Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 19 de junho de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 167)


Uma Trova de Joaquim Távora/PR
ADILSON DE PAULA


Pôr-do-sol, campos desertos,
e o pinheiro então parece
estar de braços abertos
a sussurrar uma prece.

Uma Trova Humorística, de Juiz de Fora/MG
MESSIAS DA ROCHA


Padre Bento bebe tanto...
Bebe dez copos num tapa,
não joga nada pro santo
e diz que é ordem do Papa!

Uma Trova Premiada  na Ilha da Guanabara, 1965
FERNANDO BURLAMAQUI (Recife/PE)


A Saudade, com certeza,
tem poderes encantados
que fazem doce a tristeza
dos corações separados.

Uma Trova de Nova Iguaçu/RJ
LICÍNIO COSTA


Vejo no céu as estrelas
e fico triste a sonhar...
Porque não sei em qual delas
você, meu bem, foi morar!...

Uma Trova de Portugal
JORGE ALARCÃO POTIER


Quando olho pra mim eu rio
 embora por dentro chore
 sou como um poço vazio
 casa adonde ninguém more.

Um Poema de Niterói/RJ
MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)

Lágrimas de Sol


Vou guardar você nas cartas, versos, poemas, canções
Vou deixar portas abertas pras estrelas, constelações
Me guiarem pela rua, até achar , sozinha
Tua alma em carne fraca

Vou sorrir pro teu retrato, gasto, rasgado e sem cor
Vou tentar chorar de menos, menos rancor sem esquecer a flor
Que floriu na lua plena, vasta, serena
Derramando branco amor

À espera do outono, do estio, do vento, do alento
Do rio, do tempo , do amor , meu grande amor

Vou bordar minha saudade, tecer num véu, a tarde alaranjada
Nas labaredas o silêncio arde no olhar, no fim da madrugada
Lágrimas de sol deságuam por nós assim
No rio que invento agora em mim

Á espera do outono, do estio, do vento, do alento
Do rio, do tempo, do amor, meu grande amor

Trovadores que deixaram Saudades
RAUL PEDERNEIRAS
Rio de Janeiro/RJ (1874 – 1953)


O Filho do Carpinteiro
 foi um Artista profundo...
 Com três cravos e um madeiro
 fez a reforma do mundo!

Um Poema de Reading/Estados Unidos
WALLACE STEVENS
1879 – 1955

O Homem da Neve


É preciso uma mente de inverno
 Para olhar a geada e os ramos
 Dos pinheiros cobertos pela nevada

E há muito tempo fazer frio
 Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
 Os abetos ásperos no brilho distante

Do sol de janeiro; e não pensar
 Em qualquer miséria no som do vento,
 No som de umas poucas folhas

Que é o som da terra
 Cheia do mesmo vento
 Que sopra no mesmo lugar vazio

Para alguém que escuta, escuta na neve,
 E, ausente, observa
 Nada que não está lá e o nada que é.

Uma Aldravia de Porto Alegre/RS
ILDA MARIA COSTA BRASIL


uma
palavra
inúmeras
faces
vários
escritos

Uma Quadra Popular

Sonhei contigo esta noite,
mas oh! que sonho atrevido!
Sonhei que estava abraçado
à forma do teu vestido !

Um Haicai de São Paulo/SP
CARLOS SEABRA


ave calada —
ninho em silêncio
na madrugada

Recordando Velhas Canções
CHICO BUARQUE DE HOLANDA
Rio de Janeiro/RJ

Construção/Deus Lhe Pague

(1971)

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo por tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou prá descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
E agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado

Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo por tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego

Sentou prá descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
E agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou prá descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
Deus lhe pague

Por esse pão prá comer, por esse chão prá dormir
A certidão prá nascer e a concessão prá sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague

Pela mulher carpideira prá nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

Um Poetrix do Rio de Janeiro/RJ
RICARDO INGENITO ALFAYA

porcelana chinesa


Luz na água do chá
O rosto de um monge
Dentro da xícara

Um Poema de Lisboa/Portugal
ANA LUISA AMARAL

Espaços


 As nuvens não se rasgaram
nem o sol: só a porta
do meu quarto

 A abrir-se noutras
portas dando para outros
quartos e um corredor ao fundo

 Não havia janelas nem
silêncios: sinfonias por dentro
a rasgar o silencio

 A porta do meu quarto
já nem porta: madeiramento
para o fogo

Um Soneto de Minas Gerais/Rio de Janeiro
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902– 1987) Rio de Janeiro/RJ

Soneto da Perdida Esperança

Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para a casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? na noite escassa

com um insolúvel flautim
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.

Quadras Populares de Minas Gerais
Região do Nordeste de Minas (Serro)III

O vento bateu na porta
eu pensei que era a Sinhana,
tive pena de mim mesmo!
Até o vento me engana.

Morena, minha morena,
minha flor de melancia,
um beijo da tua boca
me sustenta todo o dia.

Que cigarro tão cheiroso!
Me dê uma fumacinha.
Com a desculpa do cigarro,
sua mão pega na minha.

Já fui galo, já cantei
já fui dono do terreiro.
Não me importo que outros cantem
onde eu já cantei primeiro.

Diga, meu benzinho, diga,
com tua boca, confesse,
se no mundo já encontrou
quem tanto bem lhe quisesse.

 Na verdade nunca sonhei
quem tanto assim me quisesse,
mas também nunca encontrei
quem mais trabalho me desse.

Eu venho lá de tão longe
de tão longe venho eu
renovar uma saudade
de um amor que já foi seu.

Estava no meu cantinho
e não amava ninguém,
você mesmo me chamou
e agora outro amor já tem.

Quem tem seu amor oculto
pra ninguém desconfiar.
quando olhar não deve rir,
quando rir não deve olhar.

Jurei não amar ninguém,
mas eu confesso a fraqueza,
não é tanto minha a culpa
como é da natureza.
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Sobre a Canção de Chico Buarque
Esta composição tem uma melodia repetitiva, desenvolvida apenas sobre dois acordes, e uma letra extraordinária, de qualidade rara numa canção popular.

É a elegia para um operário morto no exercício da profissão e narra o seu último dia, da saída de casa para o trabalho (“Beijou sua mulher como se fosse a última”), até o momento da queda fatal (“E se acabou no chão feito um pacote flácido”). Nessa letra moderna e requintada, o autor emprega ousados processos de construção poética como, por exemplo, a alternância das proparoxítonas finais, “como se fossem peças de um jogo num tabuleiro”, segundo o próprio Chico em entrevista concedida na época ( Fonte: Cifrantiga )

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Trovador Destaque



Trago a trova estruturada
que apresento, hoje, a vocês,
para ser aproveitada
nas lições de português.

Tão pequena na estrutura,
muito esbelta na linguagem,
a Trova, em nossa cultura,
tem grandeza na mensagem.

Da poesia, ou da cantiga,
a Trova, em repercussão,
é, na história, a mais antiga
e de lírica expressão!

Toda trova que, bem feita,
respeitando-se a elisão,
haverá de ser eleita
em qualquer competição.

Toda trova tem, na rima,
e na métrica, a riqueza,
tendo ainda, assim por cima,
na elisão, a sutileza.

Toda trova tem, por meta,
eloquente descrição,
numa síntese completa,
dando, ao tema, a compreensão.

Com a trova se diz tudo
em fração de oito segundos
e, seus temas, sobretudo,
são precisos e fecundos.

Deus fez tudo o que quisera,
fez o céu e fez as flores,
fez mais linda a primavera
e depois, os trovadores!

Desde os nossos ancestrais,
daquela Roma de outrora,
que os nossos Jogos Florais
saúdam a Deusa Flora!

Escrever é um simples conto
que não é grande epopeia:
maiúscula, mais o ponto
e, no meio, só a ideia!

Há emoções que a gente sente
e, que encantam tanto, tanto,
que, se expressas, verbalmente,
perdem parte deste encanto.

Sempre ao ver que a bola rola
guie o carro em segurança
porque, sempre atrás da bola,
vem correndo uma criança.

Nunca ligue o celular
dirigindo ao seu volante,
mas se acaso ele tocar,
não atenda, siga adiante.

A justiça nos ensina
o equilíbrio que nos deu:
o teu direito termina,
bem onde começa o meu!

A maior sabedoria
de quem sabe o seu saber,
é saber que a cada dia
sempre tem o que aprender.

Quem recebe a caridade
repassando-a para frente,
faz um bem à humanidade
ao formar esta corrente.

Deus criou toda a ciência
para que a investigação,
através da inteligência
nos conduza à evolução.

Conhecendo-se a ciência
que, ilumina uma verdade,
toda crença, sem coerência,
é um atrazo à humanidade.

Construtor de propriedade,
João-de-Barro, arquiteto,
sem cursar a faculdade
cria e monta o seu projeto.

Quando a lua ao céu levita,
toda cheia, e faz luar,
forma a imagem mais bonita
que só Deus nos pode dar.

Foi no embalo, tão silente,
de teu ventre, aquecido,
que ganhei maior presente
só por ter de ti nascido.

Evitando o próprio enfarte,
o amor é o único bem
que, quanto mais se reparte
bem maior fica também.

Enfim, que é o partir
da pessoa querida de cá,
senão, o chegar, o vir,
visto do lado de lá!

As pessoas nunca morrem,
simplesmente elas encantam,
vivem sempre e nos socorrem
com as obras que aqui plantam!

Quem pratica a temperança
e cultiva o dom do amor,
tem, na imagem, semelhança
com seu próprio Criador.

O Paraná cresceu tanto
com os povos que acolheu
e, hoje, agradece o encanto
que cada etnia lhe deu.

Com sua Universidade,
centenária, mais antiga,
Paraná é a realidade
da docência que hoje abriga.

Quase preso como um réu,
muitas vezes sem ninguém,
todo cão vai para o céu...
e algumas pessoas também!

Com dois cães dentro de mim,
um que é manso, cem por cento
e, um feroz, mas tão ruim...
Vence o que mais alimento!

Entendei com bons ouvidos
o conselho e, contemplai-vos:
crescei, em todos sentidos,
e depois, multiplicai-vos!

Aprecie a natureza
aprendendo o que ela ensina;
é uma mestra de grandez,
e a primeira disciplina.

O altruísmo da amizade,
quando em nossa vida ocorre,
tem a mesma intensidade
de um amor que nunca morre.

Amizades que são boas
e, atitudes tão singelas,
é gostarmos das pessoas
bem assim como são elas.

O altruísmo da amizade,
quando em nossa vida ocorre,
tem a mesma intensidade
de um amor que nunca morre.

A nossa fisionomia,
que se expressa no facial,
de tristeza, ou de alegria,
é um idioma universal.

Sem saber de quando em quando,
face aos fatos imprecisos,
vive, o homem, oscilando
entre lágrimas e risos.

O Brasil é a pátria amada
cantada em linda canção,
que tem a terra adorada,
e é mãe gentil da nação.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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