Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 206)




Uma Trova de Curitiba/PR
VANDA FAGUNDES QUEIROZ

Onde a sombra cobre e embaça
o sol que anima e clareia,
eu quisera ser quem passa
e reacende a luz alheia.

Uma Trova de São Paulo/SP
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA

Se vejo o mundo às escuras,
embarco em meu sonho...e assim,
subo a escada e, nas alturas,
acendo um sol para mim!

Uma Trova Humorística, de Balneário Camboriú/SC
ELIANA RUIZ JIMENEZ

Estrondo, coisa danada,
será trem ou avião?
- Barulho na madrugada
é o ronco do maridão…

Uma Trova Premiada em Niterói/RJ, 2003
DIVENEI BOSELLI (São Paulo/SP)

Choro junto à sepultura
De sonhos mortos repleta,
E a razão, mãos na cintura,
Diz: – quem mandou ser poeta.

Uma Trova de Belém/PA
ANTONIO JURACI SIQUEIRA

Na paisagem poluída,
o poeta, buscando um norte,
pinta um sol de amor e vida
no rosto escuro da morte!

Um Poema de Belo Horizonte/MG
CLEVANE PESSOA DE ARAÚJO LOPES

Lavadeirinhas

Para amenizar a lida,
as lavadeiras de Minas
lavam cantando demais
o que lhes vai pela vida...

Rezam louvando a Maria,
cantarolam seus amores,
em coro choram suas dores,
sérias, mostram sua alegria,,,

Nas pedras batem os panos,
às vezes soltam risadas
enquanto dão suas braçadas,
as mesmas de tantos anos...

Às vezes, roupas perseguem,
que lhes fugiram das mãos,
os peixes são seus irmãos
por mais que os peixes o neguem...

Velho Chico, um grande rio,
acostumado às cantigas,
vê nelas grandes amigas,
a ninar seu passadio...

Os passarinhos se intrigam:
de que penas são tais vozes,
cantando lentas, velozes,
que sobre as margens se abrigam?

No Jequitinhonha, do Alto
cantam tanto as de Almenara,
que seu coro, qual jóia rara,
está num CD bem lauto...

Cantavam as ribeirinhas,
em Portugal, no passado,
e ao vir prá cá, com agrado,
trouxeram suas musiquinhas...

Por isso cantam as baianas
quando lavam na Abaeté,
linda lagoa - e com fé,
rezem sagradas, profanas...

Sobre madeira flutuante
- cada mulher tem seu porto
por questão de mais conforto
a cabocla lava expectante:

vigia se o boto aparece,
peixe em moço transformado,
um sedutor encantado
(senão a barriga cresce)...

As roupas brancas clareadas
à luz do sol, clareador,
ficam alvas, sim senhor
e depois serão engomadas...

São lindas as lavadeiras,
em belas coreografias
ensaiadas todos dias,
dançam e cantam faceiras

E esse show, sem ser ensaiado
toca qualquer coração,
pois corpos, braços, sabão,
são um todo sincronizado...

Desaparecem os cansaços
nas canções alegrezinhas
que são seus melhores traços
– Que cantem sempre, avezinhas!

Uma Trova Hispânica da Republica Dominicana
CLAUDIO GARIBALDY M. SEGURA

Espérame en el ocaso
con tu bonita canción
y acógeme en tu regazo
que te daré mi pasión...

Um Poema da Inglaterra
JOHN DONNE
(1572 – 1631)

A Isca

Vem viver comigo, sê o meu amor
E alguns novos prazeres provaremos
De areias douradas e regatos de cristal
Com linhas de seda e anzóis de prata.

Aí o rio correrá murmurando, aquecido
Mais por teus olhos do que pelo sol;
E aí os peixes enamorados ficarão
Suplicando a si próprios poder trair.

Quando tu nadares nesse banho de vida
Cada peixe, dos que todos os canais possuem,
Nadará amorosamente para ti,
Mais feliz por te apanhar, que tu a ele.

Se, sendo vista assim, fores censurada
Pelo Sol, ou Lua, a ambos eclipsarás;
E se me for dada licença para olhar
Dispensarei as suas luzes, tendo-te a ti.

Deixa que outros gelem com canas de pesca
E cortem as suas pernas em conchas e algas;
Ou traiçoeiramente cerquem os pobres peixes
Com engodos sufocantes, ou redes de calado.

Deixa que rudes e ousadas mãos, do ninho limoso
Arranquem os cardumes acamados em baixios;
Ou que traidores curiosos, com moscas de seda
Enfeiticem os olhos perdidos dos pobres peixes,

Porque tu não precisas de tais enganos,
Pois que tu própria és a tua própria isca,
E o peixe que não seja por ti apanhado,
Ah!, é muito mais sensato do que eu.

(Tradução de Helena Barbas)

Trovadores que deixaram Saudades
FAGUNDES VARELA
Rio Claro/RJ (1841 – 1875) Niterói/RJ

A mais tremenda das armas,
bem pior que a durindana,
atentai, meus bons amigos…
se apelida: – a língua humana!

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
(1901 – 1964)

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Uma Sextilha de São Simão/SP
THALMA TAVARES

É teimoso meu velho coração!...
Aos menores trinados da poesia
ele esquece que deve se aquietar
e, ansioso, cedendo  a euforia
vai feliz capengando ao entrevero,
com coragem, com fé, com ousadia.

Um Poema de Belo Horizonte/MG
ANTONIO AGOSTINHO GOMES DE QUEIRÓS

Desenho

Finda-se o dia.
Linda! abre-se a noite estrelada.
Brisa perfumada passeia pela prata;
Profetisa a chegada da primavera.

Homens jogam damas;
Consomem o tempo desfiando tramas.
Moles mulheres tricotam mazelas;
Reles fiapos do dia.

Vida tal qual tartaruga;
Lida enfadonha, cansativa.
Qual sentido tem essa vida;
Tal não fosse acreditá -la?

Cidade pequena... sem muitas ambições;
Felicidade aqui ? um arco-íris.
Desconhece as tramas dos grandes centros;
Acontece, somente!

Uma Trova de Porto Alegre/RS
DELCY CANALLES

Na profissão do pintor,
calcada com o coração,
ele pinta um sol de amor
em meio à  poluição!

Um Haicai de São Paulo/SP
JEFFERSON HENRIQUE MODESTO

Vovô na varanda
Só tem um pensamento –
Mais uma geada!

Um Poema de São Paulo
FRANCISCA JÚLIA
1871, Xiririca (atual Eldorado Paulista)/SP - 1920, São Paulo/SP)

A um Artista
 
Mergulha o teu olhar de fino colarista
No azul: medita um pouco, e escreve; um nada quase:
Um trecho só de prosa, uma estrofe, uma frase
Que patenteie a mão de um requintado artista.

Escreve! Molha a pena, o leve estilo enrista!
Pinta um canto do céu, uma nuvem de gaze
Solta, brilhante ao sol; e que a alma se te vaze
Na cópia dessa luz que nos deslumbra a vista.

Escreve!... Um céu ostenta o matiz da celagem
Onde erra o sol, moroso, entre vapores brancos,
Irisando, ao de leve, o verde da paisagem...

Uma ave banha ao sol o esplêndido plumacho...
Num recanto de bosque, a lamber os barrancos,
Espumeja em cachões uma cachoeira embaixo...

Uma Lenga-Lenga de Portugal
À MORTE NINGUÉM ESCAPA

 À morte ninguém escapa,
Nem o rei, nem o papa,
Mas escapo eu.

Compro uma panela,
Custa-me um vintém,
Meto-me dentro dela
E tapo-me muito bem,
Então a morte passa e diz:
- Truz, truz! Quem está ali?
- Aqui, aqui não está ninguém.
- Adeus meus senhores,
Passem muito bem


Recordando Velhas Canções
ATAULFO ALVES E MÁRIO LAGO

Ai, que saudades da Amélia
(samba, 1942)

Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Não vê que eu sou um pobre rapaz

Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo que você vê você quer
Ai, meu Deus, que saudades da Amélia
Aquilo sim é que era mulher

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
Mas quando me via contrariado
Dizia: meu filho, o que se há de fazer ?

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era a mulher de verdade

Hinos de Cidades Brasileiras
Fortaleza/CE
Letra: Gustavo Barroso

Junto à sombra dos muros do forte
A pequena semente nasceu.
Em redor, para a glória do Norte,
A cidade sorrindo cresceu.
No esplendor da manhã cristalina,
Tens as bênções dos céus que são teus
E das ondas que o sol ilumina
As jangadas te dizem adeus.

Refrão
Fortaleza! Fortaleza!
Irmã do Sol e do mar,
Fortaleza! Fortaleza!
Sempre havemos de te amar

O emplumado e virente coqueiro
Da alva luz do luar colhe a flor
A Iracema lembrando o guerreiro,
De sua alma de virgem senhor.
Canta o mar nas areias ardentes
Dos teus bravos eternas canções:
Jangadeiros, caboclos valentes,
Dos escravos partindo os grilhões.

Refrão
Fortaleza! Fortaleza!
Irmã do Sol e do mar,
Fortaleza! Fortaleza!
Sempre havemos de te amar

Ao calor do teu sol ofuscante,
Os meninos se tornam viris,
A velhice se mostra pujante,
As mulheres formosas, gentis.
Nesta terra de luz e de vida
De estiagem por vezes hostil,
Pela Mãe de Jesus protegida,
Fortaleza és a Flor do Brasil.

Refrão
Fortaleza! Fortaleza!
Irmã do Sol e do mar,
Fortaleza! Fortaleza!
Sempre havemos de te amar

Um Poema de Alegrete/RS
MARIO QUINTANA
(1906 – 1994)

Alma errada

Há coisas que a minha alma, já mortificada não admite:
assistir novelas de TV
ouvir música Pop
um filme apenas de corridas de automóvel
uma corrida de automóvel num filme
um livro de páginas ligadas
porque, sendo bom, a gente abre sofregamente a dedo:
espátulas não há... e quem é que hoje faz questão de virgindades...
E quando minha alma estraçalhada a todo instante pelos telefones
fugir desesperada
me deixará aqui,
ouvindo o que todos ouvem, bebendo o que todos bebem,
comendo o que todos comem.
A estes, a falta de alma não incomoda.
(Desconfio até que minha pobre alma fora destinada
ao habitante de outro mundo).
E ligarei o rádio a todo o volume,
gritarei como um possesso nas partidas de futebol,
seguirei, irresistivelmente, o desfilar das grandes paradas do Exército.
E apenas sentirei, uma vez que outra,
a vaga nostalgia de não sei que mundo perdido…

Um Soneto de Campo Grande/MS
RUBENIO MARCELO

A cruz de um adeus

Já é madrugada. Eu estou pela rua…
Na trilha dourada dos olhos da lua.
No meu desvario, na minha tristeza,
Ainda aprecio os dons da Natureza.

E assim, sem destino, tal qual vagalumes,
Aos entes sagrados faço queixumes.
Ao longe, o clarão dos astros em prumo…
E o meu coração errante, sem rumo.

A brisa vadia soprando com jeito…
E uma agonia tomando meu peito.
Estrelas cadentes brincando no céu…

E eu, decadente, pervagando ao léu.
Cometas pulsando pertinho de Deus…
E eu carregando a tal cruz de um adeus!

Um Galope a Beira-Mar de Teixeira/PB
JOSÉ LIMEIRA
1886 - 1954

Conheço, demais, o rio Paraíba,
     Que nasce sozinho, lá dentro da praia!
     Parece um cambito de pau de "cangaia",
     As suas enchentes têm mel de tubiba;
     Na frente, recebe o rio Furiba,
     E passa correndo pra Madagascar;
     Alaga Recife, demora em Dacar,
     No tempo de inverno é seco demais:
     Foi quando "Oliveiro" enfrentou Ferrabrás,
     Que luta pai-d'égua na beira do mar!

Alcunhado de “poeta do absurdo” pelas suas construções poéticas verborrágicas e pelos neologismos mais esdrúxulos como pilogamia, filanlumia e filosomia, este paraibano de Teixeira cultivou um surrealismo assertanejado e altamente psicodélico. (http://culturanordestina.blogspot.com.br)

Sobre a canção “Ai, que saudades da Amélia!”
            "Ai Que Saudades da Amélia" tem três personagens: o protagonista, sua mulher e Amélia, a mulher que ele perdeu. O tema é um confronto dos defeitos da mulher atual com as qualidades da mulher anterior. A atual, a quem o protagonista se dirige, é exigente, egoísta, "Só pensa em luxo e riqueza", enquanto a anterior é um exemplo de virtude e resignação - "Amélia não tinha a menor vaidade, (...) achava bonito não ter o que comer... '. Em suma, a primeira é o presente, a realidade incontestável; a segunda é o passado, uma saudade idealizada na figura da mulher perfeita, pelos padrões da época.
            Este primoroso poema popular, coloquial espontâneo, escrito por Mário Lago , recebeu de Ataulfo Alves uma de suas melhores melodias, que expressa musicalmente o espírito da letra. E o paradoxal é que não sendo carnavalesco, este samba fez estrondoso sucesso no carnaval.
            Segundo Mário Lago, "Amélia nasceu de uma brincadeira de Almeidinha, irmão de Araci de Almeida, que sempre que se falava em mulher costumava brincar - 'Qual nada, Amélia é que era mulher de verdade. Lavava, passava, cozinhava..."'. Então, Mário achou que aquilo dava samba e fez a letra inicial de "Ai Que Saudades da Amélia". Brincadeiras à parte, a verdade é que a Amélia do Almeidinha existiu e, possivelmente, ainda vivia à época da canção. Era uma antiga lavadeira que serviu à sua família. Morava no subúrbio do Encantado (Zona Norte do Rio) e trabalhava para sustentar uma prole de nove ou dez crianças.
            Com a letra pronta, Mário pediu a Ataulfo Alves para musicá-la. O compositor executou a tarefa, mas alterou algumas palavras e aumentou o número de versos de doze para quatorze. "Isso é natural" - comentava Ataulfo, em depoimento para o MIS do Rio de Janeiro, em 17.11.65 -, "as composições dos parceiros que são letristas sofrem influência minha, que sou autor de letra e música. Mas o Mário não gostou. E não adiantou dizer que a música me obrigara a fazer as modificações". De qualquer maneira, como o samba estava bom, ficaram valendo as alterações.
            Começou então a batalha da gravação. Ataulfo ofereceu "Amélia" em vão a vários cantores, inclusive a Orlando Silva. Como ninguém queria gravá-la, gravou-a ele mesmo na Odeon, no dia 27.11.41, acompanhado por um improvisado conjunto, batizado de Academia de Samba. Convidado na hora, Jacó do Bandolim participou dessa gravação, tocando cavaquinho, sendo sua a introdução.
            Lançado no suplemento de janeiro de 1942, "Ai Que Saudades da Amélia" foi conquistando aos poucos a preferência do público, graças, principalmente, a uma intensa atuação de Ataulfo junto às rádios. Relembra Mário Lago que o locutor Júlio Louzada chegou a dedicar, na Rádio Educadora, uma tarde inteira de domingo a "Amélia", com entrevistas e o disco tocando dezenas de vezes. O resultado é que às vésperas do carnaval, quando houve o concurso para escolher o melhor samba, "Ai Que Saudades da Amélia" dividia o favoritismo com "Praça Onze", de Herivelto Martins e Grande Otelo. Realizado no estádio do Fluminense, este concurso reuniu uma enorme platéia que, de acordo com o regulamento, elegeria por aplauso os vencedores.
            Precedendo "Amélia", apresentou-se "Praça Onze", valorizada por um verdadeiro show, preparado por Herivelto. Primeiro foram mostrados os instrumentos, explicando-se as funções de cada um; em seguida, vieram as passistas, um grupo sensacional de mulatas rebolando; e, finalmente, cantou-se o samba, que levou a platéia ao delírio, dando a impressão de que o certame já estava decidido. Acontece, porém, que "Amélia" também tinha seus trunfos. Tim e Carreiro, amigos de Mário e craques do time do Fluminense, que acabara de ganhar o bicampeonato carioca de futebol, haviam feito um excelente trabalho junto à torcida tricolor.
            Para completar, no momento da apresentação, Mário Lago subiu ao palco e, num rasgo de eloqüência e demagogia, fez um discurso emocionante, proclamando "Amélia" símbolo da mulher brasileira. Assim, quando Ataulfo e suas pastoras começaram a cantar o estádio veio abaixo, praticamente exigindo a vitória dos dois sambas. Sem a possibilidade de desempatar, o presidente do Fluminense, Marcos Carneiro de Mendonça - por coincidência, casado com uma "Amélia", a poeta Ana Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça - autorizou o pagamento em dobro do prêmio de campeão a "Ai Que Saudades da Amélia" e "Praça Onze", cada um recebendo como se tivesse ganho sozinho. (Fonte:http://www.cifrantiga3.blogspot.com)


Abandono… O Sol declina…
Vem baixando a cerração…
E solidão com neblina
é muito mais solidão!

A cortina da janela…
A cama… Tudo tal qual…
— Só que o cenário, sem ela,
nunca mais vai ser igual…

A espontânea palavrada,
que acompanha um tropeção,
faz bem crer que uma topada
seja a mãe do palavrão.

A glória dos homens brilha
com fulgor de eternidade,
toda vez que uma Bastilha
tomba aos pés da Liberdade!

Ah!, meu peito… Esta saudade…
Quero que a expulses, que grites…
Tu lhe deste intimidade,
e ela passou dos limites!

Amanhece… A névoa fina
vai cobrindo a cerração…
E solidão com neblina
é muito mais solidão!

Ao sair d’água, a banhista
gritou de vergonha: – “Xiii…”
no maiô, na frente e à vista,
veio agarrado… um siri !

A saudade, em horas mortas,
sem ver que o tempo passou,
teima em abrir velhas portas
que há muito a vida fechou…


Cai a noite… Seu negrume,
mercê de um mistério estranho,
faz de um ínfimo perfume
um lamento sem tamanho…

Circo novo na cidade!
- No poleiro, a dar risada,
olhem lá minha saudade
no meio da garotada!

Depois que os céus lhe mandaram
As gotas do seu DESEJO,
duas outras marejaram
os olhos do sertanejo…

Deste-me um beijo – um somente!
E queres que eu me console …
- O desejo é sede ardente,
que não se mata de um gole!…

Deus intangível, etéreo,
mas sempre amor e indulgência,
guarda no próprio mistério
sua infinita evidência.

Deus que é paz… amor profundo,
em sua excelsa grandeza,
se é mistério para o mundo,
para mim é uma certeza!

Doente, a velha cegonha
recusa trabalhos duros,
e pra não passar vergonha
só carrega … prematuros.

Enquanto eu durmo, querida,
minh’alma, por compulsão,
se aninha e dorme, encolhida,
aí… no teu coração.

Espalhou pedras à estrada
do velho barraco… “Ô xente!
Não dizem que é só topada
que põe o pobre pra frente ?…

É uma lágrima sentida
que toda mulher enxuga:
a que lhe rola escondida
por sobre a primeira ruga!

Faz teu ciúme um barulho
que me soa encantador.
- Ele acorda o meu orgulho
de dono do teu amor!…

Flagrado, na contramão,
no quarto da serviçal,
o vivaldino patrão
fingiu “confusão mental”

Folha em branco… A esmo, um nome
rabisco, na tarde calma.
E a angústia… que me consome…
vai rabiscando minh’alma…

Fugi do amor com receio
do seu fascínio… e o que fiz
foi só cortar, pelo meio,
meu meio de ser feliz….

Homem sem rasgos nem brilho,
a quem a luz não atrai,
vou me orgulhar se meu filho
tiver orgulho do pai.

Importuno e impertinente,
o DESEJO insatisfeito
sempre foi, literalmente,
meu “inimigo do peito”…

Irmãos no meu insucesso
o peito implora, a alma pede…
Todos querem teu regresso…
Só meu orgulho não cede!

Maduro ao sol outonal,
pela brisa acariciado,
freme, ondulante, o trigal,
num desvario dourado !…

Mais vibrantes, mais risonhos
a palpitar de inquietude,
diferem dos outros sonhos
os sonhos da juventude!

Meus braços estão vazios,
meus desejos transbordando,
meus pensamentos vadios
no quarto te procurando.

Motel chique… Olha o marido!!!
E a confusão foi tão feia,
que blusa virou vestido,
e sutiã virou meia.

Muito moço inconseqüente,
despreparado e revel,
ganha têmpera de gente
na bigorna do quartel.

Na casa do casal velho,
a confusão é total:
-lê-se o jornal no Evangelho;
e o evangelho, no jornal.

Não te esqueças, otimista,
de lembrar, no teu anseio,
que, entre o DESEJO e a conquista,
há sempre pedras no meio…

Neste abandono sofrido,
sou mais um, que, por vaidade,
deixou que o orgulho, ferido,
matasse a felicidade…

No abandono, desvairado,
levo noites a fitar
o vestido desbotado
que ela esqueceu de levar…

No apogeu do seu ardor,
tão ternamente se exprime,
que chamamos nosso amor
o “desvario sublime”.

No rubro céu da alvorada,
um ponto pisca e alumia…
- É uma estrela embriagada
que volta da boemia!

Nos abismos do mistério,
onde a razão perde a voz,
talvez o desvão mais sério
se oculte dentro de nós…

Nosso amor é, neste ensejo,
brasa oculta em cinza quente.
-Basta um sopro de DESEJO,
e arde em fogo, novamente…

No teu sucesso, milhares
Vêm implorar-te favores.
Uns poucos, se fracassares,
partilham das tuas dores

O abismo maior que existe,
o mais fundo que já vi,
é aquele que um homem triste
carrega dentro de si…

O desvario arrebata…
E eu fui por falso caminho.
Minha sombra, mais sensata,
deixou-me seguir sozinho…

O golpe da despedida
foi tão rápido e tão fundo,
que fracionou minha vida
numa fração de segundo…

O ladrão, envergonhado,
diz : – “Doutor, vim me entregar:
o roubo era tão pesado
que eu não pude carregar…”

O mendigo da calçada,
a quem a mágoa não poupa,
talvez tenha esfarrapada
bem mais a alma que a roupa.

Opondo orgulho e egoísmo
aos meus acenos risonhos,
cavaste o profundo abismo
onde enterrei os meus sonhos.

O vento leva a amizade,
leva o amor, o riso e os ais,
só não carrega a saudade,
- acha pesada demais!

Para a “sede de saber”
há no mundo água abundante.
Para a “sede do poder”
água nenhuma é bastante…

Perante a Divina Luz
a Ciência se ajoelha,
pois, sendo sábia, deduz
quem lhe acendeu a centelha…

Perguntou-me, à despedida:
– Quem sabe é melhor assim?…
E uma lágrima incontida
deu-lhe a resposta por mim!…

Por topadas em excesso
- um tormento em seu caminho –
o dedão abriu processo
contra os olhos do ceguinho.

Posso jurar de mãos postas,
Pesando o que já passei,
Que as mais difíceis respostas
Foi em silêncio que eu dei.

Pra fugir do casamento,
o noivo, meio “frufru”,
alegou, como argumento,
“vergonha de ficar nu”

Provocador e brigão,
o General de Brigada,
sempre que arma confusão,
ela é… generalizada.

Quando a jovem aluada
deu, no amor, um “tropeção”,
foi um caso de “topada
com os pés fora do chão”.

Quando a vida, qual verdugo,
me trespassa de agonias,
minhas lágrimas enxugo
num lenço de Ave-Marias…

Quando Deus cobrar meu prazo,
hei de sempre aqui voltar,
ou numa sombra de ocaso,
ou num raio de luar !

Que momento abençoado
e que gesto redentor,
quando o orgulho, derrotado,
cai, humilde, aos pés do amor !…

Quem um filho vê feliz,
seguir por si, resoluto,
vive a glória da raiz
orgulhosa pelo fruto.

Que estranho mistério existe
no lamento da viola:
- queixume que me faz triste;
- tristeza que me consola!…

Quisera que Deus me desse,
acima de qualquer bem,
um orgulho que pusesse
bem abaixo o teu desdém.

Saudade é gota caída,
é pranto que ninguém vê:
-É uma lágrima sentida
que leva sempre a você. …

Saudade é uma diligência
que nos leva, docemente,
com repetida freqüência,
ao velho oeste da gente!

Saudade!…Foto em pedaços,
que eu colei, com mão tremida,
tentando compor os traços
de quem rasgou minha vida!

Saudade!… Raio de lua,
suprindo o Sol que brilhou…
Tábua solta, que flutua,
depois que o amor naufragou!

Saudoso dos braços dela,
voltei, contrito e humilhado.
- Quando a saudade martela,
qualquer orgulho é quebrado!…

Senhora de cada instante
das minhas horas vazias,
a Saudade é uma constante
na inconstância dos meus dias…

Severo no condenar,
o Céu abranda o rigor
quando o pecado a julgar
é um desvario de amor…

Sonha sim, pobre, com festa!
Que a fantasia, afinal,
é tudo que ainda te resta
neste mundo desigual!

Tal fascínio lhe desperta
o mistério das estrelas,
que, às vezes, de mim liberta,
minh’alma vai percorrê-las.

Terminamos… e ela pensa
que será logo esquecida.
O que ganhou foi presença
para sempre, em minha vida!

Uma das mágoas, apenas,
que à minh’alma são pesadas…
faria leves as penas
até das almas penadas…

“Um prodígio o seu arranco,
a dois metros da chegada!”
E o vencedor, meio manco:
“prodígio foi a topada…”

Velho par, na academia,
é ímpar na confusão:
-foi de sunga à confraria
e à praia foi de fardão!

Velho cultor de utopias
e de ambições sobranceiras,
sonho ver, ainda em meus dias,
um mundo igual, sem fronteiras!

Vergonha, mesmo, passou
dr. Cornélio, homem sério.
Imaginem… Processou
a mulher por adultério.

Vista seda ou popeline,
seja Amélia ou seja Inês,
toda mulher se define
no dia em que diz: -“Talvez!…”

Zerando ofensas e afrontas,
o beijo é o mago auditor
que faz o ajuste de contas
depois das brigas de amor!


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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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