Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 22 de julho de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 196)




Uma Trova de Curitiba/PR
MÁRIO A. J. ZAMATARO

O tamanho do universo
não cabe em minha janela,
mas entra em pequeno verso,
quando estou de sentinela.

Uma Trova de São Paulo/SP
RENATA PACCOLA

Um sorriso de criança
inocente, doce e aberto
é uma chuva de esperança
em meu caminho deserto!

Uma Trova Humorística, de Santos/SP
ANTONIO COLAVITE FILHO

 Ao “bebum” que choraminga,
o doutor não mais engana:
-“Se, por lá,cana dá pinga;
por aqui, pinga dá cana!!!”

Uma Trova Premiada em Nova Friburgo/RJ, 1987
EDMAR JAPIASSÚ MAIA (Rio de Janeiro/RJ)

Olhando a sogra de pé,
com o rosto sujo de tinta,
viu que o “diabo” ainda é
mais feio quando se pinta!…

Uma Trova de Corumbá/MT
LÍCIO GOMES DE SOUZA

Na História o fato maior
está por vir, aliás:
- Vir num mundo melhor,
em pacto eterno de paz.

Um Poema de Belo Horizonte/MG
CLEVANE PESSOA

Arrependimento

Mais que amei, amei errado
ou amei sem saber de limites
e de impossibilidades...

Amei com a fúria dos ventos
e a ternura das brisas
nos rostos das flores:
esta, insuficiente  para a sanha dos desejos,
aquela rasgou pétalas e sépalas
e abriu cálices...

Queria ter amado menos que o demais
E muito mais que o possibilitado...
Queria que os excessos de busca,
Perfumassem, de repente,
Todos os ares da angústia incandescente...
Nas grutas do desconhecido,
As estalagmites ,
Tão fantásticas ao primeiro olhar,
São de tal forma frágeis
Que se tornam poeira e barro
Para não mais voltar...

Uma Trova Hispânica, da Venezuela
LUIS ALFREDO RIVAS MAZZEI

Por la orilla de la acera
un hombre mira y camina
a buscar su compañera
a la vuelta de la esquina.

Um Poema dos Estados Unidos
EMILY DICKINSON
(1830 – 1886)

Morri pela Beleza

Morri pela beleza – mas mal me tinha
Acomodado à campa
Quando alguém que morreu pela verdade,
Da casa do lado –

Perguntou baixinho “Por que morreste?”
“Pela beleza”, respondi –
“E eu – pela verdade – Ambas são iguais –
E nós também, somos irmãos”, disse ele.

E assim, como parentes próximos, uma noite
Falamos de uma casa para outra
Até que o musgo nos chegou aos lábios
E cobriu – os nossos nomes.

(Tradução de Nuno Júdice)

Trovadores que deixaram Saudades
ADOLFO MACEDO
Magé/RJ (1935 – 1996)

Partirás... e eu ficarei
dissipando a minha mágoa
nas trovas que comporei
com os olhos rasos d’água!...

Um Poema de Curitiba/PR
EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Supremo apelo

Por que causas, de ti, foge a antiga ventura
E toda, em ti, se embebe a alma, em fel e vinagre?
Certo, uma grande dor te fere e te tortura!
- Mas tão grande, que a grande alma assim te conflagre?

Tanto Sol! Tanta Luz! E esta treva perdura!
- De um espírito mau, diabólico milagre -
Mas olha! Volta à Luz! Volta ao Sol que fulgura
Nos Poemas que te eu dê, no Amor que te eu consagre!

Vem beber no meu verso a fortaleza e a vida!...
Vê tu quanto poder num hemistíquio impera,
E o vigor que há na rima - arma nunca excedida!. ..

Vem, que ao fim da jornada, a glória nos espera!
Vamos! - a galopar, - em fora! a toda a brida,
Na esplanada genial do sonho e da quimera!

Uma Trova de Porto Alegre/RS
FLAVIO ROBERTO STEFANI

Em ternura plena e extrema,
nossos sonhos se cruzaram.
E a noite se fez poema...
E os versos também se amaram!

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
(1901 – 1964)

Máquina Breve

O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
- meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.

Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.

Um Haicai de Santos/SP
REGINA ALONSO

Freada no escuro –
Entre as cruzes das encostas
luz de pirilampos.

Uma Cantiga Infantil de Roda
A VELHA A FIAR

Estava a velha no seu lugar, veio a mosca lhe incomodar.
A mosca na velha e a velha a fiar.

Estava a mosca no seu lugar, veio a aranha lhe fazer mal.
A aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar.

Estava a aranha no seu lugar, veio o rato lhe fazer mal.
O rato na aranha, a aranha na mosca,
a mosca na velha e a velha a fiar.

Estava o rato no seu lugar, veio o gato lhe fazer mal.
O gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca,
a mosca na velha e a velha a fiar.

Estava o gato no seu lugar, veio o cachorro lhe fazer mal.
O cachorro no gato, o gato no rato,
o rato na aranha, a aranha na mosca,
a mosca na velha e a velha a fiar.

Estava o cachorro no seu lugar, veio o pau lhe fazer mal.
O pau no cachorro, o cachorro no gato, o gato no rato,
o rato na aranha, a aranha na mosca,
a mosca na velha e a velha a fiar.

Estava o pau no seu lugar, veio o fogo lhe fazer mal.
O fogo no pau, o pau no cachorro, o cachorro no gato,
o gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca,
a mosca na velha e a velha a fiar.

Estava o fogo no seu lugar, veio a água lhe fazer mal.
A água no fogo, o fogo no pau, o pau no cachorro,
o cachorro no gato, o gato no rato, o rato na aranha,
a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar.

Estava a água no seu lugar, veio o boi lhe fazer mal.
O boi na água, a água no fogo, o fogo no pau,
o pau no cachorro, o cachorro no gato, o gato no rato,
o rato na aranha, a aranha na mosca,
a mosca na velha e a velha a fiar.

Estava o boi no seu lugar, veio o homem lhe fazer mal.
O homem no boi, o boi na água, a água no fogo,
o fogo no pau, o pau no cachorro, o cachorro no gato,
o gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca,
a mosca na velha e a velha a fiar.

Estava o homem no seu lugar, veio a mulher lhe incomodar.
A mulher no homem, o homem no boi, o boi na água,
a água no fogo, o fogo no pau, o pau no cachorro,
o cachorro no gato, o gato no rato, o rato na aranha,
a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar.

Estava a mulher no seu lugar, veio a morte lhe levar.
A morte na mulher, a mulher no homem, o homem no boi,
o boi na água, a água no fogo, o fogo no pau,
o pau no cachorro, o cachorro no gato, o gato no rato,
o rato na aranha, a aranha na mosca,
a mosca na velha e a velha a fiar.

Um Poema de Angola (radicado)
DAVID MESTRE
(Luís Filipe Guimarães da Mota Veiga)
Loures/Portugal (1948 – 1998) Lisboa/Portugal

Nas Barbas do Bando

E quem
nesta roda
riscou no peito
a ave
inviolável?

Qual de vós
apostou a morte
e perdeu?
Qual de vos
inegáveis patifes

navalhas encantadas
traçou no areal
a mais bela aventura
nas barbas
do bando?

Uma Trova de Fortaleza/CE
REJANE COSTA BARROS

Trova, pequeno poema
que se faz com quatro versos,
tal qual fosse um teorema
de resultados diversos!

Recordando Velhas Canções
HEKEL TAVARES E JORACI CAMARGO

Favela
(samba, 1933)

No carnaval me lembro tanto da favela
Onde ela morava
Tudo o que eu tinha era
Uma esteira e uma panela
E ela gostava

Por isso eu ando pelas ruas da cidade
Vendo que a felicidade
Foi aquilo que passou
E a favela, que era minha
E que era dela,
Só deixou muita saudade
Porque o resto ela levou.

Inda outro dia,
Eu fui lá em cima na favela,
E ela não estava
Onde era a casa
Encontrei uma chinela
Que ela sambava

Me lembro tanto do café numa tigela
Que ela me dava
E de umas rezas
Que por mim,
Lá na capela
Só ela rezava.

Uma Sextilha Agalopada de Natal/RN
JOSÉ LUCAS DE BARROS

Ninguém quer sucumbir em luta inglória,
por mais tosca que seja sua lança,
porque a vida é um tesouro inestimável
que no campo dos sonhos se balança,
e por ela assumimos neste mundo
as melhores promessas de esperança.
Um Poema de Mogi-Guaçu/SP
OLIVALDO JUNIOR

Sete pistas

Era uma vez um alguém,
mas não era alguém qualquer.

Sem ter um dó, era dó.
Sem marcha a ré, dava ré.
Sem crer em mim, era mi.
Sem “bafafá”, dava fá.
Sem guarda-sol, era sol.
Sem cá nem lá, dava lá.
Sem crer em si, era si.

Era uma vez um alguém,
mas não era alguém qualquer.

Era uma vez uma música.

Um Poema de Portugal
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal   (1888 – 1935)

Se tudo o que há é mentira

Se tudo o que há é mentira
É mentira tudo o que há.
De nada nada se tira,
A nada nada se dá.

Se tanto faz que eu suponha
Uma coisa ou não com fé,
Suponho-a se ela é risonha,
Se não é, suponho que é.

Que o grande jeito da vida
É pôr a vida com jeito.
Fana a rosa não colhida
Como a rosa posta ao peito.
Mais vale é o mais valer,
Que o resto urtigas o cobrem
E só se cumpra o dever
Para que as palavras sobrem.

Um Soneto de São Fidélis/RJ
ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
(1947)

Aurora Desbotada

Desperta a aurora fria e desbotada,
Em mais um dia que precede o fim,
E essa minha alma frágil e tão cansada,
Já não suporta a dor que dói em mim.

A noite avança, rompe a madrugada,
Eu já não sinto o aroma do jasmim
Que andava no meu quarto e na sacada
E perfumava todo o meu jardim.

Dia morto... noite morta... tudo é nada...
Viver só por viver não me consola
Se a aurora só é bela colorida.

Sinto que irei sem ti nessa jornada,
E a suportar a angústia que me assola,
Prefiro não viver - isso não é vida!

Uma  Setilha Sobre o Mar de Dom Basílio/BA
CREUSA MEIRA

Primeiro dia do ano
As flores eu vou levar
São as minhas oferendas
Para a rainha do mar
Jogo gotas de alfazema
Leio um belo poema
Nas ondas a caminhar
 *****************************


A ciranda traz lembranças,
que a saudade perpetua,
de um tempo em que nós, crianças,
éramos todas de rua...

Afeto infinito eu leio
nos olhos, cheios de brilho,
da mãe que desnuda o seio
e oferta seu leite ao filho!

Amena e doce ebriedade,
que a adega do tempo apura,
o amor, na terceira idade,
é um vinho de uva madura!

À noite, a areia da praia,
com rendas à beira-mar,
lembra um lençol de cambraia
onde se deita o luar...

A noite desfez, em contas,
o seu colar de cristal
e fez agrados nas pontas
da grama do meu quintal!...

Ante um berço, comovida,
e no adeus dos cemitérios,
fui aprendendo que a vida
é ponte entre dois mistérios.

A Primavera passou...
mas passou tão distraída,
que nem sequer se lembrou
de reflorir minha vida…

Aqueles grãos sem valor
- e eu fico pensando agora -
eram sementes de amor
e eu, sem querer, joguei fora...

 A seca fora um martírio
mas, sob a chuva esperada,
vi o meu roçado em delírio
beijando a terra molhada!

A teu lado, mas... sozinho...
quantas noites, quantos dias
eu transbordei de carinho
mas te achei de mãos vazias.

A tua mão deslizando
no meu corpo, em leve afago,
é como a brisa encrespando
a superfície de um lago.

A tua ofensa me assusta
e, desta vez, digo “não”!
Quem ama sabe o que custa
ter que negar o perdão!

A vida insiste em manter
em dois tons sua canção:
o mais agudo é o poder;
o mais grave, a servidão!

Blasfemar... sei que é errado
mas, Te pergunto, Senhor:
se o amor que eu sinto é pecado,
por que me deste este amor?...

Bondes... quintais... lampiões...
Nesta saudade eu me abrigo
aconchegando ilusões
que envelheceram comigo…

Brinquedos velhos, em trapos,
sem importância parecem,
mas guardam, nos seus farrapos,
lembranças que não se esquecem.

Canta, Poeta! O teu canto,
de um sentimento profundo,
é o turíbulo de encanto
que vai incensar o mundo!

Colombo aos mares se fez
sem que o perigo o assustasse...
e, graças ao genovês,
ganhou, o mundo, outra face!

 Combater... morrer herói...
não faz a luta perdida
se o ideal que se constrói
foi além da própria vida...

Como é grande a solidão
de um ator, que em sua estréia,
põe em cena o coração
e está vazia a platéia...

Crepita a floresta... e os ninhos
vão de roldão na queimada.
Que vai ser dos passarinhos
que não têm culpa de nada?

Da cruz, do açoite, do espinho,
de um sofrimento profundo
veio o sangue que, sozinho,
lavou as culpas do mundo!

Descalços, pelo gramado,
teus pés mansamente vão...
Pões, no pisar, tanto agrado
que eu tenho inveja do chão!...

Deus modela a nossa estrada
porém nós, em atos falhos,
modificando a jornada,
nos perdemos nos atalhos...

Ele partia e, na pressa,
prometeu que voltaria.
Hoje eu sei, não foi promessa.
Na verdade... ele mentia...

Em fortuna, eu tenho sido
qual uma agulha modesta
que borda um belo vestido
e a linha é quem vai à festa!

Em meu olhar recatado,
teu olhar viu, mas não leu,
a ternura de um recado
que o meu amor escreveu.

Enfim voltaste... mas peço
que este clima de alegria
envolvendo o teu regresso
não dure só por um dia...

 Esta fé que me incentiva,
e em minha vida se espalma,
é uma luzinha votiva
na capela de minha alma!

Esta flor que me restou
num livro da mocidade
é um sonho que se tornou
medalha de uma saudade!

Eu faço um apelo mudo
na velhice que me alcança:
- Destino, tire-me tudo
mas não me roube a esperança!

Eu não cobro desta vida
as respostas que ela esconde.
Se a minha razão duvida,
a minha fé me responde.

Eu nunca amarei um poeta
mesmo que ele me seduza
pois seu verso, de alma inquieta,
vagueia, de Musa em Musa!...

Eu te espero... Tu demoras...
Pela noite, o tempo avança
e, no cansaço das horas,
vai se apagando a esperança.

Falo de tuas ausências
à garoa, que não passa
e ela deixa reticências
sobre o frio da vidraça.

Fim do amor... mas nosso enredo
restou em minha lembrança,
como ficou em meu dedo
a marca de uma aliança...

Finges dormir... e eu, sozinho,
sofro o que a briga nos fez:
pôs no espaço de um carinho
a muralha da altivez!

Foi num mar encapelado
que o meu barco de ideais
naufragou de tão pesado:
- tinha esperanças demais!

 Grande humildade é a do mar
que, de um reino onde se alteia,
vem à praia rendilhar
as saias brancas da areia!

Homem bom de rosto feio!
Tua aparência enganosa
lembra a pedra cujo seio
guarda uma gema preciosa!

Impiedoso, o fogo avança
e a floresta, calcinada,
perde o verde da esperança;
ganha o cinza do mais nada!

Meu viver lembra uma estrada
com mistérios para mim:
do começo não sei nada...
não sei nada do seu fim...

Minha fortuna eu desdenho
quando vejo, em solidão,
que o carinho que eu não tenho
sobra em muito barracão!

Morrem florestas, açudes,
e o mundo, pobre de afeto,
perde os versos e as virtudes:
- vira selva de concreto!

Na história de tua vida
sou apenas, sem escolha,
uma sentença esquecida
no rodapé de uma folha…

Na insônia da solidão,
eu só sei que o tempo passa
porque escuto um carrilhão
dando as horas, lá na praça!

Nas águas turvas dos rios,
os venenos poluidores
nos darão dias sombrios
de primaveras sem flores...

Nas letras quase sem cor
de um diário escrito a medo,
guardo as mensagens do amor
que sempre foi meu segredo...

 Na tarde cálida e mansa,
o tempo quase não passa
e até o silêncio descansa
nos velhos bancos da praça.

Neste ano novo eu pretendo
rasgar meus dias tristonhos
e, de remendo em remendo,
reconstruir os meus sonhos...

Nosso amor, hoje em desgaste,
fez do convívio um açoite...
Tempo! Por que não paraste
naquela primeira noite?

Nosso amor hoje é passado
e, apesar de breve história,
persiste, ainda, ancorado
no cais de minha memória.

Num foguetório cerrado,
o céu junino reluz
qual um chuveiro dourado
pingando gotas de luz!

O coração nunca esquece
as mágoas de uma traição...
Quem trai, no amor, não merece
a largueza do perdão!

O cheiro de flor que invade
a varanda, onde eu me abrigo,
engana a minha saudade
e eu penso que estás comigo.

O destino rege as vidas
num balé, cujo andamento
lembra o das folhas caídas
dançando ao sabor do vento...

O flerte, as voltas na praça,
o tempo levou embora
e o amor foi perdendo a graça
sem o respeito de outrora...

O que mais feriu minha alma,
relendo os bilhetes teus,
foi ver a grafia calma
com que me escreveste “Adeus”!

 Ó Senhor, eu te agradeço
pois vejo, em teus filhos sãos,
uma fortuna sem preço
que puseste em minhas mãos!

Ousei te amar sem medida,
sem cautela, sem pudor...
e hoje pago, arrependida,
por esse instante de amor...

Partias... mas, era tarde
para eu tentar te deter...
E nessa omissão covarde
te perdi... sem combater...

Parto... não levo saudade...
as desavenças são tais,
que a minha e a tua verdade
já são mentiras iguais.

Passei a viver tristonho
depois que encontrei, surpreso,
o limite do meu sonho
no muro do teu desprezo!

Pela noite, atormentado,
eu vou desfeito em pedaços,
invejando o afortunado
que dorme envolto em teus braços!...

Pessoas que, na ilusão,
cantam virtudes sem tê-las,
são como as poças do chão
que pensam conter estrelas.

Primeiro amor... é a ternura
que a nossa memória enfeita.
É como a fruta madura
de uma primeira colheita...

Prostrado... na dor infinda
de um desprezo que o consome,
meu coração bate ainda,
porque murmura o teu nome...

Quando ao teu corpo eu me rendo,
tuas mãos, com muito ardor,
em silêncio vão dizendo
loucas palavras de amor!

 Quando a vida aperta o cerco
nos ideais que eu persigo,
quanto mais combate eu perco,
tanto mais lutando eu sigo!

Quanto sonho se vislumbra
numa esteira, à luz da vela,
quando um amor e a penumbra
se encontram numa favela!

Quebra o trenzinho... eu conserto
e sinto, ao vê-lo nos trilhos,
a minha infância mais perto
quando eu brinco com meus filhos.

Que eu te esqueça... não me peças...
Não me obrigues a fingir
e a fazer falsas promessas
que jamais irei cumprir.

Que o amor faz sofrer... sabia...
mas, mesmo assim, eu te amei
e, agora, a sabedoria
vive a dizer: - Não falei?...

Quis te falar... mas não pude...
Então te dei uma flor.
As flores têm a virtude
de saber falar de amor...

Revendo o resto da história
do nosso amor, eu senti
que apagaste da memória
o que eu jamais esqueci…

Sabiá, guarda teu canto!
Eu sei que o dia é bem vindo
mas não despertes o encanto
que em meu leito está dormindo!

Se alegres, vão repicando;
se tristes, plangem com calma...
E eu fico, às vezes, pensando
que os sinos também têm alma!

Sem aliança no dedo,
sem altar, sem certidão,
quanto amor vive em segredo
com laços no coração!

 Sem muros, as casas pobres
trocam favores, carinhos...
enquanto que em ruas nobres
ninguém conhece os vizinhos.

Se um dia o céu censurar
o nosso amor, não aceito...
e a teu lado hei de encontrar
um outro céu... mais perfeito!

Sigo em frente em meus trabalhos,
porém não sigo sozinho.
Com Deus, que aponta os atalhos,
encurto muito caminho.

Sobre seda ou algodão,
na trama dos figurinos,
o Supremo Tecelão
faz desiguais os destinos.

Sobre os espelhos fanados,
o tempo, em seu transcorrer,
passa escrevendo recados
que não gostamos de ler...

Tão suave é o teu carinho
que eu penso, quando te enlaço,
que o meu corpo é um passarinho
que fez ninho em teu regaço...

Tem pena de minha dor!
Por favor, usa a franqueza!
Pois as dúvidas, no amor,
maltratam mais que a certeza!

“Terra à vista”! e, em praias calmas,
foi ancorando Cabral.
E o destino bateu palmas
nos unindo a Portugal!

Teu adeus me machucou
mas eu creio, sem revolta,
que a rua que te levou
trará teus passos de volta!

Teu amor... quase acabado...
Mas, tentando me iludir,
sigo sofrendo a teu lado
sem coragem de partir...

 Teu desprezo me magoa.
Não me queres, não te forço.
Mas, o que mais me atordoa
é não sentires remorso...

Teu olhar não me diz nada
mas, sem querer, eu me iludo
e em delírio, apaixonada,
transformo o teu nada... em tudo!

Tímida, não disse nada,
mas o sorriso que deu
foi a mensagem cifrada
que o meu amor entendeu...

Traz de longe, a brisa branda,
o jasmim da tua essência
e inebriada a varanda
nem percebe a tua ausência.

Tua carícia atrevida,
num suave dedilhado,
musicou a minha vida
com acordes de pecado.

Tu chegavas... e eu ouvia
o trem, em tons comoventes,
tocar canções de alegria
no teclado dos dormentes...

Tu fizeste um leve aceno
e a esperança que me deste
teve o alento de um sereno
caindo num solo agreste!

Um pintor, em seu delírio,
ante a jangada a vogar,
pensou ver um branco lírio
na tela imensa do mar.

Vão ficando tão distantes
os carinhos do passado,
que nem sei se o que era antes
foi vivido... ou foi sonhado…

Vêm mais tarde os desarranjos
e nos transformam de vez
mas, na infância somos anjos
do jeito que Deus nos fez!

 Vem setembro... e algumas flores,
nos galhos desabrochando,
trazem notícias em cores
da primavera chegando...

Vou, na insônia de meus passos,
esquecer, na boemia,
que um felizardo, em teus braços,
dorme o sono que eu queria...

Vou te escrever... prometias...
e desta jura refém,
espero dias e dias,
mas a mensagem não vem...


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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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