Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 16 de maio de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 133)


Uma Trova de Maringá/PR
HULDA RAMOS GABRIEL


Tão suave é o teu carinho:
Há nele a calma de um lago...
- Tem a ternura de um ninho
E a paz de um materno afago!

Uma Trova Humorística, de São Paulo
JAIME PINA DA SILVEIRA

 

– Quando saiu … a maninha
foi com “mãinha” ou foi só?
– Sei não! Mas voltou “mãinha”,
quando chegou do forró!

Uma Trova Premiada  em Ribeirão Preto/SP, 1998
DOROTHY JANSSON MORETTI (Sorocaba/SP)


Meus pobres sonhos, tão fracos,
a vida em escombro os fez,
mas, teimosa, eu junto os cacos…
e eis-me a sonhar outra vez!

Uma Trova de Pedro Leopoldo/MG
WAGNER MARQUES LOPES


Pessoa determinada,
de fé honrosa e esplendente,
sempre faz de um quase nada
um brilhante continente!
 
Um Poema de Santa Cruz do Sul/RS
LYA LUFT

Canção do Amor Sereno


Vem sem receio: eu te recebo
Como um dom dos deuses do deserto
Que decretaram minha trégua, e permitiram
Que o mel de teus olhos me invadisse.

Quero que o meu amor te faça livre,
Que meus dedos não te prendam
Mas contornem teu raro perfil
Como lábios tocam um anel sagrado.

Quero que o meu amor te seja enfeite
E conforto, porto de partida para a fundação
Do teu reino, em que a sombra
Seja abrigo e ilha.

Quero que o meu amor te seja leve
Como se dançasse numa praia uma menina.

Trovadores que deixaram Saudades
LUIS VAZ DE CAMÕES
Coimbra/Portugal (1524 - 1580)

 

Neste mundo a montear,
achei-me tão enleado,
   que, donde cuidei caçar,
eu mesmo fiquei caçado.

Um Poema de Charleville/França
ARTHUR RIMBAUD
1854 – 1891

A Eternidade

 

De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Como o sol que cai.

Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.

De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.

De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.

(Tradução: Augusto de Campos)

Uma Aldravia de Belo Horizonte/MG
CLEVANE PESSOA


Aquém
da
porta
segredos
abraçam
medos.

Um Haicai de São Paulo/SP
CARLOS SEABRA


gota no vidro
um rosto na janela
olhar perdido

Um Poetrix do Rio de Janeiro
ELIANA MORA


sentimento clandestino

Tu, em viagens ao mundo,
Eu, ali, sempre escondida,
nos porões do teu navio.

Um Poema de Figueira da Foz/Portugal
GRAÇA PIRES

Quero uma Casa


Quero uma casa com paredes azuis,
com varandas vidradas sobre a noite.
Um abrigado lugar no eixo do silêncio.
Um espaço intemporal. Sagrado.
Ancorado perto de um signo lunar,
ou preso a um verão inesperado.
Quero dançar dentro das palavras líquidas:
água, rio, mar, Lágrimas,
talvez o orvalho que escorre pelas árvores de madrugada.
Quero atravessar uma crônica de viagem,
conspirando contra os profetas de marés sobressaltadas,
para não morrer sufocada na engrenagem do medo.
Quero ficar seduzida de uma espera,
no imaginário dos que sonham,
e gritar a idade circular de qualquer afeto.
Quero amar o pretexto branco dos meus olhos
sem precipitar a cor translúcida das raízes
que prendem a noite à palidez do sol na sedução do amanhecer,
e deixar, depois, que um azul extenuado me denuncie.

Um Soneto de Porto Alegre/RS
IALMAR PIO SCHNEIDER

Soneto a Arthur Azevedo (In Memoriam)

 

Foi dramaturgo, poeta e contista,
com “Arrufos”, um soneto forte,
após desentender-se com a consorte,
fez uns ares de quem do amor desista...

Toma o chapéu e sai, sem que suporte,
fingir que não mais ama e se contrista,
mas algo o faz voltar e então persista
a manter a paixão até a morte...

Assim são os amores verdadeiros,
ao menos na aparência dos amantes,
que às vezes têm questiúnculas por nada...

E quando voltam ficam companheiros
para viverem todos os instantes,
seguindo adiante pela mesma estrada…
===================
 
José Feldman (A Trova: À Guisa de Jogar Conversa Fora)

Quando comecei na trova, participei das reuniões da UBT São Paulo, na época eram realizadas na Casa de Portugal (na Liberdade), não recordo bem, mas acho que era o Consulado de Portugal. Era um sábado a tarde a cada mês. Havia uma mesa grande, onde sentavam-se o Izo, Thalma, Zaé Junior e mais alguns que não recordo os nomes (afinal, lá se vão uns 20 anos). Entrávamos nesta sala, e logo tinha uma urna para colocarmos a trova do concurso relâmpago. Era um salão grande, e enchia de trovadores não só da cidade paulistana como do interior. Izo sempre presidindo. Além das conversas de praxe, os ditos assuntos de diretoria, existia o tudo em trovas, onde quem quisesse lia ou declamava (ou será trovava?) uma trova, existia o Nada em Trovas, que geralmente o Izo palestrava sobre algum assunto nada a ver com poesias. Uma vez recordo que ele falou sobre perfumes. Algumas trovadoras levavam doces ou salgadinhos, e os trovadores os refrigerantes ou sucos para o lanche, que brincando chamavamos “a hora do recreio”. Depois eram indicados os vencedores do Concurso Relâmpago, que recebiam de prêmios ou um livro de alguém, ou um enfeite. Nunca venci nada, na única vez que conforme as palavras do Izo na mesa poderia ser uma trova vencedora, eu havia colocado meu nome nela, e deveria ser anônima. Enfim, esta introdução é só para dizer que, nestas reuniões sempre vencia uma senhora que criei birra, uma tal de Therezinha Brisolla, e eu ficava sempre pensando, porque “cargas d’água” vem esta trovadora do Rio de Janeiro (imaginava ser parente do Leonel Brizolla) e arrebatava tudo? Muitas águas rolaram, e muitos que eram queridos se foram: Izo, Hermoclydes, Ademar, Francisco, etc., mas o que é o mais bacana de tudo isto nas trovas, é que mesmo que o coração fique sempre carregado de lágrimas, sempre há um espaço para outro que ainda está vivo, que te ajuda a superar a tristeza ou mesmo o desânimo, ou não, mas tem sempre a mão estendida para si, sempre um ombro amigo. Isto é ser trovador. Um dom divino.
Creio que quando nasci, Deus me perguntou: “Que você escolhe? Ser torto, rico mas pobre de amigos ou ser reto, pobre e ter tantos amigos que nem conseguirá se lembrar?” Devo ter escolhido ser reto. E não me arrependo. Torto, nem com bebida, pois sou abstêmio.
Tem mães que são professoras, tem professoras que são mães. Tenho ambas, mas nas trovas uma professora que briga comigo todo dia para enviar as trovas para concursos, escrever, escrever e escrever. Quem diria? Justo quem eu tinha birra. Therezinha, professora, amiga e uma segunda mãe.
Finalizando, plagiando um pouco Therezinha, passo uma mensagem a todos trovadores: FAÇA TROVAS! ESCREVA! MANDE PARA CONCURSOS! MANDE PARA PUBLICAÇÃO! Façamos com que a pira que mantém acesa a chama da trova nunca se apague. Não fique só em concursos, quanto mais se trova, mais se aprende, mais se ensina.
Ufa! Esta “Guisa” foi comprida… (JF)

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to