Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 7 de julho de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n.183)






Uma Trova de Maringá/PR
A. A. DE ASSIS

Não chamem de mundo-cão
o feio mundo do mal.
No cão pulsa um coração
melhor que o nosso, em geral.

Uma Trova Humorística de Nova Friburgo/RJ
MARIA LUA

Tanta cachaça tomou…
Que inchou demais… de repente…
E o doutor diagnosticou:
– É barriga d’água…ardente!

Uma Trova Premiada  no Rio de Janeiro, 2005
WANDIRA FAGUNDES QUEIROZ (Curitiba/PR)

Defender a Ecologia
de forma séria e decente,
é preservar a harmonia
da própria casa da gente.

Uma Trova de Caicó/RN
PROF. GARCIA

Trago uma lição comigo
que aprendi desde criança:
Quem tem um cachorro amigo,
não perde nunca a esperança!

Uma Trova Hispânica da Venezuela
CARLOS R. SANCHEZ

Al amor y a la amistad
la sonrisa abre la puerta
y, si hay sinceridad,
la mantendremos abierta.

Um Poema de Autoria Anônima

Desabafo de um Cão

Não pense tão indiferente
só porque não sou gente,
só porque não sei falar.
Também sou um ser vivente,
sinto as dores que você sente,
mas não posso me expressar.

Sou um bicho abandonado,
pela vida maltratado,
sempre escorraçado
e até mesmo apedrejado.
Vivo sedento e faminto,
ninguém quer saber o que sinto.

Se fico doente e triste,
vejo logo um dedo em riste,
e vem a sentença fatal:
"Melhor matar esse animal!
Ele deve estar raivoso!"
Para sua comodidade
vive dizendo inverdade,
fazendo muita maldade,
seu mentiroso!

Mesmo que eu esteja raivoso,
já foi descoberta a vacina.
Mas para a sua raça humana
ainda não existe remédio.
Você mata o próprio irmão,
assalta,
faz guerra.
Mata com ou sem razão,
as vezes só por ambição.
É bem pior que eu
que chamam de vira-lata!

Estou triste, apavorado,
pois a qualquer instante
posso ser sacrificado.
Mas você não se importa
nem com o seu semelhante.
Você sim está doente:
egoísta, indiferente,
mas se algo ruim acontece
logo lembra que há Deus,
chora, reza e faz prece,
mas Deus só ajuda aquele
que de todos se compadece!

Lembre-se do que escreveu
São Francisco de Assis:
"Quem maltrata um animal
JAMAIS PODERÁ SER FELIZ!"

Trovadores que Deixaram Saudades
HERMOCLYDES S. FRANCO
Niterói/RJ (1929 – 2012) Rio de Janeiro/RJ

Tenho um cão chamado THÉO,
grande amigo, inseparável...
Ao meu lado, está no céu
e eu me sinto invulnerável!

Um Poema de Benguela/Angola
ALDA LARA
1930 – 1962

As belas meninas pardas

As belas meninas pardas
são belas como as demais.
Iguais por serem meninas,
pardas por serem iguais.

Olham com olhos no chão.
Falam com falas macias.
Não são alegres nem tristes.
São apenas como são
todos dos dias.

E as belas meninas pardas,
estudam muito, muitos anos.
Só estudam muito. Mais nada.
Que o resto, trás desenganos.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

Nos passeios de domingo,
andam sempre bem trajadas.
Direitinhas. Aprumadas.
Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada
(Parece mal rir na rua!...)

E nunca viram a lua,
debruçada sobre o rio,
às duas da madrugada.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

E desejam, sobretudo, um casamento decente...

O mais, são histórias perdidas...
Pois que importam outras vidas?...
outras raças?... , outros mundo?...
que importam outras meninas,
felizes, ou desgraçadas?!...

As belas meninas pardas,
dão boas mães de família,
e merecem ser estimadas...

Uma Aldravia de Porto Alegre/RS
MADAGLOR DE OLIVEIRA
(Maria da Glória Jesus de Oliveira)

rutila
seduz
olhos
de
mar
menina

Uma Trova de São Simão/SP
THALMA TAVARES

Se tenho um amigo ao lado,
sinto menos solidão...
E me acho mais confortado
se este amigo for meu cão.

Um Poema de Caieiras/SP
ROSA CLEMENT

A Árvore

    Era uma casa
    muito engraçada
                Vinicius de Moraes

Era uma árvore
ameaçada
onde se ouvia
a passarada

Ninguém subia
nos galhos não
porque da árvore
só tinha o chão.

Todos só viam
uma clareira
porque a árvore
virou barreira.

Meu cão que ia
fazer pipi
não encontrou
um tronco ali.

Ela deixava
tão bela a vista,
e foi embora
sem deixar pista

Mas foi plantada
com esperança
na velha estrada
pela criança.

Um Haicai de Bandeirantes/PR
NEIDE ROCHA PORTUGAL

Quermesse da roça –
Bandeirinhas coloridas
sobre o pó da estrada

Recordando Velhas Canções
LAMARTINE BABO

Linda morena*
(marcha/carnaval, 1933)

Linda morena, morena
Morena que me faz penar
A lua cheia que tanto brilha 
não brilha tanto quanto o teu olhar

Tu és morena, uma ótima pequena
Não há branco que não perca até o juízo
Onde tu passas sai ás vezes bofetão
Toda gente faz questão do teu sorriso

Teu coração é uma espécie de pensão
de pensão familiar à beira-mar
Ó moreninha, não alugues tudo não!
Deixa ao menos o porão pra eu morar

Por tua causa já se faz revolução
Vai haver transformação na cor da lua
Antigamente a mulata era a rainha
Desta vez, ó moreninha, a taça é tua!

Um Poema de Fortaleza/CE
NEMÉSIO PRATA

O "Benefício"

Simplício em seu natalício
foi procurar por Simplícia;
de quem, com toda malícia,
lhe pediu um "benefício",
por conta do seu ofício!

Simplícia vendo o suplício
da sevícia, o "benefício"
ao Simplício, com perícia,
negou-lhe e foi à Polícia,
e deu parte do Simplício!

A Polícia, ao tal Simplício,
enviou-lhe uma notícia,
por um guarda da milícia,
para ouvi-lo, por ofício;
sobre o tal do "benefício"!

Já prevendo o seu suplício
no presídio, em "benefício",
não pôs os pés na Polícia;
só depois veio a notícia:
Escafedeu-se Simplício!

Moral...

Quem procura benefício
em sacrifício de alguém,
acaba no sacrifício
de beneficiar também!

Uma Cantiga Infantil de Roda

BALAIO

Eu queria se balaio,
balaio eu queria “sê”
Pra ficar dependurado,
na cintura de “ocê”

Balaio meu bem, balaio sinhá
Balaio do coração
Moça que não tem balaio, sinhá
Bota a costura no chão

Eu mandei fazer balaio,
pra guardar meu algodão
Balaio saiu pequeno,
não quero balaio não

Balaio meu bem, balaio sinhá
Balaio do coração
Moça que não tem balaio, sinhá
Bota a costura no chão

Um Poema de Lisboa/Portugal
ANTÓNIO GEDEÃO
(Rómulo Vasco da Gama de Carvalho)
1906 – 1997

Poema épico

O rapagão da camisola vermelha sacode a melena da testa
e retesa os braços num bocejo como um jovem leão voluptuoso.
Dorme a sesta
o involuntário ocioso.

A filha do alfaiate atirou a tesoura e o dedal pela janela
e sumiu-se na noite escura do mundo.
Quis respirar mais fundo
e isso de ser coitada é lá com ela.

O homem da barba por fazer conta os filhos e as moedas
e balbucia qualquer coisa num tom inexpressivo e roufenho.
Súbito chamejam-lhe os olhos como labaredas;
- Eu já venho!

O da face doente,
o que sofre por tudo e por nada, sem querer,
abana a cabeça negativamente:
- Isto não pode ser! Isto não pode ser!

Sentados às soleiras das portas,
mordendo a língua na tarefa inglória,
com letras gordas e por linhas tortas
vão redigindo a História.

Um Soneto de São João da Barra/RJ
ANTONIO BRAGA
(1898 – ????)

Carro de Bois...

A pensar neste amor, nesta tarde cinzenta,
tão distante de ti - primavera gloriosa -
paira o meu triste olhar pela estrada poeirenta,
onde um carro de bois segue em marcha morosa.

Rola o carro a gemer nessa música lenta
que me faz recordar tanta coisa saudosa!
Velho carro de bois! O seu gemer aumenta
esta ânsia que me põe toda a alma dolorosa.

Eu invejo, afinal, esse carro gemente,
que parece ter alma e parece que sente
a tristeza do amor que palpita em nós dois...   

Coração! Coração! A saudade é infinita.
E não podes gritar como esse carro grita,
e não podes gemer qual o carro de bois! . . .

Quadras Populares de Minas Gerais
Região do Nordeste de Minas IX

Pra tirar meu bem daqui,
precisa de paciência;
o malvado do ciúme
fazedor de malquerença.

Quem quiser me ouvir cantar,
tem que me pagar primeiro;
minha goela não é fole
nem é tenda de ferreiro.

Esta noite tive um sonho,
que meu marido morreu;
acordei muito assustada,
antes ele do que eu.

Minha senhora dona,
senhora dona, meu bem,
do agrado sou cativo,
negro não sou de ninguém.

 Menina, tu és a uva,
a uva que faz o vinho;
meus braços são gaiola
e eu serei teu passarinho.

Menina, me dá seu lenço,
que eu quero chorar com ele,
já que não tive a fortuna
de chorar com a dona dele.

Meu amor me deu um lenço,
peguei nele pela ponta,
pra ele ficar sabendo
que de amor não faço conta.

Suspiros que vão e vêm,
dai-me novas de meu bem;
se é vivo ou se é morto,
se está nos braços de alguém.

Meu amor quando se foi,
me pediu que não chorasse;
desse só suspiro e meio
quando dele se lembrasse.

Menina, chama teu pai,
que ele venha ter comigo;
pra pagar o que me deve
ou você casar comigo.

Tu és a fonte serena
o teu olhar – água pura;
só falta, ó linda morena,
ser a minha formosura.
=================
*Sobre a canção “Linda Morena”
A partir do sucesso de "O teu cabelo não nega", cresceu bastante a presença da marchinha no repertório carnavalesco. Houve mesmo uma certa supremacia sobre o samba, que durou até o início dos anos quarenta. Assim, em 1933, reinaram quase sem concorrência "Formosa" (que era samba e virou marcha, por sugestão de Francisco Alves), "Good bye", "Segura Esta Mulher", "Moreninha da praia", "Trem Blindado", "Moleque indigesto", "Aí, hein!", "Boa Bola" e "Linda morena", as quatro últimas de autoria de Lamartine Babo
Ingênua, alegre, sentimental, bem representativa do estilo lamartinesco, "Linda Morena" foi um dos grandes sucessos do ano, tendo inspirado até várias paródias, o que na época valia como comprovante de popularidade de uma canção.
==================
Trovador Destaque


A casa quase vazia
mostra ao ator, numa trama,
que outro drama se inicia
quando ele encerra o seu drama

Acompanhado ou sozinho,
segue em frente, sem parar,
que é bem mais longo o caminho
dos que não querem andar!

A favela é lá no alto
e muito farta contudo.
Farta esgoto, farta asfalto,
farta luz e... farta tudo!

A madame tem motivo
de viver enciumada:
é mulher de executivo
sem ser muito executada!

A mulher baixa a moral
do marido roncador:
– Nem sempre o ronco é sinal
de potência do motor!

Ante a clonagem desmaia
o cientista pouco esperto
fez a sogra de cobaia
e a experiência deu certo!

Ao te esperar, na agonia,
entre o dilema e a incerteza,
minha vida é tão vazia
que transborda de tristeza

A saudade em meu destino
é uma criança levada
que, brincando, bate o sino
de uma igreja abandonada.

As ruas são labirintos
onde eu noto, em profusão,
milhões de dramas distintos
vagando na multidão!

A tempestade mais feia
ao crente não intimida.
Deus é o farol que clareia
o mar escuro da vida.

Bate à porta... e a desconfiança
põe o Salim na agonia:
tem mais medo de cobrança
do que gato de água fria!

"Boa viagem" - perdoa
mas te atender não consigo
que a viagem só é boa
quando tu segues comigo!

Cansei de crer tolamente
nos meus sonhos de menino.
Nem sempre o que agrada a gente
também agrada ao Destino!

- Casamento é mesmo o fim!
diz ela, no seu enfado,
- Quem suspirava por mim
agora ronca ao meu lado!...

Como negar evidências
sobre um Ser especial
se, na essência das essências,
Deus é sempre essencial!?...

Criança, eu ia brincar
nos poças-d'água, sozinho.
As poças viraram mar
e eu continuo um barquinho!

Despedida... e, por consolo,
neste encontro derradeiro,
só me resta o orgulho tolo
de ter dito adeus primeiro!

Diz o burro: - Não dá pé
minha paquera travessa!
Não sei fazer cafuné
numa "mula sem cabeça"!!!

Do trigo da meninice
e do pão da mocidade
só restaram na velhice,
as migalhas da saudade!

É catarata... enfisema...
Minha sogra é problemática!
A velha tem mais problema
que prova de Matemática!

Ela vive namorando
no escurinho atrás do muro
e por isto andam chamando
seu namoro de ... "namuro"!

Ela voltou de surpresa
e eu pude assim, num só dia,
após chorar de tristeza
também chorar de alegria!

Enfrento a dor com firmeza
e conservo em minha fé
a altivez da vela acesa
que se desmancha de pé.

Enganador é o Ramiro,
que finge como ninguém,
e só de "último suspiro"
ele já deu mais de cem!...

Eras corda enfraquecida...
e eu era uma corda só...
Fez-se o nó... e a mão da vida
jamais desfez este nós!

Era um tango... Foste embora
me deixando em desatino...
e a minha saudade agora
tem um sotaque argentino.

Erramos... erramos tanto
e os nossos erros banais
nos fizeram, por encanto,
dois infelizes iguais.

Esta paixão indomável
de emoções tão incontidas
é uma força incontrolável
que controla nossas vidas.

Eu não troco as ilusões
pelos caminhos mais certos.
Meu sonho de abrir portões
despreza os portões abertos.

Eu te imploro, por favor,
não insistas neste adeus.
Se não for por meu amor,
fica pelo amor de Deus!

Existe tanta união
entre os teus sonhos e os meus,
que só não és meu irmão
por um descuido de Deus!

Faltaram surpresa e encanto
em nosso encontro no cais...
Eu te esperei tanto, tanto,
que eu nem esperava mais...

Foi Luiz Otávio, exaltado
em sua luta mais bela,
um Príncipe apaixonado
pela Trova Cinderela.

Garimpeiro, pelos vãos
dos teus dedos que envelhecem,
muda a riqueza de mãos
para mãos que não merecem.

Indecisos, nossos dias
vivem dilemas sem fim,
revezando as fantasias
de pierrô e de arlequim...

Infância é um brinquedo usado
que um dia a vida resolve
tomar um pouco emprestado
e nunca mais nos devolve.

Lembrando o amor que a iludia
minha alma, feliz, revive...
Eu sei que foi fantasia
porém foi tudo que eu tive!

Maria é um resto somente
no cais, largada ao desdém...
ontem - mar de tanta gente...
hoje - porto de ninguém!...

Meu coração sofredor
nunca teve a liberdade.
Ontem - escravo do amor...
Hoje - refém da saudade…

Meu coração tem lutado
na guerra contra a razão:
soldado, à força alistado
no exército de paixão!

Meu sogro cheio de medo,
tenta a peruca esconder
e o que ele guarda em segredo
"tô" careca de saber !

Mil conquistas...sonhos vãos
que passaram feito a bruma.
Eu apertei tantas mãos
e não segurei nenhuma.

Minha alma reflete o tema
de um passarinho fujão,
vivendo o eterno dilema
entre a fome e o alçapão

Minhas mágoas mais secretas
em versos vou transformando.
No horizonte dos poetas
Há sempre estrelas brilhando!

Minha sogra é uma desgraça:
magricela e jururu.
A coroa é mais sem graça
que rodízio de chuchu!

Na farra, ela se refere
às transações do marido:
" Todo que com farra fere,
com farra será ferido!"

Na infância eu ia brincar
nas poças d'água, sozinho.
As poças viraram mar
e eu continuo um barquinho.

Não sei de temeridade
maior do que andar sozinho.
A presença da amizade
encurta qualquer caminho.

Nova rica não despista
a burrice que me espanta.
Diz que, sendo ecologista,
só compra casas "na planta"!

Numa batalha incontida
eu luto a ver se domino,
na imensa arena da vida,
os touros do meu destino!

Num constante caminhar,
a minha vida consiste
na procura de um lugar
que nem mesmo sei se existe!

Num dilema de amargura,
a Deus eu tento culpar
meu fascínio pela altura
sem asas para voar.

Num mau-humor quase eterno,
há quem, no viver sombrio,
faz da vida um grande inverno...
depois reclama do frio!

Olho o perfil da cascata
e tenho a impressão estranha
de ver um manto de prata
sobre as costas da montanha!

O sol, em plena alvorada,
abrindo o dia bonito,
é uma cascata dourada
jorrando luz do Infinito.

O toureiro Chico Louro
é chífrado onde estiver:
Na tourada... pelo touro,
No forró... pela mulher.

Para manter a mensagem
daquele adeus, na partida,
eu gastei toda a coragem
que eu juntei durante a vida!

Para mudar a visão
de quem não muda as retinas,
Deus, em sábia decisão,
encheu as ruas de esquinas!

Partir... ficar... e o problema
de espinhosa solução
enlaça em nós de dilema
as cordas da indecisão !

Partiste... eu sonho... tu sonhas
e nós seguimos mentindo.
Nós somos dois sem-vergonhas
que vivem se despedindo!

Perdão eu não quis pedir
e hoje um remorso sem fim
me diz que eu deixei partir
quem era parte de mim!

Perder-te sem ter pedido
pelo menos um perdão
foi meu pênalti perdido
num jogo de decisão.

Perdoa, Pai, a oração,
se eu te peço em demasia
mas preciso, além do pão,
do sonho de cada dia.

Pobre horizonte pequeno
de quem crê, sem ver mais nada
que uma rosa com sereno
é só uma rosa molhada!

Por magia, o sonho lindo,
que me segue ao fim da estrada,
é um pombo alegre fugindo
de uma cartola surrada!

Por mais que a vida dê volta,
nosso carinho perdura...
que a mão do tempo não solta
as mãos dadas com ternura!

Por um contraste cruel,
de razões mal explicadas,
dos teus olhos cor de mel
descem lágrimas salgadas!

Por ver a nossa ansiedade
ao ter de nos separar,
o dilema da saudade
é saber com quem ficar.

Recordo o velho sobrado...
meus pais... a infância inocente...
e as essências do passado
vão perfumando o presente!...

Respeita as dores e anseios
na igualdade que proclamas
e vê que os dramas alheios
são dos outros... mas são dramas!

Saudade são velhos trapos,
pedaços do coração,
que fica feito farrapos
na cerca da solidão!

Se alguns sofrem se sozinhos
e outros sofrem por amar,
dilema é ter dois caminhos
e nenhum para trilhar

Se a oração foge da mente
no instante da dor pior,
solta um murmúrio somente...
Deus sabe as preces de cor!

Se a vida é mera passagem
por este plano somente,
o preço desta viagem
é a própria vida da gente

Selei, ao negar-te o abraço,
a minha sina de só.
A mão que desfaz um laço
nem sempre desfaz um nó!

Senti, no suave cheiro
que o vento me trouxe agora,
que o vento passou primeiro
pela rua onde ela mora!

Se os meus dias não tem tido
um colorido mais franco
é que eu sonho colorido
e conquisto em preto e branco.

Ser seu amigo é um valor
que para mim não compensa,
para quem deseja o amor,
a amizade é quase ofensa!.

Se um sonho que se esfacela
não passa de cão vadio,
a ilusão é uma cadela
eternamente no cio.

Sol e chuva e no horizonte,
decompondo a luz ao léu,
o arco-íris é uma ponte
no lago imenso do céu.

Sou gota d'água a cismar
num dilema-desafio,
entre a ventura do mar
e a segurança do rio

Sou no final da existência,
em meu cansaço, grisalho,
folha seca na iminência
de desprender-se do galho.

Tem a ventura, o estupendo
poder de nos fascinar.
e a gente a segue sabendo
que nunca vai encontrar!

Ter ou não ter seu amor...
Este dilema profundo
me faz o mais sofredor
dos sofredores do mundo.

Teu olhar tenho evitado,
pois sei que ninguém, querida,
mexe em cinzas do passado
impune às brasas da vida!

Trata o amor com fantasia
para fazê-lo viver;
o amor que perde a magia
tem muito pouco a perder!...

Vens... não vens... e na incerteza
do dilema que me cansa,
a minha vida está presa
neste fio de esperança!

Violando os frágeis abrigos,
a chuva lembra uma espada
cortando os sonhos mendigos
no meio da madrugada.
===================


Texto por José Feldman

Temos o destino que merecemos.
O nosso destino está de acordo com os nossos méritos.
(Albert Einstein)

Destino é o livro de poesias da “primeira dama da trova” de Santos/SP, Carolina Ramos. Além de suas magníficas trovas, seus contos que vim a conhecer em seu livro “Interlúdio”, esta guerreira nos encanta com suas poesias.

Destino é o que buscamos, cada qual a seu modo, por seu caminho, e neste livro, Carolina mostra este fado, através da Tentação, do Cântico de Fé, de Esperança, da Voz do Silêncio, da Hipocrisia, do Milagre, da Amizade. Ela nos faz enveredar por um caminho que às vezes parece árduo, mas que ao mesmo tempo nos seduz, fazendo com que desejemos continuar esta caminhada. Ela não só nos delicia com suas palavras, mas faz que vivamos os momentos de emoções, muitas vezes por nós vividos, outras por nossos sonhos, assim como os instantes de nossas desilusões.

Segundo Machado de Assis, “O destino, como os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho”, e é assim nas 227 páginas do livro. Todo momento é um novo momento, cada poesia faz parte de um emaranhado de uma teia, a teia do Destino.

O destino, sobretudo,
numa visão alongada,
é uma incerteza de tudo
ante a certeza do nada!
Eduardo A. O. Toledo (Pouso Alegre/MG)

E Carolina não pára por aí, vai criando uma teia enorme ao escrever sobre o que há a nossa volta ou sobre personagens que povoam nossa mente, como Castro Alves, José de Anchieta, ou mesmo locais como Nova Friburgo, Corumbá, Santos, etc.

Deixa que o ouro do sonho te enriqueça:
– Velho, terás um coração menino!
Vai…que o beijo das Musas tua alma aqueça…
– Poeta, vai… e cumpre o teu Destino!
(Carolina Ramos, in poesia Destino, estrofe final, p.18)

Qual será o destino? Não sabemos! Mas,
Sou tal qual um beduíno,
na vastidão do deserto,
levado pelo destino
para o meu destino incerto!
Francisco Neves de Macedo (Natal/RN)

Somos qual beduíno a percorrer a vastidão das folhas deste livro, que ora é deserto, ora é oásis, e que cada verso, cada palavra seja um momento de reflexão, aquele momento sublime entre a tempestade e a calmaria, e que este momento seja como um fio, um fio tênue e longo que una em suas pontas os desejos e os mistérios do destino, um fio de um lado nós, seres humanos, do outro, Deus.

Saiba que seu destino é traçado pelos seus próprios pensamentos,
e não por alguma força que venha de fora.
O seu pensamento é a planta concebida por um arquiteto
para construir um edifício denominado prosperidade.
Você deve tornar o seu pensamento mais elevado,
mais belo e mais próspero
(Martin Luther King)

Ou, nas palavras de Paulo Bomfim: “O destino deste livro é destinar destinos”.

Divaguemos ao sabor das ondas do Destino.

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to