Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 26 de maio de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 143)


Uma Trova de Taubaté/SP
ANGÉLICA VILLELA SANTOS


Com tudo desmoronando
na batalha pela vida,
fica a Esperança, amparando
nossa força  esmorecida.

Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP
DARLY O. BARROS

 

Se deu bem mal minha amiga,
e agora não tem mais jeito:
Escorregou pra barriga
o silicone do peito.

Uma Trova Premiada  em Maranguape/RJ, 2008
ADAMO PASQUARELLI (São José dos Campos/SP)


Num mundo congestionado,
em qualquer parte da terra,
o lema está consagrado:
"Se queres paz, vai à guerra".

Uma Trova de Curitiba/PR
LYGIA LOPES DOS SANTOS


Quando é dó, ré, mi, fá, sol...
Chico Buarque e Tom Jobim
na seresta do Paiol
batucaram tamborim...

Um Poema do Acre
J.G. DE ARAÚJO JORGE
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

Poema às Palavras


 Tem uns homens por aí
com medo das palavras.

Tem uns poetas por aí
segregacionistas.

Tem preconceitos contra
as palavras:
esta não serve - é mestiça,
esta também não - é muito comum,
é do povo, não é importante,
e aquela também - não tem educação
fala muito alto, é palavrão.

Tem poeta por aí cochichando
como gente muito fina
de salão,
falando entredentes
perpetrando futilidades
e maldades, como comadres.

Tem uns homens por ai
tratando as palavras pela cor
de sua pele:
não cruzam com as palavras, negras
amarelas, mulatas,
só fazem poemas brancos, poemas
puros, poemas arianos, poemas de raça.

Que se danem! Faço filhos
com todas as palavras
basta que elas se entreguem, e me amem
e saiam com o meu verso, à rua
para cantar.

Trovadores que deixaram Saudades
LEÔNCIO CORREIA
Paranaguá/PR (1865 – 1950)


No mar aberto em feridas
em cuja dor te renovas,
sana-se o mal de outras vidas
em meio de grandes provas.

Um Poema de Angola
VIRIATO DA CRUZ

Namoro


     Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
     e com letra bonita eu disse ela tinha
     um sorrir luminoso tão quente e gaiato
     como o sol de Novembro brincando
     de artista nas acácias floridas
     espalhando diamantes na fímbria do mar
     e dando calor ao sumo das mangas

     Sua pele macia - era sumaúma...
     Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
     sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
     tão rijo e tão doce - como o maboque...
     Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
     seus dentes... - marfim...
             Mandei-lhe essa carta
             e ela disse que não.

     Mandei-lhe um cartão
     que o amigo Maninho tipografou:
     "Por ti sofre o meu coração"
     Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
             E ela o canto do NÃO dobrou

     Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
     pedindo, rogando de joelhos no chão
     pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
     me desse a ventura do seu namoro...
             E ela disse que não.

     Levei á Avo Chica, quimbanda de fama
     a areia da marca que o seu pé deixou
     para que fizesse um feitiço forte e seguro
     que nela nascesse um amor como o meu...
             E o feitiço falhou.

     Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,
     ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
     paguei-lhe doces na calçada da Missão,
     ficamos num banco do largo da Estátua,
     afaguei-lhe as mãos...
     falei-lhe de amor... e ela disse que não.

     Andei barbudo, sujo e descalço,
     como um mona-ngamba.
     Procuraram por mim
     "-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
     E perdido me deram no morro da Samba.

     Para me distrair
     levaram-me ao baile do Sô Januario
     mas ela lá estava num canto a rir
     contando o meu caso
     as moças mais lindas do Bairro Operário.

     Tocaram uma rumba - dancei com ela
     e num passo maluco voamos na sala
     qual uma estrela riscando o céu!
     E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
     Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
     pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

Uma Aldravia de Madri/Espanha
CESCOHOTADOYBOR
(Carmen Escohotado Ibor)

 

verão
o
calor
roda
seu
chão

Um Haicai de Balneário Camboriú/SC
ELIANA RUIZ JIMENEZ


Mais um dia nasce.
E esse amor que me vigia
é a luz da manhã.

Recordando Velhas Canções
NOEL ROSA e VADICO

Conversa de botequim

(samba, 1935)

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo      e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Se você ficar limpando a mesa
     Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão                 
Uma caneta, um tinteiro,
Um envelope e um cartão,
Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas,
Um isqueiro e um cinzeiro

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa...
Telefone ao menos uma vez
Para três quatro quatro três três três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório

Seu garçom me empresta algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o  bicheiro,
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali em frente

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Um Poetrix do Rio Grande do Sul
MARDILÊ FRIEDRICH FABRE

pas de deux


No jardim,
Borboletas dançam.
Coreografia da paixão.

Um Poema de Portugal
AL BERTO
(Alberto Raposo Pidwell Tavares)
Coimbra (1948 – 1997) Lisboa

Acordar tarde


tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a moto que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

Um Soneto do Maranhão
RAYMUNDO CORREA
(Raymundo da Motta de Azevedo Corrêa)
Mogúncia/MA (1859 – 1911) Paris/França

As Pombas


Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
Das pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam
Os sonhos, um a um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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