Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 8 de junho de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 156)


Uma Trova de Fortaleza/CE
NEMÉSIO PRATA CRISÓSTOMO

 

Vindo de tão longe, não
se deu conta que chegara
ao seu velho e antigo chão,
que há muito tempo deixara!
-
Indaguei Nemésio sobre esta trova que poderia ser usada no Concurso Potiguar deste mês, ao que ele me respondeu em versos:

Ainda tem muito "chão"
pro concurso potiguar,
sendo assim, prezado irmão,
para o bem deste universo
de chuva em forma de verso,
esta, podes publicar!

Outra, vou pedir a Deus
que não vai deixar na mão
um dos escolhidos seus,
que Ele fez ser trovador,
e vai mandar-me um primor
de trova, com tema "chão"!

Uma Trova Humorística, de Maringá/PR
A. A. DE ASSIS


Aceitas dar-me os deleites
da próxima contradança?...
– Aceito, desde que aceites
não me apertar contra a pança!

Uma Trova Premiada  em São Francisco de Itabapoana/RJ, 2007
ALBA HELENA CORREA (Niterói/RJ)

 

Onde Deus pôs mais beleza?
Na face? Creio que não!
Trago comigo a certeza:
Foi dentro do coração!

Uma Trova de Portugal
EMILIA PEÑALBA DE ALMEIDA ESTEVES


Nos seus ardentes amores,
consegue sempre o que quer:
rosa - a rainha das flores...
Rosa - a rainha mulher!

Um Poema de Minas Gerais
MARIA SABINA DE ALBUQUERQUE
Barbacena/MG (1898 – 1991) Rio de Janeiro/RJ

Cartas de amor


Quando recebo as minhas cartas cada dia,
tenho um lindo momento de alegria!
São notícias diversas
das criaturas amigas que, dispersas
por este mundo, aos quatro ventos,
recordam-se de mim com amizade
e, para suavizar a distância e a saudade,
vêm conversar comigo alguns momentos.
E alguém me disse um dia:
“Se tens tamanho encanto
em receber cartas amigas simplesmente,
tu que te alegras tanto,
certamente
enlouquecias de alegria,
estremecias de fervor
se estas cartas comuns fossem Cartas de Amor!

E então me recordei que no lindo romance
que foi o meu amor,
tive tudo o que estava ao meu alcance,
todo o esplendor,
a beleza, a ternura, o encanto, a ânsia,
mas não tive a Distância
nem as Cartas de Amor.

E hoje que a Eterna Ausência nos separa
e que a Distância que ninguém transpôs,
como uma Via Láctea imensa e clara
se estende entre nós dois,
como seria bom se as estrelas cadentes,
riscando a noite com seu fulgor,
pequeninos correios refulgentes,
trouxessem lá do céu minhas Cartas de Amor!

Trovadores que Deixaram Saudades
HILDEMAR ARAÚJO COSTA
Salvador/BA


Nem toda a árvore caída
se iguala depois do corte:
– faz uma o berço da vida,
faz outra, o caixão da morte.

Um Poema da Alemanha
HEINRICH HEINE
1797 – 1856

De Manhã Cedo


Minha esposa querida e boa.
Minha bem amada esposa,
Que logo pela manhã
Negro café, branco leite,

É ela mesma quem serve!
E com que encanto, que sorriso!
Em todo o mundo de Cristo
Não há quem sorria assim.

E a flauta que é sua voz
Só entre os anjos se encontra.
Cá por baixo, quando muito,
Entre os melhores rouxinóis.

E as mãos que são como lírios
E os cabelos que entressonham
Em volta do róseo rosto!
Ah, tudo nela é perfeito!

Hoje, porém, ocorreu-me
- Não sei porquê - que um pouquinho
Mais elegante o seu corpo
Pudera ser. Um pouquinho.

Sextilhas de Rio Claro/SP
FAGUNDES VARELA
1841 – 1875

 

Amo o cantor solitário
Que chora no campanário
Do mosteiro abandonado,
E a trepadeira espinhosa
Que se abraça caprichosa
À forca do condenado

Amo os noturnos lampírios
Que giram, errantes círios,
Sobre o chão dos cemitérios,
E ao clarão das tredas luzes
Fazem destacar as cruzes
De seu fundo de mistérios

Amo as tímidas aranhas
Que lacerando as entranhas
Fabricam dourados fios
E com seus leves tecidos
Dos tugúrios esquecidos
Cobrem os muros sombrios

Amo a lagarta que dorme,
Nojenta, lânguida, informe,
Por entre as ervas rasteiras
E as rãs que os pauis habitam
E os moluscos que palpitam
Sob as vagas altaneiras

Amo-os, porque todo o mundo
Lhes vota um ódio profundo,
Despreza-os sem compaixão
Porque todos desconhecem
As dores que eles padecem
No meio da criação.

Um Haicai de Santos/SP
EVANDRO COSTA


Verde plantação –
Pipocam nos galhos
Os grãos de café.

Recordando Velhas Canções
ADELMAR TAVARES (versos),
 EUSTÓRGIO WANDERLEY (melodia)

Lágrimas e risos

(valsa, 1913)

A vida é toda feita assim
De riso e dor um mar sem fim
Alegre um dia o riso vem
E o pranto seguirá também

A criancinha assim que nasce
Conhece a dor, põe-se a chorar
No entanto o riso em sua face
Só muito após vem a aflorar

Sorrir, chorar e assim vai-se a vida a passar
Cantar, gemer, a mágoa vem junto ao prazer
É louco também quem nos diz, que se considera feliz
Que a sorte aos seus braços lhe atira, mentira, mentira
Pois breve ao invés de cantar
Chorar, chorar

Eu que cantando estou hoje aqui
Enquanto o público sorri
Quem sabe se em vez de cantar
Tenho vontade de chorar

Num circo, vê-se sobre a arena
Ri o palhaço a se perder
E em casa a filha assim pequena
Talvez deixasse-lhe a morrer

Sorrir, chorar e assim vai-se a vida a passar
Cantar, gemer, a mágoa vem junto ao prazer
Palhaço que ri sem cessar
Não deve não pode chorar
Pois quem é pago pra rir pra chalaça
Desgraça, desgraça
Se em pranto tens alma de par
Sorrir, cantar

Um Poetrix de São José dos Pinhais/PR
DALTON LUIZ GANDIN

Arte


Meu papel foi natura.
Agora,
eu imprimo cultura.
 
Um Poema de Portugal
ADOLFO CASAIS MONTEIRO
(Adolfo Vítor Casais Monteiro)

Porto/Portugal (1908 – 1972) São Paulo/SP

Aurora


A poesia não é voz - é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:
vôo sem pássaro dentro.

Um Soneto de Niterói/RJ
VILMAR DE ABREU LASSANCE
(1915 – 2009)

Descansa, coração


Ausentei-me do amor - vou descansar.
Tudo cansa, afina, até o amor...
Dei demais, de mim mesmo, sem pensar,
e, agora, vou parar, para recompor

meu pobre coração que, sem cessar,
levou anos e anos num furor
de paixões, num querer sem fim, sem par,
num paroxismo que atingia à dor.

Hoje, vou descansar - fechei a porta
à última ilusão, ja quase morta,
que pretendia penetrar-me o peito:

disse "não", ao amor que retornou.
Ao amor que se foi e, hoje, voltou,
eu disse, num soluço: - "Não te aceito!"
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Trovador-Destaque


A beleza da poesia
- Eu vou contar p'rá você -
não vem da mente que a cria,
e sim, d'alma de quem lê!

Acalanto, graça plena,
de um amor que não esqueço -
tempestade na serena
bonança que não mereço

A falsa humildade é feia,
raramente é uma façanha;
geralmente é um grão de areia
se dizendo uma montanha.

Agradece todo dia
por teu riso e por teu pranto,
porque Deus não te daria
senão um doce acalanto...

A mais formosa das flores
não emite um só queixume
e mesmo por entre dores
não se extingue o seu perfume

Ao conforto acorrentado,
quem se prende corta acesso,
ao caminho acidentado
que levaria ao sucesso!

Arrefece esse teu passo.
Sê feliz na sozinhez,
e caminha no compasso
de um passo de cada vez…

As verdadeiras lições
que a mim meu pai ensinava,
não vinham dos seus sermões,
mas de quando ele calava.

Bem que tentei. Tentei tanto
te esquecer, sem conseguir.
E em mim, por este meu pranto
continuas a existir

Bendito aquele que aprende
ao receber uma ofensa,
sem repreender quem ofende
nem julgar o que ele pensa!

Chovia na despedida,
e, na chuva  que caía,
eu vi minha própria vida
que com ela se esvaía…

Cristo morreu numa cruz
e de Maria, o seu pranto,
até hoje em nós reluz
como um divino acalanto.

Dando-me adeus, o acalanto
retirou-me a claridade
deste amor, que por meu pranto,
já começou com saudade.

De tudo, apenas a dor
e um acalanto restou
do que foi um grande amor
que existiu e que acabou.

Doce acalanto, a Verdade,
escorreu daquela cruz,
redimiu a humanidade
e levou-a para a Luz!

Filhos felizes, sorrindo,
em alegre correria
são o acalanto bem-vindo
do amor, colorindo o dia...

Heresia é não amar,
é deixar, no coração,
lentamente, se apagar,
o fogo d’uma paixão!

Hoje trago na lembrança
uma dor que sobrevive
num fiapo de esperança
pelo amor que nunca tive

Mesmo na rua, o mendigo
que moureja, e cujo pranto
grita pedindo um amigo,
é o mais sublime acalanto!

Meu pai nada me falava
quando me via nervoso.
Aprovava ou reprovava
num olhar doce e bondoso.

Meu pai me ensinou:”Reflita!”
Nunca esqueci a lição:
“a velhice não se evita.
maturidade é opção!”

Na clausura da existência,
das prisões que nos impomos,
um devaneio é a essência
do que pensamos que somos!

Não dou conselhos na luta
que cada um realiza,
pois nem o tolo os escuta
e nem o sábio precisa.

Não há dor mais dolorida
do que a tristonha aparência
de quem matou pela vida
a sua própria inocência

Não haverá sociedade
que possa ser construída
sem a fé na humanidade
e o respeito pela vida!

Não importa a circunstância,
cuidado ao dar o teu passo.
É muito curta a distância
entre sucesso e fracasso!

Não olhes no exterior:
Armani, Chanel ou Boss.
Elegância vem do amor
que nasce dentro de nós!

Nesta luz que escurecia
meu passado futurista
a plenitude vazia
dava a derrota à conquista.

No volteio dos ponteiros
num sublime amanhecer
os minutos sorrateiros
não me deixam te esquecer...

Numa discussão atroz
pense só por um momento:
Não levante o tom de voz,
melhore o seu argumento!

Pensemos bem, porque a vida
se feliz, com graça e canto,
se infeliz ou se sofrida
é o mais sublime acalanto!

Quem compõe versos amenos
Que os acalantos coleta,
Parece que morre menos
como nos disse o Poeta...

Se for teste, meu Senhor,
o viver nesta fornalha,
tu verás que a fé e o amor
de um nordestino não falha!

Segue a vida o seu encanto,
às vezes nem merecido,
cantando o seu acalanto
para o mundo sem ouvido...

Sem ti minha vida passa
sem o riso e sem o canto
qual brilhante, que sem jaça
é meu eterno acalanto...

Solta o amor que tanto amaste
e que preso mantiveste.
Se voltar o conquistaste,
se se for, nunca o tiveste...

Sublime, a rosa sem jaça
lança ao lírio seu perfume
e o vento brando que passa
aspira, pleno de ciúme...

Um filho a dormir, e ao peito,
um livro aberto caído,
é o acalanto perfeito
que um pai sonha, agradecido...

Um sorriso, uma indulgência
um gesto ingênuo de adeus...
por onde houver inocência
há um pedacinho de Deus...

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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