Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 54)


Uma Trova do Paraná
LOURDES STROZZI
 

O pranto na mocidade,
qualquer brisa põe em fuga;
E o que restar de umidade,
o toque de um beijo enxuga.

Uma Trova Humorística do Pernambuco
MARIO BARRETO FRANÇA

Case e estará sossegado
(ao solteiro alguém falou).
Assim fez ele (coitado)
e nunca mais sossegou!…

Uma Trova Premiada em Cantagalo/RJ, 2012
ÉLBEA PRISCILA DE SOUZA (SP)

A maquiagem pesada,
diante do espelho, desfaço
e em minha cara lavada
rugas brigam por espaço…

Uma Trova do Ceará
SINÉSIO CABRAL
 

Quatro versos: eis a prova,
sim, num texto independente,
da grandeza de uma trova.
Sete sílabas somente.

Um Poema do Rio de Janeiro
CECÍLIA MEIRELES
O Menino Azul

 

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)

Trovadores que Deixaram Saudades
ERNESTO TAVARES DE SOUZA (SP)

Janela, a bem da verdade,
teu ranger, esse chiado,
são gemidos de saudade
na voz rouca do passado.

Um Haikai do Rio de Janeiro
BENEDITA AZEVEDO

Nas águas do lago
Uma sombra em movimento –
Voo da libélula.


Um Epigrama de São Paulo/SP 

MARTIM FRANCISCO III
(Martim Francisco de Ribeiro Andrada)
1853 – 1927


Ó caso feio! O caso extraordinário!
Caso que me entrou fundo na lembrança!
Tem o vigário a cara da criança,
Tem a criança a cara do vigário!

(Improvisado, por ocasião de um Batizado em Limeira, em 1876)
 


Um Soneto de Portugal
GLÓRIA MARREIROS
O Meu Relicário


No meu relicário há rosas sem fim,
já murchas, caídas, no tempo que passa,
perderam seu âmbar, vestígios de graça,
lembrando os pedaços que noivam meu fim.

E nesses sudários, meu rosto carmim,
carmim?... Mas na hora em que o riso esvoaça
em castos poemas, escritos com raça,
na chuva a bailar em redor do meu sim.

Mas eu já não sei dos fracassos da vida...
Torturas de outrora, deixando vencida
a caixa das contas que tem meu rosário.

Perdi a esperança no espaço da lei,
onde há rosas secas e beijos que dei
sem troca, a murcharem no meu relicário.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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