Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 5 de agosto de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 209)





Uma Trova de Pinhalão/PR
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE

 A vida é o luzir veloz,
 encanto em  fugaz momento.
 Apenas um sonho atroz
 nas asas sutis do vento.

Uma Trova de Pouso Alegre/MG
ROBERTO RESENDE VILELA

Com belas coreografias
no chão e na imensidade,
as aves, todos os dias,
dão lições de liberdade!

Uma Trova Humorística de Belo Horizonte/MG
ARLINDO TADEU HAGEN

Mineirinho caloteiro
perante o credor se trai:
– Pague a dívida, mineiro!
– Eu não sou mineiro, uai!

Uma Trova Premiada em São Francisco de Itabapoana/RJ, 2007
ALMIR PINTO DE AZEVEDO (Cambuci/RJ)

Trovadores versejando
com dom divino e fecundo,
com suas mãos derramando
beleza e paz pelo mundo...

Uma Trova de Belém/PR
SARAH RODRIGUES

Quando a brisa beija a praia
surge a sereia entre brumas
e a onda suspende a saia
toda bordada de espumas.

Um Poema de Curitiba/PR
EMILIANO PERNETA
(Emiliano David Perneta)
Curitiba (1866 – 1921)

Oração da Manhã

Amanheceu. A luz de um claro e puro brilho
Tem a frescura ideal de uma roseira em flor :
Antes de tudo o mais, ajoelha-te, meu filho,
Ajoelha-te e bendize a obra do Criador.

Ajoelha-te aqui, e sorvendo esse aroma
De feno, e rosa, e musgo, e bálsamo sutil,
Que vem do seio azul dessa manhã, que assoma,
Na radiosa nitidez de uma manhã de Abril,

Bendize a força, a graça, a seiva, a juventude,
A hercúlea robustez daqueles pinheirais,
Que resistem, de pé, dentro da casca rude,
Aos mugidos do vento e aos rijos temporais.

Ama essa terra como um fauno que por entre
A silva agreste vive; ama tudo o que vês;
Todos somos irmãos, filhos do mesmo ventre,
Filhos do mesmo amor e da mesma embriaguez.

Abraça os troncos nus, beija esses ramos de ouro,
Ajoelha-te aos pés dos que te querem bem :
Que riqueza, Senhor, que límpido tesouro!
Que grande coração que o arvoredo tem!

Pede a Deus que conhece os bons e maus caminhos
Que conhece o passado e conhece o porvir,
Que te aponte de longe os cardos e os espinhos,
E que te estenda a mão, quando fores cair...

Uma Trova Hispânica da Venezuela
HILDEBRANDO RODRIGUEZ

Y para que siempre estés
engalanando mi vida,
que tu sonrisa me des,
te pido mujer querida.

Um Poema de Angola
AIRES ALMEIDA SANTOS
Chinguar (1922 - 1991) Benguela

Poema para minha filha

Para ti, querida
Rosas e mel
E estrelas rutilantes,
Risos gritantes,
Muita ternura e carinho

E o Sol
Brilhando muito
Em frente ao teu caminho.

Deixa comigo o fel,
A dor, o desespero
Deixa que eu fira a pele
Nos ásperos abrolhos
Da vida.

Deixa chorar meus olhos
 Deixa comigo
 O peso do sonho tão antigo.

Para ti, querida
Paz, amor, ternura
Estrelas rutilantes,
Rosas e Mel…

Trovadores que deixaram Saudades
LILINHA FERNANDES
(Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva)
Rio de Janeiro 1891 – 1981

Saudade é assim como fado
lembrando quem vive ausente:
é um suspiro do passado
na garganta do presente.

Um Poema do Rio Grande do Sul
MARIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994)

Saudade

Que me dizias, Augusto Meyer,
naquele tempo que não passa,
na mesa, junto à vidraça,
naquele bar que era um barco?

Por ela passavam mares,
passavam portos e portos,
ali que os ventos ventavam,
dos quatro cantos do mundo!

O que dizíamos? Sei lá!
não falemos em nossas vidas...
nem, por nós, se salvou o mundo...

Mas, Amigo, eu sei que tenho
— naquelas horas perdidas —
o meu ganho mais profundo!

Um Poema do Rio Grande do Sul
CARLOS NEJAR
(Luís Carlos Verzoni Nejar)
Porto Alegre/RS (1939)

Formoso é o Fogo

Formoso é o fogo e o rosto
da amada junto a ele.
No lume de seu corpo
tudo em redor clareia.

Depois o que era fogo,
é espuma que se alteia.
E o mundo se faz novo
nas curvas da centelha.

Já não existe esboço,
mas desenhos, e teimam
— unos e justapostos.

Já não existe corpo:
são almas que se queimam
no amor de um mesmo sopro.

Uma Trova de Porto Alegre/RS
FLÁVIO ROBERTO STEFANI

Brinquedos bons eu não tinha,
mas sabia achar maneira,
e com latas de sardinha
eu tinha uma frota inteira.

Um Haicai de Santos/SP
FABRÍCIO MODESTO

Dia ensolarado…
Um pássaro que voa
Sobre as azaleias.

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
LEILA MICCOLIS

De Dafne para Apolo

Se eu quis sumir, fugir, dos teus encantos
foi mais por arte má do deus Cupido,
que te flechou, tendo depois sumido
sem nem pensar em mim... Eram quebrantos

e não amor o teu. Por isto, em prantos,
e muito medo, eu me escondi devido
a ser-te caça,  jogo divertido,
perseguição sem paz por quaisquer cantos.

Meu pai ao ver-me aflita, enternecido,
mudou-me em árvore, compadecido,
para salvar-me, assim, do teu poder.

Mas se me amares mesmo, no futuro,
ó doce Apolo, sob um tronco duro,
hás de sentir meu coração bater.

Uma Lengalenga Portuguesa
ERA UMA VEZ…

Estas lengalengas eram usadas como efeito cômico, quando as crianças pediam a alguém que lhes contasse uma história e o narrador não tinham nem tempo nem paciência para as contar, calando-as com estas rimas curtas.

Era uma vez
 Uma galinha perchês
E um galo francês
Eram dois
Ficaram três…
Queres que te conte outra vez?

***
Era uma vez uma vaca
Chamada Vitória
Morreu a vaquinha
Acabou-se a história
E depois?
Depois…
Morreram as vacas
Ficaram os bois


Recordando Velhas Canções
Herivelto Martins e Valdemar Ressurreição

QUE REI SOU EU?
(samba/carnaval, 1945)

Que rei sou eu
Sem reinado e sem coroa
Sem castelo e sem rainha
Afinal que rei sou eu?
(bis)

O meu reinado
É pequeno e é restrito
Só mando no meu distrito
Por que o rei de lá morreu

Não tenho criado de libré
Carruagem sem mordomo
E ninguém beija meus pés!

Meu sangue azul
Nada tem de realeza
O samba é minha nobreza
Afinal que rei sou eu?

Que rei sou eu
Um falso rei?

Hinos de Cidades Brasileiras
SANTOS/SP
Ernesto Zwarg e Antonio Bruno Zwarg

Santos poema, jardins pela praia
Cidade e porto de mar
Tens a magia de barcos estranhos
Na barra esperando adentrar
Morros, varandas alegres
Suspensas no arvoredo
Santos das ruas antigas
À beira do cais
Que escondem segredos

Tuas paineiras floridas
Salgueiros que choram
Nos velhos canais
Santos, cuidado menina
As tuas belezas
Não percas jamais

Os flamboiants florescentes
Palmeiras imperiais
Ilha Urubuqueçaba
O verde reduto
Nas ondas do mar

Oh! Santos
És linda demais !

Um Poema de Portugal
ÁLVARO DE CAMPOS

Ah, um soneto

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear…

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas – esta é boa! – era do coração
que eu falava… e onde diabo estou agora
com almirante em vez de sensação?…

Um Haicai de Magé/RJ
BENEDITA AZEVEDO

Um vinho suave
Aquece-me na seresta –
Noitinha de agosto.

Um Poema de Monteiro Lobato/SP
PAULO VINHEIRO
(Paulo Vieira Pinheiro)
Monteiro Lobato/SP

Velejar velejei

Entre velas vou ao mar
Por favelas volto à terra
Cruzo o horizonte contrário
Pisando em poças rasas

Crio nas ruas que cruzo
Um clima de aberto silêncio
E os gritos se perdem lá fora
Buscando quem ouça em mim

Sombras, crimes, violências
Um cardápio? O que queres?
A poesia? ela cabe aqui?
Entre balas, tapas e chutes

Concorrer é natural, a poesia não
É comum o esquecer da vida
Viver é arrancar tudo de tudo
Depois de tudo sobrará o nada

Agora podemos sorrir
Arejar os dentes
Morrer entre os vivos
Viver entre os mortos

Um Soneto do Rio de Janeiro
VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
(1913 – 1980)

Soneto de Devoção

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei-os
Carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! — uma cadela
Talvez... — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

Uma Sextilha de São Simão/SP
THALMA TAVARES

Vou vivendo feliz e bem contente
porque Deus me deu mais do que mereço;
deu-me a lira e a pena do poeta
que é um prêmio dos céus e de alto preço,
pois com ele eu transformo cada dia
num feliz e profícuo recomeço.

Trovadora Destaque


“A bruxa anda solta” aqui…
disse o meu genro e correu
quando entendeu que entendi
que a tal da bruxa era eu…

Acusando a carestia,
sai quase nua , a vizinha,
e diz que é uma fantasia
boa, barata e fresquinha…

A distância achando meios
para unir nossas metades,
somou nossos devaneios
e dividiu as saudades!...

Agora o que me conforta,
ao ver meu mundo ruir,
é saber que uma outra porta
noutro mundo há de se abrir!...

Aguiar num caminhão,
“barbeiro “como ninguém,
entrou mal na contramão,
mas veio o Guarda, e entrou bem!

A jura que eu fiz, um dia,
quando antevia a saudade,
não passou de fantasia
com roupagem de verdade...

Ao caíres em fracassos
em meio à falta de luz,
carregarei nos meus braços
os braços da tua cruz.

As mães são divinas plantas
que deram flores, sementes.
Para Deus são todas santas
com milagres diferentes.

A saudade é um bem guardado
que nos volta, de repente,
num presente do passado,
quando o passado é presente.

A ser feliz não me furto,
mas tentando te esquecer,
meu tempo ficou tão curto
que me esqueci de viver...

As razões dos teus deslizes
tantas mágoas me causaram
que as marcas das cicatrizes
nunca mais cicatrizaram...

Às vezes, na despedida,
num simples modo de olhar
se diz o que em toda a vida
ninguém ousa revelar.

Às vezes, somos felizes,
mas um erro pequenino
que se esconde entre os deslizes
trabalha contra o destino...

A vida é estranha aquarela
que, conforme a sorte pinta,
dá luz e beleza à tela
ou somente espalha a tinta...

A vida me faz cobrança
pelas chances que me deu...
Mas meus mitos de criança,
Roubou-me, e não devolveu...

Buscando, em vão, tua volta,
o torpor de quem delira,
minha saudade te escolta
numa volta de mentira!...

Carrego triste os escombros
da vida alegre que eu tinha,
e deixou sobre os meus ombros
uma cruz que não é minha...

Comeu goiaba exultando,
mas quase esvaiu-se em baba,
quando viu se estrebuchando
meio bicho na goiaba…

Dei asas à fantasia...
e pequei por não saber
que o meu direito valia
muito menos que o dever...

Deixaste de me escrever,
e agora, sem lenitivo,
nem sei como vou viver,
se deste amor é que eu vivo.

Ele ronca e não desperta
e a mulher por previdência,
deixa a porta sempre aberta,
para “casos” de emergência…

É mais triste a hipocrisia,
mais profunda a cicatriz
de quem demonstra alegria
para fingir que é feliz!

Em face da discrepância
existente entre os conceitos,
procuro sempre distância
dos que julgam perfeitos.

Em teus momentos de fúria,
não dou resposta ao que dizes,
pois não vai ser outra injúria
que vai curar cicatrizes...

Ensina com tolerância
à criança pequenina
a ver o que é bom na infância,
que o restante a vida ensina...

Entregue à volúpia cega
que anula a voz da razão,
meu coração não se entrega,
mas eu me entrego à paixão…

Escrava do teu fascínio,
penso, às vezes ter direito
de me caber o domínio
das batidas do teu peito.

Eu não te culpo, querido,
se entre nós deu tudo errado,
que, em amor mal resolvido,
não há somente um culpado.

Foste embora... e a vida segue,
malgrado o sonho desfeito,
fazendo com que eu carregue
um mito morto no peito.

Fungava a sogra com asma
e o genro dela já farto,
gritou: – socorro! Um fantasma
está rondando o meu quarto…

Incurso em poligamia,
depois que foi condenado,
disse : – Credo! eu nem sabia
que já tinham me casado !

Meia-luz não me tortura
nem faz pesar minha cruz,
porque a penumbra é a mistura
que Deus faz de treva e luz!

Me lembro que certa feita
pertinho de uma fogueira,
desejei uma caneta
só para escrever besteira…

Mesmo vivendo em conflito,
vencendo mágoas e intrigas,
o nosso amor infinito
suporta o peso das brigas.

Meu mundo era um mundo puro,
mas o destino vilão
trocou meu mundo seguro
pelo caos de um mundo cão...

Meu remorso se restringe
à minha mudança brusca
cada vez que você finge
que me ilumina... e me ofusca.

Meu vizinho briga à-toa,
porque é um sujeito estourado,
mas, vendo a mãe da patroa,
perde logo o rebolado.

Minha jangada se lança
num mar revolto e jamais
deixa no cais a esperança
ou volta, sem ela, ao cais...

Minha sogra, honrando bem
seu conhecido conceito,
diz que genro sempre tem
abundância… de defeito.

Misterioso e impreciso,
teu amor, foi, na verdade,
inferno, céu, paraíso,
solidão, mágoa... e saudade…

Na cama é amante perfeito,
já fora de garantia,
porque apresenta um defeito
só dorme, ronca e assobia…

Nada prometas, nem peças
que eu siga a tua jornada,
que é inútil fazer promessas
a quem não crê mais em nada...

Não deixe as cartas que eu mando
sem respostas, por favor,
porque é bom de vez em quando
reler mentiras de amor.

Não me orgulho em fracassar
quando as derrotas assumo...
é que eu não posso mudar
um rumo que não tem rumo!

Não sabia onde nem quando
perdi meu sonho, querido,
mas, de novo te encontrando,
achei meu sonho perdido.

Na presença de um Juiz
murmurei sim: que tolice...
- Foi o " sim" mais infeliz
que um ser humano já disse! ...

Nestas horas de abandono,
não ligo a insônias, porque
eu nem preciso de sono
para sonhar com você...

No documento é solteira,
mas vendo a idade da dona,
diz a patroa encrenqueira:
solteira, não, solteirona…

No momento em que partiste
pranteei minha viuvez...
Foi o trajeto mais triste
que uma lágrima já fez...

O amigo que estende a mão
nos momentos de perigo,
é mais irmão que um irmão
que não sabe ser amigo...

O chofer ficou “por conta”
ao ser fechado na rua
por uma perua tonta
que guiava outra perua…

O circo fechou... e agora
que o fracasso veio à tona
o palhaço, triste, chora
escondido atrás da lona...

O Destino com seu laço
bendito e, às vezes, ferino,
me relegando ao fracasso
deu um nó no meu destino.

O Lalau tinha a mania
de assaltar Padre gordão,
porque sonhava algum dia
ser “Operário Padrão”…

O mar, com véus de cambraia,
que tece fio por fio,
cobre as areias da praia,
quando a praia sente frio...

O ninho de amor que outrora
guardava o nosso carinho,
vazio de amor, agora
nem parece o mesmo ninho...

O teu ciúme doentio
que, em vez de unir nos afasta,
é igual à pedra de rio
que nem o limo desgasta!

O teu desprezo me agride,
mas o teu olhar aceso
sugerindo que eu revide
agride mais que o desprezo!

O vazio me incomoda,
pois, com seu relho ferrenho,
chicoteia, aturde e poda
todos os sonhos que eu tenho!

O vizinho tem mania
de não pegar no pesado,
pois, quando chegar seu dia,
quer morrer bem descansado

Pão-duro, morto-de-fome,
o meu vizinho Gastão
diz a todos que não come
com medo de indigestão …

Para sofrer por amor
Não há limite de idade,
Pois seja em que tempo for,
Saudade é sempre saudade...

Partiste... e na despedida
no teu "ar" de quem conspira,
vi quando perdi de vida
com um sonho de mentira...

Partiste... e não me lamento
nem em prantos me consumo,
que eu já sei que és como o vento,
que muda sempre de rumo...

Perdoa aquele que nega
o teu mérito evidente,
que o despeito às vezes, cega
os olhos de muita gente!

Por ciúmes vejo, agora,
já bem perto da partida
que acabei jogando fora
metade da minha vida .

Porque a sorte deu-me as costas,
na luta inglória e sofrida,
eu não encontro respostas
para as perguntas da vida.

Porque a vida é a maior graça,
a minha alma se angustia
por ver que um dia que passa
é sempre menos um dia...

Por saber que não te alcanço
nem me abres jamais as portas,
vou de remanso em remanso,
como um rio de águas mortas.

Por teu amor me perverto
e aceito qualquer proposta,
mas não pode haver acerto
para apelos sem resposta...

Protegendo os inocentes
é que Deus, sábio demais,
põe cenários diferentes
nas impressões digitais!...

Quando a Sara viu o custo
do tratamento que fez,
foi tão violento o susto
que adoeceu outra vez !

Quando o peão, no chiqueiro,
tirou a bota do pé,
sentiu no cheiro outro cheiro
misturado ao do chulé !

Quando você me critica
e aos amigos faz venenos,
o seu próprio gesto indica
qual de nós dois vale menos.

Que eu creia em tuas saudades
é debalde que sugiras,
pois, no amor, grandes verdades
escondem grandes mentiras!

Quem me chama de palhaço
com ironia na voz.
Nem sente que há sempre um traço
de palhaço em todos nós...

Quem quer fugir de um suplício
e no abismo não se joga,
diz Não! à droga do vício
que torna a vida uma droga !

Sentindo que o tempo corre,
eu tenho medo do fim:
cada minuto que morre
mata um pouquinho de mim...

Seu “hobby” era trabalhar,
mas tinha tanta preguiça
que, até pra se espreguiçar
ficava “enchendo linguiça”…

Se voltas arrependido.
dói tanto a tua amargura
que eu posso ouvir o gemido
da chave, na fechadura.

Sinto que o amor se desgasta
em tuas cartas que leio,
porque ternura não basta
apenas pelo correio.

Só é feliz quem supera
o conflito da esperança
entre o muito que se espera
e o pouco que a gente alcança.

Sou demais agradecida
por tudo quanto alcancei
porque recebo da vida
muito mais do que sonhei!...

Tantas injúrias trocamos,
que, mutuamente ofendidos
agora nos encontramos
como dois desconhecidos.

Tanto a coroa se pinta,
para fingir que é mocinha,
que afoga as rugas na tinta
e engrossa os pés de galinha.

Um gaiato de mau gosto,
vendo um gordo esbaforido,
disse: é suor no teu rosto
ou toicinho derretido! ?

Vai devagar, coração,
controla a tua ansiedade,
porque, às vezes, solidão
dói menos do que saudade...

Velava o esposo ainda quente
mas sendo boa, a viuvinha,
convocou seu pretendente
para não chorar sozinha!…


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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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