Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 28 de dezembro de 2013

Batista de Lima (O Velho)

Gerôncio escapou da morte. Ficou vítima da vida. Não morreu. Chegou aos cem anos e foi festejado pela idade. Todos lhe prestaram honras. Mas depois a morte não veio e as pessoas não gostaram muito disso, nem o próprio Gerôncio. É tanto que ele se recolheu como um eremita num socavão de serra para esperar a morte na placidez da velhice. Mas a morte não veio.

Pensou em suicidar-se, mas a religião que ganhara se seus pais dizia que só Deus que dá, pode tirar a vida, ninguém mais. E ali estava ele abandonado por Deus. Como seria feliz se tivesse morrido mais aos vinte e cinco anos. Mas não, perdera a quantia dos anos e como castigo estava ali, verdadeira sucata que até o tempo corrosivo acabara por esquecer. Não tinha mais com quem conversar, todos morreram. Até seus netos se foram. Seus bisnetos estavam velhinhos e não o reconheciam mais como gente e sim como um dejeto do diabo, uma excrescência divina. Naquele pé de serra, os pássaros eram outros. Rolinhas, canários, azulões, todos desapareceram. Agora só havia pardais nas árvores, num barulho infernal, e em vez de urubus, carcarás e gaviões, os céus estavam cheios de aviões, verdadeiros demônios ensurdecedores sobre sua cabeça e perturbadores do seu sono naquele fim de mundo. Mas fim para ele, era coisa que não existia. Era um esquecido de Deus. Se ia pescar no açude, não havia mais traíras, nem piaus, nem corrós, tudo era tilápia, o diabo de um peixe feio que não era de seu tempo.

Se ia tirar mel para saciar sua fome, não havia mais jati, mandassaia, jandaíra, cupira, capuxu, cafimfim, tudo era abelha italiana, com seus ferrões dourados.

Era um mundo novo e ele ali, velho, ficando para semente. Mas o que mais doía era não ter com quem conversar. As pessoas não falavam mais. Apenas ouviam rádios, televisões, aparelhos de nomes estrangeiros. E ele só, resto imortal, pronto para morrer e a morte se escondendo dele de forma tão absurda.

Até as jararacas e os cascavéis corriam com medo dele quando deveriam picá-lo para ver a queda. Isso era sofrimento demais. Ter que aturar a vida todas as manhãs. Levantar-se e sentir-se um esquecido da natureza, um postergado do cão, uma peça de museu para Deus e seus anjos. De tanto durar, resolveu arranjar novos amigos ali mesmo entre as pedras, as árvores mais velhas e uma ponta de serra escravada. Descobriu que podia conversar com aqueles entes mudos e repartir com eles a sua angústia.

Foi conversando com esses seus companheiros que constatou serem todos marcados pelo sofrimento. Todos esquecidos e condenados em sobreviver, todos com dramas iguais aos seus. Aí Gerôncio foi muito feliz. De tanto ouvir histórias e principalmente de contar histórias foi emagrecendo até não precisar mais comer e ficar se alimentando só das histórias que contava e das que ouvia. Tanto emagreceu que ficou transparente, que ficou só sua voz impressa nas pedras e suas histórias soltas pelo mundo a fora.

(Batista de Lima, Janeiro É Um Mês Que Não Sossega)

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.
Imagem = http://chicotorresmo.blogspot.com.br/2010/06/o-velho-e-o-rio.html

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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