Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Artur Eduardo Benevides em Xeque

Entrevista realizada por João Soares Neto, em julho de 2005.

Artur Eduardo Benevides é uma das maiores expressões poéticas do Ceará, ganhador de vários prêmios nacionais. Ter sido eleito o 4o. Príncipe dos Poetas Cearenses não foi uma mera campanha encabeçada por Itamar Espíndola, mas uma eleição aberta e um ato de justiça poética.

Artur, formado em direito, foi um dos primeiros professores da Universidade Federal do Ceará, da qual tornou-se Professor Emérito.

Artur foi o homem que trouxe a Academia Cearense de Letras para o chão da realidade do Palácio da Luz e nele albergou as diversas e plurais academias que cuidam ou imaginam cuidar das artes e da literatura cearenses.

As respostas a este questionário, curtas, diretas e objetivas, refletem um momento pessoal novo na maturidade existencial que Artur está vivenciando, após deixar o comando efetivo da Academia Cearense de Letras. Agora, Artur dedica-se mais ao pensar, entremeado com o exercício de várias presidências de honras de academias cearenses.


JSN - Como eram Pacatuba e sua família?

ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Pacatuba, mais do que uma cidade, era um estado de espírito. E minha família, que desfrutava de prestígio político e situação econômica satisfatória, vivia imensamente feliz, num clima de fraternidade.

JSN - Fortaleza foi atração ou porta natural?

AEB - As duas cousas. Quando a conhecemos todos nós a amamos.

JSN - Como era a Fortaleza da sua juventude?

AEB - Serena e poética. Uma ilha de paz.

JSN - Você reescreveria o seu primeiro poema?

AEB - Não sei. A estrada da criação literária foi longa, com mais de quarenta livros publicados, sendo a maioria poesia. Além disso, a linguagem literária se aperfeiçoa com o tempo e se enriquece.

JSN - O poeta nasceu no Grupo Clã ou já estava feito?

AEB - Fui um dos fundadores do Grupo, o maior que o Ceará já teve, e já havia publicado muitos versos.

JSN - Afinal, CLÂ é mais memória ou foi realidade mesmo?
AEB - Realidade das melhores e memória das maiores.

JSN - Que caminhos lhe surgiram, além da poesia?

AEB - O ensaio e o conto. Jamais tentei o romance e o teatro.

JSN - A UFC foi pedra ou luz no seu caminho?

AEB - Foi uma grande luz no meu caminho. Mas, ajudei a acendê-la.

JSN - Quem era Martins Filho?

AEB - Um dos dez maiores cearenses de todos os tempos. Um exemplo de trabalho e de idealismo.

JSN - Quem ajudou Martins Filho a ser o que foi?

AEB - A sua fé, a sua esperança e o seu profundo desejo de ajudar o nosso estado. Ao lado disso, a colaboração de alguns companheiros que ele chamou para a grande tarefa de criar um novo Ceará.

JSN - O Professor Artur era severo ou bonachão?

AEB - Nem uma cousa, nem outra. Era, como ainda sou, um homem que sonha e se mantém fiel ao seu destino.

JSN - Mário Quintana disse que um poeta deve escrever como se fosse o último vivente sobre a Terra. Você concorda?


AEB - Inteiramente. Sem isso, não atingirá suas metas, nem realizará sua missão.

JSN - Um poeta define amor sem fazer verso?

AEB - O amor independe disso. É uma iluminação. E quem ama atinge a sua plenitude.

JSN - Quais foram as suas ilusões ao se tornar poeta?


AEB - Não houve ilusões. A poesia era o meu caminho.

JSN - Namorar tem hora, tempo e lugar?


AEB - Namorar é um processo inesperado que nos ajuda no enriquecimento de nossa alma.

JSN - Quais de suas obras você gosta mais?


AEB - Para quem escreveu mais de 40 livros, em poesia, ensaio e conto, difícil dizer.

JSN - Como entrou na Academia Cearense de Letras?

AEB - Indicado, sem que nada soubesse, pela inesquecível Henriqueta Galeno.

JSN - O que é a Academia?

AEB - No gênero, a instituição mais antiga do Brasil, anterior à Academia Brasileira de Letras. Somos , irrecusavelmente, capítulo especial de nossa História, com uma caminhada que se inicia a 15 de agosto de 1894, em sessão realizada no Salão de Honra da Fênix Caixeiral, de que participaram, entre outros, o Barão de Studart, Justiniano de Serpa e Farias Brito, o grande filósofo que o Ceará deu o Brasil. (Revista ACL, 93/94, 149). A ACL,no conteúdo e na ação, é uma força a serviço da cultura cearense.

JSN - Como é ser presidente entre os iguais?


AEB - Dirigi a Academia durante doze anos, sendo hoje Presidente de Honra, e nunca tive problemas. Procurei manter-me como um acadêmico igual aos companheiros. E recebi a ajuda de muitos.

JSN - Do Edifício Progresso para o Palácio da Luz (antiga e atual sede da Academia) foi só atravessar a rua?

AEB - Foi muito mais. O Palácio da Luz, para onde chamei todas as instituições culturais do Ceará, que não tinham sede, nos foi dado por Lei pelo então Governador Tasso Jereissati. E hoje é a grande Casa da Cultura Cearense, cousa de que me orgulho.

JSN - O que você considera o marco de sua vida?
AEB - A Poesia. E o que, realmente, haverá de mais importante para qualquer escritor do que a procura da beleza, a que serviram Apolo e Dionísios e todas as Musas, e todas as Ninfas, e todos os Anjos, e todos os bardos e menestréis do mundo, e todos quantos morreram de amor?(revista ACL, 93/94, pág.151)

JSN - Você, que é o Príncipe dos Poetas Cearenses, foi eleito ou escolhido?

AEB - Fui eleito por dezessete instituições culturais do Ceará, sob a coordenação do inesquecível Itamar Espíndola. O primeiro Príncipe foi o Padre Antônio Tomaz; o segundo, Cruz Filho; o terceiro, Jader de Carvalho; o quarto, eu.

JSN - Você se considera da Geração de 45?

AEB - Eu e todo o Grupo Clã. A Geração de 45, como as demais, não se mede por idade, mas pelas idéias e caminhos.

JSN - Se tivesse que escolher três nomes, entre Camões, Baudelaire, Pessoa, Castro Alves, Drummond, Francisco Carvalho e Shakespeare, com quem ficaria?
AEB - Ficaria com Camões (o lírico), Fernando Pessoa e Shakespeare.

JSN - Goethe dizia que "nós somos seres coletivos". Um poeta é um ser coletivo?

AEB - Como representante do pensamento de uma época e sintetizador de seus sentimentos, sim.

JSN - O que o fez disputar vaga na Academia Brasileira de Letras?

AEB - Um momento de burrice. A ABL é um órgão fechado e quase todo os seus membros são cariocas. Quem mora longe, dificilmente chega lá. O Arnaldo Niskier, criticando isso, disse-me certa vez que ela deveria chamar-se Academia Carioca de Letras. Veja o exemplo de nossa Rachel de Queiroz: só foi eleita depois de ir morar no Rio...

JSN - Qual é o futuro da Poesia?

AEB - A poesia é eterna. Desde Homero ou Salomão, ou antes. Dos poemas de Homero, aliás, nasceu o romance. E os versos de Salomão fazem parte da Bíblia. Com o material transcendente da criação, trabalham, em todas as épocas os grandes poetas e escritores.

JSN - Falando sobre aspectos polêmicos da Obra de Shakeapeare você põe em dúvida a legitimidade da autoria e o problema da originalidade. Por quê?

AEB - Se examinarmos o problema da originalidade e legitimidade da autoria, em relação a grandes obras da literatura universal, veremos que algumas delas seriam adaptações de outras, ou a erudização de temas populares aproveitados, com maior largueza e beleza de linguagem, em criações que se tornariam inesquecíveis. Para citar apenas três dos mais importantes autores do mundo, estariam nesse rol a Odisséia, de Homero, o Hamlet de Shakeapeare, e o Fausto, de Goethe, todos três recriados de histórias mais antigas, que pertenciam ao patrimônio da cultura popular.

JSN - Quer dizer, então, que, por exemplo, Romeu e Julieta é um plágio?

AEB - Romeu e Julieta é inspirado em lenda muito antiga, da qual se conhecem as recriações de Xenofonte, de Masuccio de Salerno, e Luigi da Porto, Mateo Bandello e Arthur Brocke. Acrescente-se o fato de que as duas famílias rivais, de Verona, estão mencionadas por Dante no Canto VI do Purgatório, na Divina Comédia. Coube a Shakespeare, portanto, uma das versões, a mais bela de todas, não sendo, contudo, uma criação rigorosamente sua, da mesma forma que a história do Barba-Azul não é de Perrault, mas aproveitada do lendário popular.

JSN - Como é estar maduro?


AEB - É saber ver as cousas na verdade de sua essência, exercitando-se no espírito de compreensão e de justiça. E aproveitando, uns poucos versos de The Tempest ... our litle life is rounded wiht a sleep. E nesse sono que rodeia a nossa vida estão todas as mágoas e esperanças, ou todas as vigílias e solidões do ser humano.

JSN - Se não fosse poeta?

AEB - Essa hipótese, em minha vida, não tem sentido. Poesia, para mim, mais que Literatura, é vida.

JSN - O amor envelhece?


AEB - Se envelhecer, não é amor.

JSN - Há segunda época no amor?

AEB - Sim, principalmente se for para vive-lo com mais grandeza e dignidade.

JSN - Que amigos você conversa desde a juventude?

AEB - Poucos, mas não mencionarei os nomes, pelo temor de esquecer algum...

JSN - Com quem fala o impublicável?


AEB - Com ninguém.

JSN - Como escreveria uma mini-biografia sua ou um perfil?

AEB - Não gostaria de faze-lo. Que outros o façam.

JSN - Qual a diferença entre a Fortaleza de ontem e a de hoje?
AEB - A primeira era mais bela e mais humana. A segunda perdeu muito de sua substância poética.

JSN - Qual a importância da Academia Cearense de Letras na cultura cearense do século XX?

AEB - A Academia foi o mais importante órgão cultural do nosso Estado, ao lado do Instituto do Ceará. E continua com a mesma importância.

JSN - Você acha que a frase - "Os eventos futuros projetam sua sombra muito antes", atribuída a Cícero, tem real sentido?

AEB - Sim. A trilogia do tempo é, às vezes, um mistério e os elementos se interligam. O que somos, fomos. Por ação direta ou indireta.

JSN - O que é a fé e como ela se manifesta?


AEB - A fé é a esperança em súplica, revestida de amor. É força que projeta o espírito em suas múltiplas manifestações, sendo fundamental no ato de viver.

Fonte:
http://www.joaosoaresneto.com.br/entrevistas_artur_eduardo.asp

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to