Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 211)


 
Uma Trova de Curitiba/PR
JANSKE SCHLENKER

Deixo que a vida me embale
enquanto a tarde agoniza:
mesmo que você não fale,
ouço a sua voz na brisa...

Uma Trova de Natal/RN
ROBERTO C. DA MOTTA

Cuidemos nós, da beleza,
também da preservação,
das coisas da natureza,
para os outros que virão.

Uma Trova Humorística, de São Paulo/SP
DIVENEI BOSELLI

A garota muito prática
joga fora, sem dilema,
seu livro de matemática,
que, afinal...só tem problema!

Uma Trova de Fortaleza/CE
FRANCISCO JOSÉ PESSOA

Tuas palavras magoam,
mas te perdoo, pois, enfim,
são abelhas que ferroam
mas que dão mel para mim.

Um Poema da Baía da Guanabara/RJ
ADALGISA NERY
(1905 – 1980)

Poema da Amante

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita do tempo
Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
Em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

Uma Trova Hispânica da Espanha
MARIA ORETO MARTINEZ SANCHIS

El amor es la ventana
que abre la felicidad
que te aportará el mañana
si procedes con bondad.

Um Poema de Huambo/Angola
ALEXANDRE DÁSKALOS
1924 - 1961

Porto

Havia nos olhos postos o sentido
de não vencerem distancias.
Calados, mudos, de lábios colados no silêncio
os braços cruzados como quem deseja
mas de braços cruzados.

Os navios chegavam ao porto e partiam.
Os carregadores falavam da gente do mar.
A gente do mar dos que ficam em terra.
As mercadorias seguiam.
Os ventos, dispersos na alma do tempo,
traziam as novas das terras longínquas.

Segredavam-se em noites e dias
a todos os homens
em todos os mares
e em todos os portos
num destino comum.

Os navios chegavam ao porto
e partiam...

Trovadores que deixaram Saudades
MANUEL BANDEIRA
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Sombra da nuvem no monte,
sombra do monte no mar.
Água do mar em teus olhos
tão cansados de chorar!

Um Poema de Jaguaré/GO
AFONSO FÉLIX DE SOUZA
(1925 - 2002)

Alegria de Uma Noite de Natal

Não é propriamente a noite que me chama.
A música - doce como a lamina de meus desejos,
cortando o espaço.
Vem do fundo do corredor escuro ou do infinito.
Sinto que não sou mais que uma lembrança perdida
e há imagens de seres que não morrem nunca
arrastando-me para a noite..

Oh, a memória procurando a doçura de uma sala impossível,
Consciência vaga de que devem existir no mundo
pessoas que a esta hora em volta da mesa
falam no filho ausente.
Lembrar que as contas do rosário de minha Mãe
estarão neste momento exato pendendo sobre o meu destino.

0 Natal esta longe de mim.
Esta escondido entre as paredes de uma sala antiga
que talvez nem exista mais.
Sei que vive em mim um poder de luz
capaz de iluminar a áspera noite em que sinto meu espírito.

Neste instante de paisagens sem sombras
a vida se reduz à musica que vem do infinito...
tudo claro:
- não estou perdido.

Um Poema de Floriana/Malta
OLIVER FRIGGIERI
(1947)

Agora Pisoteias

Talvez eu seja o tapete que pisoteias
Cada vez que caminhas descalça, pisoteias agora
Minha brandura, mulher dos tanques,
Reconheço teus pés úmidos, e mantenho
Em mim a pegada pesada de cada dedo de teus pés
Talvez seja um novo calendário, o ano
Com horas e meses sem estações desordenadas
Um arco-íris sem cores em teus braços abertos
Sobre um universo que pela última vez obscurece,
Este universo jamais voltará a despertar-se
para ver um sol que caprichoso se levanta
sobre uma multidão adormecida, caminha descalça sobre mim
E teus pés sentem logo minha brandura,
As noites todas para ti e uma vela vacilante
No suporte de uma janela entreaberta da esquina
De onde segue vigiando o farol de ontem
Te vá a esperar, teus passos caem
Na argila deste coração, o nicho vazio
Que todavia espera a um santo que não chega
E todavia quer adiante um ramo de flores.
E talvez quando eu caia, uma uva seca
De uma velha parreira, chorará por mim
E com atraso escreverás esta obscura elegia
Cuja métrica e ritmos não são tal como desejava.

Esta não é uma tristeza nova, pisoteias
A cidade caída de onde morreram as sementes
E a última planta se enterrou na lava
deste vulcão que dormiu para despertar-se
Alguma vez no silêncio, talvez depois a pegada
De teu pé descalço viverá depois de mim,
O suicídio é só para adultos, basta
Para mim uma morte tranquila no meio de uma noite
Solene, porque solene é tua pegada
E assim morrem os jovens como eles sabem,
Desastres de uma estação que desaparece como veio
Porque talvez eu seja um tapete que pisoteias.
.
(Tradução:  José Feldman)

Uma Trova de Belo Horizonte/MG
ARLINDO TADEU HAGEN

Pela imagem desolada
que, após o incêndio, nos resta,
as luzes de uma queimada
são as trevas da floresta!

Um Haicai, de Santos/SP
MARCO ANTONIO SOARES

O vento passou…
As flores da azaléia
Na grama do parque.

Um Poema de Mariana/MG
ALPHONSUS DE GUIMARÃES FILHO
(Afonso Henriques de Guimarães Filho)
1918 – 2008

Vento da Treva

Vento da noite, vento da treva,
Meu santo irmão!
Agita os sinos do desespero,
Vento da treva,
Agita os sinos do desespero,
Para que sofra meu coração!
Vento da noite, vento da treva,
Meu santo irmão!
Frade sem pouso, vento da treva,
Agita as vagas do desespero,
Agita as vagas do desespero,
Para que uive meu coração!
Vento da noite, vento da treva,
Meu santo irmão!
Com as mãos rapaces viola os astros,
Vento da treva,
Com as mãos rapaces viola os astros,
Para que morra meu coração!

Um Haicai de São Paulo/SP
CARLOS SEABRA

no despenhadeiro
a sombra da pedra
cai primeiro

Lengalengas de Portugal
LENGALENGAS PARA TIRAR A SORTE

Um-dó-li-tá
Cara de amendoá
Um segredo colorido
Quem está livre
Livre está
***
Um, dois, três, quatro
A galinha mais o pato
Fugiram da capoeira
Foi atrás a cozinheira
Que lhes deu com um sapato
Um, dois, três, quatro…
***
 Nove vezes nove
Oitenta e um,
Sete macacos e tu és um
Fora eu que não sou nenhum!
***
A saquinha das surpresas
Ninguém sabe o que lá vem
Tão calada, tão quietinha
Vamos ver o que lá vem!
***
 Pim, pam, pum
Cada bola mata um
Da galinha pro perú
Quem se livra és tu!


Recordando Velhas Canções
Alcir Pires Vermelho e Lamartine Babo

ALMA DOS VIOLINOS
(valsa, 1942)
-
Sinto n'alma um violino
Um violino que acompanha
O meu triste adeus
Que vai por trás de uma montanha
Montanha pequenina
Diante dos olhos meus
Meus olhos tão imensos
Oh! Perguntem aos lenços
Quando dizem adeus

Sinto n'alma um violino
Um violino tão sonoro
Que acompanha melodias
Quando eu canto e choro
Eu choro porque os risos
Dei ao meu amor
Meu grande amor
Nestas valsas que eu componho
Vive o meu sonho

Uma trova de São José dos Campos/SP
MIFORI

A memória trabalhando,
na velhice encontrou:
a alegria se espalhando
pela vida que guardou.

Hinos de Cidades Brasileiras
RECIFE/PE
Letra: Manoel Aarão e Música: Nelson Ferreira

Mauricéia, um clarão de vitória,
A visão de tua alma produz.
Toda vez que do cimo da história, Se desenha
o teu nome de luz

Tecida de claridade
Recife sonha ao luar
Lendária e heróica cidade,
Plantada à beira-mar
(2x)

Mauricéia, um fulgor vive agora,
Que da Pátria foi belo fanal.
Dezessete! Que data e que aurora,
Coroando a cidade imortal.

Tecida de claridade
Recife sonha ao luar
Lendária e heróica cidade,
Plantada à beira-mar
(2x)

E depois, com suprema ousadia,
Uma voz se exaltou senhoril,
Vinte e quatro! É daqui que irradia,
Nova luz para o céu do Brasil

Tecida de claridade
Recife sonha ao luar
Lendária e heróica cidade,
Plantada à beira-mar
(2x)

Um Poema de Lisboa/Portugal
FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
(1938 – 2007)

Metafísica

Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.

Em volta da ameixeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.

Na sombra os frêmitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo das flores que o envolve.

Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,
concebe o não conceber.

Um Poema de Ubá/MG
ANTONIO OLINTO
(Antonio Olyntho Marques da Rocha)
(1919 – 2009)

O Momento

Sim,
a importância de segurar teus cabelos,
de sentir o silencio de teus seios,
de ver teus olhos, intactos, trazendo a mensagem do começo da vida.

E é um decorrer de palavras simples,
de cenas comuns e amplas, na varanda que é como
um pedaço do fundo do mar.

Apalpo tua pele,
sinto todos os momentos de criação dentro de teu corpo
oh! os poemas que eu lanço, em germen, no solo de teu silêncio
e que voltam para mim - brotando - crescendo - lançando
frutos vermelhos na tarde quieta.

Um Soneto de Santos/SP
VICENTE DE CARVALHO
(Vicente Augusto de Carvalho)
(1866 – 1924)

Soneto da Defensiva

Enganei-me supondo que, de altiva,
Desdenhosa, tu vias sem receio
Desabrochar de um simples galanteio
A agreste flor desta paixão tão viva.

Era segredo teu? Adivinhei-o;
Hoje sei tudo: alerta, em defensiva,
O coração que eu tento e se me esquiva
Treme, treme de susto no teu seio.

Errou quem disse que as paixões são cegas;
Veem... Deixam-se ver... Debalde insistes;
Que mais defendes, se tu'alma entregas?

Bem vejo (vejo-o nos teus olhos tristes)
Que tu, negando o amor que em vão me negas,
Mais a ti mesma do que a mim resistes.

Sextilhas de Fortaleza/CE
GINA CARLA NUNES SILVA

Poema Nordestino

"Oxente" sou da terra do cangaço
Somos "cabra" bom de braço
Com "coragi" prá dar e vender
"Num" aceito "disafouro"
Mas, "tumbém" busco o tesouro
Que a vida têm a oferecer

"Nois" aqui dessa terra
"Festejamu" as "primavera"
Com festa de arrasta pé
Tem uns bestas que "manga"
Do "sutaqui" que encanta
E da forma da nossa fé

Mas, chamo mãe de "mainha"
Piaba aqui não é sardinha
Que nos açudes "vamu" pescar
Galinha de angola é capote
Novilha pequena é garrote
No sertão tudo tem seu lugar

"Muié" aqui "num" é perdida
Apenas ela foi "bulida"
Por um tal da "capitá"
Se engravidou ficou prenha
A gente chama Sinhá Penha
Prá "mó" da criança chegar

Somos povo festeiro, sem igual
É festa junina e carnaval
"Inventamu" até a micareta
E o país todinho gosta
E quando a morena "incosta"
É no forró que vou me acabar

Meu "viu" aqui é um "visse?"
Não confundam com o "vixe!"
São duas "afirmação" diferente
O "visse?" pergunta se entendeu
O "vixe!" admiração que sofreu
Essa é a língua de minha gente.

Meu lugar começa na Bahia
Vem em Sergipe, Alagoas, que alegria!
Quando chega no Pernambuco
Vou fazendo "vuco-vuco" "inté" o Ceará
Coração Paraibano, Piauiense e Potiguá
É somente no Maranhão que vai se acabar.

As moças aqui são formosas
Os "machus" de roupa cheirosa
E as praias têm sabor de sal
Somos felizes de água na boca
Das comidas que me deixam "louca"
Eu como "inté" passar mal.

Assim são os nordestinos
Dispostos, guerreiros e contínuos
Ninguém é melhor do  que nós
Vivemos em eterna labuta
Nunca fugimos à luta
E não vão calar minha voz.

Trovador Destaque


Ao ver assim, abraçada,
a criançada fraterna,
vejo que abraço é laçada
que nos prende à Paz eterna.

Ao ver o farol, querida,
ao teu amor o comparo
porque no mar desta vida
és minha luz, meu amparo.

A  sombra da bailarina,
contrastando com a anciã,
lembra o poente que declina
lembrando que foi manhã.

Bailarinas transparentes,
as gotas do meu olhar,
dançam tristes, reticentes,
o “pás-de-deux” dos sem par...

Bravura é viver sorrindo,
embora seja evidente
que a vida é dor insistindo
em ser mais forte que a gente.

Carícia em forma de prece
que no ocaso vou rezando,
o teu beijo é sol que aquece
um outro sol se apagando.

Conto os segundos, querida,
que passo longe de ti...
Detesto tanto a partida
que penso que não parti.

Coração, nunca te emendas!...
És de fato um sonhador.
Até nas duras contendas
tu vês motivos de amor!

Das bofetadas que a vida
me deu sem muita piedade,
tu foste a mais dolorida
e a que mais deixou saudade.

Em minha vida sem graça
de sonhador solitário,
a madrugada não passa
de um por-do-sol ao contrário.

Em nossas doces lembranças
vejo-me ainda o menino
que ao tocar em tuas tranças
uniu ao teu seu destino.

Em silêncio a criatura
mais perto de Deus se faz.
Por isso, cala e procura
encher teu mundo de paz.

Enquanto altiva deslizas
sobre meus tristes apelos,
eu, sozinho, invejo as brisas
que afagam os teus cabelos.

Enquanto o teu ventre sofre,
menino de muitas fomes,
teu patrão guarda no cofre
o lucro do que não comes.

- És meu príncipe! - dizia
vovó com seu jeito doce...
Tão doce que eu me sentia
como se príncipe fosse.

Este perdão que me negas
por 'um nada" que te fiz,
é mais um cravo que pregas
na cruz de um peito infeliz.

É tão lindo o seu sorriso!...
Seu beijo é tão perfumado,
que aqui vou, perdendo o siso,
cometer mais um pecado.

Eu não maldigo a pobreza,
mas tento me levantar.
Quando Deus preside a mesa,
qualquer pão é caviar.

Eu ouço o outono falando
na voz das folhas caídas…
E o vento sopra acordando
minhas saudades dormidas.

Eu sou pássaro cativo
preso ao amor de meu bem.
Se me libertam não vivo,
não sei amar mais ninguém!

Faço troça de alguns travos
quando a vida sabe a fel;
quebro entraves, tiro agravos
pondo trovas no papel.

Filmes assim, tão bonitos,
como a “Dama e o Vagabundo”
não têm mais vez, são proscritos
das telas de todo o mundo.

Foi Mãe Preta alforriada
pelo afeto do senhor.
De tanto afeto cercada
morreu escrava do amor.

Mato as tristezas cantando.
Curti-las não vale a pena.
Cantando vou me livrando
da mágoa que me envenena.

Mensagem vívida e terna
que um ardente amor traduz,
o teu olhar é lanterna
que ilumina a própria luz.

Meu coração, condenado
só por te amar do meu jeito,
bate triste, engaiolado
na ingratidão do teu peito.

Minha rua é uma alegria,
tem crianças, risos, gritos...
E se chama – que ironia!
Alameda dos Aflitos.

Na chuva eu também dancei,
mas ganhei puxões de orelhas…
Por isso eu sempre as terei
muito grandes e vermelhas.

Não me culpe se a partilha
da sorte lhe foi mesquinha.
Se a sua estrela não brilha,
não tente apagar a minha.

Não se mede o bom artista
pelo pouco que mostrou:
Quem me conhece “de vista”
não sabe ao certo quem sou.

Na terra do Zé Coronha
o amor parece novela:
- a Zefa namora a Tonha
e o Zé o marido dela.

No aceno discreto e mudo
que entre lágrimas fizeste,
teus olhos disseram tudo
do amor que nunca disseste.

No eterno circo da vida,
grande proeza é viver
na corda bamba estendida
entre o nascer e o morrer.

Numa pétala orvalhada,
uma gota luminosa
é um beijo que a madrugada
deixou na face da rosa.

Num constante desafio
ao prazer pecaminoso
eu, vendo as curvas do rio,
vejo o teu corpo em repouso.

Ó Lua que estás sozinha
namorando o imenso mar,
tua sorte é igual à minha:
amas quem não vai te amar!

O luar branco alumia,
pela fresta da janela,
a face escura e vazia
de minha noite sem ela.

O meu coração protesta
contra um adeus sem juízo
que tirou de minha festa
a festa do teu sorriso.

Ontem levei-te em meus braços
aos ardores da paixão!…
E hoje levo meus cansaços
à paz do teu coração.

O sol pela rocha aberta
parece aviso divino,
indicando a rota certa
ao barqueiro sem destino.

O sonho acabou... E embora
eu aceite a realidade,
vivo os encantos de outrora
no agora desta saudade.

Os teus olhos peregrinos,
com seus encantos fatais,
são dois poemas divinos,
são demônios celestiais...

O teu adeus foi inverno
que fez o sol ir-se embora...
Meu poente fez-se eterno
e eu nunca mais tive aurora.

Pequenina, inteligente,
(Luiz Otávio comprova)
a Trova diz tudo à gente
de forma sucinta e nova.

Por dar crença ao teu sorriso,
que tantas paixões atiça,
construí um paraíso
sobre areia movediça.

Quando a saudade se esconde
pelos confins da cidade,
eu tomo em sonhos um bonde
e vou matar a saudade.

Quando estás distante eu penso
e chego a crer que é verdade,
que a solidão fez o lenço
para enxugar a saudade.

Que festa! O neto correndo,
fingindo ser um robô,
erguendo os braços, dizendo:
- “Eu vou te pegar, vovô!”...

Quem lê vive mais completo,
anda sempre iluminado...
Há mais luzes no alfabeto
que no Céu todo estrelado.

Querida, eu tenho ciúme
– não há desdouro em dizê-lo…
Ciúme até do perfume
que perfuma o teu cabelo.

Quixote demais propenso
a crer num Bem mais profundo,
eu faço da Trova um lenço
que enxuga os prantos do mundo.

Rica e doce Língua minha
feita de arrulhos e brados,
és mãe, fadista e rainha
cuja voz canta meus fados!

Saudade sem esperança
é berço sem serventia...
É brinquedo sem criança
na casa triste e vazia.

Saudoso, eu olho a enxurrada
sem os barquinhos brincantes
e vejo que a meninada
já não brinca como antes.

Se alguma dor te entristece,
Levanta-te, abre as janelas!...
E no fervor de uma prece
deixa Deus entrar por elas.

Se o destino desaprova
minha ilusão desmedida,
eu ponho ilusão na trova
e sigo iludindo a vida.

Se tenho um amigo ao lado,
sinto menos solidão…
E me acho mais confortado
se este amigo for meu cão.

Te dizes tão deserdada
que eu, que do nada venho,
desejo unir o teu nada
ao tudo que já não tenho.

Tenho na vida uma meta:
não lembrar mais do que é triste.
Quem lembra o triste, vegeta,
não vive, apenas existe.

Tira-me o sono um passado
não distante do presente:
– Eu tomei o “bonde errado”
do teu sorriso inocente.

Uma pétala orvalhada,
uma gota luminosa
é um beijo que a madrugada
deixou na face da rosa.

Velha gangorra querida,
eu não mudei, sou menino...
No sobe e desce da vida
quem me balança é o destino.

Velhice é mal que persiste
se a vida é trilha enfadonha...
É sombra invadindo triste
o espaço de quem não sonha.


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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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