Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 14 de julho de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n.190)





Uma Trova de Bandeirantes/PR
NEIDE ROCHA PORTUGAL

Vem Trovador, vem correndo
ao meu Paraná, porque,
o Pinheiro está morrendo...
... De saudades de você!

Uma Trova de Porto Alegre/RS
IALMAR PIO SCHNEIDER

Levo a vida com firmeza,
na derrota ou no sucesso,
pois do rio, a correnteza
vai em frente sem regresso !
Uma Trova Humorística, de Pindamonhangaba/SP
JOSÉ OUVERNEY

“Nada de truque, safado,
que eu vi a vizinha à espreita!”
E ele, agora, interessado:
“a da esquerda...ou da direita ?”

Uma Trova Premiada em Ribeirão Preto/SP, 1998
DOROTHY JANSSON MORETTI (Sorocaba/SP)

Meus pobres sonhos, tão fracos,
a vida em escombro os fez,
mas, teimosa, eu junto os cacos…
e eis-me a sonhar outra vez!

Uma Trova de Fortaleza/CE
J. UDINE VASCONCELOS

Por onde anda o meu amor?
Onde fica o seu jardim?
Sou perdido beija-flor,
solitário querubim...
Um Poema de Moçambique
AMOSSE EUGÉNIO MUCAVELE

morri no mar
e ressuscitei no rio
tenho saudades do sal

Uma Trova Hispânica da Espanha
CARMEN PATIÑO FERNÁNDEZ

Me enamoré de la trova
¡Dime tú! ¿Qué puedo hacer?
si enamorada me emboba
mis adentros de mujer...

Um Poema Do Rio de Janeiro
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)

Tempo de olhar o tempo

Um olho no relógio, outro na vida;
O tempo não convida, ele intima;
Quem não sabe lutar, foge da esgrima;
Quem bate no destino, ele revida.

Embora a tristeza nos oprima,
Quem não conhece a dor, sente a ferida
Na víscera da dor mais dolorida…
O amor é uma dor que não vitima.

Deus nunca olha o homem lá de cima,
Ele aproxima o ser do Criador;
E quando ele se vê no seu senhor,
Entrega-lhe essa dor que o subestima.

O amor é uma sublime obra-prima
Que prima pela criatividade;
Ele se move acima da maldade,
Por mais que alguma mágoa o deprima.

Ninguém consegue ver olhando a esmo,
E quando  o nosso olhar nos desanima,
Fazemos nosso amor ter como rima
A dor que o desamor faz de si mesmo.

Um olho no relógio… e na manhã;
Poetas têm a solidão por prima
Mas é na solidão que os anima
Que a emoção se torna… sua irmã.

(Primeiro Lugar no Concurso Literário da Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil 2013)

Trovadores que Deixaram Saudades
JUVENAL GALENO
Fortaleza/CE (1838 – 1919)

Do que vem após a morte
que mais me causa aflição
é o ouro na caixa forte
e pequeninos sem pão.

Um Poema de Genebra/Suiça
JACQUELINE AISENMAN

Na Esquina

Eu vi você.
Vi você bem ali
na esquina da minha vida.
Tentei alcançar
mas já era tarde
o tempo de eu chegar
e a curva tinha sido feita!
Esquerda?
Direita?
Em frente?
Não vi por onde você foi!
Na dúvida entre esperar
e ver você passar
de volta...
ou escolher um caminho
ao acaso e tentar
encontrá-lo...
Voltei dois passos.
Depois lembrei de onde estava indo
e antes do atraso
também me fui!

Um Poema de Moçambique
HIRONDINA JOSHUA

Pretendo chegar a Deus
Sílaba a sílaba
Com sangue puro
Como quem luta
E nunca soube o que é lutar
Sou inerme
Na carne da substância pura:
Matéria do trabalho cósmico,
Fenómeno do fogo
“Strictu sensu”.
Chamo a Deus
No semblante amorfo da música.

Um Haicai Irati/PR
ELISSON THOMAZ SVEREDA

Lembro de meu pai
Debruçado na janela.
Noitinha de outono.

Um Poema de Belo Horizonte/MG
CLEVANE PESSOA
(Clevane Pessoa de Araújo Lopes)

Perdoar, sem esquecer...

De perdoar, ralei os joelhos da alma ,
Fiz arder os alvéolos do espírito exausto,
Nadando do alto mar, mas enxergando a praia, 
Forneci novos códigos ao self desconstruído,
Caminhei com sede e fome,
Pelo labirinto da perplexidade...
Mas esquecer, impossível, pois meu feitio
É de registrar dos pequenos segundos ao instante exato
Em que a seta alcançou e rasgou a pele sensível
De meu coração selvagem, corcel em pradaria deserta...
Aos que constroem castelos no índice da maldade,
Aos que destilam a inveja no olho do furacão.
Aos que trabalham artimanhas e armadilhas
Sem preocupar outrem, mando meu canto e minha dança,
Onde as palavras têm força numérica.
Acreditam em minha ingenuidade,
Porque não costumo revidar, mas isso é pela Paz.
Desde pequena, aprendi, ao colo de minha mãe,
De mãos dadas com meu pai,
Ou nas histórias exemplares contadas por meus avós
A dimensão da dignidade
E as peças para montar as ilustrações
Da generosidade pura e simples, sem ganhos secundários.
Danço e voo, pelo labirintos , até modificar a destinação
Do minotauro.
É de minha missão, semear, abrir a porta,
ensinar aos ainda verdes
De coragem e de pacifismo diligente.
Não farei o mal, mas estou em alerta.
Esfregarei na ferida aberta dos arrependidos, sal e vinagre.
Mesmo o açúcar é curativo e fecha talhos..
Mas talvez já seja tarde para que aprendam meu canto ,
Minha dança , meu voo.
Talvez , para essas pessoas, já seja tarde...
Perderam o tempo com/sagrado aos deuses
Da serenidade e agora, têm o olhar despetalado,
Os ouvidos entupidos de nada,
Os cordas vocais esgarçadas...

Eu cantarei, porque já perdi a voz quando não pude falar.
Eu dançarei desde que percebi estarem as correntes
Presas à pedra-sabão, que desgastei com passos precisos.
Balerina, já bailei com os dedos feridos,
Salpicando as sapatilhas de sangue e cristais.
Eu voarei, pois fiz crochê com o fio forte e levíssimo
Das teias de aranha fiandeira.
E posso entregar-me às tempestades.

Perdoar, sempre
Esquecer, jamais.

Recordando Velhas Canções
HERIVELTO MARTINS

PRAÇA ONZE
(samba/carnaval, 1942)

Vão acabar com a Praça Onze
Não vai haver mais Escola de Samba, não vai
Chora o tamborim
Chora o morro inteiro
Favela, Salgueiro
Mangueira, Estação Primeira
Guardai os vossos pandeiros, guardai
Porque a Escola de Samba não sai

Adeus, minha Praça Onze, adeus
Já sabemos que vais desaparecer
Leva contigo a nossa recordação
Mas ficarás eternamente em nosso coração
E algum dia nova praça nós teremos
E o teu passado cantaremos

(instrumental)

Favela, Salgueiro
Mangueira, Estação Primeira
Guardai os vossos pandeiros, guardai
Porque a Escola de Samba não sai
Guardai os vossos pandeiros, guardai
Porque a Escola de Samba não sai
Praça Onze, Praça Onze, adeus
Praça Onze, Praça Onze, adeus

Um Indriso de Villanueva e La Geltrú/Espanha
ISIDRO ITURAT
(1973)

História Natural

Iluminou os oceanos a célula;
pisou a terra uma pata de anfíbio;
comeu o réptil réptil, e mais réptil.

Mamou, depois do gelo, o mamífero;
endireitou-se a espinha do primata;
viu que era bom matar o hominídeo.

Queimou-se uma árvore e pensou o homem.

Gemeu ao pensar, quis voltar a ser célula.

Um Poema do Cabo Verde
MARCIO LUCIO SOUSA

O Sol, ordem de todas as manhãs
A Lua, que não nos viu ontem
O dia, que não sabe de nós
O Mundo, sem saber de nada
marcam suas presenças na nossa mente
mente que criou o Sol, a Lua, os dias e as manhãs
No meu coração
cheio de tudo, porque sabe tudo, tudo
espera para ser
tão cedo apareças.

Um Poema de Moçambique
ZEKEENE CHICHAVA

As vezes a minha poesia
sou eu mesmo,
Meu corpo
Minha alma
E cada palavra
Que nasce
sobre a minha nudez...

Sou cada palavra
Que bebo
Para minha sede
Em cada livro
Naufragar…

Um Poema de Uberlândia/MG
RAQUEL ORDONES

Eu sou a esperança

E se tudo me parecer arruinado
E se me furtarem a perseverança
Se do orbe eu ficar desencaixado
Preciso crer, eu sou a esperança.

E se o caminho parecer tortuoso
Se lágrima cair da minha criança
Se o adulto de mim for orgulhoso
Preciso crer, eu sou a esperança.

Se a minha flor tende emurchecer
Se eu tropeçar na minha andança
Preciso crer, eu sou a esperança.

Em minha essência algo invisível
Devo empunha-lo e ter confiança
É minha fé, sou minha esperança.

Uma Glosa de Porto Alegre/RS
GISLAINE CANALES

Glosando A. A. DE ASSIS
Nossa guerra de amor...
-
MOTE:
Ah, o amor...O amor fascina,
quando na cama o combate
triunfalmente termina
num belo e gostoso empate!

GLOSA:
Ah, o amor...O amor fascina!
Sempre tontos de emoção,
estouram, a adrenalina,
nossos beijos de paixão!

É quase uma guerra fria,
quando na cama o combate
usa as armas da euforia
e com elas se debate!

Com gemidos em surdina
a guerra do amor se faz...
Triunfalmente termina
na calmaria da paz!

Nessa luta incontrolada,
ninguém exige resgate,
e ela é sempre terminada,
num belo e gostoso empate!

Sobre a Canção “Praça Onze”
            Delimitada pelas ruas de Santana (a leste), Marquês de Pombal (a oeste), Senador Euzébio (ao norte) e Visconde de Itaúna (ao sul), a Praça Onze existiu por mais de 150 anos. A princípio denominada Rocio Pequeno, depois Praça Onze de Junho (data da Batalha de Riachuelo), tornou-se, nas primeiras décadas do século XX, o local mais cosmopolita do Rio de Janeiro.
            Em suas redondezas misturaram-se imigrantes espanhóis, italianos e judeus de várias procedências com milhares de negros, na maioria oriundos da Bahia. E foram os negros que transformaram a Praça Onze em reduto de sambistas, ao usarem o seu espaço para os desfiles das primeiras escolas de samba.
            Em 1941, quando a prefeitura começou as demolições para a abertura da Avenida Presidente Vargas, que extinguiria a praça, Grande Otelo teve a idéia de protestar em ritmo de samba. Ótimo ator, mas letrista medíocre, ele escreveria uma versalhada sobre o assunto, que mostrou aos compositores Max Bulhões, Wilson Batista e Herivelto Martins, sem lhes despertar o menor interesse.
            Mas Otelo era teimoso e Herivelto, para se livrar dele, compôs o samba em que aproveitou a ideia, desprezando os versos. Diga-se de passagem, que na época os dois trabalhavam nos cassinos da Urca e de Icaraí, atravessando todas as noites a Baía de Guanabara, numa lancha que fazia a ligação entre as duas casas.
            Foi numa dessas travessias que Herivelto começou a escrever "Praça Onze". Acontece que a composição – anunciando o fim da praça e dos desfiles e, de uma maneira comovente, exortando os sambistas a guardarem os seus pandeiros - superou as expectativas do autor, sugerindo-lhe uma gravação diferente, em que se reproduzisse o clima de uma escola de samba. E assim ele fez, tendo a novidade se tornado padrão para a execução de sambas do gênero.
            Além do canto, no estilo "empolgação", a cargo do Trio de Ouroreforçado por Castro Barbosa, foi primordial para que se estabelecesse tal clima o uso destacado de três elementos rítmicos - o tamborim, o apito e o surdo. Até então, o apito era usado nas escolas de samba somente como elemento sinalizador, para comandar o desfile. Sua função rítmica, sibilando em tempo de samba, foi uma invenção de Herivelto, lançada nesta gravação.
            Por tudo isso, "Praça Onze" alcançou extraordinário sucesso, ganhando, ao lado de "Ai, que saudades de Amélia", o concurso de sambas promovido pelo Fluminense. E naquele carnaval, onde se cantou "Praça Onze" tinha sempre alguém soprando um apito, o que acabou causando a Herivelto uma despesa inesperada: caridosamente, ele assumiu metade do prejuízo sofrido por Murilo Caldas, autor da marcha "Passarinho Piu Piu", que distribuíra mil apitos entre os foliões, indiferentes à sua música. (Fonte: http://cifrantiga3.blogspot.com)
Poemas de Moçambique retirados da Revista de Literatura Moçambicana e Lusófana “Literatas”, n. 61, julho de 2014. A Revista pode ser lida em http://revistaliteratas.blogspot.com.br/.


Trovador Destaque


Abacateiros que crescem
num vaso à minha sacada,
dá-lhes água que merecem
ostentar sua ramada!

A beleza do jardim
está contida na flor;
e a graça que não tem fim
encontro no teu amor…

Acabou-se da memória
o desejo de te amar,
mas ninguém me rouba a glória
de em meus versos te cantar!…

A cigarra e a formiga,
pelo destino do amor:
uma executa a cantiga,
outra executa o labor.

A esperança, nesta vida,
é tudo que nos conduz,
pela estrada florescida
de sonhos de amor e luz!…

Ainda sonho contigo
de noite na minha cama;
és a musa que persigo
com a paixão de quem ama !

Alta noite, escrevo versos,
sentindo a falta de alguém;
quem me dera que dispersos,
ela os ouvisse também…

A mágoa que em mim existe
é fruto de uma saudade
que me transforma num triste
no seio da sociedade.

A manhã surge radiante,
envolvendo de esplendor,
na alegria contagiante
toda a natureza em flor.

Amiga de muitos anos,
companheira de verdade,
enfrentando os desenganos,
ela se chama: saudade.

A minha infância tão pobre
com tantas dificuldades,
mas não deixou de ser nobre,
pois dela sinto saudades.

Amo a trova em devaneio
porque quero teu carinho:
é por ela que em ti creio
e te espero em meu caminho.

Amor de triste memória
que me envolveu tantos dias,
hoje é uma simples estória
de falsas alegorias…

Andei por árduo caminho
no qual não quero andar mais;
e voltei para o meu ninho
como voltam os pardais…

Ando à procura de alguém
que me venha dar carinho,
como estou não me convém,
não quero viver sozinho.

Anoitece lentamente
quando medito sozinho
e me quedo descontente
distante do teu carinho.

A noite desceu aos poucos
e no céu surgiu a lua
para os boêmios e loucos
que vagam a esmo na rua.

A noite já vem chegando
para trazer-me a saudade,
pois o tempo foi levando
toda a minha mocidade…

À noite sonho contigo
em meu céu de fantasia,
mas depois pra meu castigo
não te encontro noutro dia.

A noite sucede ao dia
e assim se passam os anos
eu vivo sem alegria
e morro de desenganos…

A noite toda em vigília
esperando amanhecer,
pois quando enfim o sol brilha
hei de te ouvir e te ver.

Ao tentar criar poemas
para contar minha história,
me deparei com dilemas
na fase contraditória…

A poesia que me invade
em horas de inspiração,
além de cantar saudade,
também canta solidão!

Aquela que um dia fez
meu coração palpitar,
hoje não saiba, talvez,
desta saudade sem par.

As cartas que me escrevias
com tanto amor e saudade,
acalentavam meus dias
cheios de felicidade.

As trovas que a gente escreve,
mesmo que sejam banais:
é um pouco da vida breve
que não volta nunca mais…

As trovas que aqui deponho
à apreciação dos leitores,
são os frutos do meu sonho
que colhi nos meus amores…

Às vezes me contradigo
sem querer, naturalmente,
pois corro sempre o perigo
de te amar inutilmente.

A trova que canto agora
tem sabor de nostalgia,
por alguém que foi embora
quando mais bem a queria.

Busco na trova a harmonia
para equilibrar a vida;
é o resumo da poesia
em quatro linhas contida.

Cada dia uma rotina
que devo sempre seguir,
entretanto a vida ensina
que não posso desistir.

Cada paixão que me invade
surge do amor que não tive;
e representa a saudade
de quem neste mundo vive.

Caminhemos pela vida,
qual se fôssemos crianças,
e por mais ríspida a lida,
nunca nos falte esperanças !

Certo dia andava triste
Pelas ruas da cidade,
Foi então que tu surgiste
Pra minha felicidade.

“C’est la vie!”, diz o francês
em meio do burburinho…
“Time is money!”, diz o inglês
ao seguir o seu caminho…

Como tarda anoitecer
nestes dias de verão,
quanto é difícil viver
mergulhado em solidão!

Como uma musa eu te quis
e depois como mulher,
oh, como fui infeliz
por amar quem não me quer !

Conheci-a linda outrora
no esplendor da juventude,
mas o tempo leva embora
toda vaidade que ilude.

Consegues viver sozinha,
enfrentando a solidão?!
Recorda que “uma andorinha
sozinha não faz verão…”

Contigo no pensamento,
eu vou compondo esta trova,
porque neste sentimento
minha paixão se renova.


Contigo no pensamento
não lembro de mais ninguém:
és meu prazer e tormento,
mas algo que me faz bem…

Contigo no pensamento
tento dormir e esquecer;
no entanto, pra meu tormento
tu não sais do meu viver…

Coração aventureiro,
vive sonhando um amor,
que pode ser verdadeiro,
infeliz ou enganador.

Cresce a planta no jardim
por força da natureza;
e cresce dentro de mim
o amor à tua beleza.

Das flores todas que planto
em meu modesto jardim,
aquela de mais encanto
vem ser você, meu Jasmim!

Da vida não tenho medo,
da morte ainda não sei
qual há de ser o segredo
que nela desvendarei…

Deixa-me ficar sonhando
em meu mundo de ilusão,
pra que vá me acostumando
a viver na solidão.

Dediquei-me tanto ao estudo
que quase fiquei mais louco,
procurando saber tudo,
vejo que aprendi tão pouco…

De manhã cedo levanto
e ao Senhor dos Céus imploro,
que me ajude quando canto
e me console se choro.

Dentro do peito escondido,
no silêncio da saudade,
chora o coração ferido
pelo punhal da maldade.

Depois de tantos caminhos
percorridos nesta vida,
meu troféu são teus carinhos
que tenho em contrapartida.

Desce a noite devagar:
é o começo do verão…
As aves vão descansar
na calma da solidão.

Desejo fazer somente
o que deveras me apraz,
levando os sonhos em frente,
deixando as mágoas pra trás.

Desejo que o nosso amor
nunca seja de mentira;
por isto sou trovador
romântico, ao som da lira.

De tudo o que já perdi,
nada me causa mais dor,
do que estar longe de ti
e viver sem teu amor!

De tudo que amo e venero,
vem em primeiro lugar,
teu beijo doce e sincero
que me faz revigorar.

Deve a trova ser singela
e atingir os corações;
quanto mais simples mais bela,
embora tenha “chavões”.

Deve a trova ser singela
para sabe-la de cor;
quanto mais simples mais bela,
quanto mais terna melhor…

Devo te dizer cantando
para que escutes sorrindo
e assim vás acreditando
que eu não esteja fingindo…

Dos versos soltos que faço,
um deles tem mais calor;
porque lembra teu abraço
e nossos beijos de amor..

Eis que chega a primavera,
trazendo-me novo alento,
vivo o “suspense” da espera
de te encontrar num momento…

Enfrentar alegremente
as incertezas da vida,
é a maneira inteligente
de tardar a despedida.

Entre amar e ser amado,
eu não sei o que é melhor;
porém, viver desprezado,
é, sem dúvida, o pior!

Eras bonita… Eu tão feio…
mas nos queríamos tanto,
que num mesmo devaneio
nos amamos por encanto…

Eras uma linda fada
num jardim cheio de flores;
assim foste minha amada
na canção dos meus amores.

És a força que eu preciso
para deixar de sofrer.
Oh! querida, toma juízo
e vem comigo viver !

És a mulher do meu sonho,
digo sonhando outra vez,
este delírio tristonho
é a própria vida que o fez.

És a musa dos meus versos
que me inspira quando canto
e nos momentos adversos
o motivo do meu pranto.

Escrevo trovas sentidas
num desabafo de dor:
são as ilusões perdidas
de certo frustrado amor.

Esperava compreender
o que me causa aflição,
para não permanecer
nesta horrível confusão.

Esperava o teu sorriso
em teus lábios e nos olhos;
quase perdi o juízo
quando me lançaste abrolhos…

Esquecer não é somente,
A força pra não lembrar,
É viver bem o presente
Pra não ter que retornar…

Esse amor que tu me deste
foi efêmero, fugaz…
Por isto a tristeza investe,
arrebatando-me a paz.

Esta chuva me visita,
vem despertando a saudade,
ao lembrar quanto és bonita,
pois és a felicidade !

Esta grande desventura
que me causa tanta dor;
eu já creio: não tem cura…
pois perdi o teu amor.

Este amor que não resiste
às tentações deste mundo,
se não fosse assim tão triste,
pudera ser mais profundo.

Estivemos frente a frente,
mas nenhum de nós sorriu;
parecias diferente
que me deixaste arredio.

És uma estrela tão alta,
brilhando no firmamento,
que a minha canção exalta
no calor do sentimento.

É tão tarde… a madrugada
daqui a pouco vai raiar;
e pensando em minha amada
quero dormir e sonhar…

Eu agora não me espanto
e nem me causa pavor,
o terrível desencanto
que sofri por teu amor.

Eu caminho lentamente
pelas areias do mar,
debaixo do sol ardente
que descamba devagar…

Eu faço trovas sentidas
nestas noites de luar:
são as “paixões recolhidas”
que não consigo olvidar.

Eu fui ficando distante
e vivendo da saudade,
pois desejo, doravante,
somente a sinceridade…

Eu fui te ver certo dia
e apenas me confundiste;
ia cheio de alegria
e voltei magoado e triste.

Faço versos para alguém
que surgiu em minha vida
e agora com seu desdém
me deixou a alma ferida.

Faze da trova teu lema
com grande satisfação
e terás em cada tema
um motivo de emoção.

Faze o verso sem barulho
de trovador solitário,
que se usares falso orgulho
não passarás de um otário.

Já fiz trovas de improviso,
mas com muita reflexão,
pois de uma coisa preciso:
é não perder a razão…

Meu coração se consterna
olhando a noite estrelada;
no mundo quem me governa
são as carícias da amada.

Meu destino é fazer versos
pra compor as minhas trovas,
quanto mais sejam diversos
mais elas hão de ser novas…

Não há mentira mais louca
da que sai do coração,
pois a que nasce da boca
quase sempre é pretensão.

Na trova tudo acontece,
que o diga meu coração,
pois amei quem não merece
possuir minha paixão.

No coração de quem ama
não morre nunca a saudade,
porquanto é qual uma chama
com fogo da eternidade…

O amor tem prazer e pranto,
também mágoas e carinhos;
pois assim sendo, portanto,
não há rosas sem espinhos!

Ouve os versos que componho
ao te lembrar, ó querida!
A vida parece um sonho,
um sonho parece a vida…

Pelas trovas benfazejas
que solitário componho,
peço que ditosa sejas
e concretizes teu sonho.

Perdido em divagações
sento à beira do caminho,
como se as recordações
não me deixassem sozinho.

Quantas trovas, quantos versos,
me levaram de roldão,
a conhecer universos
existentes na ilusão…

Quem ler meus versos verá
que procurei ser feliz;
e afinal entenderá
que nunca tive o que quis.

Saudade!… palavra viva
do que ficou no passado;
és o bem que nos cativa
para sempre ser lembrado!

Seja pobre ou seja rica
a rima é uma canção,
a saudade sempre fica
depois que os versos se vão.

Tem trovas que a gente diz,
tem outras que a gente lê,
e pra mim a mais feliz
é a que fala de você !

Tens razão quando tu dizes
que o poeta é um sonhador;
neste mundo de infelizes
só assim suporta a dor.

Uma trova pequenina
demonstra como um teorema,
a realidade que ensina
e diz mais do que um poema.
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Apresentação por José Lucas de Barros

         Ao lado do movimento trovadoreco, reconhecidamente como instrumento de coesão e amizade entre os poetas e seus familiares, no Brasil e até em outros países amigos, passamos a introduzir o debate poético, também aglutinador de ideias e estimulador de amizades. A brincadeira, toda feita pela internet, tomou corpo há mais de três anos e nos tem dado preciosos momentos de alegria e inspiração. Os debates se desenrolam  num clima de entendimento, ética e solidariedade que nos encanta.Todos os companheiros, já unidos pelos laços indestrutíveis da trova, concordamos em fazer parcerias usando a sextilha e a septilha nordestinas, cujo formato, com os versos ímpares brancos ou sem rimas, como no caso da sextilha, para facilitar o repentismo, deixa os poetas mais soltos no manejo das ideias. Não estabelecemos nenhum tema específico. Deixamos fluir os versos com plena liberdade de pensamento, evitando apenas o baixo calão, o preconceito ou coisa assim, mas sem estabelecer normas, porque são desnecessárias diante de gente de amadurecida educação e boa índole.
         Este, com doze parceiros, foi, numericamente, o maior debate que já realizamos, produzindo 240 estrofes, ora paginadas neste livreto.
         O convívio quase diário entre esses doze amigos do coração, pela internet, foi, sem dúvida, muito gratificante para todos nós, mas a experiência mostrou que é melhor trabalhar com grupos menores, dadas as naturais dificuldades da comunicação eletrônica (panes no sistema, defeitos nos computadores, ausências de parceiros em viagens, problemas de saúde, etc.)
         Por fim, considerando-me talvez o mais beneficiado nesta parceria, pelo que aprendi e desfrutei em termos de satisfação, conquista e aprofundamento de amizades, agradeço a todos os companheiros e coloco-me ao seu inteiro dispor no que eu possa ser útil dentro de minhas limitações.
                                                                           Cordialmente, José Lucas de Barros (2012)

Estas sextilhas tem as parcerias de:
1. A. A. de Assis (PR);
2. Delcy Canalles (RS);
3. Elisabeth Souza Cruz (RJ);
4. Francisco Garcia (RN);
5. Gislaine Canales (SC);
6. Hélio Pedro Souza (RN);
7. Milton Souza (RS);
8. José Ouverney (SP);
9. Arlindo Tadeu Hagen (MG);
10.Thalma Tavares (SP);
11. Vanda Fagundes Queiroz (PR); e
12. José Lucas de Barros (RN)

Exemplo:

1. Assis
Queridos irmãos e irmãs,
parceiros de cantoria,
dando início a este debate,
previno-os com alegria;
– Preparem seus corações
para um banho de poesia!

2. Delcy
Que voe com euforia
este debate iniciado,
aproximando poetas
de outros e do meu Estado,
e, hoje, para começar,
vai meu abraço apertado!

3. Elisabeth
Recebo o abraço apertado,
minha gente companheira,
e aqui, de minha cidade,
a Suiça Brasileira,
a notícia é promissora
de que o verso é sem fronteira!

4. Prof. Garcia
Que informação verdadeira
esta que a colega diz,
se a poesia é um sonho
norteia nossos perfis,
pois quem não sonha não vive,
sonhando eu sou mais feliz!

etc…

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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