Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 1 de julho de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 177)



 Uma Trova de Curitiba/PR
MARIO A. J. ZAMATARO

Todo dia, um novo dia...
tramas do tempo que invento,
essa coisa que vicia...
O que fica é sentimento.

Uma Trova Humorística de Maringá/PR
A. A. DE ASSIS

– Chamaste meu pai de otário?
Repete-o, se és homem, vem!
– Chamei não, pelo contrário,
mas que ele tem cara, tem!

Uma Trova Premiada em Nova Friburgo/RJ, 1997
HÉRON PATRÍCIO (São Paulo/SP)

Eu me recuso, tristeza,
a conviver com teu mundo:
vida que tem correnteza
não cria lodo no fundo!

Uma Trova de Magé/RJ
MARIA MADALENA FERREIRA

Quem planta em terras fecundas
colhe bons frutos! - E mais:
- cria raízes profundas,
à prova de vendavais!

Uma Trova Hispânica do México
MARTHA ALICIA QUI AGUIRRE

El deshonesto se envicia
de abusar del enjuiciado;
goza de actuar sin justicia,
sin temor de ser juzgado.

Uma Poesia de Itapema/SC
PEDRO DU BOIS

Futuro

Não havia o traço esbranquiçado
rasgando o firmamento, nem a britadeira
e o caminhão misturando cimento e areia:

manualmente transportados
manualmente contados
manualmente colocados
blocos de pedras
superpostos
sobrepostos
erguiam paredes
em pequenos arcos
de telhados

sobre o topo o homem
sonhava traços de fumaça
cortando o firmamento.

Trovadores que deixaram Saudades
JOSÉ AUGUSTO RITTES
São Vicente/SP (1914-2009)

Contemplo, à luz da saudade,
 a meia cama vazia...
 Outrora, nessa metade,
 meu mundo inteiro cabia.

Um Poema de Moçambique/África
JOSÉ PEDRO DA SILVA CAMPOS D’OLIVEIRA
(1847 – 1911)

A Uma Virgem
(Improviso)

Motora dos meus martírios!
Causa da minha saudade!
Ingênua e casta deudade!
Minha terna inspiração!
Condoi-te da triste sorte
Do jovem que te ama tanto,
Que por ti verte agro pranto
Gerado no coração!
Rasga-me o peito, se queres,
E vê nele a intensa chama,
Que há três anos o inflama
Em cruas dores, sem fim...
De padecer já cansado
Vou sentindo a morte dura
Arrastar-me à sepultura,
E na flor da idade assim!...

E podes ser tão tirana,
Que possas ver indif´rente
D´anos de´nove somente
Morrer o teu trovador?!
Ai! Não! Alenta-me a vida,
Reprime esta dor infinda
Dando-me só, virgem linda,
O teu puro e casto amor!...

(obs: foi mantida a grafia original)

Uma Sextilha de Caicó/RN
HÉLIO PEDRO SOUZA

Bate forte um coração
quando um sonho é bem sonhado,
o caminho é mais florido
fica o céu mais estrelado,
e a lua aumenta o seu brilho
se o sonho é realizado.

Uma Quadra Popular

Amar e saber amar
são dois pontos delicados:
os que amam, são sem conta:
os que sabem, são contados.

Um Haicai de Brasília/DF
CARLOS VIEGAS

sob o sol de inverno
o gato se espreguiça
ainda no cesto.

Recordando Velhas Canções
CATULO DA PAIXÃO CEARENSE

Talento e Formosura
(1905)

Tu podes bem
Guardar os dons da formosura
Que o tempo um dia
Há de implacável trucidar
Tu podes bem
Viver ufana da ventura
Que a natureza
Cegamente quis te dar

Prossegue embora
Em flóreas sendas sempre ovante
De glórias cheia
No teu sólio triunfante
Que antes que a morte
Vibre em ti funéreo golpe seu
A natureza irá roubando
O que te deu

E quanto a mim
Irei cantando o meu ideal de amor
Que é sempre novo
No viçor da primavera
Na lira austera
Em que o Senhor me fez tão destro
Será meu estro
Só do que for imortal

Terei mais glória
Em conquistar com sentimento
Pensantes almas
De varões de alto saber
E com amor
E com pujança de talento
Fazer um bardo
Ternas lágrimas verter

Isto é mais nobre
É mais sublime e edificante
Do que vencer
Um coração ignorante
Porque a beleza é só matéria
E nada mais traduz
Mas o talento é só espírito
E só luz

Descantarei na minha lira
As obras-primas do Criador
O mago olor da flor
Desabrochando à luz do luar
O incenso d’água
Que nos olhos faz
A mágoa rutilar
Nuns olhos onde o amor
Tem seu altar

E o verde mar que se debruça
N’alva areia a espumejar
E a noite que soluça
E faz a lua soluçar
E a Estrela Dalva
E a Estrela Vésper languescente
Bastam somente
Para os bardos inspirar

Mas quando a morte
Conduzir-te à sepultura
O teu supremo orgulho
Em pó reduzirá
E após a morte
Profanar-te a formosura
Dos teus encantos
Mais ninguém se lembrará

Mas quando Deus
Fechar meus olhos sonhadores
Serei lembrado
Pelos bardos trovadores
Que os versos meus hão de na lira
Em magos tons gemer
Eu morto embora
Nas canções hei de viver

(Notas: Sólio: trono/ Ovante: triunfante/ Languescente: Criatura ou objeto molenga, decadente, sem forças, que definha.)

Um Poetrix de Belém/PR
AILA MAGALHÃES

 I ...lha

Sentia-se tão ilha
que nem mar
havia.

Um Soneto de Ponta Delgada/Portugal
ANTERO DE QUENTAL
(Antero Tarquínio de Quental)
1842 – 1891

O Palácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, O Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

Um Soneto do Mato Grosso do Sul
REGINALDO ALBUQUERQUE

Soneto ao soneto

Na tua imortal forma, exata e nobre,
onde a musa imprevista se aventura
fino pelo de címbalos te encobre,
desafiando o estro e a razão mais pura.

Afirmam os incautos que és de cobre,
arcaico para quem a tessitura
de cantar o atual jamais se dobre
ao rigor triunfal que em ti perdura.

Varinha de condão da antiguidade
soneto, tua síntese inquieta
contém sonho, esperanças e saudade…

Para sempre será o teu reinado,
enquanto houver no mundo algum poeta
ou o pulsar de um peito enamorado!

Quadras Populares de Minas Gerais
Região do Nordeste de Minas III

Menina você me espera,
deixa correr esta sorte,
não temas, que serei firme
até na hora da morte.

Sou de pouca ventura
quando se fala em amor;
eu morrendo por você
e você nem uma flor.

Alembro de que já fui,
Hoje não sou mais ninguém.
Já fui consolo dos tristes,
Hoje sou triste também.

Já não posso mais sofrer
e vou sofrendo devagar
Ainda há de chegar o dia,
do meu sofrer acabar.

Cai o raio sobre a terra,
assim como hei de falar.
Um amor como esse nosso,
não precisa se acabar.

Coração como este meu,
você precisa dar valor,
porque vive sofrendo
por causa do nosso amor.

O meu coração é mudo,
não fala, nem aparece;
se meu coração falasse,
chorava, porque padece.

 Você de lá, eu de cá,
ribeirão passa no meio;
você de lá dá um suspiro,
eu de cá suspiro e meio.

Você me chamou de feio,
eu não sou tão feio assim;
foi depois que você veio,
é que pegou feio em mim.

O cravo por ser poeta,
pediu à rosa um botão;
a rosa por ser ingrata,
deu-lhe com as folhas no chão.

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Sobre a canção “Talento e Formosura”
A obra mais famosa de Edmundo Otávio Ferreira, foi Talento e formosura, que recebeu versos de Catulo da Paixão Cearense, sendo gravado, entre outros, pela Banda da Casa Edson e pela Banda do Corpo de Bombeiros, na Odeon; pelos cantores João Barros e Mário Pinheiro, já com versos de Catulo, na Victor Record e pelo Grupo Lulu o Cavaquinho, na Columbia, todas no início do século XX.
Em 1977, Talento e formosura foi regravada por Paulo Tapajós na série "Cantares brasileiros - vol. 1 - a modinha", distribuído pela Companhia Internacional de Seguros como brinde de Natal. (http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/03/talento-e-formosura.html#ixzz2S8zhPyl2)
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Trovador Destaque

A alguém, só por seu sorriso,
nunca julgue, eis meus conselhos;
muita vez, por trás de um riso,
há uma alma de joelhos!

Ah, que fados sorrateiros
têm nossas vidas sombrias...
os leitos sempre solteiros,
de duas camas tão vazias!

A noite, de ar seco, anidro,
por não ver no céu a lua,
põe-se a acender sóis de vidro
nos postes da minha rua!

Ano velho não demora,
põe-te ao largo e vai saindo.
Anda, ano velho! Cai fora,
pois o novo já vem vindo!

Anseio ver-te assim louca
presa aos meus lábios tiranos,
pois repriso na tua boca
meus beijos dos vinte anos!

A saudade é suavidade
e engana-se o que a maldiz,
pois só chora de saudade,
quem um dia foi feliz!

As contas de amor resolvo,
pois com dívidas não brinco,
teu beijo com dois devolvo
pra me dares outros cinco!

As flores fito uma a uma,
e mais que eu nelas repare,
em beleza não há nenhuma
que contigo se compare!

As mulheres são primores,
que Deus fez pensando em mim...
e ao perceber que eram flores,
plantou-as no meu jardim.

Às vezes fico sonhando
com coisas que não consentes:
minhas mãos metrificando
tuas formas adolescentes!

A um retiro me decido
levar-te pra ousarmos mais,
mas calo e não te convido,
porque não sei se tu vais!

A vida passa, e enquanto
passa a vida eu penso nela;
só não passa este quebranto
que eu passo na ausência dela!

Buscar o céu noutro espaço,
não, meu bem, não é preciso;
se eu tiver o teu abraço,
que me importa o paraíso?

Cascatas, selvas e fontes,
se em rimas tento escrevê-las,
vejo sóis saltando montes
e noites fervendo estrelas!

Como é bom, como eu desejo,
quanto a minh'alma se agita
de nos lábios ter um beijo
de mulher moça e bonita!

Como é doce, em terno encosto,
debruçar por entre apelos,
o entardecer do meu rosto
na noite dos teus cabelos!

Como sofrem meus desejos,
ao saber, meu querubim,
que os teus braços e os teus beijos
não foram feitos pra mim!

Confesso-te meus queixumes,
que esquecer jamais consigo:
suportar mortais ciúmes
desse alguém que está contigo!

Dá-me, Deus, com certa urgência,
a graça que aqui rabisco:
dez por cento da paciência
que puseste em São Francisco!

Dá-me um beijo bem ardente,
já que és moça e tão menina,
só pra ver se assim a gente
sente algo que combina!

Das mágoas que me consomem,
a que mais me faz chorar
é ter ciúme do homem
que puseste em meu lugar!

Desse teu beijo fagueiro,
jamais vou sentir-me farto...
dá-me mais dois, e um terceiro,
e mais três depois do quarto!

Deus foi artista perfeito
no marcar da noite os mastros,
mas bem que podia ter feito
dos teus dois olhos, dois astros!

De vez em quando o ciuminho
vem junto a mim e reclama;
sente inveja desse ursinho
com que enfeitas a tua cama!

Dois mimos teus inda anseio,
pois vivos n’alma os mantive:
o abraço que jamais veio
e o beijo que nunca tive!

Do paraíso os recamos
não estão nas Escrituras,
pois de há muito os desfrutamos
nas nossas mútuas loucuras!

Do teu rosto a linda imagem
é um colírio à nossa vista,
parece até personagem
dessas capas de revista!

Eis um rápido resumo
do que seja um cabaré:
drinques, droga, e pra consumo
mulheres sem rumo ou fé!

Em matéria de grandeza,
Deus não se omitiu em nada;
pegou tudo que é beleza
e deu tudo à minha amada!

É nos becos da tua rua
que eu quero te namorar,
pra que só o olhar da lua
se atreva a nos espiar.

Entre afagos e carinhos,
pressentem meus sonhos vãos
que há mil sins escondidinhos
na timidez dos teus nãos!

Entre nós Deus colocou
da distância os desatinos;
sem saber crucificou
na mesma cruz dois destinos!

É sublime ouvir o frolo
da saia erguida em viés...
desde a alvura do teu colo
ao rosado dos teus pés!

É tão intenso e tão terno
nosso eclodir de ternuras,
que nem sei se vai pro inferno
quem comete tais loucuras!

Eu não sei qual julgamento
de ti sobre mim recaia,
mas adoro ver o vento
levantando a tua saia!

Lisinhas, macias, mimosas,
carinhosas e branquinhas,
são fofinhas, são formosas
quais duas rosas, tuas mãozinhas!

Mesmo em invernos cerrados,
as nossas sensuais fraquezas
tornam dois corpos gelados
em duas fogueiras acesas!

Meu amor, eu não pensava,
que pra ver o paraíso,
bastava, apenas bastava
contemplar o teu sorriso!

Meus olhos não mais buscaram
mentirosos paraísos
desde o dia em que pousaram
no encanto dos teus sorrisos!

Mimos de tanta beleza,
tais como os teus, jóia minha,
não possui uma princesa,
nem os sonha uma rainha!

Não maldigas as diabruras
que o amor nos faz cometer,
antes fazer mil loucuras
que ser sãos e não viver!

No amar-te tanto é que sinto
do pecado o vil assomo,
pois ao te abraçar pressinto
mil tentações que eu não domo!

No céu Deus gravou a face
de faiscantes universos
pra que o poeta os cantasse
na beleza dos seus versos!

Noel: nem chinelos tenho
pra pores uns brinquedinhos;
então, suplicar-te eu venho:
dá-me um par de sapatinhos!

No olhar que a noite esquadrinha,
eu procuro a imagem tua
e te encontro sentadinha
na foice prata da lua!

Noutra mulher não havia
sentido o amor tão desperto,
pois antes sequer sabia
que o céu ficava tão perto!

Os meus dois olhos castanhos
são tristes, pobres, plebeus...
não têm encantos tamanhos
como esses que têm os teus!

Pergunta ao mestre o aprendiz:
- Que é a luz, nos conceitos teus?
E a sorrir, Einstein lhe diz:
– A luz é a sombra de Deus!

Por nuances maravilhosas
meu raciocínio se espraia
no quão devem ser ditosas
as tuas colchas de cambraia!

Possa eu dar-te, ó sepultura,
algo que os vermes não comem:
mente limpa e alma pura,
dois tesouros num só homem!

Pra não viver tão sozinho,
quisera ter-te por dona,
só pra ser como o gatinho
que em teu colinho ronrona!

Qual cortesã libertina,
assim que surge o arrebol,
a serra despe a neblina
e exibe a nudez ao sol!

Quando deito me angustio
com carinho tão escasso,
e me abraço ao travesseiro
na ilusão de que te abraço!

Que em nós dois Cupido mire
suas flechas num voo breve;
que de ti ninguém me tire,
que de mim ninguém te leve!

Quem foge à paixão tirana
temendo remorsos ter,
ou tem uma mente insana,
ou nunca amou pra valer!

Quero afastar os revezes
das mágoas que me consomem:
ser teu menino cem vezes
e mil vezes ser teu homem!

Quero, em anseio incontido,
do céu levar-te aos confins,
e escutar junto do ouvido
teus nãos simulando sins!

Que vivam na dor, conjuntos,
dois corações machucados,
pois é melhor sofrer juntos
do que chorar separados!

Remexo da mente o cofre,
mas não descubro o que é isto:
na face de alguém que sofre
eu vejo o rosto do Cristo!

Saudade é glória ou castigo
quando alguém, num tom pungente,
noss'alma leva consigo
e deixa a sua com a gente!

Saudade, pensando bem,
é quando a mente se queixa
que tenta esquecer alguém,
mas o coração não deixa...

Se consulto o coração
pra ver aquela que o dome,
ele pulsa de emoção
e diz baixinho o teu nome!

Se há algo que nos deslumbra
e ao proibido nos inclina,
é aquele beijo em penumbra
no cerrar de uma cortina!

Sempre alheia ao meu apelo,
és a encarnação de Fedra,
pois em teu peito de gelo
bate um coração de pedra!

Se puxo as mãozinhas tuas,
tento mais perto senti-las
pra ver dividida em duas,
minha face em tuas pupilas!

Se teu bem partiu, foi embora,
não penses nunca mais nele;
enxuga os olhos, não chora,
e me põe no lugar dele!

Sobre meu chão colocaste
um mar de espinhos e abrolhos
desde o dia em que lançaste
sobre mim teus lindos olhos!

Somos seres incompletos
vivendo eterno amargor...
Você tão pobre de afetos
e eu tão carente de amor!

Valei-me, ó Deus, me conforta...
piedade, Senhor, piedade!
me afasta, da esposa morta,
o martírio da saudade!

Vão tão bem os teus pezinhos
calçadinhos nas chinelas,
que os meus olhos, coitadinhos,
vão doidinhos atrás delas!

Vê como a sorte judia
do nosso amor (coitadinho!):
a tua cama tão vazia,
e eu na minha tão sozinho!

Vem, neste inverno polar,
aquecer-me em teus mormaços...
Vem, meu quindim, me aninhar
no verão dos teus abraços!

Vem, ó “Príncipe Encantado”
dar nela o beijo da vida,
depois deixa a meu cuidado
a tua “Bela Adormecida”!

Ver amor igual ao nosso,
nunca sonhes nem esperes:
quero ter-te, mas não posso,
podes ter-me, mas não queres!


A coordenadoria da União Hispanomundial de Escritores - UHE e Movimento Poético Nacional / Paranavaí tem a honra de registrar o lançamento da

Antologia Poética 11 ROSTOS, de Dinair Leite

no início do próximo julho no III Congresso Internacional de Poetas e Escritores CUPHI LOS ANGELES.

A coletânea reune 11 livros inéditos da autora: Rosa Branca - Poemas para Tereza - Tempos - José Bento e Minhas Trovas- Meus Amigos - Eu, Árvore - Cenas - Versos Rubros - Agosto - Borboletas de Mel e haicais - Vésperas, em 528 páginas de pura poesia, música, trovas, haicais, sonetos.

11 ROSTOS leva na contracapa a apresentação da antologia pelo escritor paulista, leitor crítico e conferencista JOÂO BARCELLOS — com Ubt Seção Curitiba, Hector Jose Corredor, Amauri Martineli, Dinair Leite, Déia Motta, Cuphilosangeles Sipea, José Feldman, Sebastião Apolônio Teixeira e Sibele Castello Branco.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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