Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 17 de julho de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 192)




Uma Trova de Ponta Grossa/PR
ANITA THOMAZ FOLMAN

O Pinheiro mais parece
lá no fundo do sertão
um colono em triste prece
pedindo a Deus proteção.

Uma Trova de Saquarema/RJ
JOÃO COSTA

O machado, a motosserra,
a ganância desmedida...
É o fim da verde na Terra,
é o extermínio da vida!

Uma Trova Humorística, de São Gonçalo/RJ
JANE PIRES PALUMA

Desmaiou em plena missa
o padre da freguesia,
quando viu tanta cobiça
no decote da Maria...

Uma Trova Premiada  em Cantagalo/RJ, 2012
ÉLBEA PRISCILA DE SOUZA (Caçapava/SP)

A maquiagem pesada,
diante do espelho, desfaço
e em minha cara lavada
rugas brigam por espaço…

Uma Trova do Rio de Janeiro
EDMAR JAPIASSÚ MAIA

Zarpei, em hora furtiva,
no meu barco de emoções...
E hoje navego,  à deriva,
o mar das desilusões!

Um Poema de Curitiba/PR
CELITO MEDEIROS

Eu juro

Que importam os riscos que vou correr
Afinal sabemos que não vamos morrer
Mas é melhor riscos se poder arriscar
Do que riscar a morte sem poder amar.

Se de risadas é parecer um tolo
Se chorar parecer sentimental
Estendo minha mão e me envolvo
Vou mostrar que sou muito real.

Minhas idéias defendo sempre
Pois eu sei que atrás vem gente
Mesmo incompreendido vou amar
Ainda é tempo de também inovar.

Morrer um corpo não é mistério
Viver como espírito é o importante
Um corpo pode ir para o cemitério
Um espírito é o meu comprovante.

Se arriscar pode gerar um fracasso
Não me importo sou mesmo de aço
Estou aqui é para as experiências
Buscar as mais novas tendências.

Busquei a liberdade e já era tempo
Tudo do passado fazer na soma
Opressão que não mais aguento
Meu determinismo que assoma.

Importante é lutar, vencer nem tanto,
Encontrei há tempo meu porto seguro
Juntos seremos cobertos pelo manto
Daqueles que nos esperam..., eu juro!

Uma Trova Hispânica, da Venezuela
ANGELA DESIRÉE PALACIOS

Te quiero siempre a mi lado
te quiero con el rocío,
te quiero porque me has dado
cobijo para mi frío...

Um Poema dos Estados Unidos
WILLIAM CARLOS WILLIAMS
(1883 – 1963)

Os pobres

A anarquia da pobreza é
o que mais me encanta, a velha
casa amarela de tábuas sobrepostas
entre os novos edifícios de tijolos

Ou um balcão de ferro forjado
com grades que parecem frondosos
ramos de carvalho. Tudo isso combina
com a roupa das crianças

refletindo todos os graus e
formas de necessidade –
Chaminés, telhados, cercas de
madeira e metal numa época

sem barreiras que não delimitam
nada: o velho
de camisola e chapéu preto
a varrer a calçada –

os três metros que lhe pertencem
no meio do vento que caprichosamente
dá a volta à sua esquina
depois de varrer toda a cidade

(tradução: José Agostinho Baptista)

Trovadores que deixaram Saudades
ÁLVARES DE AZEVEDO
(Manuel Antônio Álvares de Azevedo)
São Paulo (1831 – 1852) Rio de Janeiro

Amemos! Quero de amor
viver no teu coração,
sofrer e amar essa dor
que desmaia de paixão !

Um Poema de Guaraci/PR
FÁTIMA ROGÉRIO

Menino de Rua

Oi, moço! Quero lhe falar.
Por que me evitas?…
Sou criança!
Teria que ser esperança
pois isto está escrito.

Não se desvie de mim.
Quero apenas conversar.
Não sei onde estão meus pais,
e ninguém quer me ajudar.

Estou nesta calçada já faz um tempo.
Vi meu irmão morrer,
nas mãos de pessoas malvadas.
Mas eu quero viver!

Me ouça e me dê uma chance!
Me ajude a sair daqui.
O sofrimento é muito grande
e eu não tenho pra onde ir.

As pessoas me cospem e me xingam.
Os carros me jogam lama.
Eu queria, moço, uma família,
um prato de comida e uma cama.

Às vezes me oferecem drogas.
Eu não queria, mas acabo aceitando.
Ela me faz adormecer,
e minha dor se vai, aliviando.

Me ajude, moço, a sair daqui!
Por favor, eu não sou mau!
Vejo sua família feliz,
eu só queria ter uma igual.

Se me ajudar e cuidar de mim,
muito grato serei a ti
e pedirei todo dia a Papai do Céu
que cuide de você e de sua família.

Pra que nunca precisem ver
o que é rua de verdade,
e que nunca precisem viver,
esta dolorosa realidade.

Obrigado, moço,
por me ouvir!

Um Poema de Minas Gerais
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG (1902 - 1987) Rio de Janeiro/RJ

Parolagem da vida

Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nuda.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!

Uma Trova sobre Queimada de Porto Alegre/RS
DELCY R. CANALLES

Meio Ambiente agredido...
Fauna e Flora dizimadas...
E o mundo chora sentido
a tristeza das queimadas!

Um Poema de Balneário Camboriú/SC
ELIANA RUIZ JIMENEZ

Fossa

Sai dessa fossa, menina
Que isso não tem remédio
O que está feito é passado
E o passado só leva ao tédio.

Se as coisas dão errado
Se a sorte te despreza
Não fuja, não vá de lado
Vá em frente que não pesa.

Sai dessa fossa, menina
Que chorar não adianta não
A vida tem dessas mesmo
Mas chorar não é solução.

Deixe de caminhar a esmo
Pare de se sentir errada
As coisas acontecem para o bem
Não há mal que resulte em nada.

Existe um horizonte além
Dos conflitos do dia-a-dia
Sai dessa fossa, menina
Olhe em frente e sorria!

Um Haicai de São Paulo/SP
CARLOS SEABRA

chuva lá fora –
os pássaros, molhados,
foram embora

Um Poema de Floriana/Malta
OLIVER FRIGGIERI
(1947)

Uma Estrofe sem Titulo

Dá-me as palavras de teus olhos, a noite escreve
Uma estrofe purpúrea sobre teu bonito rosto,
Brilha o orvalho, tuas bochechas um branco universo
De onde nada dá um passo descalço sem dor,
Toca estas mãos e sente o despedaçado coração
E nota o sangue quente, o pranto solene.
Pomba, não voes distante  come de minhas mãos,
Este é o grão que não mata, água pura.
Monótono o sino que dá a hora
Para que te vás desta janela entreaberta
Por mim para ti, monótono o suspiro
Gravado como ilusão que vem e vai.
Não voes distante, e digas comigo esta oração:
“Há raios de luz de lanterna enfocados em mim,
Há uma humilde estrela que brilha só para mim,
Há uma flor selvagem que se abre em meu peito,
Há uma chama de vela vacilante só para mim.”

(tradução: José Feldman)

Recordando Velhas Canções
ROBERTO MARTINS E MÁRIO ROSSI

Dorme que eu velo por ti
(valsa, 1942)

Nos sonhos meus eu criei a canção
De um amor que perdi sem razão
A flor que nasceu
Floriu e morreu
No triste jardim
Do meu coração

Dorme que eu velo por ti
Sob o véu muito azul do céu
Sonha que eu quero beijar
O luar do teu olhar

Dorme que eu velo por ti
A sofrer sem rancor
E morrerei, se ela ao meu sonho
Pedindo um pouquinho de amor, amor

Um Poema de Moçambique
ANTÓNIO SILVA GRAÇA

Fusão das Liturgias

Fusão física de cores
que recolho em fios de luz.
Luz suspensa na noite,
instante caído de uma pétala.

 Leio as nuvens e reparo
que o léxico celeste confere
uma vontade sólida.

Na solidez deste dia
vou separando as águas da minha mitologia
das outras que retornam, serenas.
As horas são agora
modelos equilibrados
da organização do tempo.

 E os dias,
revoltas de uma qualidade sóbria.
A luz deixou de ser de bronze
para ser um fio dolente
iluminando com minúcia cada hora.

 No cadinho liso do silêncio
fundo liturgias.

Uma Cantiga Infantil de Roda

FESTA DOS INSETOS

A pulga e o percevejo
Fizeram combinação.
Fizeram serenata
Debaixo do meu colchão.

Torce, retorce,
Procuro mas não vejo
Não sei se era a pulga
Ou se era o percevejo

A Pulga toca flauta,
O Percevejo violão;
E o danado do Piolho
Também toca rabecão.

Torce, retorce,
Procuro mas não vejo
Não sei se era a pulga
Ou se era o percevejo

A Pulga mora em cima,
O Percevejo mora ao lado.
O danado do Piolho
Também tem o seu sobrado.

Torce, retorce,
Procuro mas não vejo
Não sei se era a pulga
Ou se era o percevejo

Lá vem dona pulga,
Vestidinha de balão,
Dando o braço ao piolho
Na entrada do salão.

Um Poema de Portugal
EUGÉNIO DE ANDRADE
Castelo Branco (1923 – 2005) Porto

A boca

A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?

Um Soneto de Taubaté/SP
NOEMISE DE FRANÇA CARVALHO

Lua Cheia

À noite, ao chegar a lua cheia,
eu penso ser o mundo pequenino,
se imensa escuridão ela clareia,
apenas, com seu rosto cristalino,

e se a doce madrugada devaneia,
ouvindo de tão longe a voz de um sino,
a lua espera o sol, que serpenteia
nas luzes do arrebol, olhar divino…

Ó lua cheia em ninhos de plumagem
das nuvens, sonolentas, na voragem
de sonhos, com seus versos de poetas!

Ao ver-te dos vitrais de minha vida,
só chego a ti, se houver a despedida
das mortas ilusões em dores quietas.

Uma Sextilha de Pombal/PB
LEANDRO GOMES DE BARROS

Meus versos inda são do tempo
Que as coisas eram de graça:
Pano medido por vara,
Terra medida por braça,
E um cabelo da barba
Era uma letra na praça.

Trovador Destaque


A noite calada e escura
que silencia meu pranto,
revela toda a amargura
na falta de teu encanto.

A vida com seus mistérios
mostra-nos e muito bem
que, no Poder homens sérios,
são sérios se lhes convém.

Bom de boca, o Zé Boquinha,
sustenta toda a família…
Aqui… emprego não tinha!
vira-se bem em Brasília.

Canta o galo, nasce o dia!
do chão da praça o sem nome,
põe num canto a moradia,
para lutar contra a fome.

Casa velha, quanto encanto!
tem cobras, cupins, lagartos…
uma história em cada canto
e fantasmas pelos quartos.

Cavalgando sem rodeios
por galáxias estreladas,
o poeta, em seus anseios
tece trovas requintadas.

Com esse salário de fome…
sem ver a cor do dinheiro,
pobre, nem papel consome…
Fazer o que no banheiro.

Com meu freezer sem nadinha,
vou amargando o rosário;
Quem come pão com farinha
sabe o que vale o salário.

Conduzindo arma sem porte,
foi detido o valentão,
que, da praia, por esporte,
vinha abraçando um canhão.

Corre-se tanto, mas tanto,
pelo pódio e sua glória
que, o enfim é o fúnebre pranto,
de um troféu ao fim da história!

Depois dos cinqüenta, creio,
tudo é lucro e coerência;
homem que não faz rodeio,
sabe o que vale a existência.

Depois que a polícia veio
acabou todo o mistério;
Gemidos (que eram de dois)
sumiram do cemitério.

Deriva, momento incerto,
em que a vida segue a esmo,
mas quem vai de peito
vence a tudo, até a si  mesmo .

Dia da árvore, na escola,
faz-se festa às derrubadas;
a folhagem, sempre amola
sujando pátio e calçadas.

Do homem a pior desgraça
é casar com mulher burra;
a vida todinha passa,
na pior, de surra em surra.

Do jeito que a coisa vai
em tudo se põe durex…
pobre, sem panela sai
pra comer de marmitex.

Dos meus sonhos eu bendigo
as passadas frustrações;
Hoje é mais puro o meu trigo
sendo humilde nas ações.

Em férias, certo doutor,
ganha auréola de moleque,
quando perde sua cor,
no exagero de um pileque.

Enfim dono dos saberes
da vida, em música e dança,
concluo que, o fim dos seres
é o limite da esperança.

Fez-se pai o jornalista
e, uma ideia lhe desfralda:
- Batiza a filha, o egoísta,
com o nome de… Jornalda!

Florestas? – Quero espigões!
e a fauna toda enjaulada!
… e a moda de altos portões,
esconde a noite estrelada.

Fortaleza é o pobre honesto
ante as tentações da vida;
Quem planta,colhe e de resto
deixa a rota mais florida.

Gostava tanto de pão,
que casou com o Zé da Massa;
coitada vive na mão,
sempre só triste e sem graça.

Homem é o que sabe ser
companheiro, amigo e irmão;
Quem preza o Bem, sabe ter
da vida toda a emoção.

Homem maduro tem força;
firme, enfrenta ondas e ventos…
por mais que os anos lhe torça,
jamais perde os bons momentos.

Indo por outros caminhos
neste mundo, às vezes rude,
vou fugindo dos espinhos
pois, das mulheres, não pude!

Leia a sorte, meu senhor!
-Que sorte tenho cigana?
mãos de pobre professor
vive sem linhas e  grana.

Meu filho só dá trabalho…
diz, na escola, o pai irado!
e o mestre olhando o pirralho…
por isto estou empregado!

Meu pai, exemplo perfeito
de luta e vitalidade;
ao partir, por ser direito,
deixou sincera saudade.

Muda o  mundo…tudo muda!
mas no campo do saber
há quem todo o tempo estuda,
mas é “verde” de morrer.

Na caminhada, maduro,
ponho fogo na fornalha;
quero deixar no futuro,
as lições de quem trabalha.

Na feira da corrupção
dois produtos têm destaque:
-laranja na execução;
pepino na hora do baque!

Não existe culpa imensa
para quem crê no perdão,
tendo o Deus de sua crença
tranquilo em seu coração

Na rua, toda nuazinha,
escondendo a cara santa,
no carnaval da Lurdinha,
até morto se  levanta

Nesse comércio bizarro
de promoção de viés.
Ainda venderão carro
dando de brinde mais dez.

No circo da vida explode
o que a vida sempre dá:
um é pipoca se pode;
o outro, apenas piruá!

No espaço da folha branca
o universo do escritor,
torna a vida bem mais franca
se traça versos de amor.

No lirismo de meu povo
sonho e tenho sempre fé
que num dia de sol novo
será plena a paz.. de pé!

O amante da Filomena,
se encontra o ex-marido dela,
treme tanto de dar pena…
e geme sem dor com ela!

O chifre em terra rachada
em bucolismo infernal,
é o adorno que traça a estrada
da carência de água e sal.

O meu palácio encantado,
onde o ano todo é natal,
é um quadradinho alugado,
chamado “caixa postal”!

O mundo – pleno em magia,
nossa bola de cristal,
mesmo amargo, traz poesia,
aos momentos mais sem sal.

O mundo vive pedante;
grita e clama por socorro!
Gasta-se alto a todo o instante,
Não com gente… com cachorro!

Os teus olhos patrocinam
pensamentos variados;
todos aqueles que animam
os sonhos dos namorados.

Por entre as pedras da fonte,
cantante em sai alegria,
o bardo vê no horizonte
sua fonte de poesia.

Promoção de negro humor
em grandes filas, à vista;
qualquer “lixo” tem valor,
na glória do varejista…

Quando há morte programada
pelos quadrantes da terra,
homens que não valem nada
sentem paz plantando guerra.

Quando o homem é homem não chora,
enfrenta as farpas da vida,
vence a fauna hostil com a flora
tornando a estrada florida.

Quem como eu faz poesia,
sabe que a glória é completa:
- Ninguém aposenta o dia
de trabalho de um poeta.

Quem tem coração de paz
vive de culpa liberto,
porque faz do  bem que faz
um céu de Sol mais aberto.

Quem tem vida vive atento
pelos caminhos que enfrenta;
brinda as farpas do momento
com chocolate e pimenta.

Ribeirão Preto é café
-terra amiga e sempre nova-
quinze décadas de fé
que todos cantam em trova.

Sem ter bolas de cristal,
quem sabe onde pisa faz
de sua estrada um rosal
se é do Bem e pela paz.

Sem ter calçado e camisa
pra não cair na prisão,
salário de pobre é a brisa
mal dá pra comprar o calção.

Solteiro? – Querida! Ó vida
de prazeres… sonhos tantos!
Casados? ? Os nós da lida,
cegam os reais encantos!?

Talento é ter arte e graça
brincando com a vida séria;
pobre curte até a desgraça
com o salário da miséria.

Viver pobre é contramão
mundo triste de aguentar;
A sorte que traz o pão
enfrenta os jogos de azar.


texto por José Feldman

Em 19 de junho de 2010, em um jantar integrante das festividades dos Jogos Florais de Curitiba, a presidente da União Brasileira dos Trovadores do Paraná, Vãnia Maria Souza Ennes realizou uma noite de autógrafos, ao lançar o seu livro Paraná em Trovas, em nova edição, ocasião esta que tive a honra de conhecer pessoalmente esta trovadora, plagiando a definição do irmão trovador maringaense Assis, “encantadora”.

Encantada olho os pinheiros,
Formosos! Iguais? não há.
Dos poetas são os parceiros
que versam o Paraná.
(VÃNIA M. S. ENNES)

            Vânia Ennes, filha do Paraná, como uma regente que comanda a sua orquestra, sob o movimento de sua batuta faz com que nos embriaguemos em instantes de pura emoção. Através das trovas contidas no livro vivemos os acordes dos noturnos de Chopin, a Pastoral de Beethoven, a Cavalgada das Valquírias de Wagner, a Marcha Triunfal, da Aída, de Verdi. Sejam nas trovas, ou mesmo em textos de sua lavratura, podemos sentir a beleza que há no mundo que nos rodeia. Sempre otimista, essas trovas são o nascer do sol em toda a sua magnitude, o cantar dos passarinhos ao despontar da aurora, é o dia morno a nos aquecer o coração, é o final da tarde quando muitos de nós após um dia intenso de trabalho nos sentamos na varanda a saborear um tererê ou chimarrão. É a noite, não a escuridão, não a tristeza que muitos buscam nela, mas uma noite onde ela descortina uma lua brilhante envolvida por um véu de estrelas.

Quando sopra o vento sul,
a trova viaja e vai fundo.
Seu caminho é o céu azul…
Espalha-se pelo mundo!
(VÂNIA M. S. ENNES)

            Paraná em trovas é um livro, onde esta fantástica trovadora reune trovadores paranaenses que deixam a sua marca no livro da história de nossa literatura tão vasta. Por seu intermédio mostra que neste estado verdejante, de terra vermelha, existe um povo que sabe cantar os seus momentos de emoção, com todo sentimento que pode ser contido em uma trovinha de quatro versos setessilábica.

Vem trovador, vem correndo,
ao meu Paraná, porque
O Pinheiro está morrendo…
De saudades de você…
NEIDE ROCHA PORTUGAL (Bandeirantes)

Ao Paraná, imagino,
dentro da graça altaneira,
o pinheiro é como o Hino
ou como a própria Bandeira.
FERNANDO VASCONCELLOS (Ponta Grossa)

            Mas, Vânia não pára por aí. Seu livro é uma Arca de Noé que carrega todos que estão em seu caminho, Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, etc. e mesmo outros países como Estados Unidos, Portugal, Panamá, México, e outros, famosos e nem tão famosos.
            Como já dizia a poetisa norte-americana Emily Dickinson (1830-1886) “Não há melhor fragata que um livro para nos levar a terras distantes”, e Vânia comanda esta fragata por este Brasil imenso levando os trovadores nesta viagem e trazendo até nós toda esta paisagem exuberante, vencendo fronteiras nacionais e internacionais, carregando a bandeira desfraldada da Trova “por mares nunca dantes navegados”.
            O livro possui em seu bojo cerca de 400 trovas. Trovadores do Paraná, de outros Estados do Brasil, de outros Países e de trovadores já falecidos que imortalizam as suas trovas nesta obra. Nomes do quilate de, além da autora, Antonio Augusto de Assis, Amália Max, Dinair Leite, Gerson Cesar Souza, José Westphalen Corrêa, Lairton Trovão de Andrade, Fernando Pessoa, Carlos Drummond, Mario Quintana, José Ouverney, Glédis Tissot, entre tantos outros.
            Como ela mesma diz “saber viver é saber quebrar as durezas normais da existência, ao conseguir enxergá-las com os olhos da alma e da serenidade de espírito.” É assim que é Vânia, tranquila cativando com seu sorriso a todos que estão em seu caminho. É a voz de nosso querido Paraná, é a voz do Brasil.
José Feldman  29/junho/2010

A seguir algumas das trovas de seu livro

Que a amizade não se meça
por sorrisos e elogios,
mas por ser, sem que se peça,
o sol em dias sombrios.
DOMINGOS FREIRE CARDOSO – Portugal

O poeta é um fingidor.
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor,
a dor que deveras sente.
FERNANDO PESSOA – Portugal

Linda musa brasileña
llena de amor y bondad
eres princesa risueña
que me da felicidad.
JOSELITO FERNÁNDEZ TAPIA – Perú

Este é o exemplo que damos
aos jovens recém-casados:
que é melhor se brigar juntos
do que chorar separados!
LUPICÍNIO RODRIGUES – Porto Alegre/RS

Tudo muda, tudo passa,
Neste mundo de ilusão:
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.
GUILHERME DE ALMEIDA – Campinas/SP

Diz uma lenda tingui
que Tupã, Deus dos guerreiros,
enterrando a lança aqui
fez nascer muitos pinheiros…
HARLEY CLÓVIS STOCCHERO – Curitiba/PR

Pescador, pensa, avalia…
e diga se ainda crê
na graça da pescaria,
se o peixe fosse você…
HERIBALDO BARROSO – Acari/RN

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to