Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 25 de julho de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 199)




Uma Trova de Bandeirantes/PR
JOSÉ REGINALDO PORTUGAL

Hoje estamos separados...
e o destino, a fazer graça,
mostra os "corações gravados"
no pinheiro lá da praça! ...

Uma Trova de Belo Horizonte/MG
WANDA DE PAULA MOURTHÉ

Entulhos causam desvios
das águas, gerando enchente
e, ao sufocarem os rios
matam peixes, matam gente!

Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP
RENATA PACCOLA

Casamento traz enganos,
pois seu muso inspirador
pode virar, depois de anos,  
o seu museu roncador!

Uma Trova Premiada em Natal/RN, 2005
EDUARDO A. O. TOLEDO (Pouso Alegre/MG)

A fé, de crenças tamanhas,
é um rio largo e bendito
que vai transpondo montanhas
e deságua no infinito!

Uma Trova de Porto Alegre/RS
DORALICE GOMES DA ROSA

Clareiras que vão se abrindo,
motosserras na devassa.
E os homens vão destruindo
o que Deus nos deu de graça.

Um Poema de Natal/RN
FRANCISCO NEVES DE MACEDO
Natal/RN (1948 – 2012)

Estações

Nós, duas almas que desabrochavam,
começavam viver os bons momentos,
cheios de grande amor, encantamentos
que em arroubos de ardor se enamoravam.

Braços, que ao sabor, já se entrelaçavam,
seguindo, os corações, os batimentos,
a mesma comunhão de sentimentos,
desnudos, nossos corpos que se amavam.

Primaveras, outonos... Estações,
velhos costumes,, sem as emoções
dia a dia a verdade que me ensina.

Nosso futuro, que nos corações,
se anunciavam, cheios de paixões.
agoniza no chão desta rotina

Uma Trova Hispânica, da Argentina
DORA FORLETTI

En noches de luna llena
la ilusión me da esperanza,
para que muera mi pena
tu amor cálido me alcanza.

Um Poema dos Estados Unidos
ROBERT FROST
(Robert Lee Frost)
São Francisco (1874 – 1963) Boston

A Estrada Não Trilhada

Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longe declive
no qual, dobrando, desaparecia...

Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atrativo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.

 E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
duvidei se algum dia eu voltaria.

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.

(Tradução: Renato Suttana)

Trovadores que Deixaram Saudades
JOUBERT DE ARAUJO E SILVA
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ

– Lembro, triste, o amor passado,
vendo a Luz e o velho cais:
– saudade é barco ancorado
no porto do “nunca mais”…

Um Poema de São Paulo/SP
PEDRO MELLO

O Bibliotecário bêbado

Parece que
do topo das estantes
vocês ficam olhando para mim...
O que querem que eu faça?
Que abra as mãos
e tente
segurar a Poesia?
Eu a sinto
 invisível pelo ar...

E se eu erguesse as mãos
por um acaso
tentando capturar
toda a Poesia
latente
na atmosfera desta sala
e condensasse
os versos em absinto,
eu viveria embriagado deles?

Uma Teia de Trovas de Mogi-Guaçu/SP
OLIVALDO JUNIOR

Trovas sobre Palhaço

Quando o circo baixa a lona,
todo artista é feito o "clown":
cara em branco, bem pidona,
com tendência a ficar "down".

De carona num fusquinha,
com a mala colorida,
o palhaço é o "flanelinha"
no semáforo da vida.

Ao pintar o rosto pálido,
um Quixote em sofrimento
- o palhaço - torna válido
todo esforço contra o vento.

O palhaço sempre insiste
numa alegre melodia,
sem saber que só existe
sua triste alegoria.

Palhacinho de mentira,
fui poeta de verdade,
que, no meio dessa lira,
foi embora da cidade.
Um Haicai de Belo Horizonte/MG
HANA HARUKO
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)

Armadilha bela:
Luz atraindo mariposa
- Destinação cruel

Um Poema de São Paulo/SP
ELIZABETH MISCIASCI

Não diga nada

Não diga nada
observe meus lábios a atinar
desejos que se perdem
entre um indestrutível querer
Não diga nada
apenas veja meus olhos que
estancam a dor do não ter
chorando em silencio
Não diga nada
sinta a dor que minha alma
em furor transcende
desejando com veemência teu ser
Não diga nada
pense detidamente
que não é insensível o teu saber
nem relegado o meu viver.
Não diga nada
ouça meus murmúrios
palavras mudas transformadas
em vertentes clamando por ti
Não diga nada
sinta o calor
que em delírio se faz passional
preexistente em meu corpo
Não diga nada
perceba que estou presente
como nanquim na supremacia
de uma folha branca
Não diga nada
vem denominar um sentimento
desterrando o viso que insistente
vocifera um coração.
Não diga nada

Lenga-Lengas de Portugal
O DOCE

 Qual é o doce que é mais doce
que o doce de batata doce?
Respondi que o doce que é mais doce
que o doce de batata doce
É o doce que é feito com o doce
do doce de batata doce.


Recordando Velhas Canções
ROBERTO MARTINS E MÁRIO ROSSI

Renúncia
(fox, 1942)

Hoje não existe nada mais entre nós
Somos duas almas que se devem separar
O meu coração vive chorando e minha voz
Já sofremos tanto
que é melhor renunciar

A minha renúncia
Enche minh’alma e o coração de tédio
A tua renúncia
Dá-me um desgosto que não tem remédio

Amar é viver
É um doce prazer embriagador e vulgar
Difícil no amor
é saber renunciar
É saber renunciar

Um Poema de Moçambique
DOMI CHIRONGO
(1975)

Meia-Noite

 Era dia
mas nas minhas
mãos claras
esfolhava
meia-noite
quando
de súbito
deparo-me
com uma página
invulgar
quarenta, suponho
era a Ana,
o Lourenço
e o Armando
não o Artur
mas como ele
falavam
literatura...
especificamente
poesia.
Quem diria!

Um Poema de Portugal
LUIS VAZ DE CAMÕES
Coimbra (1524 – 1580) Lisboa

VIII

Amor, que o gesto humano na alma escreve,
Vivas faíscas me mostrou um dia,
Donde um puro cristal se derretia
Por entre vivas rosas a alva neve.
          
A vista, que em si mesma não se atreve,
Por se certificar do que ali via,
Foi convertida em fonte, que fazia
A dor ao sofrimento doce e leve.

Jura Amor, que brandura de vontade
Causa o primeiro efeito; o pensamento
Endoidece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera, em um momento,
De lágrimas de honesta piedade
Lágrimas de imortal contentamento.

Um Soneto de Goiás
AFONSO FELIX DE SOUSA
Jaraguá/GO (1925– 2002) Rio de Janeiro

(Sonetos Elementares) III

Nos recantos tranqüilos encontrava
a poesia. Sobre mim e o rio
debruçavam-se as árvores. Os pássaros
eram ecos aos meus primeiros cantos.

Ruas de chuvas leves, nunca o inverno.
Com o menino brincar vinham as tardes
e vinha o céu. Adeus, nuvens cinzentas
onde vagam os monstros meus da infância.

Já não vibram as músicas ingênuas
na planície escutadas. A poesia
difícil se tornou e vive em sombras.

Em mim – que tanto amei – hoje as palavras
movem-se para ásperas mensagens
e vão morrer na incompreensão dos gestos.

Hinos de Cidades do Brasil
HINO DE MARINGÁ/PR
Letra: Ary de Lima

I

Quem te avista, nos dias de agora,
Acenando ao porvir da esperança,
Adivinha a floresta de outrora
Que embalou tua vida criança.
Há em ti a grandeza imponente
De um passado que exemplos nos dá:
– Se és glória da Pátria contente,
És orgulho do teu Paraná.

Linda flor, a mais gentil,
Do norte do Paraná,
És orgulho do Brasil,
Nossa amada Maringá. (BIS)

II

O teu vulto traduz a mensagem
De um passado coberto de glória,
Arrancado à floresta selvagem
Para eterno viver na história.
Um poema de luz para o mundo
O teu nome sublime será,
E de nosso afeto profundo
Sempre filha serás Maringá.

Linda flor, a mais gentil,
Do norte do Paraná,
És orgulho do Brasil,
Nossa amada Maringá. (BIS)

III

Teu encanto de hoje é retrato
Das belezas que Deus espalhou
Como bênçãos do céu sobre o mato
Que a tua grandeza enfeitou.
Há em ti o perfume das flores,
A poesia de todos os ninhos,
E uma luz que acende fulgores,
Clareando teus novos caminhos.

Linda flor, a mais gentil,
Do norte do Paraná,
És orgulho do Brasil,
Nossa amada Maringá. (BIS)

Uma Poesia de Cordel de Cabedelo/PB
GUIBSON MEDEIROS

Cordel de novelas

Belíssima Despedida de solteiro
A próxima vítima O rei do gado
O profeta Roque santeiro
Sassaricando O bem amado

Cabocla Da cor do pecado
A favorita Estrela guia
O astro Cordel encantado
A padroeira Eterna magia

Alma gêmea As três Marias
A sucessora Vereda tropical
Mulheres de areia Maria Maria
Selva de pedra Lua de cristal

Olho no olho Pecado capital
O amor está no ar
Salomé Fera radical
Escrava Isaura Livre para voar

Aquele beijo Toma lá da cá
Carinhoso Sabor da paixão
Corpo a corpo Direito de amar
Final feliz Explode coração

Pedra sobre pedra O casarão
Terra nostra O mapa da mina
Dancin days A próxima atração
Cambalacho Negócio da China

Feijão maravilha Gina
A gata comeu Marron glacê
Anjo mau gente fina
Tiêta Voltei pra você

Roda de fogo Bambolê
Laços de família Esplendor
Começar de novo Renascer
Amor eterno amor

Mandala Vila Madalena
Torre de babel Escalada
Deus nos acuda Helena
Minha doce namorada

Eu prometo A viagem
Viver a vida Um sonho a mais
Vida nova Irmãos coragem
A sombra dos laranjais

América Pátria minha
Paraíso Tropicaliente
Gabriela a Moreninha
Por amor A vida da gente

Chega mais cama de gato
Beleza pura felicidade
Mico preto Bicho do mato
O dono do mundo celebridade

Um anjo que caiu do céu
Fina estampa sete pecados
Dona Xepa Barriga de aluguel
De corpo e alma Coração alado

Baila comigo Estúpido cupido
O amor é nosso Passione
O noviço O homem proibido
Tempos modernos O clone

Quatro por quatro Locomotivas
Louco amor Pecado rasgado
Como uma onda Água viva
Sol de verão corpo dourado

Sinhá moça Meu bem querer
Perigosas peruas Vira  lata
Senhora do destino Quem é você
Zazá Rainha da sucata

Fogo sobre terra Bang  bang
Porto dos milagres Araguaia
Jogo da vida Pacto de sangue
Era uma vez Saramandaia

De quina pra lua Brilhante
Marina Meu bem meu mal
Pai herói Coração de estudante
Cubanacan Paraíso tropical

Sinhazinha flô Desejo proibido
O primeiro amor Hipertensão
Partido alto Sétimo sentido
Vale tudo insensato coração

O outro Anjo de mim
Morde e assopra Padre Tião
Pé na jaca terras do sem fim
Meu pedacinho de chão

O cravo e a Rosa Duas vidas
Te contei Que Rei sou eu
O semiDeus fera ferida
As três irmãs Sonho meu.
______________
Sobre a Canção “Renúncia”
            Começando a se projetar em março de 42, com a valsa "Dorme que eu velo por ti", de Roberto Martins e Mário Rossi, o então jovem cantor Nelson Gonçalves se consagraria cinco meses depois com o fox "Renúncia", da mesma dupla. De quebra, ainda mostraria com sua interpretação que possuía a voz ideal para esse tipo de música. E o curioso é que Nelson não estava interessado em "Renúncia", só a gravando em cumprimento a uma determinação de Vitório Latari, diretor da Victor. Por isso chegou ao estúdio sem conhecer a melodia. Temendo que ele errasse na gravação, a ser realizada após breve ensaio, Roberto Martins gratificou o saxofonista Luís Americano para que antecedesse a entrada do cantor com um solo do tema. No final saiu tudo certo, nesse prodígio de improvisação. Em dezembro, Nelson voltaria a gravar "Renúncia", desta vez em ritmo de samba, para o carnaval de 43. (Fonte: http://cifrantiga3.blogspot.com.br)



Aliança! algema divina,
a mais doce das prisões;
uma  prisão  pequenina
que encerra dois corações.

Ama a tua arte. Por ela
faze o bem: ama e perdoa.
A  bondade  é sempre bela,
a beleza  é  sempre  boa.

AMBIÇÃO – De olhar agudo,
marcha, firme, aos seus ideais;
quer pouco, quer mais, quer tudo;
se tem tudo ainda quer mais.

Amizades são incertas.
Ao fazê-las, desconfia:
esta mão que agora apertas
bem pode espancar-te um dia.

Ao  te  ver  fico  mudo
mas mesmo assim, sou feliz.
Pois meu olhar te diz tudo
que a minha voz não te diz.

A Saudade é calculada
por algarismos também:
distância multiplicada
pelo fator “querer bem”.

Como infeliz é esta gente
que pensa que ser feliz
é não dizer o que sente
e não sentir o que diz!

Como será compreendida
a incongruência da sorte?
Pois há quem nasça sem vida
e ninguém morre sem morte.

Com tuas frias maneiras
eu não me incomodo, pois,
embora tu não me queiras,
meu amor vale por dois.

Cora a moral, fica rubra,
ante a imodéstia; pois, certo,
é feio que se descubra
o que deve ser coberto.

Da morte a sentença impressa
trazemos desde o nascer:
assim que a vida começa
começa a gente a morrer.

Da vida o relógio rode
até que a corda se acabe…
Em moço, nada se sabe;
em velho, nada se pode…

Depois  de  uma  vida  airada,
ao  céu  quis  ir  sem  licença.
São Pedro  pede-lhe a entrada-
e o morto, arrogante: – Imprensa!

Dinheiro não há que abrande
a  dor  que  um peito magoa:
uma  sorte é ” sorte grande”
outra  coisa  é ” sorte boa “.

Dos versos os mais diversos
já fiz: muita gente os lê…
Mas “poesia” há nos versos
que eu fiz pensando em você.

Elo de ouro! És a esperança
de horas risonhas e calmas!
Felizes dos que, na aliança, 
acham a aliança das almas. 

Este velho batoteiro
quando a morte o trouxe cá,
ao ver a pá… do coveiro
foi dizendo: – bacará !

Eu, neste assunto de esmola
sem  ambições  me  suponho:
estendo  a  minha  sacola
peço um bocado de sonho…

Foi-me o amor, na mocidade,
um passatempo, comum:
tantas amei que, em verdade,
nunca tive amor nenhum.

Isto de amar considero
que ser amado requer.
E é por isso que eu não quero
querer a quem não me quer.

Jurar é falar a esmo,
é prometer sem pensar.
Juras não faças; nem mesmo
a jura de não jurar.

LIBERDADE – O cidadão
livre, tem todo o direito
de fazer o que o patrão
acha que deve ser feito.

Maldigo quem te ache feia,
quem te ache bela também.
  Quero mal a quem te odeia
e odeio a quem te quer bem.

Mente o peito que suspira?
O beijo é só falsidade?
Bendigamos  a  mentira
se ela é melhor que a verdade.

Meu amor enche-me a vida
e eu vivo feliz assim.
Basta que gostes, querida,
de ser querida por mim.

Morena de olhos castanhos,
teu encanto é a minha pena;
quem dera que olhos estranhos
te achassem feia, morena!

Na minha face estás lendo
que a minha mágoa é sem fim;
mas sinto alívio, sabendo
que não sofres… nem por mim!

Namorados. Para ouvi-los
faço, ao lado esforços vãos,
Como dois mudos, tranqüilos,
falam somente com as mãos.

Não te queixes! Sofrem quantos
vivem, na vida, a lutar;
se não secassem os prantos,
o mundo era todo um mar.

Neste mundo organizado
 de encontro à lei natural,
 tudo que é bom é pecado
e o que é gostoso faz mal.

No amor não há diferença:
nós mentimos, vós mentis...
E, se um diz o que não pensa,
outro o que pensa não diz.

“O cão que ladra não morde”.
Permitam que nesta quadra
eu do provérbio discorde:
sim, não morde… enquanto ladra.

Olhos tristes ou risonhos
vejo entre a gente do povo
dos restos dos velhos sonhos
fabricando um sonho novo…

O meu coração é o cofre
que as minhas dores contém
e as dores que você sofre
eu nele guardo-as também.

O poderoso ? Merece
pena, lamento, piedade!
Ah! se ele ao menos pudesse
mandar na própria vontade!

Os sonhos tem saúde, entendo,
nasceram com boa estrela.
Pena é viverem sofrendo
pelo medo de perdê-la.

Para se amar é preciso,
de todo, o juízo perder;
ter-se a um tempo, amor e juízo
isto é que não pode ser.

Ponhamos no calendário
mais um santo português
milagroso Santo Hilário,
que os fados mais belos fez.

Quando Deus fez Portugal
lá plantou com sua mão
na terra; vinha  e  trigal
e  o  fado  no  coração.

Quando em meus braços te aperto,
satisfaço o meu desejo:
de mim te sinto tão perto,
tão perto que não te vejo.

Quando nós, discretamente
ficamos conosco a sós,
 é que ouvimos quanta gente
chora e ri dentro de nós.

Quanta palavra bonita!
Quanto perdido latim!
E quanta cera erudita
para defunto tão ruim!

Quem canta seu mal espanta,
diz o provérbio ilusório.
Você, rapaz, quando canta
espanta, sim… o auditório.

Quem só a verdade aspira
com certeza inda não viu
que a verdade é uma mentira
que inda não se desmentiu.

Saudade, meiga Saudade
filha do amor e da ausência,
és a nossa mocidade
durante toda a existência.

Saudade é um mal que consiste
em se sofrer por vontade
mas na vida o quanto é triste
não ter de quem ter saudade!

Saudade,  palavra  doce,
que traduz tanto amargor!
Saudade é como se fosse
espinho cheirando a flor.

Saudade – um suspiro, uma ânsia,
uma  vontade  de  ver
a  quem  nos  vê  à  distância
com  os  olhos  do bem-querer.

Se a mulher que está contigo
vive do “outro” a dizer mal,
tem cuidado, meu amigo,
ela inda ama o teu rival.

Se a mulher sincera fosse,
sincera como o homem quer,
era uma vez... acabou-se
todo o encanto da mulher.

Se estou, meu amor, contigo,
tão feliz me considero
que quero mas não consigo
dizer-te o bem que te quero.

Seguro porto, esperança,
dos que andam pelo alto mar!
É nas procelas – bonança,
farol… estrela polar…

Se te olho de quando em quando,
Por Deus, não é por mau fim;
é que estou verificando
se tu olhas para mim.

Seu dinheiro o homem, cioso,
não confia a qualquer,
mas a honra de esposo
deixa nas mãos da mulher.

Trocar idéias contigo ?
É possível, mas escuta:
quero ver, primeiro, o artigo
que ofereces à permuta.

Tu com todo o teu ardor
não estarás enganada?
Talvez confundas amor
com o prazer de ser amada.

Um filósofo de peso
é desta sentença o autor:
o beijo é fósforo aceso
na palha seca do amor.

Um longo olhar que se lança
numa carta ou numa flor;
Saudade – irmã da Esperança,
Saudade – filha do Amor.

Um sonho é ter-te ao meu lado,
a te ver, ouvir, palpar…
Que bom sonhar acordado
sem perigo de acordar!

Vacinei-me contra o amor
mas  não  tive  resultado…
Nas farmácias – é um horror!-
tudo  é  falsificado.

Você diz que é cego o amor…
Como se engana você!
Fecha os olhos o impostor
para fingir que não vê.
                                     
Fonte:
 Luiz Otávio e J. G. de Araújo Jorge (organizadores). Cem Trovas de Bastos Tigre. Coleção “Trovadores Brasileiros”- Editora Vecchi – 1959

Chuvisco de Erratas
Na Chuva de Versos n. 197, na Trovadora Destaque: Vanda Fagundes Queiroz

A trova abaixo é da irmã dela, Wandira Fagundes Queiroz:

Chinelinho na janela,
belo sonho de criança...
Antes de fugir por ela,
Noel deixou a esperança!".

Na trova abaixo, no terceiro verso está “coluna”, o correto é “lacuna”:

Quando a vida é limitada
eu lhe amplio a dimensão:
cada lacuna é bordada
com retalhos de ilusão…

Espero que me perdoem uma outra falha, ao colocar as trovas em ordem alfabética, após o Q, voltei ao M prosseguindo normalmente.


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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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