Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 10 de julho de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 186)





Amália Max faleceu na madrugada de quarta-feira, 9 de julho de 2014.

Uma Trova de Bandeirante/PR
NEIDE ROCHA PORTUGAL

Após o tempo vencido,
neste teu mundo reverso,
que importa o nome esquecido
se imortal será o teu verso?!...

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
GERALDA ARMOND

A saudade é simplesmente,
um claro espelho encantado,
mira-se nele o presente
e ele reflete o passado.

Uma Trova Premiada  em Bandeirantes/PR, 1965
CAROLINA RAMOS (Santos/SP)

Solidão, eu te bendigo!
À tua sombra querida,
eu marco encontro comigo
e acerto os passos da vida

Uma Trova de Pedro Leopoldo/MG
WAGNER MARQUES LOPES

A dor parece incontida?...
Lave o rosto e não se abale:
a esperança é sol da vida
vencendo as sombras do vale.

Uma Trova Hispânica, do Chile
GERMÁN A. ECHEVERRÍA AROS

Ceñida a la luna canta
mi sonrisa y su afluente,
en la rada su garganta
se refresca reluciente.

Um Poema de São Fidélis/RS
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG

Saudade II

Saudade é tema batido
que tanto bate na gente!
E quanto mais se apanha
mais saudade a gente sente.

Ela chega de mansinho
como alguém que não quer nada,
entra em nós, constrói um ninho,
depois some de mansinho
deixando uma dor danada.

E essa dor tão dolorida
não há doutor que dê jeito.
Depois que entra no peito
é difícil resistir.
Fica inquilina da gente
e nunca mais quer partir.

Trovadores que deixaram Saudades
ADALZIRA BITTENCOURT
Bragança Paulista/SP

Goze o "hoje", esta hora certa,
faça do "agora" o apogeu...
O futuro é coisa incerta,
e o passado já morreu.

Um Poema da Espanha
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
(1881 - 1958)

O Único Amigo

Não me alcançarás, amigo.
Chegarás ansioso, louco;
mas eu já terei partido.

(E que medonho vazio
tudo o que tiveres deixado
atrás, para vir comigo!

Que lamentável abismo
tudo quanto eu tenha posto
entre nós, sem culpa, amigo!)

Não poderás ficar, amigo.
Voltarei talvez ao mundo.
Mas tu já terás partido…

Uma Aldravia de Ponte Nova/MG
MARIZA DE CASTRO GODOY

água
parada
aedes
faz
a
festa

Um Poema de Belo Horizonte/MG
CLEVANE PESSOA

Alegoria das Palavras Soltas

Que as mãos dos poetas
libertem as palavras de conceitos e preconceitos antigos.
Que a voz dos poetas
entoe cantos inusitados -às vezes inaudíveis aos demais.
Mas que sejam sempre palavras oloROSAS
a perfumar os poros dos amados e amigos.
O que vier a mais será benesse, lucro e dividendos:
mais importante que a glória
é a libertação do próprio Menestrel.
Que os versos sejam livres, com "palavras soltas",
a resignificar todas as im/possíveis metáforas!

Um Haicai de Curitiba/PR
MÁRIO ZAMATARO

Nas asas imóveis
da borboleta pousada:
as cores mais vivas.

Um Martelo Agalopado de Caicó/RN
PROF. GARCIA
(Francisco Garcia de Araújo)

Já falei do sertão, falei do mar,
da floresta e do espaço eu já falei,
as montanhas e os morros já cantei
nem sei mais o que agora eu vou cantar.
Mas o poeta começa a imaginar
e descobre que a fonte da poesia
jorra tudo que a mente humana cria
sem jamais lhe faltar inspiração...
É o milagre do amor e da razão
que me faz ser poeta todo dia!

Recordando Velhas Canções
ANTÔNIO NÁSSARA E ERATÓSTENES FRAZÃO

Nós queremos uma valsa
(valsa/carnaval, 1941)

Antigamente, uma valsa de roda
Era de fato, o requinte da moda
Já não se dança uma valsa, hoje em dia
Com o mesmo gosto e com tanta alegria!

Mas se a valsa morrer,
Que saudade a gente vai ter,
Mas... se valsa morrer,
Que saudade que a gente vai ter!

Nós queremos uma valsa
Uma valsa para dançar.
Uma valsa que fale de amores,
Como aquela dos patinadores...

Vem, meu amor,
Vem, meu amor
Num passinho de valsa,
Que vem e que vai,
Mamãe quer dançar com papai!

Uma Glosa de Porto Alegre/RS
GISLAINE CANALES

Glosando Augusto dos Anjos

Alma do Cosmos

MOTE:
(Quarteto do soneto: AO LUAR)

Quando à noite, o infinito se levanta
à luz do luar, pelos caminhos quedos
minha tátil intensidade é tanta
que eu sinto a alma do cosmos nos meus dedos!

GLOSA:

QUANDO À NOITE, O INFINITO SE LEVANTA
e surge em seus abraços com as estrelas,
eu sinto, dentro em mim, algo que canta,
que canta, então, feliz por poder vê-las!

Segue minha alma, assim, pura alegria,
À LUZ DO LUAR, PELOS CAMINHOS QUEDOS.
Vai respirando a Lua, que é poesia
e realizando os seus desejos ledos!

Essa beleza fascinante, encanta
e nesse doce sonho-encantamento,
MINHA TÁTIL INTENSIDADE É TANTA
que eu aspiro, a verdade do momento!

Faço da Lua, então, a minha amante,
repartindo com ela, meus segredos,
e, tão contente, fico neste instante,
QUE EU SINTO A ALMA DO COSMOS NOS MEUS DEDOS!

Um Poema de Lisboa/Portugal
CESÁRIO VERDE
(José Joaquim Cesário Verde)
Lisboa (1855 – 1886) Lumiar

Lúbrica

Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás-de por mim morrer,
Morrer muito contente.

Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um papel
De cenas de rapazes!

Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:

Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...

Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!

Um Soneto de Novo Hamburgo/RS
ALMA WELT
(1972 – 2007)

A Travessia

 "O mundo é um moinho... " (Cartola)

Todos nós temos corda onde agarrar,
A vida nos dá sempre uma saída
Que nos evite o risco de abismar
No medo natural da própria vida.

Por certo cada um pega o que pode:
Um amor, uma paixão ou mesmo um vício;
Um poema, um soneto ou uma ode,
Um portal com a cruz no frontispício,

Ou então, o que é pior, com um convite
Para entrar mas deixando a Esperança, *
Última paz que o mundo nos permite... *

Mas pra saíres vivo do moinho,
Não como Don Quixote e Sancho Pança,
Terás que atravessar a ti sozinho...

Quadras Populares de Minas Gerais
Dez mandamentos em forma amorosa fazem paródias para fazer sátiras
sociais ou política

Desde que te vi (nome da pessoa)
outro moço não amei;
já não sei mais quantas vezes
os dez mandamentos rezei.

Amar a Deus e a você
é para mim um dever;
se você me for constante,
hei de amá-lo até morrer.

Não jurar nunca, queridinho,
o seu santo nome em vão;
jurarei amá-lo sempre
de todo o meu coração.

Ouvir a missa aos domingos,
e dias santificados,
eu as missas ouvirei
só junto do meu amado.

Honrar pai e mãe
- meus pais obedecerei;
só por causa de você,
meus pais desobedecerei.

Não matar
- nunca matarei ninguém
Deus conserve a vida a todos
e a sua vida também.

Guardar castidade
é virtude apetecida,
que terei junto a você
para toda minha vida.

Não furtar
nada que dos outros são;
mas você bem que furtou
meu pobre coração.

Não levantar falso testemunho
a ninguém;
eu digo que não é falso
o meu amor ao meu bem.

Não cobiçar as coisas
que dos outros são;
de você cobiçarei
o bondoso coração.

Não desejar mal
do próximo a mulher;
só desejo o seu olhar,
enquanto ele me quiser.

Estes dez mandamentos
só duas coisas encerram;
amar a Deus lá no céu
e a você aqui na terra.
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Sobre a Canção “Nós Queremos uma Valsa”
Frazão propôs e Nássara aceitou fazerem os dois uma valsa para o carnaval. Assim nasceu "Nós Queremos Uma Valsa", novidade que agradou plenamente aos foliões de 1941. Na realidade, agradou mais ainda ao jornalista Morais Cardoso, o Rei Momo do Rio na ocasião. Além de muito gordo, como todo Rei Momo, Morais tinha problemas de saúde e vivia com os pés inchados. Para ele era um suplício cumprir as obrigações de rei do carnaval, que incluíam uns passos de samba ou de marcha nas dezenas de bailes a que tinha de comparecer.
Então, ao tomar conhecimento da valsa, adotou-a imediatamente como sua música oficial, que passou a ser executada nos lugares aonde ele ia. Naturalmente, tal resolução amenizou sua tarefa coreográfica, reduzindo-a a suaves passinhos de valsa. "O Morais nunca teve um carnaval tão tranqüilo", relembrava Nássara.
Lançada por Carlos Galhardo, "Nós Queremos Uma Valsa" tem melodia calcada na "Valsa dos Patinadores" (de Emil Waldteufel), enquanto a letra evoca os velhos tempos, quando "uma valsa de roda era o requinte da moda". Para caracterizar o clima carnavalesco, a introdução reproduz um tradicional toque de clarim. (Fonte: http://cifrantiga3.blogspot.com.br/2006/04/ns-queremos-uma-valsa.html)
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A ermida à beira da estrada
plange seu sino de um jeito
que eu sinto a corda amarrada
na saudade do meu peito…

A esperança em nossa vida,
pelo valor que ela ostenta,
pode até ser resumida
como o pão que nos sustenta.

A fonte, singelo fio,
contorcendo-se em cansaços,
encontra por fim um rio
e então se atira em seus braços.

A gota d'água nascida
de veio farto e profundo,
é a fonte da nossa vida
e a própria vida do mundo.

Ao cortar a trança loura,
minha infância em despedida
deixou na fria tesoura
saudosos fios de vida.

As estrelas consteladas,
por mais que se ache esquisito,
são simples tachas douradas
prendendo o céu no infinito.

A sorte tem seus encantos,
seus agrados, seus engodos;
às vezes agrada a tantos,
mas jamais agrada a todos!

A vida anda tão tristonha…
pobreza…fome…agonia…
que eu chego a sentir vergonha
de às vezes ter alegria!

A vida deu-me esta dor;
e hoje entre a dor e a lembrança,
sou um cheque ao portador,
sem fundo para cobrança.

Chegaste, assim de repente,
na minha vida vazia
trazendo um sol ainda quente
quando já entardecia.

Com as piruetas que faço
a escapar da solidão,
apareço um novo palhaço
aprendendo a profissão.

Com mil retalhos tristonhos,
que rasguei do coração,
fiz uma colcha de sonhos
e agasalhei a ilusão.

Depois do enxerto a coitada,
que quis o rosto alisar,
agora vive assustada…
Seu rosto só quer sentar!

Depois, que um dia, partiste
nesta rua só choveu.
Será que esta rua é triste
ou triste nela sou eu?

Disfarçando... Disfarçando...
o sol, malandro das horas,
vai aos poucos levantando
a saia azul das auroras.

Fico em silêncio e ouço os passos
de quem não vai mais chegar…
Então abraço os meus braços
e não paro de chorar.

Galanteios, que em verdade,
quis dizer-te ou ter escrito,
hoje, finda a mocidade,
sinto dor por não ter dito.

Laranjais de minha infância,
frutos que alegre colhi,
hoje olho para a distância
e choro porque cresci!

Levo na face enrugada
e na fronte embranquecida
a passagem, comprovada,
de que viajei pela vida.

Lindas flores de ilusão
dentro de vaso sem água
logo, logo murcharão
passando a chamar-se “mágoa”.

Maria partiu... Maria
que nunca disse a verdade
mas era, quando mentia,
bem melhor que esta saudade.

Meus olhos azuis se embaçam,
acabando por chorar,
quando meus braços se abraçam
por não ter quem abraçar.

Meus ternos sonhos de outrora,
hoje maduros demais,
despencam de hora em hora
dos ramos do nunca mais.

Minha vida é tão vazia
tão cheia de solidão
que a sombra que eu possuía
não mais me segue no chão.

Mistério tem o meu peito
que guarda com suavidade,
num espaço tão estreito,
a vida, o amor e a saudade.

Muitos recebem de graça
o bom vinho da alegria;
eu pago mas minha taça
a vida deixa vazia.

Não faça da despedida
um momento de revoltas;
o amor tem portas na vida
com chave de várias voltas.

Não fale, não diga nada,
aperte mais minha mão,
faça a promessa quebrada
não precisar de perdão.

Não vens... e, em tuas demoras,
na angústia das madrugadas,
o relógio bate as horas
e as horas dão gargalhadas.


Não vens há meses inteiros;
e enquanto conto as auroras
a tesoura dos ponteiros
lentamente corta as horas.

Nas noites de paz eterna,
vigiando a escuridão,
toda estrela é uma lanterna
que um anjo leva na mão!

Na velha praça, embalado
por lindo sonho vadio,
apalpo o banco a meu lado
mas meu lado está vazio.

Nem sempre o sorriso diz
se é mesmo contentamento.
Quando alguém não é feliz,
ser alegre é sofrimento.

No instante em que nossa prece
sobe a escada do infinito,
pela mesma escada desce
a paz que acalma o conflito.

O tempo em sua investida,
como sentença, suponho,
rouba-me um pouco da vida
e muito de cada sonho.

Para os que seguem sozinhos,
descalços e combalidos,
que importa ter mil caminhos
se todos são proibidos?

Partindo da meninice
é que o trem do tempo avança
e na estação da velhice
deixa saltar a esperança.

Partiste... já não te importas
que em nossa casa singela
a ventura feche as portas
e a saudade abra a janela.

Partiu a jangada airosa
Na praia ficou Maria,
pedindo, de alma ansiosa,
que ela volte ao fim do dia.

Pergunto frequentemente:
felicidade, onde estás?
Será que corres na frente
ou ficaste para trás?

Quando o passado é turista
no trem do meu coração,
a saudade é maquinista
e o meu peito uma estação.

Quanta ternura em agosto:
o vento que beija o ipê
vem também beijar meu rosto
depois de beijar você.

Que importa a nós dois o mundo
Que importa o lugar que vamos…
Nosso amor é tão profundo
que só de nós precisamos!

Ralhando com seus porquinhos
a porca, mãe exemplar,
vendo-os, assim, bem limpinhos…
- já pro barro se sujar !!!

Relógio, fique parado!
Não deixe o tempo passar…
Eu quero ser enganado
quando a velhice chegar!

Sabiá põe em seu canto
tal ternura que ao cantar,
mais parece um acalanto
para a alma cochilar.

Saudade... insônia que aspira
ouvir na calçada passos,
mesmo sendo outra mentira
a vir dormir nos meus braços.

Saudade! Não, não se cale
porque ante um circo aproveito
e deixo que ele se instale
no calçadão do meu peito!

Se é por um amor que choras
enxuga os olhos... Repara:
se o relógio pára as horas,
nem por isso a vida pára.

Se me deixas por vontade…
se vais para não voltar…
O que é que eu digo à saudade
amanhã, quando acordar?

Sem mesmo ter ido ao céu
já caminhei sobre a lua!
Foi um dia andando ao léu
pisando as poças da rua.

Sem ter com quem conversar,
o velhinho solitário
usa as mãos para rezar
conversando com o rosário.

Sentindo a luta perdida,
nos fracassos e derrotas,
abraço o circo da vida
para as minhas cambalhotas.

Solidão é chuva fina
que encharca o chão sem correr;
e às vezes faz que termina
mas... recomeça a chover.

Solidão é vento frio,
vento calmo mas gelado
deixa o meu peito vazio
e ainda dorme ao meu lado.

Sonhos meus... joias de outrora
qual ouro sem um quilate,
enferrujam na penhora
sem ter mais quem os resgate.

Também o céu triste estava
no momento em que eu partia:
não sei se o céu que chorava
ou dos meus olhos chovia!

Todo rio em sua andança
com mão de seda e desvelos
alisa, trança e destrança
da margem verde os cabelos.

Vejo ternuras pagãs
quando o sol, por entre os galhos,
cobre a nudez das manhãs
com seu lençol de retalhos.

Velhice... circo que a vida
armou no fim da ladeira,
de onde a solidão convida
para a sessão derradeira.

Viajando à sua maneira
no trem-de-ferro da vida,
juventude é passageira
com passagem só de ida.

Voltaste... voltaste, eu sei,
mas o encanto foi desfeito;
agora já repintei
as paredes do meu peito.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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