Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Átila José Borges (Eu, Cão)

Vejam só o milagre da comunicação nos dias atuais. Eu estou aqui contando a minha história e você, atento ao texto. Só não me pergunte como aconteceu isso, pois não sei explicar...

Nasci com um considerável pedigree. Meu nome de batismo é Golden King. O Golden é devido aos meus pelos dourados e King à majestade que me julgavam. Confesso que nunca liguei para isso, mesmo porque sou contra qualquer tipo de racismo e esse papel é um atestado disso. Para mim cão não tem raça. Somos todos iguais na índole canina, embora sejamos de tamanhos variados e de diversas cores. Somos bem peludos como os meus irmãos da Sibéria ou pelados como os do Peru, não importa, somos cães. Exercemos as mais variadas profissões, tais como polícia, pastor, guarda, vigilante, babá, caçador, boiadeiro e muitas outras.  Na realidade, somos iguais a vocês. Somos biologicamente resultado de um composto celular. Temos sentimento e alma. Também rimos e choramos... É bom lembrar que somos mamíferos canídeos, considerados o mais antigo animal domesticado. Não gosto dessa designação, dada pelo ser – eu também existo – humano.

Eu nasci num canil pomposo. Com pouco tempo de vida fui desmamado. Era realmente um pet gracioso. Certo dia fui levado para uma feira muito movimentada onde existia um local só para o comércio de cães. Éramos expostos tal qual como vocês faziam para vender escravos. As pessoas, principalmente as crianças, passavam, jogavam seus olhos em cima de nós e até nos pegavam no colo. Sofríamos muito com isso. Ouvíamos as pechinchas que faziam e, às vezes, até nos desmereciam visando ao nosso barateamento. Disseram até que eu tinha o focinho meio torto, o rabo sem o devido empinamento, uma orelha maior do que a outra e muitas outras baboseiras.

Um dia, ainda na feira, uma criança de uns dois anos me pegou no colo e começou a me apertar... Eu estava doido pra fazer xixi e não aguentei, fiz no colo dela. Ela, assustada, me jogou no chão e o seu irmãozinho completou o desatino dando-me um chute. Como era novinho, na queda e no chute acabei ficando com a pata dianteira esquerda quebrada, o que ocasionou sequelas para toda minha vida. Meio manco, tornou-se mais difícil a minha venda. Até que, depois de quinze dias de feira, apareceu uma família que me pareceu muito simpática. Um desejo enorme brotou em mim para ser adotado por ela. A família era composta de três crianças de 7, 8 e 9 anos respectivamente. Um machinho e duas fêmeas... Qual é? Não é assim que vocês nos classificam?

Pois bem. As meninas gostaram muito de mim. Passei de colo em colo, até dos cachorrões, desculpe, do casal. E assim fui tirado daquele inferninho. É importante dizer que, mesmo eu mancando, não pediram nenhum desconto... Senti-me valorizado.  A família era gente muito fina.

Levaram-me para o carrão deles em grande contentamento. Todos queriam me agradar. Recebi até beijos! Não acreditava que havia tido tanta sorte. E a casa deles? Valha-me Nossa Senhora dos Caninos... Por que a admiração?  Nós também temos uma santa! Voltando a falar da casa, era uma mansão com piscina e tudo mais.

Acabei sabendo que o meu dono era um famoso e rico arquiteto e, vendo o entusiasmo e amor que as crianças tinham comigo, construiu para mim, vejam só, também uma mansãozinha! Era um luxo só, riquíssima. A minha casa vivia sempre limpinha e cheirando bem e era mantida assim por dois empregados. Também me davam banhos cheirosos e eu, placidamente, era penteado com carinho. Dentro da casa eu também tinha um lugar especial na sala principal. Um colchão redondo, bem macio, de cetim, com guirlandas douradas, era o meu leito. A alimentação, sempre na hora certa, era farta, saborosa e diversificada. Naturalmente eu só comia rações bem equilibradas, mas variadas. Até sobremesa tinha...

Fui até matriculado em uma escola para aprender boas maneiras e aprimorar o meu comportamento social. Eles deviam pagar uma nota pelas mordomias que me eram proporcionadas.

Todos os dias eu era levado para passeios pelos campos e jardins da casa. Quando eu ameaçava fazer cocô, os dois funcionários disputavam para ver quem teria a honra de ajuntá-lo.

O turno da manhã era o mais delicioso para mim. Era quando os meninos iam para a escola e eu ficava sozinho me esbaldando no meu colchão de cetim. Quando retornavam, era uma balbúrdia só. Eu era então caçado. Todos queriam me agradar ao mesmo tempo e chegavam até brigar pelo privilégio(!) de tocar nos meus pelos. Juro que eu me esforçava para ficar balançando o rabo o tempo todo. Tinha que ser imparcial, pois se demonstrasse que gostava mais de um, levaria a pior. Aceitei aquela tarefa de ser simpático como uma obrigação. Elas até que eram crianças queridas. Aprendi a gostar muito deles, aliás, desde o casal até os empregados. Vivia numa atmosfera de bastante amor.

Era, no entanto, um tanto gordo, ou melhor, balofão. Se não bastasse aquele intruso para minar meu reinado, aquele gato era muito vaidoso, orgulhoso, pedante, antipático e outros atributos negativos.                                                                    

Embora tivesse recebido também uma almofada de cetim, colocada ao meu lado, ele insistia em ocupar o meu lugar e espalhar os seus pelos, o que causava alguns atritos. Aquele gatão de volume desmedido em relação ao peso promoveu uma revolução na casa. Com a sua maneirice insinuante e com as suas esfregadas e ronronadas nos moradores, estava fazendo com que a minha cotação de simpatia estivesse decrescendo. Ele era, na acepção da palavra, um tremendo bajulador. 

Passei a ter um ciúme doentio dele. Procurava fazer todas as gracinhas possíveis, mas quem acabava no colo era ele. Ninguém mais me pegava no colo, pois eu havia crescido muito. O pior era     o olhar dele, com aqueles dois faróis verdes, irônicos  pra cima de mim, em completo desdém. Eu o abjurava. Perdão, mas eu uso o dicionário do Aurélio para escrever essas linhas...

Aquele gatão era o meu carma, a minha sina. Ele nunca se dirigiu a mim. Esnobava-me a todo o instante. Pela manhã, quando estávamos a sós nós dois, eu aproveitava para lhe dar uns sustos fazendo-o correr chacoalhando aquelas pródigas banhas.

Certo dia estávamos todos na sala de lazer. Televisão ligada, os meninos no chão jogando. O Lord, assim era chamada aquela antipatia felina, ocupava acintosamente e esparradamente  a  minha almofada e eu, no chão, fingia que nem estava ligando para isso. De repente, o casal levantou-se e aproximou-se de nós. As crianças, também curiosas, chegaram perto. Minha dona então apontou o dedo para o antipático Lord e soltou as palavras maravilhosas que soaram  maviosamente aos meus atentos e apurados ouvidos:                                         

 – Eu não disse, querido? Veja como o Lord está engordando demais...                                                                                                    


 – Pudera, querida. Nós o compramos já castrado... É natural que engorde.

Juro que ao ouvir aquela palavra, a tal de castrado, na hora não atinei bem para o que significava... Algo me dizia que tinha mato naquele coelho, ou melhor, coelho ou gato naquele mato. O Júnior, que também estava atento à conversa, indagou aos pais: – Mas o que é castrado?

Eu não perdi a oportunidade. Tudo estava a meu favor. Ali do lado, em cima da mesa tinha um Aurélio e eu então, dissimuladamente, deixei-o cair ao chão. O meu dono até gostou, pois não sabia como explicar ao Júnior e então ele transferiu a tarefa para o “pai dos burros”.                                                                                                                                       

– Procure aí no dicionário, meu filho, e leia.                                                                                             

Todos ficaram em silêncio e até o Lord ergueu a cabeça para ouvir melhor. Então, solenemente, Júnior, empolado, leu.

Aquilo soou maviosamente em meus ouvidos. E o chefe concordou balançando a cabeça... As meninas disseram unissonamente um “ó, coitado!”. Imaginem a minha satisfação.

Olhei fixamente para aquele par de olhos verdes do Lord e ele entendeu perfeitamente a minha sutileza. Ri com escárnio. Sim, os bichos se entendem, mesmo sendo uma linguagem muda. Cheguei a dar até umas latidas zombeteiras.

Nunca mais o Lord foi o mesmo. Quando ele queria mostrar sua empáfia, eu olhava fixamente para seu órgão mutilado... Ele então passou a me respeitar placidamente.

Minha vida voltou a ser paradisíaca.

Passei a desdenhar o gatão. Fazia-o morrer de inveja quando, em calores modorrentos, as crianças me levavam para a piscina.   Eles adoravam nadar comigo porque eu fazia muitas gracinhas.                    

Apreciava imensamente nadar naquela banheira enorme. Meu estilo preferido, naturalmente, era o nado chamado “cachorrinho”.  Para desfrutar um pouco  daquela alegria, Lord ficava à beira da piscina e eu então aproveitava para dar meus saltos jogando água nele. Confesso que acabei ficando com pena dele e acabamos ficando amigos.

Aí meus donos começaram a arranjar um monte de atividades para os seus filhos. Eram aulas de línguas, ginástica, balé, tênis, aulas particulares de reforço, canto, piano, natação, pintura, violino e outras coisas mais. Não tinham mais tempo para serem crianças... Em compensação, os fins de semana eram sensacionais.

 Viajávamos muito e eu tinha o prazer indescritível de colocar minha cabeça fora da janela do carro para sentir aquele vento gostoso batendo na minha cara!

E o dia todo eu e o Lord ficávamos entregues às traças. As mordomias oferecidas a nós dois continuavam na mesma intensidade... Mas sentíamos imensamente a falta das crianças.

À noite, quando finalmente a família se reunia, a TV, jogos eletrônicos e a aquela parafernália ocupava a atenção deles. Não adiantavam mais os ronronados do Lord e as minhas latidas para chamar a atenção deles, ao contrário, recebíamos um “vai pra lá e cale-se”.

Vivíamos num luxo só. Os empregados tinham recomendações severas para nos darem todas as atenções necessárias para o nosso bem-estar.

Vivíamos num luxo só. Os empregados tinham recomendações severas para nos darem todas as atenções necessárias para o nosso bem-estar.

Eu e o Lord já nos entendíamos às mil maravilhas. Inventávamos muita coisa para passar o tempo.

Tudo ia maravilhosamente bem, até que um dia... Era na hora do almoço que toda a família voltava a se reunir. Foi então que eu e o Lord, comodamente deitados em nossas camas de cetim, vimos adentrarem em nossa sala as três crianças, sendo que a menor trazia, puxado por uma corda, um cabritinho...

Ainda bem que eu e o Lord não falamos como os humanos, senão teríamos que dizer educadamente: muito prazer. Se não bastasse isso, a menininha teimou com a mãe que o cabritinho tinha que ficar na sala junto de nós... Dá para acreditar em tal despropósito? Ora, como a menina era a caçulinha e com seus chorinhos chantagiosos, não foi difícil convencer os seus pais, embora prometendo que seria provisória, até arranjarem um lugar adequado...

E aquele herbívoro veio para acabar com o nosso sossego. Como era novinho, aquele seu “béééé” à procura da mãe era irritante. Arranjaram também uma almofada para ele perto de nós. Tá certo que disseram que a permanência dele por ali seria  por provisória...

Mas era duro de aguentar. Quando as crianças chegavam, havia um revezamento na mamadeira que era dada ao filhotinho. Era uma festa para eles... E nós ali, só olhando aqueles entusiasmos.

E o pior acontecia... Aquele ruminantezinho se enchia de folhas especiais que traziam para ele e nós tínhamos que suportar o resultado. Ele excrementava tudo em forma de bolinhas, parecidas com ervilhas, que, quando expelidas, rolavam pelo assoalho de mármore... Um nojo! Eu e o Lord quase vomitávamos  quando assistíamos àquilo.

Em nossa linguagem de entendimento animalesca, começamos a elaborar um plano... Concluímos que não havia lugar para aquele filho de bode com cabra, nem naquela sala nem mesmo lá fora. Decididamente não tinha lugar para um terceiro bicho! Ele devia ser expulso daquela casa. Era o nosso reino por um cabrito.

Ficamos analisando todos os meios de colocar aquele intruso para a rua. Deslumbrou-nos então um plano. Todas as tardes um dos empregados era encarregado de colocar o lixo da casa para fora. Ele abria o portão enquanto fazia essa tarefa... E colocamos o nosso plano em ação. Quando o funcionário abrisse o portão e começasse a carregar o lixo, Lord aproveitaria o momento e fugiria. Naturalmente que faria um escarcéu, miando alto para chamar a atenção do empregado. E assim foi. Quando o moço viu o gato fugindo e aqueles miados denunciadores, não titubeou e correu atrás do Lord, que, mesmo com aquela pança enorme, engrenou uma boa velocidade. O funcionário ficou apavorado, pois sabia o quanto aquele gato representava para a família. Eu então, que havia trazido o cabritinho para o portão, fui empurrando-o para fora e para bem longe da casa. E lá ficou o filho do bode e da cabra parado e não demorou nem uns minutinhos para eu ver, com muita satisfação, que uma caminhonete parara perto dele. Desceu então um rapaz que, incontinenti, olhando para os lados, colocou o cabrito na carroceria e saiu aceleradamente. Genial, perfeito o plano.

Quando voltei, o portão ainda estava aberto. Vi ao longe que o empregado trazia o Lord no colo. Entraram e o portão foi fechado. Eu propositadamente estava esperando por eles e ainda consegui receber um elogio do funcionário, agradecido por eu não ter também escapado.

Quando a família se reuniu naquela noite, houve muito choro da menininha pela perda do cabritinho. Nós, em compensação, rimos muito por dentro...

Livres do cabrito, a paz voltou a reinar no ambiente... O cabritinho, que pena,  tão bonitinho, não foi substituído por mais ninguém!

Chegaram as férias escolares... Fomos para a fazenda dos nossos donos. Foram dias maravilhosos... Eu cheguei até a conhecer uma cadelinha muito formosa que parecia corresponder aos meus acenos. Apaixonei-me. Deixei o meu amigo Lord de lado, mas apareceu para ele uma gatinha que o assediava, acho até que era uma gata de programa... Coitado do Lord. Parecia que o via de barriga para cima contando para ela como havia sido capado...

Findas as férias, voltamos felizes para casa deixando ilusões e desilusões pra lá.

Então aconteceu... Um dia colocaram-nos, eu e o Lord, em um galpão, levando para lá os nossos colchões de cetim. O que estava havendo, indagamos um ao outro? À noite, percebíamos que carros e mais carros chegavam... Concluímos que era uma festa. Já havia acontecido em outras ocasiões, mas eram festas pequenas que não exigiam a nossa movimentação. Por certo aquele era um dia muito especial para os nossos donos. Tínhamos, no entanto, que verificar os acontecimentos. Não foi preciso elaborar um plano, pois bem perto de onde estávamos um casal que havia se afastado da festa estava conversando. Falavam sobre os nossos donos e sua família. Captamos que o nosso chefe havia sido designado para um cargo muito importante em Brasília. Teriam de se mudar o mais rápido possível. A mudança seria feita já na próxima semana. Levariam tudo. Todas as providências já tinham sido tomadas, até as matrículas das crianças, na escola, tinham sido feitas. Os empregados já tinham sido dispensados. Só não falaram de nós. Juro que isso não nos preocupou, pois sabíamos do bem que nos queriam. Ficamos despreocupados, pois certamente iríamos juntos.

Uma empresa de mudanças começou a embalar tudo. Muitas coisas foram distribuídas para os empregados. Começamos a ficar preocupados quando, naquela sala que tantas alegrias nos tinham causado, só restavam os nossos dois colchões de cetim. Aí aconteceu o desastre maior. A família se aproximou de nós e começaram os choros... Abraçaram-nos e nos cobriram de lágrimas... Sim, senhor, aquilo era uma despedida! Se não bastasse tudo isso, uma menina que acompanhava a família pegou o Lord no colo e o levou junto sua cama de cetim para sempre... Que falta de consideração, de respeito até. Não pudemos nem sequer nos despedir.

Eu fiquei, então, sozinho, com o meu colchão de cetim, naquela grande sala nua. Fiquei mortificado. O que seria da minha vida? Já sentia saudades do meu amigão felino.  De repente, dois homens que nunca tinha visto em minha vida entraram  acompanhados de um empregado da casa. Um deles vinha com uma coleira com corrente na mão. Rispidamente colocou a coleira no meu pescoço,  arrastando-me, e o outro colocou o meu precioso colchão de cetim embaixo do braço...

E assim, bruscamente deixei aquela casa e nunca mais a vi.

Fiz um longo caminho para chegar à nova casa. Fui confinado no banco de trás do carro e nem me deram uma oportunidade de, pelo menos, colocar a cara para fora da janela e sentir um ar puro. Nem ao menos os vidros foram abaixados...

Era uma casa de madeira, bem modesta. Já imaginei um plano de fuga mas nem supunha o que estava para vir.

O que mais me doía no coração e não entendia era o modo como tinha sido desvinculado daquela família. Acreditava tanto que todos me amavam, não tanto quanto eu os amava, mas o suficiente para merecer a maior das considerações. Não queiram saber como é dolorosa a rejeição. Tinha sido uma decepção amorosa violenta! Não sabia, até então, que o ser humano tinha aquela sutileza e que era tão insensível quanto aos sentimentos.

Finalmente cheguei à minha nova morada. Era fora da casa de madeira, pequena, num quintal também reduzido. Nos fundos tinha um abrigo, muito rudimentar, entelado, para um cachorro, meu vizinho. Improvisaram então, ao lado, um lugar para mim. Era exíguo. Não era todo coberto e não tinha assoalho... Jogaram em um canto um pedaço de tapete com fibras bastante gastas e desbotadas. O meu colchão de cetim tinha desaparecido. Uma lata de marmelada servia como vasilha para água e outra, para comida.

A divisa com o meu vizinho também era de tela. Ele era muito mal-encarado e rosnava a todo instante para mim. Era bem maior do que eu e naturalmente não me interessei em saber a sua raça. Nas suas rosnadas ele deixava bem claro que não tinha ido com a minha cara e que me pegaria na primeira oportunidade.

Chegou a hora do almoço. Eu estava faminto. E aquele homem com cara de mau trouxe a nossa comida. Chamou-me de Sabugo e esse foi o meu segundo nome... Que contraste, de King para Sabugo. Primeiro ele serviu o meu vizinho, que num instante devorou o que lhe foi servido. Então chegou a minha vez. Ele então jogou uma gororoba na minha lata de comida. Eram restos de alimentos que, mais tarde acabei sabendo, ele apanhava num restaurante próximo da casa. Não consegui comer, nem fechando os olhos, pois nem o meu focinho eu não podia tapar. Mesmo com tanta fome, não consegui engolir. E aquele amontoado de sobras ficou ali até o dia seguinte, quando então o “dono” voltou e esbravejou por eu não ter comido nada:

– Luxinho, hein? Pois vou deixar essa comida aí até você comer... – e deixou mesmo!

Depois que ele foi embora, o meu vizinho resolveu falar comigo, mas entendi que ele queria somente me atacar:                                                                                 
                                                                                          
– Olhe aí, seu mauricinho. Aguente firme a barra, senão vai ser pior. Está querendo o quê? Uma ceia caprichada? Acomodações de luxo? De noite, olhe pro céu e veja como o seu hotel é tremendamente estrelado. E tem mais, eu gosto de uma briguinha e vou pegar você na primeira oportunidade. – Fingi que não era comigo. Ele que era agora o King e eu, o Kong...

Dois dias depois o meu novo “dono” apareceu trazendo comida e água. Primeiro fartou o pantagruélico vizinho. Depois veio ao meu abrigo (?) e, vendo a lata ainda com toda a comida, saiu resmungando e voltou com uma vara. Mandou-me comer várias vezes aquela comida pra lá de passada e nojenta. Insistiu e, como eu não obedecesse, esfregou meu focinho naquele rega-bofe maldito. Poderia ter dado umas mordidas nele, mas me contive, pois seria pior. Olhei para o meu vizinho, que me mirava de uma forma debochada. Apanhei muito. Ele não poupou a vara em meu lombo, chegando até a quebrá-la. Resisti bravamente e decisivamente não comeria aquele grude fedorento. Finalmente ele foi embora deixando a mesma comida e pior, sem água. Estava com o corpo todo dolorido, com sede e fome.

Tinha de fugir dali de qualquer forma. Vi que o vizinho estava dormindo... Achei uma brechinha embaixo da grade, notei que a terra era fofa e comecei a cavar ali, freneticamente. Foi uma tarefa extremamente dolorosa.

Consegui com muita dificuldade arrastar o meu corpo por aquele buraquinho. Parecia que minhas carnes estavam sendo rasgadas. Não esmoreci. Sentia, às vezes, que ia desmaiar, mas me revigorava com a ideia da liberdade. Finalmente, rastejando, consegui sair dali. Dei uns gemidos e isso acordou o meu vizinho... Aquele Golias de pelo começou então a latir para chamar a atenção do dono e ele, naturalmente, apareceu para ver o que estava acontecendo. Deu de cara comigo e tentou me pegar, aí então não resisti, dei-lhe uma violenta mordida na perna que ele ficou gritando de dor. Não satisfeito, dei-lhe outra na banda esquerda da sua bunda. Ele ficou se contorcendo de dor.

Saí em disparada e, por milagre de São Bernardo, o portão estava aberto. Ganhei a liberdade!

Com o corpo todo machucado, ainda mancando, com fome e sede, passei a vagar até decidir por um rumo. No caminho encontrei um riacho e saciei minha sede. Meu estado era deplorável. Todo sujo de barro, sangrando das feridas provocadas pelas varadas e pelos obstáculos na hora da fuga. Fedia. Que contraste com aqueles bons tempos de mordomia quando exalava perfume...

Aprendera uma grande lição nos acontecimentos que vivi. Nem todo homem é o nosso melhor amigo. E aquele meu vizinho colocou um monte de dúvidas sobre a amizade entre caninos.  Minha desilusão era total. Desde os filhotes dos seres humanos que tanto me afagaram naquele palacete até o homem mau que me aprisionara. Maldade, pura maldade humana... Parece incrível, mas eu me sentia outro cão, amadurecido, realístico.

E o meu amigo Lord, onde estaria? Tinha saudades dele. Torcia ardentemente que ele tivesse se dado bem no outro lar.

Andei, andei, até não aguentar mais. Meu faro e sentido canino apontavam meu rumo para a cidade onde eu vivera felizes dias. Estava tão cansado que à sombra de uma árvore adormeci profundamente. Quando acordei, vi que uma alma boa deixara ao meu lado, em cima de um papelão, uma comida generosa que, embora simples, saboreei com avidez. Fora deixada também uma vasilha de plástico com água fresca. Pensei comigo que nem tudo estava perdido nesse mundo que me abrigava.

Continuei andando. Sabia que a cidade ainda estava longe, mas aquele era meu objetivo. Dormi três noites ao relento. Voltei a calcar as minhas patas naquele solo duro e poeirento. Passei na frente do que parecia uma fazenda e as minhas narinas chamaram a atenção para uma lata de lixo. Tinha ouvido as crianças falarem em cachorro vira-lata e eu não fiz por menos. Virei a lata e lá dentro encontrei coisas preciosas para saciar a minha fome... O dono da lata então apareceu e me deu uma atropelada.

Finalmente cheguei à cidade, não sabia bem com que propósito. Uma intuição canina me levou até lá. Quando me aproximava das pessoas, devido ao meu trágico aspecto, era evitado e os pais puxavam as crianças para que não se aproximassem.

Lembrava do meu ex-dono riquinho que eu julgava me amar, quando ele dizia que, às vezes, se sentia um molambo qualquer...

Ele gostava muito de música antiga e de anotar a letra.  Devido às repetições que ele fazia de uma música, acabei decorando... Dizia mais ou menos assim: “Vivo à margem da vida sem amparo ou guarida. Oh, Deus, como eu sou infeliz!... Já tive sonhos! Os dissabores levaram minha alma, por caminhos tristonhos! Hoje sou folha morta, que a corrente transporta...” Quem cantava era um tal de Jamelão. A música era a realidade do meu presente!

Perambulava como um fantasma. Cheguei a adquirir, nos poucos dias naquele inferninho, muitas pulgas. Aliás, aquele verme do meu vizinho vivia se coçando...

Recebia pauladas e pedradas de moleques e até de gente de razoável aparência. Eu reconhecia, era realmente repugnante!

Dormia extenuado, pois procurava me manter acordado até onde pudesse. Muitas vezes fui acordado aos pontapés. Um dia não resisti e, próximo de um viaduto, caí em sono profundo... Quando acordei, notei que dois olhos suaves me fitavam com carinho e estava sendo acariciado. Pensei comigo, será que morri? Estou no céu? Cadê os cachorrinhos com asinhas de anjo ao meu redor tocando harpa? No entanto, vi que era tudo real... Aqueles olhos meigos, aqueles suaves carinhos e afagos e uma voz suave, terna, dizendo:                                                                                                  – Não se assuste, cachorrinho. Eu sou seu amigo.                            

Ora, eu já tinha ouvido isso daqueles ingratos que me abandonaram... Não sei por que acabei acreditando, afinal não tinha mais nada para perder.

Eu estava sem forças, completamente entregue. Era um pedaço de cão, sujo, fedido e pulguento. Fiz um esforço enorme para me levantar, mas acabei caindo. Aquele homem, então, com ternura, apanhou-me no colo, abraçando-me de tal modo que senti o calor do seu corpo. Acariciou-me e sussurrou ao meu ouvido:

                                                                                                         – Calma, calma, cachorrinho. Eu vou cuidar de você.

Então ele apanhou um pedaço de trapo do chão e me levou até uma pracinha próxima onde havia um repuxo. Ali ele me lavou com todo cuidado. Usou um pedacinho de sabonete perfumado que tinha trazido e o esfregou em meu corpo. O perfume deu-me um pequeno alento. Enxugou-me com suavidade. E ali mesmo ele começou a catar as minhas pulgas. Eu continuava entregue, sem forças, mas me sentido reconfortado e até alegre pelo encontro. Ele continuou a me carregar no colo com afeto. Nunca ninguém me pegara no colo, ainda mais com tanto calor humano (!)...

Ali, embaixo do viaduto, ele tinha seu cantinho. Moravam também dois amigos que o chamavam, vejam só, de Cachorrão. Soube depois pelos comentários que o apelido era porque ele realmente tinha predileção pelos meus irmãos caninos.

Aprendi a gostar rapidamente do Cachorrão. Ele me tratava muito bem, com muita atenção. Não deixava de colocar água fresca para mim. Quando tinha algo para comer, primeiro ele me servia e depois era sua vez. Tratava-me com muito amor e havia reciprocidade. Era um homem muito bom, puro. Percebia-se que tinha boa cultura, mas ninguém sabia por que ele estava por ali. Na verdade, um precisava do outro... Nós nos completávamos!

Cachorrão sobrevivia de pequenos bicos. Já tinha alguns fregueses. Os serviços eram simples, tais como varrer uma calçada, limpar um quintal, consertar uma cerca, mover objetos pesados, pintar um muro, enfim, o que fosse preciso. Eu passei a acompanhá-lo, mesmo porque ele não se desligava de mim nem eu dele. Enquanto ele trabalhava, eu ficava quietinho num canto, quase sempre aproveitando para uma boa soneca. Na maioria dos lugares aos quais eu o acompanhava era sempre bem tratado... Davam-me água fresca e até umas comidinhas boas. E quando isso não acontecia, lá vinha o Cachorrão com comida e água para mim. Quando, um dia, ele ganhou um bom dinheirinho, deu-me de presente uma belíssima coleira com uma plaquinha. Como era oferta da casa a gravação, ele mandou colocar o nome de Diamante. E assim recebi meu terceiro nome. Como sou um cachorro com certa cultura,  fiquei muito lisonjeado com o batismo significativo, a mais valiosa pedra preciosa. Senti o que ele quis dizer com o nome que me dera.

Aprendemos a nos gostar de verdade. Era puro amor fraternal, recíproco. Vivemos dias felizes. Depois das desilusões humanas que tive, o Cachorrão me fez voltar a acreditar no ser humano.

Sem combinarmos nada, um vigiava o outro durante o sono de cada um. 

Naquela tarde muito quente, quase quando o sol estava se escondendo, Cachorrão fez de tudo para arranjar um dinheirinho. Ofereceu-se para várias tarefas, mas parecia que todo mundo estava de mal com ele. Minha barriga fazia dueto com a dele de tanta fome. Havia chovido. Quando estávamos voltando para o nosso abrigo, uma possante máquina, daquelas de luxo, tendo um motoqueiro muito bem vestido, passou perto de nós onde havia uma poça de água e, propositadamente, passou por cima dela, em velocidade, fazendo com que tomássemos aquele banho. Cachorrão não protestou... Vimos então que caíra da moto uma pasta preta de couro. Meu amigo gritou bem alto para o condutor daquela exuberante moto, mas não foi ouvido. Apanhou então a pasta e a abriu para ver se encontrava o endereço do proprietário. Lá ele encontrou uma quantia enorme de dinheiro, inclusive em notas diferentes da nossa. Ele até comentou:                                                                                               – Meu amigão... É muita grana! Veja, aqui tem o endereço do dono. É perto daqui. Vamos até lá entregá-la... É, o Cachorrão além de tudo era um homem muito honesto. Eu sinceramente não gostei muito da ideia, ainda mais que ele fora grosseiro conosco. No entanto, se o Cachorrão queria, naturalmente eu estaria ao seu lado. E lá fomos nós... Não era tão perto quanto o meu amigo imaginava e não foi tão fácil encontrar o endereço.

Finalmente chegamos lá. Era uma casa muito bonita. Cachorrão apertou a campainha por três vezes até sermos atendidos e notamos que éramos observados pelo olho mágico do portão. Lá de dentro, uma voz em alto som nos disse para esperarmos. Depois de algum tempo apareceu um homem que trazia consigo uma marmita, dessas comuns de alumínio, cheia restos de comida. Disse-nos que o dono havia mandado. Cachorrão insistiu que tinha algo de valor para entregar ao dono, e só o faria para ele. Esperamos mais um pouco e então apareceu o motoqueiro, ainda com sua vestimenta. Ele entreabriu a porta, o suficiente para ficar de lado conversando com o meu amigo.

Cachorrão mostrou a pasta e ele então abriu um pouco mais o portão. Surpreso e olhando com desdém para nós, pediu rispidamente que a entregássemos. Meu amigo, embora simples, era um homem inteligente e então pediu que ele se identificasse para conferir os dados que tinha num documento da pasta... Ainda indiferente, ele respondeu laconicamente. Os dados conferiam e Cachorrão entregou a pasta. Nem sequer fomos convidados para entrar.

Ele ainda abriu a pasta em nossa frente e, conferindo o seu conteúdo, balançou a cabeça afirmativamente. E, então, tirou de dentro da pasta uma nota, do nosso dinheiro, entre centenas daquelas que ela continha e entregou ao Cachorrão. Ainda não satisfeito com tanta grosseria, perguntou se eu era dele. Naturalmente o Cachorrão respondeu que sim e o homem disse para ele deixar aquele cachorro – eu, né – com ele que o trataria muito bem. Vejam só que petulância! Cachorrão então respondeu indignado dizendo que aquele cachorro – eu outra vez, né – valia mais do que a montanha de dinheiro que ele estava devolvendo... Sem ao menos agradecer, o motoqueiro de luxo bateu o portão em nossa cara. Parece incrível, mas aquele meu amigo de alma tão bondosa pediu-me desculpas pela arrogância daquele homem...

Na primeira oportunidade Cachorrão parou em um restaurante e lá gastou toda aquela nota que não era muita coisa. O que meu amigo trouxera não era lá esse volume de comida. Disse-me que iríamos comer quando chegássemos ao viaduto e que convidaria os dois amigos que por ali viviam para o jantar...

Incrível como eu me adaptei ao ambiente em que viviam Cachorrão e seus amigos. O meu colchão de cetim havia sido trocado por uns trapos reunidos pelo meu amigo. Não tinha som ambiente nem tampouco televisão, mas havia tertúlias ao pé do fogo. Não tinha o pelo escovado e perfumado. Não tinha piscina  nem campo gramado para correr. A comida oferecia só duas alternativas: tinha ou não tinha.  Mas as noites eram deliciosas, eu ouvia deles cada “causo” mais extraordinário do que o outro. Tá certo que gostavam de tomar umas caninhas... Drogas, nem pensar! O notável é que o Cachorrão não tinha vício nenhum.

Um dia, enquanto eu dormia e era vigiado pelos amigos do Cachorrão, ele deu uma saída. Ele me acordou muito contente ao voltar. Como sempre, acordou-me com afagos e disse que tinha uma surpresa para mim. Levou-me a um cantinho do viaduto e lá me mostrou um colchãozinho de bebê que apanhara na rua. Era muito bonito, azul, com brocados, ainda meio novo. Afofou o colchão e pediu delicadamente que eu me acomodasse nele. Entendi o recado e me deliciei naquele conforto, mais satisfeito ainda pela lembrança do meu amigão. Cachorrão abriu um sorriso, só dele, próprio, peculiar, encantador e aplaudiu gostosamente a me ver ali refestelado. Não, não me peçam para fazer comparações com aquele meu colchão de cetim, pois não existem. Aquele do Cachorrão era muito, muito, mas muito mais confortável!

Certa ocasião eu acordei com latidos raivosos. O Cachorrão, para me proteger, estava brigando com dois cães violentos. Também entrei na briga e demos uma sonora surra nos intrusos. O meu amigo recebeu umas mordidas. Os seus dois amigos também correram para ajudar. Vendo que ele tinha sido mordido, aconselharam que ele procurasse o posto médico. Cachorrão pensou um pouco e imediatamente fez com eu me deitasse e me examinou todinho para ver se eu tinha sido mordido. Nada achando em meu corpo, olhou para mão e perna e disse que aquelas mordidas não eram nada. Eu não sabia o que fazer para expressar minha gratidão ao Cachorrão por ter me salvado daquelas feras. Eu o lambi tanto que acho ter sido entendido. Ele então me pegou no colo com tanta ternura como nunca havia feito antes.

Vocês pensam que nós caninos não choramos? Choramos sim, até aos prantos, mas para dentro do coração. Foi o que aconteceu. Aquele era realmente o meu amigão e eu o adorava. Ele lutara para me defender!

Passaram-se uns vinte dias após o incidente quando o meu amigo começou a sentir coisas esquisitas no corpo. Ele sentia febre e não conseguia dormir. Naturalmente eu fazia a vigília com ele. Quando conseguia ressonar, por poucos minutos, ele delirava. Acordado eu o sentia muito angustiado. Cachorrão era um homem culto e nunca soube quais as circunstâncias que o levaram para baixo daquele viaduto. Era segredo e ele nunca falara nada aos seus amigos... E então, sentindo que os sintomas não eram bons, e muito fraco, finalmente pediu para os amigos que o levassem até o Hospital Municipal. Ele foi carregado, com muita dificuldade, por seus dois amigos. E eu, logicamente, não o abandonei um só segundo. E fomos assim, passo a passo rumo a um socorro. Cachorrão olhava para mim e falava uma porção de coisas que quase não se entendia, mas sei que ele clamava que me cuidassem... Que ele me amava e que eu tinha sido muito importante na vida dele. Repetiu várias vezes que os amigos olhassem por mim se ele não pudesse ter mais esse privilégio. As lágrimas acumulavam-se em seus olhos e caíam chocando-se com o solo. Eu, que assistira àqueles meninos de outrora em minha vida fazerem orações, também orei internamente. Pedi a São Bernardo, nosso protetor, que ajudasse o meu amigo tão querido. Ele era um ser humano muito especial... Acreditem, chorei muito...

Os dois amigos foram carregando o Cachorrão apoiado em seus ombros e ele piorava. Depois de caminharem um longo trecho, as forças deles também estavam acabando. Descansaram um pouco e continuaram... Eu não podia fazer nada, absolutamente nada pelo meu amigo.

Foi quando parou uma viatura policial. Um guarda abaixou o vidro ao nosso lado e colocando a cabeça para fora  exclamou:                                                                                                   – Que porre esse do amigo de vocês! Cuidado que vocês ainda vão ser atropelados andando por essas ruas escuras!                                                                                             

Então um dos amigos do Cachorrão explicou o que se passava e que eles precisavam levá-lo, com a máxima urgência, ao Hospital Municipal.  Os guardas se entreolharam e mandaram que os três entrassem na viatura, no banco de trás. Assim foi feito e eu tentei entrar, mas fui violentamente impedido com um sonoro “passa, cachorro!” E a viatura partiu com as sirenes ligadas.

Fiquei desesperado. Teria que ir atrás do meu querido companheiro de qualquer jeito. Tentei aguçar o meu olfato o mais que pude, e nada! Teria que achar aquele hospital. Não tinha a palavra dos humanos para me comunicar, como poderia ser informado de onde ficava? Vaguei pelas ruas horas e horas, atordoado, sem rumo. Meu coração soluçava... De repente, o meu anjo da guarda me ajudou, você também não sabia que temos anjo da guarda? Desolado, ouvi uma senhora perguntando para outra onde ficava o Hospital Municipal. Empinei minhas orelhas o mais que pude. Como a senhora que pedira a informação era bem modesta, a outra, bem vestida, procurou explicar da melhor forma possível. Entendi que teria de andar umas dez quadras, virar à direita e ir em frente até encontrar o Hospital. Bem fácil, achei. Saí correndo com a máxima velocidade permitida para um cachorro manco de uma pata. A explicação fora corretíssima e com os pulmões quase estourando vi a placa. Era ali!

Ora, tudo bem. Agora, com o meu olfato mais apurado, procurei sentir meu amigão. Entrei discretamente no Hospital até que fui barrado e enxotado violentamente. Pudera, grande ousadia a minha.

Voltei desconsolado para a frente do Hospital.  Aí então eu senti um tremendo cansaço. Estava exausto. Não podia mesmo com as minhas quatro patas. Tentava manter os olhos abertos para não deixar de avistar o meu querido amigo, se porventura saísse. Não aguentei e adormeci. Foi então que fui acordado pelos amigos do Cachorrão, que também estavam por ali aguardando notícias.

Fiquei mais conformado com a companhia deles. Minha amizade por eles aumentou pela solidariedade demonstrada. É nos seres humanos simples que a humanidade encontra mais amor.

“Fique aqui”, foi a ordem que recebi. Entendi que eles iriam à procura de notícias. Fiquei atento, de olhos vidrados na porta principal. Foi um longo e tenebroso tempo de espera. Quando vi os dois amigos do Cachorrão saindo do Hospital, segurei a emoção. Eles vinham chorando... Então um deles tomou-me no colo e ficamos abraçados os três. Senti a desdita! Perdera o maior amigo que encontrara em minha vida. Soube que seu estado se agravara devido aos problemas cardíacos que ele tinha e falecera!

Meu coração estava dilacerado. Eles insistiram em me levar. Mas eu não queria sair dali. Queria esperar a saída do meu amigo, mesmo sem vida, certamente em um caixão. E então ouvi o terrível diálogo dos dois amigos:                              

– O Cachorrão já foi levado para o necrotério, depois o seu corpo será transportado para a Universidade e entregue aos alunos para estudo.

Necrotério? Pensei comigo, onde será que fica? Teria mais uma chance de me despedir do querido amigo? Novamente senti o drama pela falta de comunicação com os humanos. Não poderia ter a mesma sorte de antes quando descobri onde ficava o Hospital Municipal. Senti que perdera o meu maior amigo... O meu mundo caiu... Não poderia viver sem o Cachorrão! Enquanto eu me lamentava e sentia o coração dolorido de saudade, os amigos do viaduto chamavam por mim para acompanhá-los, afinal, haviam prometido ao Cachorrão que me cuidariam... Eu estava disposto, firme, convicto de que não arredaria nenhuma pata dali. Foi então que um deles apareceu com uma corda não sei de onde e, naturalmente à força, amarram-na ao meu pescoço. Relutei muito, empaquei e então fui arrastado. Sentido-me sufocado por aquela corda tensa, juro que até gostei... Afinal, minha vida podia terminar ali.

O que me puxava pela cordinha sentiu o meu drama e, condoído, pegou-me no colo... Não tinha a mesma ternura e envolvência do Cachorrão. E lá fomos os três de volta para o viaduto. O caminho de volta era muito longo e eles se revezavam no meu transporte no colo.

Foi muito cruel o retorno. Cachorrão estava presente em toda a área debaixo do viaduto. Os seus pobres pertences ainda estavam impregnados do cheiro dele e isso me aliviou um pouco.

Certo dia eu estava ali, perto do meio-fio, absorto, pensando nos felizes momentos que vivera junto ao meu amigo Cachorrão, quando aconteceu um fato surpreendente em minha vida. Um carro parou em minha frente. Dentro tinha um casal com duas crianças, mais ou menos da idade daqueles “mui” amigos de outrora. O motorista desceu para trocar o pneu que havia furado. Eu não dei a mínima para o fato e com os olhos semicerrados olhei para a parte de trás do carro. Instintivamente vi que dois olhos verdes, como dois faróis, fitavam-me e o seu dono se agitava bastante. Abri os olhos cheios de espanto... Não é que era o meu amigo Lord! Que alegria eu senti, não sei como descrever. Quando um menino abriu a porta para falar com o pai, que trocava o pneu, o Lord aproveitou para fugir e veio ao meu encontro. Toda a família parou para presenciar aquela cena emocionante. Nós nos lambíamos freneticamente de contentamento. O  dono do carro parou o serviço e a família toda nos cercou, admirada com o que viam. Eu não me continha e latia alto acompanhado dos miados estridentes do Lord. Fechando o cerco, os dois amigos do Cachorrão se aproximaram também...

A mãe das crianças, emocionada, perguntou ao marido se porventura não era esse o cachorro que morava com os amigos que tinham ido embora e que haviam dado o Lord para eles. Eu latia querendo dizer que sim, que aquele gato era o meu velho amigo, mas não me entendiam. Incrível foi a atitude do Lord. Ele, com muito esforço, tentava me  puxar pela coleira em direção ao carro. Foi então que todos entenderam aquela grande amizade entre um cachorro e um gato. O chefe da família indagou sobre a procedência do cachorro. Eles fizeram um rápido histórico e terminaram falando sobre a promessa que haviam feito ao Cachorrão para me cuidar. Todos da família insistiam para me levar. Então houve um acordo. Naturalmente eles sentiram que o “filho” do Cachorrão teria um destino feliz. Concordaram em me entregar sem antes receberem uma boa gorjeta que os alimentaria por alguns bons dias.

Mesmo sujo e alquebrado, entrei no carro e fiquei ao lado do meu saudoso amigo. Encontrei um novo lar e ganhei o meu quarto nome: Feliz. A casa deles era simples, mas as crianças, adoráveis.

Fizeram tudo de bom comigo. Levaram-me ao veterinário, tomei vacinas e purgantes. Fui escovado e perfumado de novo e nem reclamei ao sair da clínica, com aquela gravatinha azul horrível no pescoço!

Voltei a ter bastante conforto e a ver televisão o dia todo. Aprendi a ler a linguagem dos humanos. Ilustrei-me ainda mais com os livros que deixavam pela casa.

Certamente vocês perguntarão... O fim da história é feliz?

Não, nunca será! O Cachorrão foi o dono mais legal e o amigo mais leal que tive em toda a minha vida. Nosso amor era pra lá de especial.

Às vezes me sinto imensamente triste... As dores da saudade são pungentes. Uma vez ouvi uma história da mitologia grega em que um pássaro chamado Fênix, ao morrer, entrava em combustão e depois de algum tempo renascia das próprias cinzas. Assim são as minhas saudades que renascem das minhas lembranças e alçam voo, livres, no espaço etéreo onde os anjos se encontram, sejam humanos ou caninos. Para lá eu me transporto, pairando no espaço infinito em busca do melhor amigo que eu tive.

Os melhores momentos da minha vida foram vividos embaixo daquele viaduto, junto com o meu leal amigo CACHORRÃO!

Fonte:
BORGES, Átila José. Matando o Porco. Eu Contos.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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