rainha dos Trovadores
-
LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981

-
Desejei fogo atear
ao mundo por onde trilho,
vendo uma cega indagar
como era o rosto do filho.
============================
O Universo de Leminski
-
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 - 1989)
-
Razão de Ser

-
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
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  O Universo das Glosas de Gislaine
-
GISLAINE CANALES
Porto Alegre/RS
-
Glosando Carmen Patiño Fernandes (Carmiña) Espanha


MOTE:
SE ESSA AVENTURA SONHADA
SE TORNASSE REALIDADE,
COM A CARÍCIA ESPERADA
VIRIA A FELICIDADE!

GLOSA:

SE ESSA AVENTURA SONHADA
um dia chegasse ao fim,
a minha alma, apaixonada,
sinto, explodiria em mim!

Se esse sonho que sonhei
SE TORNASSE REALIDADE,
tu serias o meu rei
e eu a tua deidade!

Fico até emocionada,
ardendo no meu desejo,
COM A CARÍCIA ESPERADA
com o calor do teu beijo!

Quero te amar com paixão
pois o amor não tem idade,
com ele, ao meu coração
VIRIA A FELICIDADE!
============================
Uma Trova do Rei dos Trovadores
-
ADELMAR TAVARES
Recife/PE 1888 – 1963 Rio de Janeiro/RJ

-
Dizem que há mundos lá fora,
que eu nem sonho... Nunca vi...
- Mas que importa todo o mundo,
se o meu mundo é todo aqui?!
============================
O Universo do Haicai de Seabra
-
CARLOS SEABRA
(São Paulo/SP)

-
chuva lá fora –
os pássaros, molhados,
foram embora
============================
O Universo Poético de Emilio
-
EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)
-
O poeta Deus

-
Quando a terra volver, de novo, ao caos que a espera,
A imensa escuridão da treva indefinida;
Quando tudo que é som, que é luz, que é primavera,
Mundo e negro fizer a eterna despedida;

Quando não mais houver, no espaço, uma só esfera,
Nem, na amplidão vazia, uma só luz perdida;
Quando, sem água o mar, sem calor a cratera,
Em nada mais houver um vestígio de vida;

Hás de ver ao compor as estrofes de um hino,
A Vida ressurgir ao sopro do teu Verso,
Ao fecundo clangor do teu Alexandrino!...

Pois tens, Poeta Supremo! em tua essência imerso,
Dos Deuses, Deus também, todo o poder divino,
De fazer reviver, no Nada, outro Universo!
============================
O Universo Poético de Sardenberg
-
ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ (1947)
-
Apoteose

-
Na bruma densa de um mar revolto,
Em manhã fria de um inverno intenso,
Sinto um medo aprisionado e envolto
Na cena fria de um terror imenso.

As ondas fortes entram pela praia
Lambendo a areia fina e cristalina,
A espuma branca vem beijar a saia
Já desbotada da pobre menina.

Do céu pesado com nuvens escuras
Faíscam raios, vêm as trovoadas,
As gaivotas fogem em revoadas...

E os meus olhos saem à procura
Do Criador, o nosso Deus Supremo,
Na apoteose de um pavor extremo!
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O Universo Poético de Cecília
-
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ (1901 – 1964) Rio de Janeiro/RJ
-
Atitude

 -
 Minha esperança perdeu seu nome...
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

O último passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.

Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.

E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.
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O Universo Melódico de Assumpção
-
MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ
-
Jardins de Cor

-
Quando a sombra se torna clara,
Aonde todo rio é marginal
A calmaria invade as salas
Tornando a nossa vida um pouco mais real...
Mais real

Pelo tempo afora, agora
Ninguém além de nós é tão feliz
A ternura estampada na face
De quem me olha agora e me diz
Pelas ruas carros passam,
As pessoas vêm e vão
Pelos cantos desta casa
Amor, poemas e canção
Fervem rimas, notas primas
Melodias de amor......
Aonde mora o azul da tarde
Também cabem jardins de cor... jardins de cor
Quando a chuva alaga a alma
Eu lavo e limpo a mágoa por você
Mas o carinho vira mero acaso
Se acaso um do outro se perder
Pelas ruas carros passam
As pessoas vêm e vão
Pelos cantos desta casa
Amor, poemas e canção
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O Universo Haicaista de Guilherme
-
GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP
-
Carrilhão

-
Assusta-se e foge o
enorme tempo que dorme
no velho relógio.
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O Universo Sonetista de Alma
-
ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS (1972 – 2007)
-
Daimon*

-
Que imensa ilusão é a vida nossa
Mormente com o que fazemos dela,
Tão distante da chama de uma vela
Quão da lua refletida numa poça

Que unos nos faziam e mais inteiros,
Como observar nossa animália
E o belo crescimento dos canteiros,
Ciclo vital que pouco ou jamais falha...

Ah! Ambição e os sonhos de grandeza
E mesmo os de amor eternizado
Em cenário duvidoso de beleza!

Riqueza e glamour, quanta inocência!
Nossos nomes nas bocas e aclamado,
Nosso daimon a serviço da demência...
____________________________
Nota
* Daimon - Segundo o escritor Nelson Rego o daimon, para os antigos gregos, é tanto a natureza externa quanto a interna. É a potência para perseguir o que faz falta. Ao mesmo tempo interno e externo, ele é o indivíduo e algo além do indivíduo. Em princípio, nem bom, nem mau – mas, com certeza, forte –, o daimon pode ser a correnteza que leva para qualquer direção. O indivíduo pode ter êxito com esse algo que está além e o habita. E pode também ser esmagado pela força tremenda que ele traz.

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Uma Poesia
-
OSWALDO MONTENEGRO
(Oswaldo Viveiros Montenegro)
Rio de Janeiro/RJ (1956)
-
Metade
-
Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe
seja linda, ainda que triste.
Que a mulher que eu amo seja sempre amada,
mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida
e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece
nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem
inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme
na calma e na paz que eu mereço,
Que essa tensão que me corroe por dentro
seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso
e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste,
que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso
que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo,
mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba,
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia
e a outra metade, a canção.

E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor
e a outra metade...
também.
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O Universo de Francisca
-
FRANCISCA JÚLIA
1871, Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP - 1920, São Paulo/SP)
-
Inverno

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Outrora, quanta vida e amor nestas formosas
Ribas! Quão verde e fresca esta planície, quando,
Debatendo-se no ar, os pássaros, em bando,
O ar enchiam de sons e queixas misteriosas!

Tudo era vida e amor. As árvores copiosas
Mexiam-se, de manso, ao resfolego brando
Da brisa que passava em tudo derramando
O perfume sutil dos cravos e das rosas...

Mas veio o inverno; a vida e amor foram-se em breve...
O ar se encheu de rumor e de uivos desolados...
As árvores do campo, enroupadas de neve,

Sob o látego atroz da invernia que corta,
São esqueletos que, de braços levantados,
Vão pedindo socorro à primavera morta.
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Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas
-
PARDAL PARDO, PORQUE PALRAS?

 -
(Trava-línguas para dizer em voz alta)

Pardal pardo, porque palras?
Palro sempre e palrarei
Porque sou pardal pardo
Palrados de El-rei

http://luso-livros.net/
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O Universo Poético de Quintana
-
MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)
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Ao longo das janelas mortas

-
Ao longo das janelas mortas
Meu passo bate as calçadas.
Que estranho bate!...Será
Que a minha perna é de pau?
Ah, que esta vida é automática!
Estou exausto da gravitação dos astros!
Vou dar um tiro neste poema horrivel!
Vou apitar chamando os guardas, os anjos, Nosso
Senhor, as prostitutas, os mortos!
Venham ver a minha degradação,
A minha sede insaciável de não sei o quê,
As minhas rugas.
Tombai, estrelas de conta,
Lua falsa de papelão,
Manto bordado do céu!
Tombai, cobri com a santa inutilidade vossa
Esta carcaça miserável de sonho…
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O Universo de Pessoa
-
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   1888 – 1935

-
Não sei se a alma no Além vive...
Morreste! E eu quero morrer!
Se vive, ver-te-ei; se não,
Só assim te posso esquecer.
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O Universo Poético de Vinicius
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VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro (1913 – 1980)
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Balada negra

-
Éramos meu pai e eu
E um negro, negro cavalo
Ele montado na sela,
Eu na garupa enganchado.
Quando? eu nem sabia ler
Por quê? saber não me foi dado
Só sei que era o alto da serra
Nas cercanias de Barra.
Ao negro corpo paterno
Eu vinha muito abraçado
Enquanto o cavalo lerdo
Negramente caminhava.
Meus olhos escancarados
De medo e negra friagem
Eram buracos na treva
Totalmente impenetrável.
Às vezes sem dizer nada
O grupo eqüestre estacava
E havia um negro silêncio
Seguido de outros mais vastos.
O animal apavorado
Fremia as ancas molhadas
Do negro orvalho pendente
De negras, negras ramadas.
Eu ausente de mim mesmo
Pelo negrume em que estava
Recitava padre-nossos
Exorcizando os fantasmas.
As mãos da brisa silvestre
Vinham de luto enluvadas
Acarinhar-me os cabelos
Que se me punham eriçados.
As estrelas nessa noite
Dormiam num negro claustro
E a lua morta jazia
Envolta em negra mortalha.
Os pássaros da desgraça
Negros no escuro piavam
E a floresta crepitava
De um negror irremediável.
As vozes que me falavam
Eram vozes sepulcrais
E o corpo a que eu me abraçava
Era o de um morto a cavalo.
O cavalo era um fantasma
Condenado a caminhar
No negro bojo da noite
Sem destino e a nunca mais.
Era eu o negro infante
Condenado ao eterno báratro
Para expiar por todo o sempre
Os meus pecados da carne.
Uma coorte de padres
Para a treva me apontava
Murmurando vade-retros
Soletrando breviários.
Ah, que pavor negregado
Ah, que angústia desvairada
Naquele túnel sem termo
Cavalgando sem cavalo!

Foi quando meu pai me disse:
– Vem nascendo a madrugada…
E eu embora não a visse
Pressenti-a nas palavras
De meu pai ressuscitado
Pela luz da realidade.

E assim foi. Logo na mata
O seu rosa imponderável
Aos poucos se insinuava
Revelando coisas mágicas.
A sombra se desfazendo
Em entretons de cinza e opala
Abria um claro na treva
Para o mundo vegetal.
O cavalo pôs-se esperto
Como um cavalo de fato
Trotando de rédea curta
Pela úmida picada.
Ah, que doçura dolente
Naquela aurora raiada
Meu pai montando na frente
Eu na garupa enganchado!
Apertei-o fortemente
Cheio de amor e cansaço
Enquanto o bosque se abria
Sobre o luminoso vale...
E assim fui-me ao sono, certo
De que meu pai estava perto
E a manhã se anunciava.
Hoje que conheço a aurora
E sei onde caminhar
Hoje sem medo da treva
Sem medo de não me achar
Hoje que morto meu pai
Não tenho em quem me apoiar
Ah, quantas vezes com ele
Vou ao túmulo deitar
E ficamos cara a cara
Na mais doce intimidade
Certos que a morte não leva:
Certos de que toda treva
Tem a sua madrugada.
============================
Constelação Poetrix de Goulart
-
GOULART GOMES
Salvador/BA (1965)
-
Minha Máxima

-
a cada nova manhã
ressucito com a certeza
da minha culpa cristã
=========================
Uma Poesia de Portugal
-
ADÍLIA LOPES
(Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira)
Lisboa (1960)
-
Memórias das infâncias

-
Gostávamos muito de doce de framboesa
E deram-nos um prato com mais doce de framboesa
Do que era costume
Mas
A nossa criada a nossa tia-avó no doce de framboesa
Para nosso bem
Porque estávamos doentes
Esconderam colheres do remédio
Que sabia mal
O doce de framboesa não sabia à mesma coisa
E tinha fiapos brancos
Isso aconteceu-nos uma vez e chegou
Nunca mais demos pulos por ir haver
Doce de framboesa à sobremesa
Nunca mais demos pulos nenhuns
não podemos dizer
Como o remédio da nossa infância sabia mal!
Como era doce o doce de framboesa da nossa infância!
Ao descobrir a mistura
Do doce de framboesa com o remédio
ficámos calados
Depois ouvimos falar da entropia
Aprendemos que não se separa de graça
O doce de framboesa do remédio misturados
é assim nos livros
é assim nas infâncias
E os livros são como as infâncias
Que são como as pombinhas da Catrina
Uma é minha
Outra é tua
Outra é de outra pessoa
============================
O Universo de Auta
-
Auta de Souza
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN
-
O Beija-Flor

 -
Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manhãzinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim - a pátria da ambrosia.

Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro...
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, n’essa manhã tão fria!

Um dia, foi-se e não voltou... Mas, quando
A suspirar, me ponho contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho...

Digo, a pensar no tempo já passado;
Talvez, ó coração amargurado,
Aquele beija-flor fosse o teu sonho!
============================
O Universo Triverso de Millôr
-
MILLÔR FERNANDES
(Milton Viola Fernandes)
Rio de Janeiro (1923 – 2012)

-
No hall escuro
o segurança
mata o inseguro.
============================
O Universo de J. G.
-
J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ
-
Comandante

    -
Nesta manhã de sol, de praia em festa,
de feriado para o coração
- olho apenas.

Uns jogam peteca na areia...
Outros passeiam de mãos dadas.
Ela carrega o futuro no carrinho.

Há também um navio branco como espátula
cortando a onda verde,
e gaivotas riscando abstrações
na manhã transparente,
e um menino que assovia...
e outro menino que berra...
..............................…

Oh! Meu Deus, todo mundo é comandante de navio,
só eu fiquei em terra…
============================
A Galáxia Haicaista de Posselt
-
ALVARO POSSELT
Curitiba/PR

-
A vida é o agora
Se alguém chegar atrasado
vai ficar de fora
=======================================
Um Soneto de Casa Branca/SP
-
LAERTE ANTÔNIO
-
Quando Me Faz Fiado...

-
 Quando me faz fiado o seu amor,
 a diaba da Rosinha não capricha.
 Não bole, não ajeita: a coisa mixa —
 sim, parece que a põe sob um trator.

 Seca, feito um pedaço de isopor —
 nem rotação, nem translação: é fixa.
 Fica a enrolar-me a pobre da barbicha
 com o pensamento longe... igual condor...

 Quando no fim do mês lhe pago a conta
 (e ela já a somou, já a tem pronta),
 Rosinha então o cenho desenruga...

 E para compensar-me, Rosa agora
 se transforma em charmosa lavadora —
 E molha, gira, enxágua, e gira, e centrifuga.
============================
O Universo do Martelo Agalopado de Prof. Garcia
-
PROF. GARCIA
(Francisco Garcia de Araújo)
Caicó/RN (1946)

-
Nunca vi capitão, sem ser tenente,
mas no mundo do crime há capitão:
Virgulino Ferreira, o Lampião,
recebeu o diploma de presente.
Padre “ciço” Romão, inteligente,
chamou logo o disposto justiceiro,
deu-lhe a carta e pediu ao bandoleiro
proteção para o povo, e até lutasse,
para que Carlos Prestes não passasse
com a “Coluna” humilhando Juazeiro!
============================
O Universo Poético de Constantino
-
LÚCIA CONSTANTINO
(Maria Lúcia Siqueira)
Curitiba/PR
-
Teu Olhar

-
Talvez a estrela mais bonita
não seja essa que tu vês.
É a que brilha dentro dos teus olhos
em cada anoitecer.

Esse teu olhar faz as horas
caírem pelo ocaso desmaiadas.
O luar pensa que a aurora
já está pelos teus olhos humilhada.

Talvez um pirilampo já te tome
por outro pirilampo, seu amado.
Até o amor muda de nome
quando há dois céus, lado a lado.
============================
Uma Poesia Além Fronteiras
-
OSCAR WILDE
(Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde)
Dublin/Irlanda (1854 – 1900) Paris/França
-
Soneto à Liberdade

-
Não que eu ame teus filhos cujo olhar obtuso
Somente vê a própria e repugnante dor,
Cuja mente não sabe, ou quer saber, de nada
É que, com seu rugir, tuas Democracias,

Teus reinos de Terror e grandes Anarquias
Refletem meus afãs extremos como o mar,
Dando-me Liberdade! -à cólera uma irmã.
Minha alma circunspecta gosta de teus gritos

Confusos só por causa disso: do contrário,
Reis com sangrento açoite ou seus canhões traiçoeiros
Roubavam às nações seus sagrados direitos,

Deixando-me impassível e ainda, ainda assim,
Esses Cristos que morrem sobre as barricadas,
Deus sabe que os apóio ao menos parcialmente.

(tradução de Nelson Ascher)
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O Universo de Adélia
-
ADÉLIA PRADO
(Adélia Luzia Prado Freitas)
Divinópolis/MG (1935)
-
Meditação à beira de um poema

-
Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira
constelada,
os botões,
Alguns já com rosa- pálido
espiando entre as sépalas,
jóias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.
maravilhosas faziam-se
as cíclicas perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro
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O Universo Poético de Bilac
-
Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
Rio de Janeiro/RJ (1865 – 1918)
-
Ao Coração que Sofre

-
Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.
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O Universo de Drummond 
-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 - 1987) Rio de Janeiro/RJ
-
Sentimental

-
Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas,
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.
Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
"Neste país é proibido sonhar."
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UniVersos Melodicos
-
Pedro Caetano
-
BOTÕES DE LARANJEIRA 

 (samba-choro, 1942)
-
O compositor Pedro Caetano estava numa festinha, quando uma menina lhe pediu: "Será que o senhor poderia fazer uma música pra mim?". Embora não gostasse de compor por encomenda, Pedro animou-se ao saber que a garota se chamava Maria Madalena de Assunção Pereira, um nome tão musical que tinha até ritmo de choro.

E ali mesmo começou a escrever os versos iniciais da composição ("Maria Madalena de Assunção Pereira / teu beijo tem aroma de botões de laranjeira"), para a alegria da homenageada.

Dias depois, a música era lançada com sucesso por Ciro Monteiro no programa de César Ladeira, na Rádio Mayrink Veiga. Marcada a gravação para a semana seguinte, pois Ciro tinha pressa, surgiu um empecilho.

A censura proibia nomes próprios por extenso em letras de música, alegando que isso afetava a privacidade das pessoas. Pedro ficou desolado, pois uma das graças do sambinha era justamente o nome da garota funcionando como verso. Mas a salvação veio numa sugestão de César Ladeira: substituiu-se o "de Assunção" por "dos Anzóis", cessando o pretexto da proibição. César ainda brincou: "Se aparecer alguém com esse nome mandem prender, porque isso não é nome que se use".

Criador de inspirados versos para músicas alheias, Pedro Caetano era também um criativo melodista, conforme se pode constatar em composições como "Botões de Laranjeira"
.
-
Maria Madalena dos anzóis Pereira
Teu beijo tem aroma de botões de laranjeira
Mas a Pretoria não é brincadeira
Maria Madalena dos Anzóis Pereira

Em plena liberdade eu ia, passo a passo
Quando teus olhos verdes atiraram um laço
Agora estou na forca de qualquer maneira
Maria Madalena dos Anzóis Pereira

Maria Madalena dos Anzóis Pereira
Teu beijo tem aroma de botões de Laranjeira
Mas a Pretoria não é brincadeira
Maria Madalena dos Anzóis Pereira

Eu fui te dando corda despreocupado,
E quando dei por mim já estava amarrado
E quem levou vantagem com a brincadeira
Maria Madalena dos Anzóis Pereira

(http://cifrantiga3.blogspot.com)
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Uma Cantiga Infantil de Roda
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ARARUNA

-
As crianças cantam, em roda:

Eu tenho meu pássaro preto, araruna }
Que me veio do Pará, araruna } bis

Chó! Chó! Chó! Araruna }
Não deixa ninguém te pegar, araruna } bis

Também cantava-se a ronda improvisando versos assim:
Eu tenho minha negra preta, araruna
Que me veio do Pará, araruna, etc.

Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

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O Universo Poético de Feitosa
-
SOARES FEITOSA
(Francisco José Soares Feitosa)
Ipu/CE (1944)
-
Convite à saudade

-
Eu pedi, compadre Chico,
ao grande besouro,
Besouro Preto do alto dos coqueiros,
ele passeava de uma árvore a outra,
e me disse que de lá de cima, do alto,
avistava tudo,
distantes horizontes,
longas planícies...

Perguntei se lá do alto do coqueiro mais alto,
ele avistava uma serra distante,
depois destas vastidões de areia,
de nome “das Matas” a serra,
um sabiazal
- de árvores e de passarinhos, sabiás -
tem uma grota abrejada, de nome “da Palha”,
perto da casa do seu Zedonana...

E então compadre Chico,
mestre Besouro Preto olhou e olhou,
avoou de uma árvore a outra,
fez um cocuruto de vôo, mais alto,
voltou num rasante e disse:

Compadre Moleque, não vi nada,
e se tivesse visto, lugar tão bonito,
como você sempre fala,
onde corre a Grota da Palha,
onde têm sabiás - árvores cheirosas -
onde têm sabiás - pássaros amigos -
que não comem besouros pretos,
eu também, compadre Moleque,
teria voado para lá... E, tão amigos que temos sido,
nestas praias de areia fina - Paracuru -
levaria você comigo,
você cavalgaria às minhas asas,
me mostraria essa tal grota da Palha,
esses sabiás,
paus de flor e pássaros de canto,
me apontaria também
a amada do nosso patrão,
nosso amo,
o seu compadre,
o compadre Chico...

E eu, besouro insosso que nunca tive voz,
sequer um estrídulo de repetição
igual ao da comadre Cigarra,
ao do compadre Grilo,
mesmo assim,
sem voz nenhuma,
faria uma música para ela,
à sombra do pé de benjamim,
do alpendre da casa dela,
e cantaria em esplendor:

Dona moça, dona moça,
bote seu melhor vestido,
o ruge, o pó-de-arroz,
um perfume bem cheiroso,
nosso Compadre vem aí...
'tá de volta... 'tá de volta...
'tá de vooooolta!
Compadre Besouro Preto,
pois tenho de lhe explicar,
ao jugo da amizade,
foi determinado pelo meu senhor,
o compadre Chico,
coronel das ordenanças,
homem valente, de muitos amores,
que este compadre dele,
eu,
o jumento Moleque,
irmão-de-leite do meu compadre,
ele bebeu do leite de minha mãe!
Uma amizade da juventude,
ao desembesto das quebradas da serra,
aos alegres caminhos dos passarinhos,
aos alegres caminhos do sabiazal,
onde eu e meu compadre,
não éramos só montaria e cavaleiro,
éramos dois parceiros em igual...

Tenho direitos dele,
em testamento: ,

Cartório de dona Arlinda, em Santa Quitéria, folhas [...]
“Saibam todos:
Ninguém jamais se lhe amonte
ou lhe bote cangalha,
peia-de-pé ou cabresto curto.
Este jumento de nome Moleque,
meu irmão-de-leite e meu amigo,
mandei buscar em minhas origens,
Serra das Matas,
viva solto, liberto à solta,
nestas soltas de praia
enquanto lhe for permitido...
— Não cai uma ave nem um cabelo —
Pois enquanto não lhe chegar a hora,
que lhe sejam em regozijo e gozo
todos os matos, todos os capins,
todas as sombras, todas as águas,
todos os pássaros
que lhe cantarão os cânticos,
que lhe pousarão à "sarnelha",
leve carícia,
e que ele,
o jumento Moleque,
em longos cochilos,
y recuerdos
daquelas campinas,
daquelas luas,
daqueles alpendres,
e Flor!”

Nem sei direito, compadre Besouro Preto,
se vale a pena voltar lá,
todos que a gente conhecia viajaram
ou se mudaram para a cidade grande;
dos meus colegas,
Meia-Noite viajou antes de vir,
cavalim Bacalhau também,
todos os outros bichos foram vendidos.......
Acho que Ela,
a amada de meu compadre,
ela também foi embora...
assim, compadre Besouro Preto,
acho melhor você não ter avistado nada,
estou aprendendo a sentir a brisa da praia,
o cheiro do mar,
o rangir da areia, nos cascos,
o barulho das palhas destes coqueiros,
o canto destes outros pássaros:
já estou-me acostumando... Tenho muito medo
medo de chegar lá,
os jumentos mais novos
arrebitarem o beiço
e se indagarem:

¿Quem é mesmo esse tal de Moleque?

Pois foi assim mesmo:
vendidas as terras,
vendidas as tralhas,
não se fizeram as contas dos gastos,
em resgate e em regozijo de uma amizade:
o caminhão foi fretado,
o frete compraria um cavalo de sela
ou uma égua ruça
dessas que se anunciam nos haras de luxo. Porém,
portador dos mesmos silêncios do seu dono,
titular dos mesmos amores do seu amo,
alpendres e benjamins,
um prosaico jumento,
de nome Moleque,
viagem de luxo - pelo valor -
viagem de tristeza - pelo barulho -
baloiçando em cima do caminhão do Dioniz,
chegou nesta Babilônia, terra de cativeiro,
numa manhã de sol,
para o todo e sempre: o convite à saudade!

Quem: o jumento?
o dono?
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O Universo Poético de Du Bois
-
PEDRO DU BOIS
Itapema/SC (1947)
-
Emblemático

-
Repito o lema em voz alta
reparto o tema em gritos
reconduzo o cego ao lado
na incerteza no caminho:

exijo a reposição da perda
nos desencontros repetidos
em palavras de recolhimento.
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O Universo Acróstico de Motta
-
SILVIA MOTTA
(Silvia de Lourdes Araujo Motta)
Belo Horizonte/MG (1951)
-
Coração de Férias

Acróstico da desilusão Nº 5087
-
C-Coração está quase a parar...
O-O ritmo sem motivação fez
R-Requerimento de férias
A-Amorosas e, sem ilusão
Ç-Cessou até de sonhar...
Ã-Agora, está vazio de emoção!
O-O tempo não quer parar!
 -
D-Deixei o relógio cair ao chão
E-E nem assim ele quebrou...
 -
F-Felicidade não há na solidão!
É-É triste chorar sozinho no canto...
R-Recordando de tanta decepção!
I-Inaceitável ausência de carinho!
A-As férias estão em meu peito,
S-Sinto-me desfalecer deste jeito!
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O Universo Poético de Ordones
-
RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG
-
Ela vai chegar

-
Inda que pisoteie e sangre o solo
Inda que a semente seja ejaculada
Inda que se perca, fique sem colo.
Inda que a terra não seja aguada.

Inda que o sol resseque o terreno
Inda que a aura com força ataque
Inda que exista o joio e o veneno
Inda que estúpido lhe dê o baque.

Inda que haja pedra no caminho
Ainda que o inverno a anteceda
Inda que vá embora o passarinho.

Inda que a folha se solte da hera
Ela vai chegar... Ao devido tempo
Matiz perfumado; vem primavera.
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O Universo Poético de Machado
-
MACHADO DE ASSIS
(Joaquim Maria Machado de Assis)
-Rio de Janeiro (1839 – 1908)
-
Ela

-
Nunca vi, - não sei se existe
Uma deidade tão bela,
Que tenha uns olhos brilhantes
Corno são os olhos dela!
F. G. BRAGA


SEUS OLHOS que brilham tanto,
Que prendem tão doce encanto,
Que prendem um casto amor
Onde corri rara beleza,
Se esmerou a natureza
Com a meiguice e com primor.

Suas faces purpurinas
De rubras cores divinas
De mago brilho e condão;
Meigas faces que harmonia
Inspirada em doce poesia
Ao meu terno coração!

Sua boca meigo e breve,
Onde um sorriso de leve
Com doçura se realiza

Ornando purpúrea cor,
Celestes lábios de amor
Que com neve se harmoniza.

Com sua boca mimosa
Solta voz harmoniosa
0 Que inspira ardente paixão,
Dos lábios de Querubim
Eu quisera ouvir um - sim -
Pr’a alívio do coração!

Vem, ó anjo de candura,
Fazer a dita, a ventura
De minh’alma, sem vigor;
Donzela, vem dar-lhe alento,
Faz-lhe gozar teu portento
"Dá-lhe um suspiro de amor!"
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O Universo de Versos de Simone
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SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS
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O 3º Olho

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Uma projeção interna do corpo humano.
Uma viagem ao centro das emoções.
Nervos que se contraem, a flor da pele.
Músculos que sem parar se movimentam.
Células que se multiplicam, criando vidas.
Órgãos, executando todas as sinfonias
em regência orquestrada.
Um coração que dentro do peito bate forte.
Olhos vivos que ao seu redor, tudo veem,
porque os sentidos, em alerta total estão.
E eis que de repente percebo, no meio de tudo
o 3º olho, o centro das emoções.
A porta de entrada do universo corporal.
Um olho cego que vê através dos sentidos,
das mais puras emoções de todo o ser humano.
Um olho cego, que tudo percebe...
O 3º olho!…
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Galáxia Poética de Nicolini
-
AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ (1941)
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Rede Passional
-
Este e-mail
é meu
ou é teu?
Este site acessado
ainda não pode
ser apagado?
Se já não basta dividir
um leito frígido,
ainda é preciso repartir
um disco rígido.
De qualquer forma,
manda a boa norma
te dar um ultimato:
cubra-me de afeto
senão eu te deleto
e depois me mato.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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