Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 11 de julho de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 187)




Uma Trova de Ponta Grossa/PR
JOSÉ CORREIA FRANCISCO

Dos tempos do nunca mais,
resta comigo a saudade
das lembranças imortais
dos tempos da mocidade.

Uma Trova Humorística, de Portugal
ANTONIO ALEIXO
(António Fernandes Aleixo)
Vila Real de Santo António (1899 — 1949) Loulé

Uma mosca sem valor
pousa com a mesma alegria,
na cabeça de um doutor
como em qualquer porcaria.

Uma Trova Premiada  no Rio de Janeiro/RJ, 2006
LUIZ GILBERTO DE BARROS (Rio de Janeiro)

De tanto voar sozinho
No rumo de alguma flor,
Meu coração passarinho
Fez ninho no teu amor.

Uma Trova de Ribeirão Preto/SP
NILTON MANOEL DE ANDRADE TEIXEIRA

Tu que zombas da Saudade
que me faz tanto sofrer,
pagarás tua maldade:
de saudade hás de morrer...

Uma Trova Hispânica de Porto Rico
NIMIA PINTO

En un grito de armonía
en honor a playas calmas,
yo llevo en la piel mía
los gozos, placer y almas.

Um Poema de Poços de Caldas/MG
LAÉRCIO BORSATO

Por quem sonha Ana Maria
(Sobre a canção homônima acima, de Juca Chaves)

Todas as noites mornas de verão,
Nos ares a canção se repetia.
É quase certo que a população,
Sabia de cor aquela melodia!

Passou-se o tempo, a monotonia
Substitui-se pelas luzes da razão;
A força do trabalho me exigia,
Menos lazer e mais dedicação...

A canção ficou no subconsciente.
Não se apagaram de minha mente,
Os acordes da sonora melodia.

A saudade mora nas notas suaves,
Na voz e no violão de Juca Chaves:
POR QUEM SONHA ANA MARIA
!...
Trovadores que deixaram Saudades
JORGE MURAD
Guanabara/RJ (1910 – 1998)

Só porque falo sozinho
chamam-me louco, - maldade!
é que eu converso baixinho
quando falo com a saudade...

Um Poema da Alemanha
WALTER BENJAMIM
(1892 - 1940)

A Mão que a Seu Amigo Hesita em Dar-se

Perguntaste se eu amo o meu amigo?
como rompendo um demorado açude
na tua voz quis hausto que transmude
todo o cristal dos ímpetos consigo

Neste meu choro enevoado abrigo
pôs-me a palavra o peito em alaúde
que uma doce pergunta tua ajude
no sim furtivo que eu levei comigo

Mas a meu lábio lento em confessar-se
um mestre inda melhor o cunharia
A mão que a seu amigo hesita em dar-se

ele a tomou o que mais firme a guia
para que ao coração secreto amando
ao mundo todo em rimas o vá dando.

(Tradução de Vasco Graça Moura)

Teia de Trovas sobre Alcoolismo, de Mogi Guaçu/SP
OLIVALDO JUNIOR

Ao chegar da rua, tarde,
quando o bar fechou as portas,
o marido, sem alarde,
cruza a sala em linhas tortas.

Todo filho sente medo
se do uísque a mãe abusa:
uma dose, vão segredo,
nunca é "fonte de recusa".

Nos Alcoólicos Anônimos,
um senhor se pronuncia:
seus soluços são sinônimos
de quem, só, se silencia.

Quando a lua verte luz,
a mulher oculta o rosto:
entre copos, sua "cruz"
é levada a contragosto.

Juventude se embriaga
nas esquinas do caminho;
logo após, ainda vaga,
fica a alma, em desalinho.
Uma Lengalenga de Portugal

O Tempo

Esta lengalenga, repleto de significado, é também um “trava-línguas” – texto feito de modo a dificultar a dicção do mesmo. É suposto ser dito rapidamente.

O tempo perguntou ao tempo
Quanto tempo o tempo tem.
O tempo respondeu ao tempo
Que o tempo tem tanto tempo
Quanto tempo o tempo tem.


Teia de Trovas, de Fortaleza/CE
NEMÉSIO PRATA

"Café" da madrugada!

É noite, e a brisa do sono
sopra, mansa e sorrateira;
em seus braços me abandono,
enroscado, a noite inteira!

Antes do quebrar da barra,
ao canto do caboré,
sussurrando, ela me agarra,
dizendo: hora do café!

Despertando, reparei 
a "louça" já preparada
em nossa cama, e tomei
o "Café" da madrugada!

Um Triverso de Londrina/PR
DOMINGOS PELLEGRINI

Tantas vezes fiz
este mesmo trajeto
nunca foi o mesmo

Um Poema Premiado no Concurso de Poesia Gauchesca Jayme Caetano Braun, 2014
IALMAR PIO SCHNEIDER (Porto Alegre/RS)

Petiço zaino de aprendiz de tropeiro

Velho petiço que eu tive
nos meus tempos de guri,
hoje eu me lembro de ti
e vou sentindo saudade,
esta mágoa sem idade
que sempre nos acompanha,
pois não se afoga com canha
e nem o fogo destrói
porque quanto mais nos dói
menos sentimos a sanha.

E vou recordando agora
quando te punha o lombilho
e meio saco de milho
numa mala de garupa,
depois saía num upa
rumo ao moinho do rincão
donde eu trazia então
a farinha pra polenta
o que tanto nos sustenta
e até dá pra fazer pão.

Não esqueço nunca mais
daquele petiço manso
que nunca teve descanso
e foi o meu companheiro,
quando aprendiz de tropeiro
adquiria experiência
de tudo quanto a existência
vai tramando com enleios,
velho amigo de rodeios
na minha xucra querência!

E depois vim pra cidade
viver no meio do povo,
pensando em ti me comovo,
pois sinto barbaridade,
uma dor que o peito invade
e me vai tomando conta,
como quem anda de ponta
com o destino caborteiro
que nos leva no entrevero
e tanta vez nos afronta.

Eras o orgulho que eu tinha
quando em manhãs de domingo
no meio de tanto gringo,
eu ia assistir à missa.
Troteavas sem preguiça
no teu maior otimismo
me levando ao catecismo
onde a gente se prepara
pra ter vergonha na cara,
não praticar banditismo.

Sempre foste meu amigo,
onde andasse bem ou mal,
até que a sina fatal
nos separou de repente.
Numa tarde de sol quente,
deixando o pago pra trás
me despedi de meus pais
e vim morar por aqui;
depois, nunca mais te vi,
nem me viste nunca mais!...

Recordando Velhas Canções
LAMARTINE BABO E FRANCISCO MATOSO

Eu sonhei que tu estavas tão linda
(valsa, 1941)

Eu sonhei que tu estavas tão linda
Numa festa de raro esplendor
Teu vestido de baile lembro ainda
Era branco, todo branco, meu amor
A orquestra tocou uma valsa dolente
Tomei-te aos braços
Fomos dançando
Ambos silentes
E os pares que rodeavam entre nós
Diziam coisas
Trocavam juras
A meia voz
Violinos enchiam o ar de emoções
De mil desejos uma centena de corações
Pra despertar teu ciúme
Tentei flertar alguém
Mas tu não flertaste ninguém
Olhavas só para mim
Vitória de amor cantei
Mas foi tudo um sonho... acordei!

Uma Sextilha Agalopada de São Simão/SP
THALMA TAVARES

Eu feri minhas mãos colhendo rosas, 
mas valeu a alegria de colhê-las,
de aspirar seu perfume delicado
e à mulher bem amada oferecê-las...
Ver depois, em seus olhos, a alegria
e na luz desses olhos, as estrelas.

Um Poema de Portugal
ARY DOS SANTOS

Estigma

Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.

Uma Cantiga Infantil de Roda

CADÊ?

Cadê o toucinho que tava aqui?
O gato comeu.
Cadê o gato?
Foi pro mato.
Cadê o mato?
O fogo queimou.
Cadê o fogo?
A água apagou.
Cadê a água?
O boi bebeu.
Cadê o boi?
Tá amassando o trigo.
Cadê o trigo?
A galinha ciscou.
Cadê a galinha?
Tá botando o ovo.
Cadê o ovo?
O padre comeu.
Cadê o padre?
Tá rezando a missa.
Cadê a missa?
Tá dentro do livrinho.
Cadê o livrinho?
Foi pelo rio abaixo.
Vamos procurar o livrinho?

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
(1901 – 1964)

Dia de chuva

As espumas desmanchadas
sobem-me pela janela,
correndo em jogos selvagens
de corça e estrela.

Pastam nuvens no ar cinzento:
bois aéreos, calmos, tristes,
que lavram esquecimento.

Velhos telhados limosos
cobrem palavras, armários,
enfermidades, heroísmos...

quem passa é como um funâmbulo,
equilibrado na lama,
metendo os pés por abismos...

Dia tão sem claridade!
só se conhece que existes
pelo pulso dos relógios...

Se um morto agora chegasse
àquela porta, e batesse,
com um guarda-chuva escorrendo,
e com limo pela face,
ali ficasse batendo

- ali ficasse batendo
àquela porta esquecida
sua mão de eternidade...

Tão frenético anda o mar
que não se ouviria o morto
bater à porta e chamar...

E o pobre ali ficaria
como debaixo da terra,
exposto à surdez do dia.

Pastam nuvens no ar cinzento.
Bois aéreos que trabalham
no arado do esquecimento.

Um Poema de São Paulo
FRANCISCA JÚLIA
Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP (1871 - 1920) São Paulo/SP

Noturno

Pesa o silêncio sobre a terra. Por extenso
Caminho, passo a passo, o cortejo funéreo
Se arrasta em direção ao negro cemitério...
À frente, um vulto agita a caçoula do incenso.

E o cortejo caminha. Os cantos do saltério
Ouvem-se. O morto vai numa rede suspenso;
Uma mulher enxuga as lágrimas ao lenço;
Chora no ar o rumor de misticismo aéreo.

Uma ave canta; o vento acorda. A ampla mortalha
Da noite se ilumina ao resplendor da lua...
Uma estrige soluça; a folhagem farfalha.

E enquanto paira no ar esse rumor das calmas
Noites, acima dele, em silêncio, flutua
O lausperene mudo e súplice das almas.

Quadras Populares de Minas Gerais
Região do Oeste de Minas (Estrela do Indaiá)

Você diz que bala mata,
bala não mata ninguém.
A bala só mata a gente
quando a gente estima alguém.

Você diz que vai, que vai,
e não leva eu também.
Esta é sua ingratidão,
não é de quem quer bem.

Roco-teco tererê,
roco-teco tererá,
minha barba pegou fogo,
meu bigode quer queimar.

Eu joguei o jacu n’água
e o jacu n’água morreu.
E fiquei admirado
de ver as voltas que o jacu deu.

Debaixo da malva-rosa
sentamos e conversamos;
se houver algum transtorno,
somos solteiros e casamos.

Sobre a Canção “Eu sonhei que tu estavas tão linda“
Admirador da opereta, Lamartine Babo teria por certo se dedicado ao gênero se houvesse nascido na Europa no século XIX. Daí a presença, em sua obra, de composições como "Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda", que ele pretendia incluir numa opereta inacabada, intitulada "Viva o Amor". Compositor e letrista, como Lamartine, Francisco Matoso é o autor da bela melodia desta valsa.
Segundo Almirante, Matoso mostrou-a, ainda sem letra, a Lamartine, que se apaixonou pela canção. Convidado a concluí-la, modificou algumas notas, como era de seu feitio, e colocou uma letra tão adequada que a composição ficou parecendo ser de autoria de uma só pessoa. "Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda" foi lançada por Francisco Alves em outubro de 41. Na ocasião, Matoso se encontrava bastante enfermo (morreria em 14.12.41, aos 28 anos de idade), não chegando a conhecer o seu sucesso. (Fonte: http://cifrantiga3.blogspot.com.br/2006/04/eu-sonhei-que-tu-estavas-to-linda.html)
Trovador Destaque
       

A beleza da mulher
tem aura de alacridade…
Como a flor, um bem-me-quer,
inspira a fidelidade!
      
 “Água mole em pedra dura”
   – No ditado popular…
  “Tanto bate até que fura”,
  não se tem o que negar!
   
   A minha trova é silente,
    toda de luz e calor…
 Ponho na rima meu poente,
   meu universo de amor!
    
  “A moda não incomoda”
 clama incauta a sociedade...
 Enquanto isso corre a roda
   e se esvai a probidade!
   
    Amor à primeira vista,
   das loucuras a maior…
  Nos abaixa muito a crista
  e nos cega, o que é pior!

“Amor com amor se paga”,
 que emotiva sensação…
No coração sempre há vaga,
  pra atender esse refrão!
  
   A silhueta do Pinheiro
é expressão de elegância…
Tão bela como um cruzeiro,
  se destaca na distância!
  
A Trova boa, sentida,
fluindo com emoção…
 É como a prece florida
  que brota do coração!
   
A Trova não morre nunca,
Retempera a humanidade
e vence a tristeza adunca,
 alegrando a mocidade!
  
  A Trova que tem valor
 é muito simples, singela…
 E diz um mundo de amor,
com tintas de uma aquarela!

Aves grandes e pequenas,
  de refulgentes roupagens...
 Cores que vão às centenas,
 celebrizando as plumagens!
 
Borboletas, aves, flores,
 que bem nutrem os florais...
  Dão contornos às silhuetas
   Dos esbeltos pinheirais!
    
Cada página da vida,
Faz lembrar um grande amor...
É você, minha querida,
  a que guardo com fervor!
   
Cai a tarde, fico triste,
pressuroso como o quê...
O coração não resiste
a saudade de você!
      
   Com garra de trovador,
vou seguindo meus caminhos...
Venturoso e com amor,
  num roseiral sem espinhos!
 
 Coração que ama não chora
males que afligem a gente;
 exalta e nunca deplora
  a mágoa dura, pungente!

Curitiba é chão de amores,
  toda feita de candura…
 O seu perfume é de flores,
 Deus namora lá na Altura!
 
 Das rosas do meu jardim,
 Maria sempre a mais bela...
perfuma mais que o jasmim,
 que floresce em torno dela!

 “Devagar se vai ao longe”,
 mas, não parar é preciso...
Usar a calma de um monge,
  a cautela e o bom juízo!
  
 Disse adeus à virgindade,
 optou, em seus dilemas...
Quis amar com pouca idade:
 – Está cheia de problemas!

  Dizem “espeto de pau”
  para a casa do ferreiro...
Que enriquece o seu mingau,
 tendo “prata” o ano inteiro!
 
   E no afã da economia,
 “Barato sempre sai caro”...
  Pãodurismo, que mania,
 só nos leva ao desamparo!

E “Quem planta vento colhe
   tempestade" pela vida...
  Se aniquila qual um molhe
   que perdeu sua medida!
    
  Eu sinto as trovas nas veias,
  meu sangue todo alvoroço…
  Verso me envolve nas teias,
   meu coração é de moço!
    
 Há exceção em toda a regra,
      o sistema é flexível…
Pois, que a vida assim se alegra,
   nada ficando impossível!
    
 “Mais vale quem Deus ajuda”
   na vertigem da semana...
 “Do que quem cedo madruga”
 sempre queimando a pestana!
 
Melhor fora não amar,
não ficaria à mercê...
Não seria mais vulgar,
de pensar tanto em você!
   
    Meu coração é valente,
não chora o mal que me fez...
E diz que bem de repente,
termina a sua altivez!
 
Minhas trovas são pingentes,
   incrustadas no aranhol…
    São idéias imanentes,
   lindas gemas sob o sol.
    
   Na limpeza e na saúde,
  os sucessos dessa lida…
   Valorizam certo, amiúde,
    as asperezas da vida!
     
  Não cantes loas ao Chefe,
  sofrerás qual um proscrito,
    levarás um tal tabefe,
   pois, assim está escrito!
    
  Nossa marca é o Pinheiro,
  soberano sobre a mata…
   É esbelto, sobranceiro,
  seu murmúrio uma sonata!
  
  O bem não dura sem fim,
como o mal também não dura…
    Então, vivamos assim,
  na amizade e na brandura!
  
    O teu sorriso menina
  é feiticeiro demais...
   Tão forte qual vitamina,
 muito alvoroça meus ais!

Página triste da vida,
não se guarda na lembrança...
Sim, aquela bem querida,
que nos trouxe a esperança!
 
    Para fazer boa trova,
  verso puro que se integra,
  cuide a rima, como prova,
   e respeite bem a regra!
    
   “Para quem ama o feio
     o bonito lhe parece”...
   Por bondade é galanteio,
   com nobreza é uma prece!
  
  “Para um bom entendedor,
   só meia palavra basta”...
   Para ele um grã-louvor,
por ter compreensão bem vasta!

 Poeta diz sempre o que quer,
na verdade ou de impulsão...
 Tenho certeza e assim penso,
com você e sem vaidade!
 
Por trovador, eu me esmero,
   no rito de bem compor…
 Nas minhas trovas sou mero,
  puro instrumento do amor!
  
   Pra você vencer na vida,
  ter vitória assim perfeita…
   Leve a sério a sua lida,
   esta é a melhor receita!
    
Quando a gente ama não sente,
  o mal que fazem prá nós
 Escondemos d' alma silente,
   num secreto albornoz!
     
“Quem espera sempre alcança”,
   é hoje outra a verdade…
   Quem espera só se cansa
   e perde a oportunidade!
    
 Quem falou que a trova é dura,
 sem valor, um tanto azeda?…
  Pois que certa ela perdura,
   se consagra de vereda!
    
 Quem tem estro e tem cultura
    e se inclina à poesia,
   vai na Trova com lisura,
  cheio de graça e estesia!

 Que reluz nem sempre é ouro,
 que cai nem sempre balança…
  Por isso, chega de agouro,
  não percamos a confiança!
   
  Sempre no pequeno frasco
 é que está a grande essência…
   E a Trova traz no casco,
     o rigor dessa exigência!
     
  Sempre “o santo desconfia
quando a esmola é por demais”...
 Refinada hipocrisia,
    a ilustrar nossos anais!
     
 Sempre que nos cessa a calma,
    falta-nos a educação…
   A rudeza nos fere a alma,
     martiriza o coração!
       
    Sete sílabas por cima
com idéia sempre nova,
e cadência, boa rima,
numa quadra…a bela Trova!
  
    Sou trovador e entendo
   a rima, em forma de flor…
   E tal qual um reverendo,
    só rezo trovas de amor.

Sou trovador sem remendo,
   o verso meu é de cor…
 Vou com assombro dizendo
 as minhas trovas de amor!
 
 Sou trovador, tenho senso
 da importância da poesia:
 Encerra tudo o que penso,
realidade e fantasia.
    
Sou trovador venturoso,
conheço desse fulgor…
Trovar de modo charmoso
sobre a mulher, com sabor!

Trova tem aura dileta,
enebria o pensamento…
É magia do poeta,
arroubo do seu talento!
   
Trova tem sabedoria,
é tão fértil como a terra…
Bons conceitos ela cria,
pelas verdades que encerra!

Trovas são um doce encanto,
delicadas por demais…
Nelas vibro, com espanto,
no calor dos meus florais.

Uma Trova de cadência,
conteúdo e expressão…
Precisa de inteligência
e muita reflexão!
    
Uma Trova…um belo tema,
Pra dizer o que se quer;
Quando o poeta é bom, da gema,
Inspira-se…na mulher!
     
Você quer boa saúde,
com perfeita digestão?…
Mastigar bem, é virtude,
esta a nossa sugestão!
     
Vale mais do que um troféu.
é letra favorita,
DECISIVA e dá apogeu;
Valoriza toda escrita,

O NOSSO ALFABETO EM TROVAS

A na ordem é a primeira
do ALFABETO, original;
tem presença costumeira,
vai num texto sem igual.

B se mostra importante,
dentre as letras principais;
BRASIL a leva confiante,
é o país dos mananciais.

C tem ritmo completo,
colorindo o seu CÉU;
se sublima, som dileto,
vale mais do que um troféu.

D é letra favorita,
DECISIVA e dá apogeu;
valoriza toda escrita,
replicando: estou no meu.

E é letra da ESPERANÇA,
enriquece o fraseado;
e o sentido, de antemão,
fica firme e bem postado.

F é uma letra mágica,
que impressiona de saída;
FORTALECE a trova sáfica
e as demais, a toda brida.

G está em geralmente,
tem GRANDEZA, é muito usada;
é importante integralmente
sua presença numa toada.

H mostra ter talento,
vem no nome de HEITOR;
o seu som é de acalento,
sustentando o seu valor.

I é aquela letra base,
que INSPIRA muito afeto;
se impõe em qualquer frase,
é destaque no alfabeto.

J brilha em toda linha,
joga o JOGO na jogada,
tem sua verve, sempre tinha,
no alfabeto é a bem bolada.

K é letra motivada
é de uso bem correto;
em KARDEC é badalada,
mas sacaram do alfabeto.

L vai em LIBERDADE,
é o que todo mundo quer;
sendo letra sem vaidade,
o servir é seu mister.

M tem a sua marca,
de letra sublimação;
em MARIA bem abarca
o sentido da oração.

N nunca desfalece,
lembrando a NATIVIDADE,
calorosa como a prece,
é uma letra de verdade.

O é letra sintonia,
OPULENTA como o Sol;
muito pura, sem mania,
se repete em rouxinol.

P dispensa comentário,
letra forte do PERDÃO;
se mantém no itinerário
do alfabeto, é bridão.

Q garante o rijo som,
é QUERIDA em qualquer texto,
na poesia dá seu tom,
na palavra é cabresto.

R é letra principal,
ao ROSÁRIO dá estesia;
tem um som monumental,
flui no texto e na poesia.

S é um tanto sibilante,
SILVA a torto e a direito;
mas, mantem-se firme e estuante:
é uma letra de respeito.

T é uma letra ponderável.
que TEMPERA nossa língua;
seu emprego é inumerável
e o pensar não fica à míngua.

U vogal maravilhosa
é de UNIÃO e de argumento;
se diz muito caudalosa,
na palavra é um sustento.

V tem som inimitável,
ajuda muito no verso;
em VITÓRIA é bem notável
nos idiomas do universo.

W tem a sua saga,
é rejeitada por muitos;
em WESTPHALEN afaga,
da tradição, os seus mitos.

X é a base do problema
no mundo da Matemática;
em XANGÔ é um emblema
de influência carismática.

Y era antiga
letra assim convencional;
na YOGA é muito amiga,
com seu talhe bem sensual.

Z é a letra derradeira,
de nosso falar gentil;
ZODIACAL, é uma bandeira
no idioma do Brasil!…


Falar da portentosa literatura em verso e prosa da professora e escritora premiada Dorotthy Jansson Moretti, é entrar numa praia vasta de tantos sóis, auroras e crepúsculos, prelúdios e paletas que os próprios méritos curriculares dela já endossam literalmente como doces memórias de um tempo chamado longe, lembrança de momentos, pessoas, alegranças e lugares... (Silas Correa Leite)

Prefácio do Livro por Vanda Fagundes Queiroz (Curitiba/PR)
Quem teve ou tem oportunidade de ler o “FANAL” (periódico editado pela Casa do Poeta “Lampião de Gás” de São Paulo) há de concordar que é sempre prazeroso ali encontrar, entre outras colaborações, um soneto de Dorothy Jansson Moretti. Seu trabalho, inconfundível, destaca-se pela delicadeza que assinala o seu estilo. Pois bem, os belos sonetos da meiga Dorothy, ela agora os reúne, para brindar-nos com esta obra de inestimável valor poético: “FOLHAS ESPARSAS”.
Um livro de sonetos, sim. Muito bem. Numa época em que tantos adeptos da modernidade desdouram as formas da literatura clássica, aí está mais uma comprovação de como a poesia existe. Mais ainda: existe, insiste, resiste. Não se sujeita a escrúpulos nem a modismos. Livre e suficiente, ela se realiza a partir de um acordo intangível entre a impressãoe a expressão. O soneto constitui uma das diferentes modalidades disponíveis a esta sublime realização. Sua forma fixa permanece viva,como um dos mais belos e apropriados moldes a que se ajuste a arte poética.
Compor um soneto é difícil. Mesmo por isso, torna-se gratificante reconhecer alguns bons sonetistas na atualidade. Eis uma preciosa amostra condensada nesta obra. Ocorre-me dizer que as “folhas esparsas” se enfeixam, harmoniosamente,tal como um buquê... de “flores reunidas. A visão do conjunto vem agora favorecer um alcance mais abrangente do talento da autora. O arranjo formal, estruturado em decassílabos ou alexandrinos, acolhe com muita propriedade a força do pensar e do sentir. A composição se concretiza, ao mesmo tempo, com versatilidade e coerência, variedade e constância.
Terra e infinito. Fantasia e razão. Particular e universal. Natureza e cultura. Dor e sublimação. Na poesia melodiosa de Dorothy, os contrastes equilibram-se, descortinando um mundo através de uma ótica condescendente, de uma simplicidade sem ambições, como bem compete a uma alma nobre, elevada, superior. Sem qualquer afetação pomposa e sem efusões exageradas, os sonhos libertam-se e alcançam infinitos...
Permita-se ao leitor o direito de sentir, ele próprio, o perfume das “folhas esparsas” (ou seriam “flores reunidas”?)... A súmula do esplêndido e variado conteúdo da obra,m a própria autora oferece – sem o perceber, talvez – no fecho de um dos seus sonetos (“Sombras”):
“(...) entre um raio de sol e a sombra escura
não há mais que uma nuvem passageira”.

Amostra de soneto da autora:

Mãos vazias

Eu não quero partir de mãos vazias
quando o fim já se houver aproximado
não as quero sentir, febris ou frias,
estendidas sem nada ter levado.

Eu não quero chegar de mãos vazias
ao limiar de outro mundo, noutro lado,
sem o fruto que a searas tão tardias,
pelo avanço do tempo, foi negado.

Eu bem sei que esse fim já não demora...
talvez hoje... amanhã... talvez agora...
e estas mãos a penderam vãs e alheias...

Se as deixei tanto tempo ao ócio fútil,
de que vale o remorso tardo e inútil
com que agora, afinal, as sinto cheias?!

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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