Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 11 de junho de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 159)



Uma Trova do Rio de Janeiro
OCTÁVIO BABO FILHO

Os teus cabelos, Maria,
embora soltos, me dão
a certeza de que, um dia,
hão de ser minha prisão!

Uma Trova Humorística, de Belo Horizonte/MG
WANDA DE PAULA MOURTHÉ

 

Chega bêbado ... sequer
distingue um rosto ... e malogra:
dá alguns tapas na mulher
e muitos beijos na sogra!

Uma Trova Premiada  em  Araras/SP, 1993
DARLY O. BARROS (São Paulo/SP)

 

Passando a vida em revista
descubro, ao fim dos meus dias,
ter sido o NADA a conquista
que eu trago nas mãos vazias...

Uma Trova de Portugal
ISIDORO CAVACO


As rosas da natureza
quando contigo cruzaram
ao ver a tua beleza
envergonhadas murcharam.

Um Poema de São Fidélis/RJ
PEDRO EMÍLIO DE ALMEIDA E SILVA – São Fidélis/RJ
(1936 – 2013)
 
Canção Finita

Do primeiro canto da primavera
serão teus:
- o pássaro e a canção

Da primeira flor da primavera
serão teus:
- a cor e o perfume

Do primeiro verso da primavera
serão teus:
- o poeta e o poema.

Do último canto da primavera
de quem serão:
- o pássaro e a canção?

Da última flor da primavera
de quem serão:
- a cor e o perfume?

Do último verso da primavera
de quem serão:
- o poeta e o poema?

Murcha a flor...
quieto o pássaro...
morto o verso...

De quem será a primavera?

Trovadores que Deixaram Saudades
CÁSSIO MAGNANI
Santa Bárbara/MG (1921 – 1990) Nova Lima/MG


Madama vai ao peixeiro:
– A senhora quer Robalo?
Ela, mostrando o dinheiro:
– Não, senhor, quero comprá-lo!

Um Poema dos Estados Unidos
EDGAR ALLAN POE
(1809 – 1849)

Annabel Lee


Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor -
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

Uma Trova da Argentina
MARIA CRISTINA FERVIER


Desde lejos llevo penas,
las que me riegan el alma.
Es murmullo de agua apenas
con que silencia la calma.

Uma Aldravia de Anastácio/MS
FLAVIA GUIOMAR FERREIRA DA SILVA ROHDT

 

seus
olhos
faróis
necessários
nessa
escuridão

Um Haicai de São Paulo/SP
OLGA AMORIM

 

O dia é de sol
Rapazes fartos de inverno
Picolés nas mãos.

Recordando Velhas Canções
CATULO DA PAIXÃO CEARENSE (versos)

Luar do Sertão

(Toada, 1914)

Refrão
Não há, ó gente, oh não luar
Como este do sertão
Não há, ó gente, oh não luar
Como este do sertão

Oh que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando
Folhas secas pelo chão
Esse luar cá da cidade, tão escuro
Não tem aquela saudade
Do luar lá do sertão (refrão)

A gente fria desta terra sem poesia
Não se importa com esta lua
Nem faz caso do luar
Enquanto a onça, lá na verde capoeira
Leva uma hora inteira,
Vendo a lua a meditar (refrão)

Ai, quem me dera
que eu morresse lá na serra
Abraçado à minha terra
e dormindo de uma vez
Ser enterrado numa grota pequenina
Onde à tarde a surunina
chora sua viuvez (refrão).

Um Poetrix de Santa Rosa/RS
ROQUE ALOISIO WESCHENFELDER

Tremômetro


Treme de medo a alma,
De saudade, o coração.
O tremômetro mede a calma.

Um Poema de Porto/Portugal
VITOR OLIVEIRA JORGE

Superfície


Às vezes o mar enruga-se como uma cortina horizontal.
Até ao infinito.
Como um cântico dos defuntos
Que sob ele jazem, e que voltam com as suas rugas
À superfície, clamando redenção.

 Mas como os defuntos estão reduzidos a fragmentos,
Só se vêem à superfície pequenos pedaços do que foi
O passado de cada pessoa, a história de cada biografia.
São ecos longínquos, que vêm de outro universo,
E entre os quais vamos avançando numa praia baixa,
Afastando cortinas, descortinando sussurros,
Vendo por vezes rostos mortos mais belos
Do que quando eram em vida.

 Passeamos por este mar em pregas.
Como se atravessássemos a saia do mundo
Em busca do que sempre a saia esconde, e mostra,
O seu umbigo cheio de algas, o seu odor.

 E nestas experiências empíricas nos perdemos,
Caminhando, caminhando, enquanto os defuntos cantam,
E o mar ondula como uma cortina, como uma toalha
Nunca lisa, enrugada sobre o passado, num sentimento
De que nada está jamais pronto, reencontrado, completo,
E apenas nos ficam imagens e sons, o coração trespassado
Por cruzes, as mãos incapazes de alisar tudo.

Um Epitáfio de Minas Gerais
CÁSSIO MAGNANI
Santa Bárbara/MG (1921 – 1990) Nova Lima/MG

Junto aos ossos de um canibal


Eis os ossos de Zumbi
que a negra fome aqui trouxe.
Faltou-lhe o alimento e aí…
não se apertou – almoçou-se.

Um Soneto de Minas Gerais
CLÁUDIO MANOEL DA COSTA
Mariana/MG (1729 – 1789) Ouro Preto/MG

Onde estou?


Onde estou? Este sítio desconheço:
quem fez tão diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
e em contemplá-lo, tímido esmoreço.

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
de estar a ela um dia reclinado;
ali em vale um monte está mudado:
quanto pode dos anos o progresso!

Árvores aqui vi tão florescentes,
que faziam perpétua a primavera:
nem troncos vejo agora decadentes.

Eu me engano: a região esta não era;
mas que venho a estranhar, se estão presentes
meus males, com que tudo degenera!

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Sobre a canção Luar do Sertão
A toada "Luar do Sertão" é um dos maiores sucessos de nossa música popular em todos os tempos. Fácil de cantar, está na memória de cada brasileiro, até dos que não se interessam por música. Como a maioria das canções que fazem apologia da vida campestre, encanta principalmente pela ingenuidade dos versos e simplicidade da melodia. Embora tenha defendido com veemência pela vida afora sua condição de autor único de "Luar do Sertão", Catulo da Paixão Cearense deve ser apenas o autor da letra.

A melodia seria de João Pernambuco ou, mais provavelmente, de um anônimo, tratando-se assim de um tema folclórico - o côco "É do Maitá" ou "Meu Engenho é do Humaitá" -, recolhido e modificado pelo violonista. Este côco integrava seu repertório e teria sido por ele transmitido a Catulo, como tantos outros temas. Pelo menos, isso é o que se deduz dos depoimentos de personalidades como Heitor Villa-Lobos, Mozart de Araújo, Sílvio Salema e Benjamin de Oliveira, publicados por Almirante no livro No tempo de Noel Rosa.

Há ainda a favor da versão do aproveitamento de tema popular, uma declaração do próprio Catulo (em entrevista a Joel Silveira) que diz: "Compus o Luar do Sertão ouvindo uma melodia antiga (...) cujo estribilho era assim: 'É do Maitá! É do Maitá"'. A propósito, conta o historiador Ary Vasconcelos (em Panorama da música popular brasileira na belle époque) que teve a oportunidade de ouvir "Luperce Miranda tocar ao bandolim duas versões do 'É do Maitá': a original e 'outra modificada por João Pernambuco', esta realmente muito parecida com Luar do sertão".

Homem humilde, quase analfabeto, sem muita noção do que representavam os direitos de uma música célebre, João Pernambuco teve dois defensores ilustres - Heitor Villa-Lobos e Henrique F. Domingues, o Almirante - que, se não conseguiram o reconhecimento judicial de sua condição de autor de Luar do Sertão, pelo menos deram credibilidade à reivindicação. Ainda do mesmo Almirante foi a iniciativa de tornar o Luar do Sertão prefixo musical da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a partir de 1939. (Cifrantiga)
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Tertúlia da Saudade


Hermoclydes foi um trovador, um grande irmão, um grande amigo. Uma perda irreparável. Éramos como uma folha que fica nos galhos da árvore, distante, mas quando o vento soprava, agitava os galhos e fazia com que nos encontrássemos.
Nos identificamos pois tinhamos uma paixão muito grande pela trova e por aqueles que nos são fiéis até o fim, os cães.
Se foi, deixou muito de si e levou um pouco de nós.
Hoje eu olho pela janela, e não vejo a chuva para lavar as lágrimas que embaçam os olhos por sua partida. Parece que foi ontem que o vi.
No dia que se foi não havia poesia, pois os versos eram o manto que envolviam o seu corpo.
Não houve sorrisos, não houve música, não houve passarinhos cantando, não houve cor no céu.
Quando um amigo se vai, é como se parte da gente se transformasse em um grão de areia e se perdesse numa praia enorme, esperando o momento que a maré vá nos arrastar.

ORAÇÃO DE  S. FRANCISCO DE ASSIS
Versão em Quadras de HERMOCLYDES S. FRANCO

Fazei-me agente Senhor
de Vossa radiosa paz
Permiti que eu leve o AMOR
onde o ÓDIO esteja mais...

Onde estiver a OFENSA
que eu sempre espalhe o PERDÃO...
Onde houver DISCÓRDIA, intensa,
que eu sempre faça a UNIÃO!

Onde DÚVIDA existir,
que eu possa levar a FÉ
E onde o ÊRRO persistir,
toda a verdade da SÉ...

DESESPERO em ESPERANÇA,
TRISTEZA em pura ALEGRIA,
que eu transforme, com bonança,
as TREVAS em LUZ do dia...

OH! Mestre – Amor Singular –
Concedei seja meu fado
CONSOLO a todos levar,
mais do que ser CONSOLADO!

Que eu consiga COMPREENDER,
mais do que ser COMPREENDIDO.
Possa AMAR, com todo o ser,
muito mais que SER QUERIDO!

Pois DANDO é que se RECEBE
- ao irmão necessitado -
PERDOANDO se percebe
que, também, se é PERDOADO!

Dái-me, Senhor, a esperança,
pela maneira mais terna,
Pois MORRENDO é que se alcança
a glória da VIDA eterna!...

AS FLORES DE MARINGÁ

Janeiro    
Tamareiras do Oriente
e Palmeiras das Canárias
alegram o olhar da gente,
em tonalidades várias!

Fevereiro 
Em fevereiro, dourado,
Copada e em porte turuna,
Surge o vulto amarelado
Da bela Sibipiruna!

Março
Em março, fim de verão,
floresce amarela a Acácia...
Raízes firmes no chão
mostram, do solo, a eficácia.

Abril        
Uma Roxa Quaresmeira,
Que leva um nome cristão,
Abre o seu leque altaneira
Bem relembrando a Paixão!

Maio
Uma Paineira vaidosa,
Depois de flores mostrar,
Se prepara, mãe formosa,
Para as sementes lançar!

Junho     
Simboliza Maringá...
O Ipê-Roxo o outono atesta
E, de quem passa por lá,
Deixa, sempre, a alma em festa!

Julho      
A esconder toda a tristeza,
Em julho, que se faz belo,
Maravilha, com certeza,
É ver o Ipê-Amarelo!

Agosto   
Em agosto, entre os Ipês,
Viceja a Pata-de-Vaca,
Frondosa como Deus fez
Que, florida se destaca...

Setembro
Um Flamboyant em setembro
Na Catedral... na Avenida...
Da flora querido membro,
A Maringá dá mais vida!...

Outubro  
Se o Jacarandá floresce
Em seu tom de suave rubro,
Quem é da terra conhece
- É chegado o mês de outubro.

Novembro
A saudar a Catedral,
Novembro é das Tamareiras.
É quando a Avenida Herval
Tem as tardes mais fagueiras.

Dezembro
“Maringá... Cidade em flor”...
À Neide fornece inteira,
Para pintar, com amor,
A Buganvíllea-Roseira

TROVAS
A bengala cor da paz,
que o homem cego conduz,
tem um mistério que faz
o som transformar-se em luz!

Abraça o tempo que corre,
na rapidez em que avança,
que um bom momento não morre,
acaba sempre em lembrança!

A emoção é bailarina,
num palco azul de ilusões...
Se Deus a fez feminina,
tinha lá Suas razões.

A fraqueza é um artifício
que leva alguém, sem escalas,
a abrir as portas do vício
e não saber mais fechá-las!...

A inspiração é uma fada,
com varinha de condão...
Quando toca a musa, amada,
há poesia em profusão!...

A maior das Criações
de Deus, ao fazer o mundo,
foi a Mãe que, entre emoções,
possui o amor mais profundo!

Anjo negro, flagelado,
em seu caminho sem luz,
cada guri favelado
traz um pouco de Jesus!...
(Niterói/1987 – Caminho)

Ante a maçã do pecado
na dúvida, vou sofrendo:
- Se como... sou castigado;
se não como... me arrependo!

Ao soprar beijos de flores
ao seu lap-top ou PC,
não sabe quantos amores
afastam-se de você...

Aquele que a paz expande
tem a luz, bem definida,
que se transforma no grande
prazer de viver a vida!

A sereia que amanhece
lá na praia, solitária,
faz lembrar, ao que parece,
nossa musa imaginária!...

Às vezes, troféus de glória
e incensos de aduladores
podem fazer da vitória
o ocaso dos vencedores!...

A tempestade aparente
do teu gênio, por magia,
transformou-se de repente,
ao meu beijo, em calmaria!

A vagar pela cidade,
desde os tempos de menino,
procuro a felicidade
que mora além do destino!...

Aventureiros do mar
não temem vento ou tufão,
no prazer de navegar
a vida encontra a razão!…

A verdade que redime
não viveria de luto
se a mentira fosse crime
E, enfim, pagasse tributo!…

A vida, assim como os rios,
tem seus meandros também:
Esconde fatos bravios
e mostra imagens do Bem!…

A vida é a fada-madrinha
que, ao ver nosso intenso flerte,
deu-me, em toque de varinha,
o prazer de conhecer-te!

A vida é dura batalha
que não aceita um "talvez"
e nem outorga medalha
aos filhos da timidez!
(Niterói/1999 – Timidez)

"Cantar na Chuva" eu quisera
aquela canção bonita
que em performance sincera
Gene Kelly nos incita!..."

Carregado de esperanças
e atropelando a saudade,
lá vai meu “trem de lembranças”
buscando a felicidade!...
(Niterói/1997 – Busca)

- Cidade cinquentenária,
Brasilia estende o seu leque
e, com força extraordinária,
nos faz lembrar Kubitscheck!                                      
(Nova Friburgo/2010 – Cinquentenário de Brasília)

Cigano de olheiras fundas,
pele morena,crestada,
quantas tristezas profundas
já deixaste pela estrada?
(Ribeirão Preto/2009 – Cigano)

Cirandas, rodas, cantigas,
emoções que ao pensamento
trazem lembranças antigas
do eterno Campo São Bento!
(Niterói/1986 – Campo São Bento)

Com efeitos especiais,
meus sonhos mostram, em tela,
os teus encantos reais
na mais bonita aquarela!...

Com talhadeira e martelo,
finas madeiras entalho...
e esse trabalho é tão belo
que já nem sei se é trabalho!...
(São Paulo/2004 – Trabalho)

Da borboleta que voa,
traçando um balé simplório,
guardei a lembrança boa
dos jardins do Sanatório...
(Nova Friburgo/1999 – I GINCANA DE TROVAS –- Sanatório Naval)

Da guerra, entre os seus horrores,
não há glória que compense,
para os Pracinhas, as dores
de quem perde ou de quem vence!...

Das emoções a mais grata,
que vale por um tesouro,
é ver coroada em prata
trajetória escrita em ouro!...
(São Paulo/2003 – Prata)

Deixaste, pai, um vazio
que nem preciso explicar
pois que foste sempre um rio
correndo para o meu mar!…

De Noel Rosa a lembrança
sempre traz grande emoção:
-Saudade que vive mansa,
com “Feitio de Oração”!...

De que a vida é emocionante
um dia tive a certeza,
num passeio apaixonante
pelos canais de Veneza!...

De subidas e descidas
a vida, esse desencontro,
nos faz viver várias vidas
na emoção de cada encontro.

DEUS – o Divino Arquiteto –
legislando com nobreza,
sem qualquer ante-projeto
fez as Leis da Natureza!
(Niterói/1886 – Lei)

Dizem que todo baixinho
tem mania de grandeza...
Por isso é que o meu vizinho
só chama a mulher... de “alteza”!…
(Nova Friburgo/1999 – Mania)

Do antigo romance, instável,
a minha lembrança traz
um número inumerável
de calmas noites sem paz!...
(São Paulo/2011 – Romance)

Dupla festa preconizo
para as noites de luar:
A festa do teu sorriso.
na festa do meu olhar!...
(São Paulo/2008 – Festa)

Em busca do bom Santiago
caminho, enfrento a neblina,
e me sinto, assim, bem pago
em minha fé peregrina!...

Em privação de sentidos,
em teus braços perfumados,
sonhei sonhos não vividos...
Vivi sonhos não sonhados...

Encontrei, que sensação,
na praia em manhã feliz,
numa garrafa, a Oração
de São Francisco de Assis!...

Era uma vez... A saudade
da meiga MÃE que ensinava,
na minha infância, a verdade
nas histórias que contava!…

Escondendo tal carinho
em seu semblante sisudo,
meu PAI me pôs no caminho
preparado para tudo!...

Eterno dominador,
eu me curvo ao teu fascínio.
e, em vez de ser teu senhor,
entrego-me ao teu domínio!...
(Niterói/1995 – Domínio)

Eu, no rumo das gaivotas
no mar rendado de espumas,
dentre centenas de rotas,
busco o roteiro em que rumas…

Facho de luz sobre o mar,
à noite, suprindo o sol,
mostra o clarão, a brilhar,
todo o valor de um farol!...

Foi a escolha mais amarga
que entristeceu os meus feitos,
pondo a saudade tão larga
nos meus ombros tão estreitos...
(Nova Friburgo/2008 – Escolha)

Foi tanta emoção sentida,
foram mil sonhos sonhados,
que atravessamos a vida
como eternos namorados...

Friburgo da marinhagem,
na Serra, expulsou o mal...
Seu clima e sua paisagem
e o Sanatório Naval!...
(Nova Friburgo/1999 – I GINCANA DE TROVAS –- Sanatório Naval)

FRIBURGO, em sonho real,
fará, nas tardes bonitas,
do Corredor Cultural
uma sala de visitas...
(Nova Friburgo/ 1992 – Conc. Paralelo – Corredor Cultural)

-   FRIBURGO, sem ter o mar,
tendo um clima divinal,
pôde a Marinha abrigar
No Sanatório Naval!
(Nova Friburgo/1999 – I GINCANA DE TROVAS –- Sanatório Naval)

Galera envolta em espumas,
Navega a lua, no céu,
Num mar de nuvens e brumas,
Pescando estrelas ao léu!...
(São Paulo/1995 – Mar)

Lembrando o triste momento
em que, a chorar, foste embora,
julgo ouvir na voz do vento
minha própria voz que chora...
(Niterói/1989 – Vento)

Livro aberto expande a luz...
quem ama o bom livro, jura
que a leitura é que conduz
aos caminhos da cultura!

Lobo mau, o vento, ao léu,
se transforma em furacão
ao ver, nas nuvens do céu,
carneirinhos de algodão!...

Mãe e filho, uma só vida,
no enlevo da gestação,
dupla emoção repartida
Pplos canais de um cordão!
(Nova Friburgo/1992 – Emoção)

Mãe! Flor de amor e bondade,
nem precisa rima rica,
na poesia de saudade
da lembrança que nos fica!

Maravilha em resplendor,
onde Deus sempre é louvado,
o RIO guarda o Senhor
no Cristo do Corcovado!

MEMÓRIA... Forja de sonhos,
arquivo de sentimentos,
relicário onde os tristonhos
Eecondem seus bons momentos...

Minha fé a grande força
que trago desde criança,
não deixa que a vida torça
o meu rumo de esperança

Minha MÃE, frases serenas,
seus conselhos e bondades
tornaram bem mais amenas
minhas sofridas saudades!…

Minhas mãos, barcos sem velas,
em carinhosos desvelos,
navegam, quais caravelas
na noite dos teus cabelos!

Minhas mãos, cheias de anseios,
são barcos que, em águas turvas,
deslizando em mil passeios,
se perdem nas tuas curvas…

Na distância, ao teu aceno,
quanta tristeza me invade:
- O trem ficando pequeno
e, em mim, crescendo a saudade!...
(Nova Friburgo/1987 – Aceno)

– Na infância risonha e bela,
fui navegante revel.
Na fantasia singela
de um barquinho de papel...
(Niterói/1998 – Navegante)

Na linda macarronada
que juntos compartilhamos,
houve um "fio-de-meada"
em que, a sorrir, nos beijamos!...

Não dancei, de forma ousada,
nem mesmo em um piquenique,
mas ouvi, com minha amada,
Sinatra no "Chek to Check"!...

Não há rosa sem espinhos…
…e na procura da glória,
são as pedras do caminho
que dão valor à vitória.

Não pode haver raciocínio
quando a miséria, sem nome,
invade qualquer domínio
e o domina pela FOME!...
(Amparo/2002 – Fome)

Na vida, estrada de sonhos,
conheci divinos seres
que me ensinaram, risonhos,
segredos de mil prazeres!...

Noel, em tarde tranqüila,
compondo um samba sutil,
fez o “Feitiço da Vila”
enfeitiçar o Brasil!...
(São Paulo/2010 – Feitiço)

No “grande prêmio” da vida,
é vencedor, sem igual,
quem usa o Bem, sem medida,
desde a largada ao final!...
(Niterói/2009 – Prêmio)

Nos meus dias de criança,
nem sempre pude sorrir...
Mas vive, em mim, a esperança
na luz azul do PORVIR!…
(Clube da Simpatia/2012 – Porvir)

Nosso romance é um tesouro
de amor, de luz e carinho,
escrito com letras de ouro
em folhas de pergaminho!... 
(Niterói/1992 – Romance)

O grau de felicidade
que tenho e me faz risonho,
resulta da minha idade
ter a idade do meu sonho!
(São Paulo/1996 – Idade)

Os tempos da meninice
foram bons tempos de paz...
Hoje parece tolice
querer olhar para traz!...

Preparando o vôo lindo
no rumo da liberdade,
o canário, em sonho infindo,
vai "matar sua saudade"!…

Quando as folhagens de outono
atapetam meus caminhos,
o bucolismo dá sono
e eu sonho com teus carinhos!...

O triste da caminhada,
Na longa estrada da vida,
É ver a fome estampada
Em tanta gente excluída!

Rendeira, à luz das candeias,
vai vencendo nostalgias,
sentindo que ficam cheias
as suas noites vazias...
(Niterói/2002 – Renda)

Respeitados os anéis
quando beijar for proibido
por avisos ou painéis,
o amor estará perdido!...

São Paulo, com amizade,
oferece o que preciso,
pois, se estou na Liberdade,
logo ali é o Paraiso!...

Sempre acaba a tirania
- entre firmes desagravos –
Na força da rebeldia
E na ousadia dos bravos!
(Niterói/2001 – Ousadia)

Sigo a vida, noite e dia,
sem rumo... desencontrado...
Eis que a minha biografia
parece letra de fado!...
(Grêmio Português de Friburgo/2010 – Fado)

Sob o poder do fascínio
que a tua presença traz,
minha alma perde o domínio
de um corpo que perde a paz!
(Niterói/1995 – Domínio)

Sobre o mar, com sete cores,
fim da tardinha a enfeitar,
mostra o arco-iris valores
da natureza sem par!...

Tenho o meu coração preso,
em gaiola singular:
Teus braços onde, surpreso,
aprendi o verbo amar!

Tenho um cão chamado THÉO,
grande amigo, inseparável...
Ao meu lado, está no céu
e eu me sinto invulnerável!

Teu orgulho, em doce imagem,
Na outra margem pontifica...
Um dia, cria coragem,
Atravessa a ponte... e fica!
(Niterói/2009 – Ponte)

Trago tantas emoções
nas minhas canções serenas
que, quando canto as canções,
vivo de emoções, apenas!...

Tu foste, na minha vida,
tempestade que passou...
Neblina descolorida
que alguma nuvem deixou!...

Um lençol verde de paz...
Um rio... Uma catarata...
Lindas flores... animais...
Sons do silêncio, eis a mata!... (Sem verbos)

“Vai ver se estou lá na esquina!”
E o gajo diz “é pra já”...
Vai e volta e, então opina:
- Não estás lá... estás cá!...       
(Grêmio Português de Friburgo/2008 – Gajo)

Versejando à luz difusa,
se o sentimento me inspira,
eu te elejo a doce musa
que há de tanger minha lira!...


As trovas foram cedidas pelo próprio autor quando em vida.
Algumas trovas são do site da Eliana Ruiz Jimenez (SC) que fez uma homenagem ao Hermoclydes, em seu blog HTTP://poesiaemtrovas.blogspot.com.br

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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