Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 8 de julho de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 184)





Uma Trova de Maringá/PR
OLGA AGULHON

Aquele “sim” que ele disse,
na igreja, diante do altar,
não suportou a velhice,
que enrugou o nosso olhar.

Uma Trova Humorística de São Paulo/SP
SÉRGIO FERREIRA DA SILVA

Uma receita eu preparo,
e um gato me desanima
chega perto… apura o faro…
e joga areia por cima.

Uma Trova Premiada em Nova Friburgo/RJ, 2007
THEREZINHA D. BRISOLLA (São Paulo/SP)

À mensagem não me rendo…
Não abro… não quero ler…
Para não ficar sabendo
o que eu finjo não saber.

Uma Trova de Santos/SP
BRITES Q. FIGUEIREDO

Num cofre-forte, guardado
por bruxas, lá na distância,
está o que me é negado:
- os sonhos de minha infância!

Uma Trova Hispânica da Argentina
MARÍA CRISTINA FERVIER

Señora de ojos vendados,
no le robes la esperanza
a los pobres derrotados.
La justicia es su templanza.

Um Poema de Curitiba/PR
PAULO LEMINSKI
Curitiba (1944 – 1989)

Amor bastante

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

Trovadores que deixaram Saudades
FÉLIX AIRES
Buriti Bravo/MA (1904 – 1979)

 Por esses campos azuis,
 Ó lua do meu sertão,
 tu és um pente de luz
 nas tranças da escuridão!

Um Poema de Santo Antão/Cabo Verde
DINA SALUSTIO
(Bernardina Oliveira)

Éramos Tu e Eu

Éramos eu e tu
Dentro de mim
Centenas de fantasmas compunham o espetáculo
E o medo
Todo o medo do mundo em câmara lenta nos meus olhos.

Mãos agarradas
Pulsos acariciados
Um afago nas faces.

Éramos tu e eu
Dentro de nós
Suores inundavam os olhos
Alagavam lençóis
Corriam para o mar.
As unhas revoltam-se e ferem a carne que as abriga.

Éramos tu e eu
Dentro de nós.

As contrações cada vez mais rápidas
O descontrole
A emoção
A ciência atenta
O oxigênio
A mão amiga
De repente a grande urgência
A Hora
A Violência
Éramos nós libertando-nos de nós.
É nossa a dor.

São nossos o sangue e as águas
O grito é nosso
A vida é tua
O filho é meu.

Os lábios esquecem o riso
Os olhos a luz
O corpo a dor.

A exaustão total
O correr do pano
O fim do parto.

Uma Aldravia de Ipatinga/MG
MARILIA SIQUEIRA LACERDA

minh’alma
constrói
madrugadas
poéticas:
solitárias
palavras

Uma Trova de Ribeirão Preto/SP
NILTON MANOEL

Cavalgando sem rodeios
por galáxias estreladas,
o poeta em seus anseios
tece trovas requintadas.

Um Haicai de Curitiba/PR
ROSÂNGELA JACINTO DA SILVA

A beira do mar.
Como se fosse num espelho
o brilho da Lua.

Uma Sextilha de São Simão/SP
THALMA TAVARES

Descobri um grande amor
– meio século já faz -
e ainda hoje é o motivo
que sempre alegre me traz,
por ser a troca constante
de ternura, amor e paz.

Recordando Velhas Canções
CATULO DA PAIXÃO CEARENSE

Três estrelinhas (O que tu és)
(polca, 1906)
(Catulo dedicou esta letra ao escritor Freire de Brito)

Se um riso vem
Teus lábios colorir de alvo rubor
As almas a teus pés
Vêm prosternar-se com ardor
A luz transluz nos céus
Nos céus dos olhos teus
Saudosos como o luar
No mar a cintilar

Tua alma cheira mais
Que um alvo jasmineiro todo em flor
Onde tu passas fica um aroma a soluçar
Tu és de Deus a obra-prima
Não tens par!
És uma rima singular

Tu és a pérola ideal
Que o mar gerou
Tu és a flor mais aromal
Que Deus sonhou
A mais plangente e meiga lira sons não tira
Como as notas desse teu falar

Teus seios têm o sacro
E doce aroma de um missal
Teus lábios têm a eterna
Sensação da extrema-unção
Tu fazes sem pensar os astros palpitar
Tu fazes sem querer as almas padecer

Tuas tranças cheiram mais
Que as rosas trescalantes de um rosal ;
Que a madrugada vem de orvalho perolar
És uma flor da fonte à margem
De cristal
És um poema divinal!

És a mais sonora estrofe do Senhor
És a irradiação mais branca do luar
És a luz solar
Um hino sideral!
Nos olhos tens os raios
De uma estrela vesperal

Nos lábios tens a graça
Inebriante de hidromel
Da imagem do perdão
Tu és a cópia mais fiel
Tu és um coração de orvalho lá do céu
Que um anjo a chorar verteu

Um Poema de do Distrito de Castelo Branco/Portugal
EUGÉNIO DE ANDRADE
(José Fontinhas)
1923 – 2005

Poema à mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Boa noite. Eu vou com as aves!

Um Soneto de São Paulo/SP
DIVENEI BOSELI

A Despedida

O amor parece eterno enquanto dura,
por força da paixão que, sendo chama,
incendiando a carne, crema a cama!
No café da manhã se faz candura…

E a dois vai, no verão, rolar na grama,
na várzea, no curral, e a mais impura
das camas de motel lhes assegura
o encanto inenarrável de quem ama…

O amor constrói, corrompe, danifica
por força da paixão: queima e não fica
para curar sequer uma ferida…

Partir? Chorando ou rindo? Tanto faz…
Dizer adeus ou não?… Tudo é falaz!
Cruel e verdadeira é a despedida…

Quadras Populares de Minas Gerais
Região do Nordeste de Minas X

Tenho meu colchão de penas,
meu lençol de piedades,
travesseiro de suspiros,
fronha de mata-saudades.

Ó meu Deus, como ele é bobo,
em pensar que eu o adoro,
só porque me viu chorando!
Sabe Deus por quem eu choro!

Da laranja quero um gomo,
do limão quero um pedaço;
da criança quero um beijo,
e de ti quero um abraço.

Olha aquele passarinho
onde foi fazer seu ninho:
na mais alta laranjeira,
no derradeiro galhinho.

Da laranja nasce a lima,
da lima nasce o limão;
da mulher nasce o ciúme,
do homem a ingratidão.

Tanta laranja madura,
tanto limão pelo chão;
tanto sangue derramado
dentro do meu coração.

Eu vou dar por despedida,
lá na proa do navio;
a mulher foi que inventou
dormir dois pro mode o frio.

Eu estava cheirando a cravo
que a morena me deu;
ainda não tinha cheirado,
quando a peroba desceu.

Eu não gosto de brincar
onde não sou conhecido;
tenho medo da peroba
zoar nos meus ouvido.

Eu não sou casa caída,
nem parede derrubada;
eu não sou chá de canela
pra curar cabeça inchada.

Fui na fonte beber água
debaixo da ramalhada;
era só pra ver Maria,
que a sede não era nada.

Chove, chuva miudinha,
na copa do meu chapéu;
além dos trabalhos do mundo,
ainda o castigo do céu.

A mulher e a galinha
pouco devem passear;
a galinha bicho come,
a mulher dá que falar.
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Trovador Destaque


A cobiça sendo um vício
e a renúncia salutar,
nosso menor sacrifício
é saber renunciar.

Aconteça o que aconteça
eu nunca vou desistir…
por trás da nuvem espessa,
tem sempre um sol a sorrir!

À minha mulher confesso:
- Na atual encarnação,
para apressar teu progresso
sou a tua expiação!

Aquele pé de carvalho
plantado em minha lembrança,
cintila gotas de orvalho
quando me vejo criança.

À tardinha, todo dia,
assisto o chegar do trem,
esperando por Maria
só que Maria não vem.

A poça d’água na rua
de repente se prateia…
espelho tosco da lua
em noite de lua cheia.

As estrelas não fenecem
perante à luz que encandeia,
mas docemente adormecem
se a noite é de lua cheia.

De forma vil, ilusória,
o falaz aos ventos, berra,
cantando sua vitória
sem ter terminado a guerra!

Eis o grande desafio
para quem se diz cristão:
ter que dizer, renuncio,
em favor de um outro irmão!

É quando a noite se enluta
envolta em intenso véu,
que a estrelinha diminuta
empresta luz para o céu.

 Esplendor tens, de tal monta,
quando passeias na praça,
que a lua se esconde, tonta,
atrás da nuvem que passa.

Esta vidinha da gente
tal a serra é mesmo assim…
ora subida ou vertente
num sobe e desce sem fim.

“Faça-se a luz”! e ao fazê-la
com muito amor e carinho,
Deus colocou uma estrela
a clarear meu caminho.

Feliz da vida se logra
o Zeca exibe o caneco,
que ele trocou pela sogra
na feira de cacareco.

Homem com muitos trejeitos,
mulher com muita feiúra
para mim são dois defeitos
que nem com reza tem cura!

Já que não posso mantê-las
ao alcance do meu braço,
eu canto minhas estrelas
em cada verso que faço.

Mãe é palavra seleta
por si só uma obra prima,
pois mesmo o maior poeta
procura e não acha rima!

Mesmo que lhe desagrade,
dentre os sabores prefira
o amargo de uma verdade
ao doce de uma mentira.

Meus sonhos por si navegam
levando-me ao transcendente,
por mil estradas enxergam
bem mais do que enxerga a gente.

Minha mãe, quanta lembrança,
quem me dera tal jaez…
eu voltar a ser criança
começar tudo outra vez.

Minhas lágrimas vertidas
por entre dobras de rugas,
são saudades incontidas
do meu passado... são fugas!

Na avenida do fracasso
onde a humanidade avança,
em cada esquina que passo
eu planto um pé de esperança.

Não há placa de chegada
na minha estrada da vida…
faço de cada parada
novo ponto de partida.

Na solidão com frequência
escutamos uma voz…
deve ser nossa consciência
querendo falar por nós!

 Nas veredas tortuosas
dessa vida em desalinhos,
nas retas eu colho as rosas
nas curvas tiro os espinhos.

Noel Rosa, quem diria,
sem cigarro e sem chapéu,
chegou só, sem parceria,
pra fazer samba no céu.

Noitinha volto da roça
e Rosa com seu pudor,
apaga a luz da palhoça
pra gente fazer amor.

Nos quatro dias de Momo
ante tanta bebedeira,
eu estarei, não sei como,
quando chegar quarta-feira!

Nossas faces, pergaminho,
rastro do tempo que, algoz,
não apagou o carinho
que ainda existe entre nós!

Nossa vida não tem prazo
e tal o dia, é assim:
um surgimento, um ocaso,
que por acaso é sem fim!

Nos trigais do sentimento
que contra o vento eu transponho,
cozi o pão sem fermento
no forno quente de um sonho.

O amor seria fecundo
como tal se espalharia,
se toda mãe que há no mundo
tivesse um nome…Maria!

O intenso amor que nos une
e nos completa, querida,
faz a nossa vida imune
às incertezas da vida.

O inverno se me avizinha
e, no espelho, a contragosto,
vejo que o tempo caminha
deixando o rastro em meu rosto.

O meu amor quis safar-se
de mim, então me escondi;
de rosa era seu disfarce…
fui, sorrateiro, e a colhi!

O nosso amor passageiro
tal orvalho evaporou…
nasceu e morreu ligeiro,
que nem saudade deixou.

 O pó que emana do giz
e o salário sem valor,
tornam bem mais infeliz
a vida do professor!

O sentimento de culpa
se esconde na consciencia
de quem fere e se desculpa
a suplicar inocência.

Os gritos de liberdade
abafados por censuras,
viram ecos de piedade
nos porões das ditaduras.

O sol, gigante centelha,
torna-se mais colossal,
quando nascendo se espelha
nas águas do pantanal.

Por mais que em ti não pensasse
uma lágrima escorria,
irrigando a minha face,
onde eu plantei nostalgia.

Por sofrer tantos açoites
nos meus momentos tristonhos,
pus redoma em minhas noites
para prender-te em meus sonhos

Quando o sol arquiva o dia
e o expediente se encerra,
ecoa a Ave-Maria
nos escritórios da serra!

Quantos banquetes regados
a vinho, trufa e salmão…
quantos irmãos relegados
sem água, sem luz, sem pão!

Quem diz ter brilho e alardeia
desdenhando o semelhante,
esquece que a lua cheia
tem seus dias de minguante!

Quem faz da vida um disfarce
e finge viver a esmo,
de tudo pode safar-se
mas não engana a si mesmo!

 Quem não quer vencer a estrada
como faz o peregrino,
dobra sempre a esquina errada
na contramão do destino.

Saudade é o tempo guardado
dentro do peito da gente...
Nó que se dá, no passado,
e se desfaz no presente.

Sem usar pincel ou tinta
apenas com seu clarão,
a lua cheia repinta
as veredas do sertão.

Soluça vazia, a rede,
o armador emudeceu,
marcas de pé, na parede,
choram tanto quanto eu!…

Subo às nuvens… fantasia…
e para o amor espalhar,
solto minha poesia
com rimas soltas ao ar.

Todo indivíduo que é tolo
mas que de sábio se arvora,
é tal um pão sem miolo…
só tem a casca por fora!

Vai estudante, buscar
conhecimento fecundo
pois, és a pedra angular
na construção do teu mundo!
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Texto por José Feldman

O poeta português Fernando Pessoa (1888 – 1935) dizia: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.  Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”

Eu, como grande parte da população daqui do Paraná, sempre pelo pouco que estudamos e lemos, acreditamos que os grandes escritores além dos paranaenses, estivessem no eixo Rio-São Paulo, mas o Brasil é tão vasto, e nossa crença em nosso conhecimento ser enorme, é ledo engano. Vai muito além, e confesso que em minha ignorância de sulista, tomei conhecimento que o nordeste do Brasil possuía grandes escritores, no caso que especifico agora, os cearenses. Romancistas, contistas, cronistas, poetas, trovadores, uma lista de nomes que mostra que a literatura não é somente uma estrela, mas uma constelação enorme de pessoas que enobrecem as páginas da cultura brasileira. O fato é que simplesmente por falta de acesso, por falta de divulgação, enfim por diversos fatores que nos obstruem a ampliação de nossa consciência, ou em palavras mais tecnológicas, não são inseridos dados no HD de nosso cérebro.

Fernando Pessoa foi um grande poeta português que é do conhecimento de boa parte da população brasileira, mas sem querer desmerecer o nome deste poeta que sempre fez parte de minha biblioteca particular, também possuímos o nosso Pessoa. No caso, Francisco Pessoa, um cearense que no livro que lançou recentemente “Isso é coisa do Pessoa: em prosa e verso”, coloca-nos seja em trovas, poesias, décimas, cordéis, crônica e contos a sua arte, que divide conosco.

Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, nos diz: Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. / Põe quanto és no mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive.

Nosso Pessoa segue este poema, e se mostra grande no que faz, e faz com que o brilho do lago, seu reflexo se estenda muito além de si mesmo, de sua cidade (Fortaleza) e ilumine quem quiser ser iluminado.

Francisco, Chico para os amigos, nos diz : Meus sonhos por si navegam/ levando-me ao transcendente, / por mil estradas enxergam /bem mais do que enxerga a gente.

Nos mostra como na trova acima, que buscamos novos caminhos, mas tão enraizados que estamos em nossas visões, não vemos todos os caminhos que podemos seguir. Este é Chico, mostrando a sua arte de versejar, percorrendo o caminho entre o lírico/filosófico e o humorístico: Feliz da vida se logra/O Zeca exibe o caneco/que ele trocou pela sogra/  na feira do cacareco.

Sempre temos a visão do médico, aquela pessoa que de certo modo acredita ser Deus, arrogantes, contudo existem exceções. Chico é uma delas. Médico oftalmologista, uma pessoa simples, calma, alegre e sempre pronta a amizades, que com seu falar eloquente parece querer abraçar o mundo.

Segundo Alberto Caeiro (outro heterônimo de Fernando Pessoa): Sejamos simples e calmos, / Como os regatos e as árvores, / E Deus amar-nos-á fazendo de nós / Belos como as árvores e os regatos, / E dar-nos-á verdor na sua primavera, / E um rio aonde ir ter quando acabemos!…

Somos o que somos, mas nem sempre o demonstramos para as pessoas que nos rodeiam. Muitas vezes usamos máscaras para disfarçar o que nos vêm no íntimo. E a cada situação, uma nova máscara, um novo eu, que não mostra a sua verdadeira face. Em seu livro, Chico em uma décima nos diz em “O Palhaço”: A vida se nos faz meros palhaços…/Sorriso solto num choro prendido, / Querer que é dado nunca agradecido / Saltar ao vento sem pisar os passos. / Tragar o fumo dos prazeres baços / Embebedar-se tanto pra esquecer, / Sentir-se ser alguém, mesmo sem ser, / No picadeiro, o aplauso, a falsa glória, / Imagem tão real quanto ilusória / Pranto da morte rindo pra viver!

Mais uma do Fernando Pessoa: “Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.”

Mas Chico vai além, ele vive e cria. Cria a vida e vive a criação, este é o ideal do verdadeiro artista. Faz que “Não há placa de chegada/na minha estrada da vida…/faço de cada parada/ novo ponto de partida.”

Ele segue adiante, cria, sonha, deseja:
“Se eu fosse…
Um Malba Tahan, calcularia cm segundos as horas de alegria que a vida nos dá./ Um Einstein, criaria um antídoto para entibiar a bomba que certo dia flamejou o céu de Hiroshima./ Um Alexandre, o grande, teria conquistado o coração do incrédulo, fazendo-o crer no Grande Arquiteto./ Um Ataúlfo Alves, no meu arrependimento, diria como ele disse: aquilo sim, é que era mulher,/ Um Graham Bell, teria inventado um telefone que, pudesse eu, sentir o odor dos teus lábios, e que minhas frases ouvisse maviosas./ Um Braille, transportaria os dedos para uma zona do cérebro./ Um Barnard, só transplantaria coração de um homem bom para um homem de bem./ Um Bill Gates, tornaria virtual a violência que envolve os povos.
(…) Um Salomão, eu seria um sábio e teria trezentas mulheres?., acorda, Pessoinha!!!”

Um outro amigo, o poeta potiguar Ademar Macedo (1951 – 2013) : “De todos os sonhos meus,/ realizei o mais fecundo: /ser um Poeta de Deus / e mandar versos pra o mundo!”

Isto é que faz nosso Pessoa, pinta a aquarela das palavras com sua magia.

Chico em “De Pessoa pra Pessoa”
Poesia é um sonho e, se sonhado,/ Sobre nuvens volutas, pictóricas,/ Rédeas soltas sem bridas, metafóricas,/ Faz do poeta um ser místico e alado./ Quem o lê, leia certo ou leia errado, / Sempre os versos encontram seu intento…/ Lamentar cada um com seu lamento, / E sorrir cada um com seu sorriso, / Coração de poeta é sem juízo/ E a razão de fingir é seu talento!

Aproveitando o se falar em Pessoas, Clevane Pessoa, de MG nos diz neste trecho de seu poema Pensares: Meus pensamentos são mares/ De muita profundidade, / Mas que rasantes nas areias / Lambem o calor que encintram, / Ajudam a esfriar as orlas / Com suas ondas agitadas… / Às vezes fazem redemoinhos / Em caldeirão perigoso … / Podem chegar a maremotos, / Em fenômenos encadeados, / Mas a maré esperada / Somente depende dos ciclos / Caprichosos das faces de dona lua…

Chico mostra através de suas trovas o caminho que escolhemos seguir. Cada qual faz o seu destino. “Toda colheita contém/ uma lição de moral:/ quem planta o bem colhe o bem/ quem planta o mal colhe o mal”

Outro grande amigo meu, já falecido há muitos anos, Artur da Távola (1936 – 2008) dizia: “A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir e entender. E….nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são CAPAZES.”

Sem mais delongas, a pessoa que está na pessoa de Pessoa, FRANCISCO JOSÉ PESSOA DE ANDRADE REIS.


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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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